As Cronicas de Gelo e Fogo – Livro 2 – A Fúria dos Reis

Este é o resumo do segundo Livro da Série As Crônicas de Gelo e Fogo, A Fúria dos Reis, que gerou a segunda temporada do seriado Game of Thrones da HBO

A “Fúria dos Reis” continua onde “A Guerra dos Tronos” terminou. Os Sete Reinos de Westeros são atormentados pela guerra civil, enquanto a Patrulha da Noite monta uma força de reconhecimento para além da Muralha para investigar as pessoas misteriosas, conhecidas como selvagens, que vivem lá. Enquanto isso, no distante leste, Daenerys Targaryen continua sua busca para retornar e conquistar os Sete Reinos. Todos os sinais são prenúncio do terrível desastre que está por vir.

Os Sete reinos

A guerra civil para reivindicar o Trono de Ferro se torna mais complexa. Três reis haviam declarado suas reivindicações em “A Guerra dos Tronos”: Joffrey Baratheon, Renly Baratheon e Stannis Baratheon. Robb Stark é declarado Rei do Norte, enquanto Balon Greyjoy se declara rei das Ilhas de Ferro, o lançamento de um ataque maciço ao longo da costa oeste do Norte, tornando-se o quinto dos reis da guerra. No reduto Stark de Winterfell, o irmão mais novo de Robb, Bran Stark está no comando. Ele encontra dois novos amigos quando Jojen e Meera Reed chegam de Greywater demonstrando ter interesse em seus sonhos estranhos.

Stannis Baratheon se declara Rei de Westeros, encorajado por Melisandre de Asshai, uma sacerdotisa vermelha de R’hllor, um deus popular no Oriente, mas relativamente desconhecido em Westeros, Stannis que acredita ser a reencarnação de Azor Ahai, uma figura messiânica de sua fé. A guerra é chamada de Guerra dos Cinco Reis. Irmão mais novo de Stannis, Renly, também reivindicou o trono. Como o irmão mais velho, Stannis tem o melhor argumento, mas Renly não vai recuar, já que ele tem o exército maior e acredita que ele seria um rei melhor do que seu irmão. Catelyn Stark junta-se uma reunião entre Renly e Stannis para discutir uma possível aliança Stark-Baratheon contra seu inimigo comum, os Lannister. A reunião falha, e uma sombra misteriosa mata Renly em sua tenda enquanto Catelyn e Brienne de Tarth estão presentes. As duas mulheres estão implicadas no assassinato de Renly, e elas fogem. Como resultado do crime, a maioria dos apoiantes de Renly mudam sua lealdade a Stannis, embora os Tyrell não. Fortaleza de Renly em Ponta Tempestade também cai quando Melisandre usa sua magia para dar à luz outra sombra para matar o castelão.

Tyrion Lannister chega a Porto Real para servir como Mão do Rei, o conselheiro mais próximo do monarca, seu jovem sobrinho, Joffrey. Apesar de intrigante contra sua irmã Cersei, viúva do falecido Rei Robert Baratheon e mãe de Joffrey, Tyrion trabalha para melhorar as defesas da cidade contra um possível ataque e entra em negociações com os senhores das outras casas nobres para fortalecer seu sobrinho e mante-lo no trono . Ele envia Mindinho para negociar com os Tyrell, ganhando o apoio da casa quando Lorde Mace Tyrell concorda em casar sua filha Margaery com Joffrey, apesar de anteriormente não consumado o casamento de Margaery com Renly e apesar da promessa anterior de Joffrey se casar com Sansa Stark. Tyrion também forja uma aliança com a Casa Martell quando ele arranja para a irmã Joffrey, a princesa Myrcella, um casamento com Trystane Martell.

Em uma tentativa de usar Winterfell como base para conquistar o Norte e para impressionar seu pai Balon, Theon Greyjoy, um ex-refém dos Starks e amigo próximo de Robb, captura Winterfell, com apenas trinta homens, tendo o jovem Bran e Rickon Stark cativos. Bran e Rickon desaparecem no meio da noite e Theon não é capaz de rastreá-los. Theon assassina dois meninos camponeses e mutila seus rostos para passá-los como Bran e Rickon. Acreditando que seus príncipes foram assassinados, os defensores Stark sitiam o castelo acompanhado por uma força da Casa Bolton. No entanto, Theon já havia conspirado com o bastardo de Bolton, Ramsay Snow, e os soldados Bolton capturam os sitiantes como planejado. Theon abre as portas para os Bolton vitoriosos, mas esses o traem também e arrasam Winterfell. O paradeiro de Theon são presentemente desconhecidos. Bran e Rickon emergem da clandestinidade após o saque do castelo. Para proteger os herdeiros de Winterfell, uma a morte de Maester Luwin convence os rapazes a fazer caminhos distintos: Osha, uma das selvagens capturadas que virou serva no castelo, concorda em levar Rickon em segurança, enquanto Bran, acompanhado por Meera, Jojen, e Hodor, viajam para o norte e para a muralha.

Robb Stark lidera seu exército nas Westerlands e ganha várias vitórias contra os Lannisters em seu próprio território. Tywin Lannister avança contra ele, mas recebendo notícias de que Porto Real está ameaçada, rapidamente se retirar para o sul.

Arya Stark, posando como um garoto chamado Arry para proteger sua identidade como filha de Eddard Stark que foi previamente executado sob a acusação de traição, viaja para o norte, juntamente com os novos recrutas para a Patrulha da Noite. O grupo é capturado e levado para Harrenhal, onde Arya se apresenta como um camponês servindo. Um homem misterioso, Jaqen H’ghar, se oferece para pagar Arya por salvar a vida dele e de seus dois companheiros, matando três homens de sua escolha. Arya seleciona dois vassalos Lannister menores, mas ja havia feito suas escolhas antes de perceber que ela tinha perdido sua grande oportunidade. Em vez de escolher um terceiro homem, Arya ardilosamente pede a ajuda de Jaqen para liberar um grupo de apoiantes Stark que tomam rapidamente Harrenhal. Sua dívida reembolsada, Jaqen dá Arya uma moeda e uma frase estranha, “Valar Morghulis”, para ser usada se ela encontra um homem de Bravos e precisar de ajuda. Lorde Roose Bolton logo chega para ocupar Harrenhal. Arya se torna sua copeira, mas logo escapa.

O exército de Stannis Baratheon chega a Porto Real e lança ataques por terra e mar. Sob o comando de Tyrion, as forças de Joffrey atiram de volta as forças de Stannis através do uso astuto de “fogo verde” para incendiar o rio, enquanto eleva uma corrente através do rio para impedir que a frota de Stannis possa recuar, essencialmente, aprisionando-os na ardente baía. O ataque de Stannis finalmente falha quando Tywin Lannister lidera seu exército e as forças remanescentes do Jardim de Cima sob comando de Loras Tyrell para o auxílio de Porto Real. O destino de Stannis fica incerto, com alguns dizendo que ele se retirou, enquanto outros afirmam que ele foi morto. Tyrion é gravemente ferido durante a batalha, como resultado de um ataque traiçoeiro por um dos guardas de Joffrey trabalhando como agente de Cersei, no entanto, ele é salvo por seu escudeiro, Podrick Payne.

Na muralha

O grupo de reconhecimento avança ao norte, além da muralha. Na Fortaleza de Craster eles aprendem que os selvagens estão se unindo em um único exército, sob o comando do “Rei-para-lá-da-Muralha” Mance Rayder. A patrulha continua para o norte até uma fortaleza em ruínas anteriormente conhecido como o Punho dos Primeiros Homens. Senhor Comandante Mormont Jeor envia Jon Snow e Qhorin Meia-Mão em um reconhecimento avançado da passagem dos Guinchos.

No passe, Snow e Meia-mão encontram-se sendo perseguido por guerreiros dos selvagens. Enfrentando uma derrota certa, meia-mão ordena Snow a agir como um perjuro para infiltrar nos selvagens e aprender seus planos. Jon e Qhorin são presos por selvagens, e para criar uma prova que ele realmente não é mais um patrulheiro, eles forçam Jon a lutar contra Quorin. Jon o mata com a ajuda de seu lobo gigante. Jon descobre que Rayder já está avançando na parede com dezenas de milhares de combatentes.

No Oriente

Daenerys Targaryen atinge o leste através do deserto vermelho, acompanhado pelo cavaleiro Jorah Mormont, seus poucos seguidores leais, e três dragões recém-nascidos. Os batedores encontram uma rota segura para a grande cidade comercial de Qarth. Daenerys é a maravilha da cidade com os seus dragões. Um comerciante em particular, parece especialmente interessado nela, Xaro Xhoan Daxos, que é o líder dos Treze, um proeminente grupo de comerciantes em Qarth. Inicialmente, ele age como um grande exército, mas no final Daenerys não pode garantir o compromisso dos comerciantes de ajudar a reivindicar o trono de Westeros, porque ela se recusa a doar um de seus dragões. Como último recurso, Daenerys procura o conselho do bruxos de Qarth, mas na Casa dos Imortais, os bruxos mostram a Daenerys muitas imagens confusas e sua vida está ameaçada. O dragão Drogon de Daenerys incendeia a Casa dos Imortais, o que provocou a inimizade dos qartenos. Uma tentativa de assassinar Daenerys no porto da cidade é frustrada pela chegada de dois estranhos, um guerreiro gordo chamado Belwas e seu escudeiro, um guerreiro de idade chamado Arstan Barba Branca. Eles são agentes de Daenerys aliados Illyrio Mopatis, e chegou para acompanhá-la de volta para Pentos.

A Escrava Isaura

Escrito em plena campanha abolicionista (1875), o livro conta as desventuras de Isaura, escrava branca e educada, de caráter nobre, vítima de um senhor devasso e cruel.

O romance A Escrava Isaura foi um grande sucesso editorial e permitiu que Bernardo Guimarães se tornasse um dos mais populares romancistas de sua época no Brasil. O autor pretende, nesta obra, fazer um libelo anti-escravagista e libertário e, talvez, por isso, o romance exceda em idealização romântica, a fim de conquistar a imaginação popular perante as situações intoleráveis do cativeiro.

O estudioso Manuel Cavalcanti Proença observa que: “Numa literatura não muito abundante em manifestação abolicionistas, é obra de muita importância, pelo modo sentimental como focalizou o problema, atingindo principalmente o público feminino, que encontrava na literatura de ficção derivativo e caminho de fuga, numa sociedade em que a mulher só saía à rua acompanhada e em dias pré-estabelecidos; o mais do tempo ficava retida em casa, sem trabalho obrigatório, bordando, cosendo e ouvindo e falando mexericos, isto é, enredos e intrigas, como se dizia no tempo e ainda se diz neste romance.”

O NASCIMENTO DO ROMANCE
A publicação de romances em folhetins – os capítulos aparecendo a cada dia nos jornais – já era comum no Brasil desde a década de 1830. A maior parte destes folhetins era composta por traduções de romances de origem inglesa, como as histórias medievais de Walter Scott, ou francesa, como as aventuras dos Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas.

Emocionados, os brasileiros acompanhavam as distantes aventuras de um Ivanhoé ou de um D’Artagnan, transportando-se, em espírito, para os campos e reinos da Europa.

Embora fizessem sucesso junto ao público, os primeiros romances brasileiros, publicados em folhetim, não deixavam de ser considerados, pelos literatos “sérios”, como “uma leitura agradável, diríamos quase um alimento de fácil digestão, proporcionado a estômagos fracos.”

O romance, esse gênero literário novo e “fácil”, que foi introduzido na literatura brasileira por autores como Joaquim Manuel de Macedo e Teixeira e Sousa, ganharia status de literatura “séria” com a obra de José de Alencar.

Os primeiros romances brasileiros

Na década de 1840 começam a aparecer alguns folhetins de autores nacionais, ambientados no Brasil. Teixeira e Sousa (1812-1861), considerado por muitos o nosso primeiro romancista, estréia em 1843 com O Filho do Pescador.

No ano seguinte, o jovem estudante de medicina, Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), surge com A Moreninha, o primeiro romance nacional “apreciável pela coerência e pela execução”. Em meio à corrente açucarada dos nossos primeiros folhetinistas surge, já em 1852/53, a obra excêntrica de um jornalista carioca de vinte e um anos chamado Manuel Antônio de Almeida (1831-1861).

As suas Memórias de um Sargento de Milícias retratam de forma irônica a vida do Rio de Janeiro “no tempo do rei” Dom João VI e apresentam um contraponto cômico à seriedade por vezes excessiva e à inverossimilhança dos romances do Dr. Macedinho.

A descrição do cenário nacional

O público interessava-se, portanto, cada vez mais por um romance de aventuras românticas que apresentasse o cenário brasileiro. O grande sucesso de público de O Guarani (1857), de José de Alencar, em que as aventuras de Peri e sua amada Cecília se desenrolam em meio à exuberante natureza fluminense, estimula os escritores a se voltarem para a apresentação da ambientação tipicamente nacional em suas obras.

Na década de 70 essa tendência nacionalista haveria de se consolidar, com o surgimento das obras de Franklin Távora (1842-1888), autor de O Cabeleira (1876) e o Visconde de Taunay (1843-1899), autor de Inocência (1872). É nesse cenário literário que aparece, em 1875, um dos maiores sucessos de público do período: A Escrava Isaura, que explora uma das questões mais polêmicas da sociedade brasileira da época, a escravidão.

O ENREDO
A história se passa nos “primeiros anos do reinado de D. Pedro II”, inicialmente em uma fazenda em Campos dos Goitacazes (RJ). Isaura, escrava branca e bem-educada, é assediada pelo seu senhor, Leôncio, recém-casado com Malvina. Isaura se recusa a ceder aos apelos de Leôncio, como já fizera, no passado, sua mãe, que, por ter repelido o pai de Leôncio, fora submetida a um tratamento tão cruel que, em pouco tempo, morrera.

Para forçá-la a ceder, Leôncio manda Isaura para a senzala, trabalhar com as outras escravas. Sempre resignada, suporta passivamente o seu destino, porém, não cede a Leôncio, afirmando que ele, como proprietário, era senhor de seu corpo, mas não de seu coração: ” – Não, por certo, meu senhor; o coração é livre; ninguém pode escravizá-lo, nem o próprio dono.” Leôncio, enfurecido, ameaça colocá-la no tronco.

No entanto, seu pai, ex-feitor da fazendo, consegue tirá-la de lá e foge com ela para Recife (PE). Em Recife, Isaura usa o nome de Elvira e vive reclusa numa pequena casa com seu pai. Então, conhece Álvaro, por quem se apaixona e é correspondida.

Vai a um baile com ele, onde é desmascarada e reconhecida. Álvaro, ainda que surpreso, não se importa com o fato de ela ser uma escrava e resolve impedir que Leôncio a leve de volta, inclusive tentando comprá-la. Mas não consegue convencer o vilão, e este leva Isaura de volta ao cativeiro na fazenda.

Leôncio está praticamente falido e, com o objetivo de conseguir um empréstimo do pai de Malvina, consegue se reconciliar com a mulher, afirmando que Isaura é quem o assediava. Então, para punir Isaura, Leôncio manda que ela se case com Belchior, jardineiro da fazenda.

Entretanto, Álvaro descobre a falência de Leôncio e compra a dívida dos seus credores, tornando-se proprietário de todos os seus bens, inclusive de seus escravos. No dia do casamento de Isaura, antes que se celebrasse a cerimônia, Álvaro aparece e reclama seus direitos a Leôncio. Vendo-se derrotado e na miséria, Leôncio suicida-se. Tudo termina, portanto, com a punição dos culpados e o triunfo dos justos.

Como bem o sintetizou Carlos Alberto Vecchi:
“A estrutura narrativa de A Escrava Isaura segue o modelo folhetinesco das histórias românticas: para atingir seu ideal e obter o reconhecimento de todos, o herói tem que realizar uma jornada perigosa, onde a própria vida é colocada em risco.

O Amor, epicentro onde se debatem o Bem e o Mal, torna-se a força motriz que conduz ao restabelecimento do equilíbrio e da felicidade a todos que, em momento algum, se deixaram intimidar pelos desmandos de Leôncio. O Mal extirpado (o suicídio de Leôncio) cede lugar ao Bem. E aqueles que nortearam suas ações pelas virtudes maiores é que estão aptos a receber o prêmio daí decorrente.”

OS PERSONAGENS
A obra apresenta a tríade comum aos romances populares românticos: vilão, heroína e herói. E, graças à ausência de profundidade com que são construídos, os personagens do romance são planos, estáticos e superficiais.

Isaura, a heroína escrava, é branca, pura, virginal, possui um caráter nobre e demonstra “conhecer o seu lugar”: do princípio ao fim, suporta conformada a perseguição de Leôncio, as propostas de Henrique, as desconfianças de Malvina, sem jamais se revoltar.

Permanece emocionalmente escrava, mesmo tendo sido educada como uma dama da sociedade. Tem escrúpulos de passar por branca livre, acha-se indigna do amor de Álvaro e termina como a própria imagem da “virtude recompensada”.

Vejamos como Guimarães descreve sua heroína:

“A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. (.) Na fronte calma e lisa como o mármore polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo; di-la-íeis misteriosa lâmpada de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste da inspiração.”

Leôncio é o vilão leviano, devasso e insensível que, de “criança incorrigível e insubordinada” e adolescente que sangra a carteira do pai com suas aventuras, acaba por tornar-se um homem cruel e inescrupuloso, casando-se com Malvina, linda, ingênua e rica, por ser “um meio mais suave e natural de adquirir fortuna”. Persegue Isaura e se recusa a cumprir a vontade de sua mãe, já falecida, que queria dar a ela a liberdade e alguma renda para viver com dignidade.

Álvaro é um rico herdeiro, cavalheiro nobre e de caráter impecável, que “tinha ódio a todos os privilégios e distinções sociais, e é escusado dizer que era liberal, republicano e quase socialista”; um jovem de idéias igualitárias, idealista e corajoso para lutar contra os valores da sociedade a que pertence. Sua conduta moral é assim descrita pelo autor:

“Original e excêntrico como um rico lorde inglês, professava em seus costumes a pureza e severidade de um quacker. Todavia, como homem de imaginação viva e coração impressionaável, não deixava de amar os prazeres, o luxo, a elegância, e sobretudo as mulheres, mas com certo platonismo delicado, certa pureza ideal, próprios das almas elevadas e dos corações bem formados.”

Apaixonado por Isaura, o grande obstáculo que Álvaro precisa vencer é o fato de ser Isaura propriedade legítima de Leôncio. Para isso, vai à corte, descobre a falência de Leôncio, adquire seus bens e desmascara o vilão. Liberta Isaura e casa-se com ela, desafiando, assim, os preconceitos da sociedade escravocrata.

Nos demais personagens o processo de construção é o mesmo. Miguel, pai de Isaura, foge do conceito tradicional do mau feitor. Quando feitor da fazenda de Leôncio, tratara bem aos escravos e amparara Juliana, mãe de Isaura, nas suas desditas com o pai de Leôncio. Pai extremoso, deseja libertar a filha do jugo da escravidão e não mede esforços para isso.

Martinho é o protótipo do ganancioso: cabeça grande, cara larga, feições grosseiras e “no fundo de seus olhos pardos e pequeninos,. reluz constantemente um raio de velhacaria”. Por querer ganhar muito dinheiro entregando Isaura ao seu senhor, acaba por não ganhar nada.

Já Belchior é o símbolo da estupidez submissa e também sua descrição física se presta a demonstrar sua conduta: feio, cabeludo, atarracado e corcunda. O crítico Manuel Cavalcanti Proença aponta “o parentesco entre o disforme e grotesco (de gruta) Belchior, e o Quasímodo de O Corcunda de Notre Dame, de Víctor Hugo, romance de extraordinária voga, ainda não de todo perdida, no Brasil.”

O Dr. Geraldo é um advogado conceituado, que serve como fiel da balança para Álvaro, já que procura equilibrar os arroubos do amigo, mostrando-lhe a realidade dos fatos.

Quando Álvaro, revoltado com a condição de Isaura e indignado com os horrores da escravidão, dispõe-se a unir-se a ela, mesmo sabendo que escandalizaria a sociedade, Geraldo retruca lucidamente que a fortuna de Álvaro lhe dá independência para “satisfazer os teus sonhos filantrópicos e os caprichos de tua imaginação romanesca”. O que não é, na verdade, característica restrita apenas à sociedade escravocrata do século XIX.

O Tronco

No início do século passado, as disputas de poder levam ao rompimento entre os grandes proprietários de terra – os coronéis do sul de Goiás, que comandam o governo, e os do norte do estado. Um homem idealista, o coletor de impostos Vicente Lemes, luta para impedir a guerra, sonhando com uma sociedade de justiça e respeito às leis, como funcionário de um governo de coronéis, vai para o norte do estado de Goiás controlar os coronéis inimigos do governo, os Melo, justamente seus parentes. Por achá-los violentos, tenta impor seus ideais e acaba acirrando o conflito. Vendo-se derrotado, apela para a força do governo, que vem para agir de acordo com os seus interesses e não os de Vicente. Ele se vê, então, em meio a uma luta sangrenta, absolutamente selvagem. O personagem Vicente perde sua fugaz capacidade dirigente, de personagem principal. Será um mero coadjuvante em meio à barbárie.

O Uraguai

O Uraguai, poema épico de 1769, critica drasticamente os jesuítas, antigos mestres do autor Basílio da Gama. Ele alega que os jesuítas apenas defendiam os direitos dos índios para ser eles mesmos seus senhores. O enredo situa-se todo em torno dos eventos expedicionários e de um caso de amor e morte no reduto missioneiro.

Tema central: Pelo Tratado de Madri, celebrado entre os reis de Portugal e de Espanha, as terras ocupadas pelos jesuítas, no Uruguai, deveriam passar da Espanha a Portugal. Os portugueses ficariam com Sete Povos das Missões e os espanhóis, com a Colônia do Sacramento. Sete Povos das Missões era habitada por índios e dirigida por jesuítas, que organizaram a resistência à pretensão dos portugueses. O poema narra o que foi a luta pela posse da terra, travada em princípios de 1757, exaltando os feitos do General Gomes Freire de Andrade. Basílio da Gama dedica o poema ao irmão do Marquês de Pombal e combate os jesuítas abertamente.

Personagens

General Gomes Freire de Andrade (chefe das tropas portuguesas); Catâneo (chefe das tropas espanholas); Cacambo (chefe indígena); Cepé (guerreiro índio); Balda (jesuíta administrador de Sete Povos das Missões); Caitutu (guerreiro indígena; irmão de Lindóia); Lindóia (esposa de Cacambo); Tanajura (indígena feiticeira).

Resumo da narrativa

A pobreza temática impele Basílio da Gama a substituir o modelo camoniano de dez cantos por um poema épico de apenas cinco cantos, constituídos por versos brancos, ou seja, versos sem rimas.

Canto I: Saudação ao General Gomes Freire de Andrade. Chegada de Catâneo. Desfile das tropas. Andrade explica as razões da guerra. A primeira entrada dos portugueses enquanto esperam reforço espanhol. O poeta apresenta já o campo de batalha coberto de destroços e de cadáveres, principalmente de indígenas, e, voltando no tempo, apresenta um desfile do exército luso-espanhol, comandado por Gomes Freire de Andrade.

Canto II: Partida do exército luso-castelhano. Soltura dos índios prisioneiros. É relatado o encontro entre os caciques Cepê e Cacambo e o comandante português, Gomes Freire de Andrade, à margem do rio Uruguai. O acordo  é impossível porque os jesuítas portugueses se negavam a aceitar a nacionalidade espanhola. Ocorre então o combate entre os índios e as tropas luso-espanholas. Os índios lutam valentemente, mas são vencidos pelas armas de fogo dos europeus. Cepé morre em combate. Cacambo comanda a retirada.

Canto III: O General acampa às margens de um rio. Do outro lado, Cacambo descansa e sonha com o espírito de Cepê. Este incita-o a incendiar o acampamento inimigo. Cacambo atravessa o rio e provoca o incêndio. Depois, regressa para a sede. Surge Lindóia. A mando de Balda, prendem Cacambo e matam-no envenenado. Balda é o vilão da história, que deseja tornar seu filho Baldeta, cacique, em lugar de Cacambo. Observa-se aqui uma forte crítica aos jesuítas. Tanajura propicia visões a Lindóia: a índia “vê” o terremoto de Lisboa, a reconstituição da cidade pelo Marquês de Pombal e a expulsão dos jesuítas.

Canto IV: Maquinações de Balda. Pretende entregar Lindóia e o comando dos indígenas a Baldeta, seu filho. O episódio mais importante: a morte de Lindóia. Ela, para não se entregar a outro homem, deixa-se picar por uma serpente. Os padres e os índios fogem da sede, não sem antes atear fogo em tudo. O exército entra no templo. O poema apresenta então um trecho lírico de rara beleza: 

“Inda conserva o pálido semblante

Um não sei que de magoado e triste

Que os corações mais duros enternece,

Tanto era bela  no seu rosto a morte!”

Com a chegada das tropas de Gomes Freire, os índios se retiram após queimarem a aldeia.

Canto V: Descrição do Templo. Perseguição aos índios. Prisão de Balda. O poeta dá por encerrada a tarefa e despede-se. Expressa suas opiniões a respeito dos jesuítas, colocando-os como responsáveis pelo massacre dos índios pelas tropas luso-espanholas. Eram opiniões que agradavam ao Marquês de Pombal, o todo-poderoso ministro de D. José I. Nesse mesmo canto ainda aparece a homenagem ao general Gomes Freire de Andrade que respeita e protege os índios sobreviventes.

Apreciação crítica

O poema é escrito em decassílabos brancos, sem divisão em estrofes, mas é possível perceber a sua divisão em partes: proposição, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo. Abandona a linguagem mitológica, mas ainda adota o maravilhoso, apoiado na mitologia indígena. Foge, assim, ao esquema tradicional, sugerido pelo modelo imposto em língua portuguesa, Os Lusíadas. Por todo o texto, perpassa o propósito de crítica aos jesuítas, que domina a elaboração do poema.

A oposição entre rusticidade e civilização, que anima o Arcadismo, não poderia deixar de favorecer, no Brasil, o advento do índio como tema literário. Assim, apesar da intenção ostensiva de fazer um panfleto anti-jesuítico para obter as graças de Pombal, a análise revela, todavia, que também outros intuitos animavam o poeta, notadamente descrever o conflito entre a ordenação racional da Europa e o primitivismo do índio.

Variedade, fluidez, colorido, movimento, sínteses admiráveis caracterizam os decassílabos do poema, não obstante equilibrados e serenos. Ele será o modelo do decassílabo solto dos românticos.

Além dessas, outras características notáveis do poema são:

Sensibilidade plástica: apreende o mundo sensível com verdadeiro prazer dos sentidos. Recria o cenário natural sem que a notação do detalhe prejudique a ordem serena da descrição.

Senso da situação: o poema deixa de ser a celebração de um herói para tomar-se o estudo de uma situação: o drama do choque de culturas.

Simpatia pelo índio, que, abordado inicialmente por exigência do assunto, acaba superando no seu espírito o guerreiro português, que era preciso exaltar, e o jesuíta, que era preciso desmoralizar. Como filho da “simples natureza”, ele aparece não só por ser o elemento esteticamente mais sugestivo, mas por ser uma concessão ao maravilhoso da poesia épica.

Devido ao tema do índio, durante todo o Romantismo, o nome de Basílio da Gama foi talvez o mais freqüente, quando se tratava de apontar precursores da literatura nacional. Convém, entretanto, distinguir neste poeta o nativismo do interesse exterior pelo exótico, havendo mesmo predomínio deste, pois o indianismo não foi para ele uma vivência, foi antes um tema arcádico transposto em linguagem pitoresca.

O preto africano lhe feriu a sensibilidade também, tendo sido o primeiro a celebrá-lo no poemeto Quitúbia, mostrando que a virtude é de todos os lugares.

Basílio foi poeta revolucionário com seu poema épico. Enquanto Cláudio trazia ao Brasil a disciplina clássica, Basilio, sem transgredi-la muito, mas movendo-se nela com maior liberdade estética e intelectual, levava à Europa o testemunho do Novo Mundo.

Texto — A morte de Lindóia  (Canto IV)

Este lugar delicioso, e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva, e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode
O arco, e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia, e fere
A serpente na testa, e a boca, e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açouta o campo co’a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento, e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!

Observe a ausência de estrofes regulares, os versos brancos (sem rima), o vigor descritivo.

Ópera dos Mortos

Ópera dos Mortos é uma obra prima de rara e triste beleza escrita por Autran Dourado. A história, a vida e a amplidão da condição humana no interior de Minas.

No sobrado da família Honório Cota restou a filha Rosalina, o imponente relógio-armário parado na hora da morte de sua mãe, as flores de pano e a escrava Quiquina que se encarrega de vendê-las pelas ruas da cidade por onde Rosalina raramente aparece, sempre trancada entre as paredes sufocantes, as lembranças da família, dos mortos e do passado até aparecer Juca Passarinho.

A monotonia, a solidão, a bebedeira a empurram para os braços de Juca, que a via o dia inteiro como uma senhora encastelada em sua soberba, mas a noite a embriaguez transforma em flor de encantos e sedução. Apesar da marcação cerrada da escrava muda Quiquina a vigiá-la com os olhos, pois a boca não podia falar, a desgraça recai sobre a sua menina.

Por ordem de Quiquina só resta a Juca Passarinho carregar o pequeno e macabro embrulho na calada da noite para enterrar nas voçorocas, verdadeiras goelas plantadas na terra que avistara pela primeira vez ao chegar na cidade. Mas a coragem lhe falta e Juca Passarinho cava a terra vermelha do cemitério com as próprias mãos, ali deixa o fruto do amor proibido antes de fugir daquela cidade, tão sozinho como surgiu.

Rosalina passa a visitar o cemitério nas caladas da noite com seu vestido branco, sua flor de pano no cabelo e sua cantilena triste assombra quem a ouve.

No final do romance, desfeitos os mistérios que envolvem a ensandecida e infeliz cantilena, Rosalina é conduzida para longe da cidade para nunca mais voltar.

Viva Vaia

Duas palavras: “viva” e “vaia”, escritas em disposições geométricas com duas cores alternadas. Quando foi publicado em 1972, este poema foi foco de grande polêmica. De um lado, os que o tomavam por genial. De outro, os que o consideravam um presunçoso manifesto da imbecilidade artística. A despeito da contenda, a composição tornou-se importante a ponto de Augusto de Campos empregá-la para nomear a primeira coletânea de seus trabalhos, produzidos entre 1949 e 1979.

A obra se tornou a principal na carreira do autor por sua capacidade de sintetizar alguns princípios fundamentais da poesia concreta e de atingir o impacto almejado pelo movimento concretista. No livro estão algumas das criações mais relevantes do autor. Uma delas, construída sobre a antítese entre “luxo” e “lixo”, é provavelmente a mais conhecida de todas. Também fazem parte Pluvial/Fluvial, Tudo Está Dito e os popcretos, poemas feitos com recortes de textos impressos em jornais e revistas.

Ao lado de Décio Pignatari e o irmão, Haroldo, o paulistano Augusto de Campos, nascido em 1931, foi gestor da nova vertente poética que se pretendia revolucionária. Em Viva Vaia confluem Joyce, Mallarmé, Pound, Futurismo, Dadaísmo e Surrealismo, entre outras referências. Os versos deveriam ser desmantelados em suas unidades morfológicas, semânticas, sintáticas e léxicas. Para tanto, o poeta contou com o auxílio do diagramador Júlio Plaza a fim de levar a cabo os recursos visuais que julgava adequados à sociedade tecnológica e consumista que despontava no Brasil pós-45

Romance d’A Pedra do Reino

Trata-se de uma obra extensa, complexa, híbrida, que não cabe em classificações limitadoras. Para Suassuna, esta obra é um romance picaresco. Ao longo da narrativa há epopéia, poesia, romance de cavalaria, memorial e mais outras formas que implicam “lembrança, tradição e vivência na integração do popular ao erudito, com toque pessoal de originalidade e improvisação”, segundo definiu a escritora cearense Raquel de Queiroz. Para o poeta e escritor Maximiano Campos (1940-1988), discípulo de Suassuna, trata-se de “nossa epopéia áspera, sertaneja e mestiça, criada por um escritor nordestino. Uma projeção profética e simbólica do futuro no tempo do agora, a expectativa messiânica da redenção aos pobres”.

Uma das inspirações primeiras do escritor aqui foram as jornadas de 1838 em São José do Belmonte, em Pernambuco, que resultaram na morte de dezenas de pessoas, vítimas de um movimento messiânico que as induziu a lavar com sangue duas formações rochosas locais, a Pedra do Reino. A história é contada pelo Cronista-Fidalgo-Rapsodo-Acadêmico e Poeta Escrivão Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, ilustre descendente de Dom João Ferreira-Quaderna ou Dom João, o Execrável. Semelhante a uma narrativa policial – pelo tema do crime e o tom de mistério -, o romance-epopéia é formado por cinco livros, dividido em folhetos, que mostram como o protagonista foi parar na prisão. É um herói que, após perder a integridade, afasta-se dos outros para então viver uma série de aventuras e, assim, lutar para reaver sua identidade. Segundo a professora Guaraciaba Micheletti, o enredo mistura a realidade ao mágico e leva ao Nordeste um espírito medieval, explícito no domínio da piedade, nas santas que aparecem para interceder, nas entidades que vêem assassinatos em tocaias e se tornam outros personagens.

Ariano Suassuna nasceu em 1927, em Nossa Senhora das Neves, então capital da Paraíba. Defensor da cultura nacional, fundou em 1970, no Recife, o Movimento Armorial, cuja proposta era realizar uma arte brasileira erudita com base em raízes populares da cultura do país. Muito desse princípio está presente em Pedra do Reino, em que há uma notável intertextualidade com outros autores da literatura local e elementos característicos regionais, perceptível inclusive no nível do léxico e da sintaxe.

O escritor tinha se lançado a proposta de criar uma trilogia, que até hoje não vingou – a segunda parte, História d’O Rei Degolado, foi publicada em 1977. Por outro lado, Suassuna conseguiu que se criasse uma festa popular inspirada no livro e pelo Movimento Armorial. Todo ano, no último fim de semana de maio, uma cavalhada em São José de Belmonte celebra o escritor e sua obra-prima.

Brás, Bexiga e Barra Funda

Alcântara Machado nasceu dentro do espírito modernista de 1922. Em 1927, publicou uma seleção de pequenos contos que batizou com o título de Brás, Bexiga e Barra Funda, obra com que se destacou no movimento, podendo ser considerado o primeiro escritor a receber influência direta de modernistas, sobretudo de Oswald de Andrade.

Os 11 contos que compõem a obra nasceram da experiência do autor como jornalista e, portanto, apresentam o sabor da notícia. Como cenário, tem três bairros paulistanos, nítida ambientação ítalo-brasileira.

O autor defende a tese de que alguns imigrantes, principalmente o italiano, trazem em si a alegria, o canto e a movimentação. Ao pisarem o solo brasileiro, carregam a força do trabalho e a vontade de se saírem bem na nova terra. Ao se adaptarem, misturam-se de forma espontânea, a ponto de se confundirem com a paisagem.

Os personagens, moços e moças, adultos e velhos são captados de maneira singela, revelando com traços estilizados seus jeitos de ser, pensar, viver, que influenciarão definitivamente a cultura paulistana. Alcântara Machado observa-os como um repórter, denominando-os de “novos mestiços”, fixando aspectos da vida, do trabalho e do cotidiano dessa gente simples, simpática, aberta e batalhadora.

Cada conto se transforma em flashes dos bairros registrados e o enredo, jornalisticamente, vai-se transformando em crônicas da cidade durante a década de 20. Antônio de Alcântara Machado foi bom aprendiz das técnicas de escritura de Oswald de Andrade, utilizou a linguagem telegráfica com precisão, conduziu as cenas de forma cinematográfica, com cortes perfeitos e dinâmicos, imitando a movimentação pretendida pelo cinema, e, por isso, isentou a narrativa de descrições; o cenário surge rápido entre uma e outra ação. São Paulo vai se tornando transparente através do registro de uma época de trabalho e progresso.

A obra apresenta excelente investigação da influência que o imigrante trouxe inclusive para o linguajar paulistano, revelando no autor o artista consciente de que o literato é também um historiador, ao observar a realidade urbana que o cerca

Quarup

No tempo em que padre Nando ainda vivia num mosteiro, sem animar-se a sair em busca da sua utopia, conheceu Francisca e o noivo desta, Levindo, jovem estudante que trabalhava junto às nascentes Ligas Camponesas. Nando passou então a amar platonicamente Francisca e temia não resistir, quando fosse conviver com os índios, à visão das índias nuas, pecando assim contra o voto de castidade que fez como sacerdote. Winifred, uma amiga inglesa de Nando, resolveu tirá-lo do impasse em que se encontrava oferecendo-se a ele. Uma vez mantidas relações sexuais com uma mulher, Nando estava pronto para enfrentar as outras que apareceriam no seu caminho e pronto para partir.

Antes de chegar ao Xingu passa pelo Rio de Janeiro, onde conhece pessoas ligadas ao Serviço de Proteção aos Índios: Ramiro, o chefe, Vanda, sua sobrinha e secretária, Falua, jornalista e amante de Sônia (por quem Ramiro alimenta grande paixão), Olavo e Lídia, do Partido Comunista, e Fontoura, chefe do Posto Capitão Vasconcelos, no Xingu, e grande amigo dos índios, cuja cultura tenta preservar da destruição causada pela civilização e pelo progresso. Conhecendo-os, Nando conhece também desde jovens mulheres como Vanda até as sensações e “viagens” provocadas pelo cheiro de éter, nas sessões de lança-perfume de que participa com Ramiro e os outros. Fontoura, entretanto, revela-lhe uma dura realidade: a triste situação dos índios, sua pobreza, doenças, sua condição de condenados pelo Brasil “civilizado” que investe sem tréguas, alterando suas vidas, roubando-lhes as terras e a tranquilidade.

Do Rio, Nando partiu para o Xingu. A época era 1954, em plena fase do atentado contra Lacerda e dos últimos momentos do governo de Getúlio Vargas. Em Fontoura e em todos no posto do SPI, uma grande expectativa: a presença de Getúlio, que viria para inaugurar o Parque Nacional do Xingu, assegurando a preservação das terras indígenas. Enquanto esperavam, ajudavam os índios a preparar sua grande festa aos mortos: o Quarup, que, entre outras cerimônias ritualísticas, é constituído de uma grande comilança. Entre lances de caça, pescas, banhos de índios nus e perseguições de Ramiro à Sônia, chegava ao Xingu pelo rádio a notícia do suicídio de Getúlio, e morreu em Fontoura a esperança de ver o posto transformado em parque. Cansada das encrencas dos homens brancos, Sônia fogiu com Anta, um índio bonito, forte e preguiçoso, para desespero de Ramiro e Falua.

Na parte seguinte do romance, a história tem continuidade ainda no Xingu, mas muitos anos depois, quando todos se reencontraram, menos Sõnia, numa expedição ao centro geográfico do Brasil. Participou também Francisca, que voltara da Europa e perdera o noivo Levindo, morto pela polícia. Reacendeu-se então o amor de Nando, que se descobriu correspondido por Francisca. Dessa vez as coisas não ficaram no amor platônico, mas chegaram ao contato sexual, no centro da floresta virgem, em meio a orquídeas coloridas.

Cada uma com suas obsessões, prosseguiram todos na expedição. Ramiro, por exemplo, tinha sempre a esperança de encontrar Sônia, vivendo em alguma tribo. Depois de vários riscos, fome e extravios no meio da floresta, enfrentando tribos ferozes ou doentes e famintas, o grupo chegou ao centro geográfico, onde foi fincado um marco. Autodestruído pela bebida, pois perdera as esperanças de salvar os índios, Fontoura morreu em pleno centro geográfico, com o rosto sobre o grande formigueiro que corroia o Brasil, desde o seu coração.

Francisca leva terra do centro geográfico para Pernambuco, cumprindo uma promessa feita a Levindo, antes da morte deste. Nando renunciara ao sacerdócio e volta a Pernambuco com Franscisca, que passa a trabalhar na alfabetização de camponeses. Antes disso, os dois desfrutam uma espécie de lua-de-mel no Rio de Janeiro. De volta a Recife, porém, Francisca resolver afastar-se, sacrificando-se pela memória de Levindo. Nessa época, a luta dos camponeses ganha força, sob o governo de Miguel Arraes, ao qual entretanto se opõe Januário, o líder do movimento. Nando resolve ajudar no trabalho das ligas. Com o golpe militar de 31 de março de 1964, Goulart é deposto e, em Pernambuco, Arraes é afastado. Várias prisões são feitas, os líderes são perseguidos. Nando vai parar na cadeia, onde sofre interrogatórios e torturas mais morais do que físicas, especialmente se confrontadas com o sofrimento dos camponeses, antigos companheiros de luta. Quando o soltam, Francisca havia partido novamente para a Europa. Nando recolhe-se então à sua casa da praia (herança de seus pais) e se entrega a uma espécie de “apostolado do amor”. Tendo finalmente aprendido com Francisca a arte de amar, de maneira a dar prazer à mulher amada, ele agora distribui amor, fazendo sentirem-se belas as mulheres mais feias e ensinando as técnicas amorosas a vários “discípulos” seus. São pescadores que resolvem segui-lo nessa “nova cruzada”, para grande espanto e escândalo de seus antigo companheiros de luta política, em vias de organizarem novamente o movimento revolucionário, desta vez no sertão.

No décimo aniversário da morte de Levindo, Nando resolve comemorar a data com uma espécie de réplica do Quarup, um banquete com todos os amigos, pescadores, prostitutas e antigos companheiros de ligas. A cena do grande jantar (espécie de ritual em que se devora antropofagicamente a figura de Levindo) é simultânea à grande Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Os participantes da marcha, juntamente com a policia, invadem a festa: muitos são presos, alguns fogem e Nando é espancado quase até a morte.

Socorrido por uma prostituta amiga e por Manuel Tropeiro, antigo companheiro de luta, Nando foi levado para a casa do padre Hosana, onde se recuperou e decidiu partir com Manuel Tropeiro para o sertão, voltar às lutas. Antes, porém, passou por sua casa, onde encontrou cartas de Francisca, e a polícia que o espreitava. Conseguindo matar os guardas, despediu-se de Recife e da própria Francisca, que agora não era mais a mulher de carne e osso. Ela era o “centro de Francisca”, explicou Nando a Manuel e ao leitor. Como precisou mudar de nome, adotou o de Levindo e tudo indicava que a história se repetiria. Entretanto, o romance termina numa nota alta de otimismo no futuro que aguardava os dois heróis, com Nando vendo “o fio fagulhar ligeiro entre as patas do cavalo como uma serpente de ouro em relva escura”.

Narrador
Onisciente (tem conhecimento de tudo) e em Terceira Pessoa

Tempo
Inicia-se no governo Getúlio Vargas eleito pelo voto direto , na década de 50 e termina em 1964, em pleno governo militar, logo após a deposição de João Goulart e o início das torturas e perseguições por parte da junta Militar presidida por Castelo Branco

Espaço
Pernambuco, Rio de Janeiro e Xingu

Noite na Taverna

Noite na Taverna é uma narrativa (novela ou conto) construída em sete partes, contendo epígrafes e os nomes de cada personagem, como subtítulos, antecedendo as narrativas, contadas em uma taverna. Há, na última parte, o entrelaçamento da história de Johann e de alguns personagens.

Mais do que pelos elementos romanescos e satânicos que a condimentam (violentação, corrupção, incesto, adultério, necrofilia, traição, antropofagia, assassinatos por vingança ou amor), a obra impõe-se pela estrutura: um narrador em terceira pessoa introduz o cenário, as personagens, a situação, e praticamente desaparece, dando lugar a outros narradores – as próprias personagens, que em primeira pessoa contam, uma a uma, episódios de suas vidas aventureiras.

Na última narrativa, a presença física (na roda dos moços) de personagens mencionadas em uma narrativa anterior faz com que todo o ambiente fantástico e irreal dos contos se legitime como
verídico.

Noite na Taverna, obra escrita em tom bastante emotivo, antecipa em vários aspectos a narração da prosa moderna: a liberdade cênica, a dupla narração e suas confluências, a mistura do real ao fantástico conferem atualidade à obra, apesar de toda a atmosfera byroniana.

Primeira parte

A primeira parte constitui uma espécie de apresentação do ambiente da taverna, da roda de bebedeira, de devassidão em que se encontram os personagens, do clima notívago e vampiresco. O tom declamatório anuncia a noitada e as história que estão por vir.

As primeiras páginas deixam antever o clima das geração do mal do século, a irreverência incontida, a tendência a divagações literário-filosóficas, a vivência sôfrega e, principalmente, a morbidez e a lascívia.

Entre os “brados” e as taças que circulavam, são apresentados os personagens, e alguns deles tomas a palavra. Em primeira pessoa, relatam histórias pessoais. O primeiro a tomar a palavra é Solfieri que faz suas evocações, remontando-as a Roma, a “cidade do fanatismo e da perdição”, onde “na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o crucifixo lívido”. Certa noite, Solfieri vê um vulto de mulher. Segue-a até um cemitério; o vulto desaparece e o personagem adormece sob o frio da noite e a umidade da chuva. A visão deste vulto de uma mulher atordoou o personagem durante um ano, nada o satisfazia na troca de amores com mundanas. Uma noite, após prolongada orgia, saio vagando pelas ruas e acaba entre “as luzes de quatro círios” que iluminavam um caixão entreaberto. Lá estava a mulher que lhe provocara tantas alucinações e insônias. Era agora uma defunta. O homem tomou o cadáver em seus braços, despiu-lhe o véu e…

Mas, para disfarçar o caso de necrofilia, a mulher não estava morta, apenas sofrera um ataque e catalepsia. Ao perceber que a mulher não havia morrido, Solfieri levou-a para seu leito, contemplou-a e ela, depois de breve delírio, vaio a falecer. Solfieri mandou fazer uma estátua de cera da virgem, guardou-a em seu quarto, conservou com uma grinalda de flores.

Johann, Bertram, Archibald, Solfieri, o adormecido, Arnold e outros companheiros estão na taverna, dialogando sobre loucuras noturnas, enquanto as mulheres dormem ébrias sobre as mesas. Falam das noites passadas em embriaguez e pura orgia. Solfieri os questiona a respeito da imortalidade da alma, sendo mais velho, parece não crer nela, por isso, Archibald o censura pelo materialismo. Solfieri acredita na libertinagem, na bebida e na mulher sobre o colo do amado. Os homens só se voltam para Deus quando estão próximos da morte, Deus é, pois, a “utopia do bem absoluto”.

Segunda parte – Solfieri e a Necrofilia

Solfieri decide contar sua história, conforme sugere Archibald, desejoso de histórias fantásticas, cheias de sangue e paixão. Conta, então, que uma noite, ao vagar por uma rua, em Roma, passa por uma ponte, quando as luzes dos palácios se apagam. Vê a sombra de uma mulher chorando, numa escura e solitária janela, parecendo uma estátua pálida à lua.

Ela canta mansamente, saindo para a rua, sempre seguida por Solfieri. Pela manhã, ele percebe que está em um cemitério, sem saber, ao certo, se adormeceu ou desmaiou. Sente muito frio, adoece, delira, tendo visões com a bela e pálida mulher. Retorna a Roma um ano depois, sem encontrar alento nos beijos das amantes, perseguido pela visão da mulher do cemitério. Certa noite, muito bêbado, após uma orgia, se encontra num templo muito escuro e, vendo um caixão semi-aberto, crê que a mulher está lá dentro. Arranca-lhe a mortalha, faz amor com ela, que, pela madrugada, dá sinais de vida, retornando da catalepsia para desmaiar em seguida.

Solfieri coloca sua capa sobre a moça e foge com ela. Encontra com o coveiro e depois com a patrulha, que o considera um ladrão de cadáveres. Justifica-se, apresentando a esposa desfalecida. Ao chegar em casa, a moça grita, ri e estremece, morrendo 2 dias depois. Solfieri levanta o piso do quarto para dar lugar ao túmulo, suborna, antes, um escultor que lhe faz em cera a estátua da virgem. Aguarda um ano para estátua definitiva ficar pronta.

Volta-se para Bertram, recordando-lhe a visita deste em sua casa e de a ter visto por entre véus, sendo a ela apresentado como “uma virgem que dormia”. Os amigos surpresos com a história desejam saber se se trata de um conto, mas ele jura por todo mal existente que não. Como prova, mostra sob a camisa a grinalda de flores mirradas, pertencente à moça.

Terceira parte – Bertran e a Antropofagia

A seguir, Bertram, um dinamarquês ruivo, de olhos verdes, conta que, também, uma mulher, uma donzela de Cadiz, Angela, o levou à bebida e a duelar com seus três melhores amigos e a enterrá-los. Quando decide casar com ela e consegue lhe dar o primeiro beijo, recebe carta do pai, pedindo seu retorno à Dinamarca. Encontra o velho já moribundo, chora, mas por saudades de Angela. Dois anos depois, vende toda fortuna, coloca o dinheiro num banco de Hamburgo e volta para a Espanha. Encontra a moça casada e mãe de um filho. A paixão persiste e os amantes passam a se encontrar às escondidas, vivendo verdadeiras loucuras noturnas até que o marido, enciumado, descobre tudo.

Uma noite, Angela, com a mão ensangüentada, pede ao rapaz para subir até sua casa e por entre a penumbra, ele encontra o marido degolado e sobre seu peito, o filho de bruços, sangrando. Angela deseja fugir em sua companhia, saem pelo mundo, ela vestida de homem vive grandes orgias. Foge mais tarde, deixando o rapaz entregue às paixões e vícios.

Bertram bêbado e ferido é atropelado por uma carruagem, diante de um palácio, sendo socorrido por um velho fidalgo, pai de uma bela menina, que, mais tarde, foge para casar-se com Bertram. Vendida em uma mesa de jogo a Siegfried, um pirata, ela o mata e o envenena, afogando-se a seguir. De dissipação em dissipação, o rapaz resolve matar-se no mar na Itália, mas salvo por marinheiros, fica sabendo que a pessoa que o salvou acabou, acidentalmente, morta por ele. São socorridos por um navio e Bertram é aceito a bordo em troca de que combatesse se necessário.

Mas, apaixona-se pela pálida mulher do comandante e, durante uma batalha contra um navio pirata, ele o trai, fazendo amor com a mulher. O navio encalha em um banco de areia, despedaçando-se aos poucos – os náufragos agarram-se a uma jangada e, em meio à noite e à tempestade, o casal vive horas de amor. Vagam a ermo pelo mar as três figuras, sobrevivendo de bolachas e, mais tarde, tiram a sorte para ver quem morrerá. O comandante perde, clama por piedade, mas Bertram se nega ouvi-lo, prefere a luta. Mata o comandante, que serve, por dois dias, de alimento a Bertram e a mulher. Ela propõe morrerem juntos, ele aceita. O casal gasta as últimas energias se amando. A mulher, enlouquecida, começa a gargalhar, Bertram febril a sufoca. Ela é levada pelas águas, enquanto o rapaz é salvo pelo navio inglês, Swallow.

Quarta parte – Gennaro e a Traição das Traições

A próxima história é a de Gennaro. Sua narrativa é sobre um velho pintor, Godofredo Walsh, casado com uma jovem de 20 anos, Nauza, que lhe serve de modelo e é amada como a filha do primeiro casamento, Laura, garota de 15 anos. Gennaro, aos 18 anos, é aprendiz de pintor e aluno de Godofredo. Vive na casa do mestre como um filho, recebendo, no corredor, antes de dormir, beijos de Laura. Um dia, desperta e a encontra em sua cama, perdendo a cabeça diante da estonteante beleza da virgem. A cena se repete ao longo de 3 meses, quando a menina lhe diz que deve pedi-la em casamento, porque espera um filho. O moço nada responde, ela desmaia e se afasta, tornando-se cada dia mais pálida.

O pintor definha com a tristeza da filha, passeia pelos corredores à noite e deixa de pintar. Uma noite, Gennaro é chamado, porque Laura está morrendo e murmura seu nome. O moço aproxima-se e, ela, sussurrando-lhe ao ouvido o perdão, diz que matou o filho e dá o último suspiro. O velho passa o ano endoidecido, chora todas as noites no quarto da morta, arfando ou afogando-se em soluços.

Enquanto isso, o rapaz e Nauza amam-se em seu leito. Uma noite, o velho o arranca da cama e o leva até o dormitório de Laura. Levanta o lençol que cobre um painel, descortinando a imagem moribunda de Laura, que murmura algo no ouvido do cadavérico Gennaro. Atordoado, o aprendiz confessa tudo a Godofredo.

No dia seguinte, o velho se comporta naturalmente, sem mencionar o ocorrido, lamenta apenas a falta da moça. Sonâmbulo, repete a mesma cena ao longo de várias noites e, numa delas, Nauza é testemunha. Uma noite de outono, após a ceia, Walsh convida Gennaro para um passeio fora da cidade. Após contornar um despenhadeiro, pede ao rapaz para esperá-lo, dirigindo-se a uma cabana de onde sai uma mulher. Depois, junta-se a Gennaro e ao chegar à beira de um penhasco, descreve a traição, envolvendo a filha e a esposa.

Pede ao rapaz para jogar-se precipício abaixo. Gennaro assim o faz, mas, após uma noite de delírios, acorda salvo por camponeses, em uma cabana. Decide retornar à casa de Walsh e pedir-lhe perdão, entretanto encontra pelo caminho o punhal do pintor. Decide vingar-se, mas encontra Nauza e Godofredo envenenados e apodrecidos, talvez, com o veneno obtido com a mulher da cabana.

Quinta parte – Claudius Hermann e a Paixão de Morte

Claudius Hermann, após preâmbulos em que discursa com os amigos de orgia acerca de diversos temas, expõe sua história, onde narra suas loucuras e orgias e de como desperdiçou uma fortuna no turfe, em Londres, onde vê uma bela amazonas, a duquesa Eleonora, esposa do duque Maffio. Antes de prosseguir com a história, Bertram indaga sobre a poesia, descrita como um punhado de sons e palavras vãs, enquanto Claudius a considera um prazer extremado, o que há de belo na natureza. Os colegas os interrompem, pedindo ao narrador que retome a história.

No dia em que avista a bela duquesa, Hermann dobra sua fortuna e, à noite, no teatro, a vê, mais uma vez. Ao longo de 6 meses, encontra a senhora em bailes e teatros até que decide comprar de um criado a chave do castelo. Entra, sorrateiramente, quando ela já está adormecida e coloca-lhe nos lábios narcótico. Aguarda que durma profundamente e, então, a possui, repetindo o fato, noite após noite, durante um mês.

Certa vez, após um baile, entra no quarto de Eleonora e vendo um copo com água junto à sua cabeceira, derrama nele o narcótico. Entram a duquesa e o duque que, antes de sair do quarto, prometendo-lhe retornar, bebe um pouco do líquido, seguido por ela. Claudius sabe que Maffio não virá ao quarto e que Eleanora dormirá profundamente.

Ergue-a do leito e foge com ela numa carruagem, chegando, ao meio-dia, a uma estalagem. Mais tarde, a duquesa desperta e surpresa por não estar em seu palácio, grita por socorro, desespera-se, ameaçando jogar-se pela janela. O rapaz lhe declara profundo amor e lhe descreve o rapto, dando-lhe duas horas para pensar se fica ou não com ele. Inconformada a princípio, decide aceitar o amor oferecido, pois a família e amigos, certamente, não a aceitariam mais.

Ao retornar, Claudius a encontra debruçada sobre um de seus versos. Interrompe a narrativa, retira um papel do bolso, mostrando o verso aos colegas. Conta que Eleonora lhe respondeu que ficava, mas caiu desmaiada.Dito isso, o rapaz tomba por sobre a mesa, calando-se. Archibald o sacode, implora para que desperte. Solfieri e os companheiros desejam saber sobre a duquesa, mas o rapaz está confuso, não se recorda de mais nada.Ouvem a gargalhada do louro Arnold que despertando, dá continuidade ao relato, dizendo que um dia Claudius entrou em casa e encontrou sobre a cama ensopada de sangue dois cadáveres; o Duque de Maffio matou Eleonora e enlouquecido, suicidou-se em seguida. Arnold estende a capa no chão e volta a dormir.

Sexta parte – Johann e o Incesto

Johann decide contar sua história. Está em um bilhar em Paris, jogando com Artur que, numa jogada definitiva para Johann, se encosta à mesa, por descuido ou de propósito. A mesa estremece e Johann é levado à derrota. O perdedor, enlouquecido de raiva, desafia o parceiro para um duelo. Antes porém, Artur pede ao adversário que, caso morra, entregue a carta, que está em seu bolso, e o anel no seu dedo, para uma mulher que dirá, mais tarde quem é.

Saem com duas pistolas, uma carregada, a outra não; Artur é alvejado e morre, apontando para o bolso. Johann tira-lhe o anel, colocando-o em seu dedo e, a seguir, encontra dois papéis no bolso do morto: uma carta para a mãe, e outra indicando o horário e endereço para um encontro. O rapaz decide tomar o lugar de Artur. Descobre que aí mora a virgem namorada do rival que acaba na cama com Johann, num quarto escuro.

De repente, interrompe a narrativa, enche o copo e o bebe com estremecimento. Prossegue, narrando que ao sair do quarto, encontra um vulto à porta, cuja voz lhe soa familiar. É atacado com uma faca, luta ferozmente com o vulto; um homem desconhecido, que deixa cair o punhal, morrendo sufocado pela mão de Johann. Ao se retirar, tropeça numa lanterna e decide ver o rosto do estranho, estremece, a luz da lanterna se apaga. Vai arrastando o corpo até um lampião e, para sua surpresa, descobre tratar-se de seu irmão. Louco de terror retorna ao quarto, mas, outra vez, interrompe a narrativa, bebe mais um copo. Diz que encontrando a donzela desmaiada, a levou para a janela e percebeu que estava com a irmã nos braços.

Última parte – O Último Beijo de Amor

Com Último beijo de amor, Álvares de Azevedo fecha a obra Noite na Taverna. Ao contrário dos outros, traz a narrativa em 3ª pessoa.

É noite alta na taverna, todos dormem. Entra uma mulher pálida, vestida de negro, procurando alguém com uma lanterna na mão. Vê Arnold, tenta beijá-lo, mas o deixa em paz, voltando-se para Johann, tornando-se, subitamente, sombria. Traz, além da lanterna, um punhal, que crava no pescoço deste último, enxugando as mãos ensangüentadas no cabelo do ferido. Vai até Arnold e o desperta. Ele a reconhece; é a irmã de Johann, agora transformada na prostituta Giorgia, a quem Arnold pede que lhe chame de Artur, como outrora.

O rapaz recorda-se do duelo, do tempo passado no hospital para se recuperar, o desespero e a vida de devassidão a que se entregou por não encontrar mais Giorgia. Deseja ficar junto dela agora, mas a moça acha que é tarde demais, pede-lhe apenas um beijo de despedida, porque vai morrer. Leva Arnold até o corpo de Johann, dizendo que o matou por ter sido por ele desonrada, a ela que era sua irmã. Arnold horrorizado cobre o rosto, enquanto Giorgia cai ao chão. Arnold aperta o punhal contra o peito e cai sobre ela, sufocando os dois gemidos de morte. A lâmpada apaga-se.