O que é isso companheiro?

Em 1979, Fernando Gabeira lançou o livro O que é isso, companheiro?, em que buscou compreender o sentido de suas experiências – a luta armada, a militância numa organização clandestina, a prisão, a tortura, o exílio – e no qual elaborou, para a sua e para as gerações seguintes, um retrato autêntico e vertiginoso do Brasil dos anos 60 e 70.

Relato lúcido, irônico, comovente, o livro se transformou num verdadeiro clássico do romance-depoimento brasileiro e foi filmado pelo diretor Bruno Barreto.

A obra é a versão de Fernando Gabeira sobre o seqüestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 4 de setembro de 1969, alguns meses após a declaração do Ato Institucional nº 5, que suspendeu todos os direitos civis dos brasileiros em 1968, em uma época em que o país se encontrava governado por militares.

O texto é narrado em primeira pessoa para explicitar que aquelas vivências pertenciam a um eu real, sendo que a elaboração do eu discursivo permaneceu bastante rasa. A opção pelo uso do “eu” garantiu uma visão mais pessoal dos fatos, mas circunscreveu a narrativa politicamente engajada às aventuras de um indivíduo politicamente engajado.

A obra é centrada na figura do próprio Gabeira, que optou por uma perspectiva mais próxima da experiência do narrador, ainda que pensasse que essa experiência foi comum a um grupo de pessoas. A partir da visão de um personagem, o livro se propôs a informar sobre o golpe e os anos de ditadura. A subjetividade do narrador foi posta em destaque, relativizando os fatos, deixando claro que essa era sua visão e não uma visão absoluta.

O livro conta como o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) conseguiu realizar talvez a maior façanha de uma organização tida como de esquerda, para se contrapor ao período militar vigente. O seqüestro segundo a agrupação, foi a saída encontrada pelos guerrilheiros para pressionar o governo a liberar 15 políticos esquerdistas que estavam presos por motivos políticos.

Não é uma obra que defende irrestritamente as ações tomadas pelo MR-8 e sim uma profunda reflexão não apenas sobre o regime militar, mas também os movimentos sociais que existiam, e a postura da população perante as deúncias de tortura, perseguição política e a censura dos meios de comunicação.

No livro, Fernando Gabeira está sempre questionando sua ação dentro do movimento, ele fez críticas e mostrou clareza ao questionar o que estava errado no movimento de esquerda brasileira. Isso não ocorreu porque ele apresentou superioridade em relação aos outros e sim porque o livro foi escrito dez anos depois dos acontecimentos narrados. Nos anos de chumbo, Gabeira pensava igual aos outros companheiros, que desejavam fazer a sonhada “Revolução”.

A anistia do Governo do General João Baptista de Figueiredo, trouxera muitos ex-guerrilheiros de volta ao país, entre eles, o escritor Fernando Gabeira. Com a anistia, os exilados em outro país: jornalistas, ex-militantes de esquerda, escritores, tiveram a chance de fazer com que suas vozes silenciadas por um longo período, fossem ouvidas novamente. Com a liberdade de expressão, produzindo literatura, o escritor Fernando Gabeira deu evidentes sinais de resistência ao regime militar implantado na época em que foi obrigado a se exilar em outro país; as imposições políticas, os desagrados de como esse regime impunha a cultura brasileira à censura; a violência contra o povo que se manifestava nas ruas contra toda uma sociedade desigual:

No instante em que Aragão saia no seu carro preto, possivelmente Gregório Bezerra, o líder camponês pernambucano estava sendo atado ao jipe do coronel Ibiapina e seria arrastado pelas ruas. O sapateiro Chicão estava tentando escapar, às pressas, de Governador Valadares, onde os fazendeiros fuzilavam sem vacilar. (p.23).

Na afirmativa acima, pode-se perceber que o escritor optou por traduzir os problemas da sociedade, substituiu a voz do sujeito (ele, o escritor e jornalista), pela do oprimido (o líder camponês e o sapateiro), o povo, a massa que sempre esteve em desvantagem, excluído pela sociedade dominante.

Nessa perspectiva, a literatura produzida por Fernando Gabeira alia-se aos sujeitos (ele, o escritor e o povo) que manifestavam suas inquietações e necessidade de ganhar visibilidade numa sociedade que lhes era injusta.

Numa outra passagem do texto, transcrita abaixo, é possível detectar a subjetividade do escritor:

Tudo era mágoa de quem não se conformava com o desfecho. O melhor talvez fosse tentar o que se passava. Goulart compreendeu que estava perdido e resolveu ir para o Uruguai, certo de que o golpe era temporário, que mais tarde, seria chamado para ocupar seu papel na vida política do país. Quem era eu para entender as coisas profundamente? Estava desarmado teoricamente, ressentido, e não outro caminho na nossa frente, exceto prosperar e esquecer o baque que o país estava sofrendo. (p.27)

Nessa passagem, o escritor relativizou os fatos, ele expressou a sua visão, não passou para o leitor que é uma visão absoluta quando diz “Quem era eu…”. A linguagem do escritor costurou todo um tecido que nos levou a refletir sobre os caminhos e descaminhos da história recente do país.

Como já visto, o escritor optou em fazer sua narrativa em primeira pessoa, para ir reconstituindo a memória daquilo que experenciou, que viveu dentro da história política do país até 1968.

(…) As pessoas estão seguras de si, estão tranqüilas, mas quando partem para o exílio estão tristes também. Bastava surpreender qualquer um deles distraídos para captar um olhar vazio, uma cabeça que se abaixa… Mas aquilo era o Brasil, eu não era um personagem e havia muito o que fazer para estar à altura dos amigos que partiam (p.39)

Na afirmativa acima, temos a recordação individual do escritor. Um homem narrando sua história, a história de um grupo em que também ele se inscrevia na grande história dos exilados, por causa do autoritarismo da época.

Com o passar dos anos foi possível detectar a experiência pela qual havia passado o escritor, que foi nos situando em suas lembranças dentro do movimento histórico.Era o indivíduo que constatou naquele momento que na pirâmide social daquele período, estava em posição inferior e que acabou sendo “expulso” de seu próprio país.

Ao fazer a leitura da obra O Que é Isso Companheiro? é possível compreender que ao longo da narrativa alguns aspectos da constituição da memória coletiva de um grupo e individual do escritor. Trata-se de uma narrativa de cunho memorialista, realista de uma história recente do país e também o que chama a atenção é o lugar por excelência onde a vida se protifica.

A escrita de Fernando Gabeira permitiu a ocupação de vários lugares – auto, protagonista, narrador – o escritor dentro da obra objetiva traça relações entre memória, narração e escritura/literatura. Ao mesmo tempo em que narra, o narrador se dobra sobre o ato de recordar, enquanto recorda e escreve, vai passando a limpo os fatos que viveu.

Na obra destaca-se o uso abundante do condicional. Minimizando assim o caráter fatual do texto e jogando com o potencial, com aquilo que poderia acontecer. Esse recurso foi usado, por exemplo, nas cenas de tortura para não descrevê-las diretamente, evitando o excesso de minúcia que nos romances-reportagem promovem uma verdadeira retórica do horror. Outra característica do estilo de Gabeira são as frases curtas e o tom informal, que devem muito ao discurso jornalístico, além do uso freqüente da segunda pessoa para aproximar o leitor. Essa última opção está relacionada à necessidade didática de informar uma geração que não vivenciou a ditadura. No seguinte trecho, Gabeira dirige-se a seu provável leitor:

O amigo (a) talvez fosse muito jovem em 64. Eu mesmo achei a morte de Getúlio um barato só porque nos deram um dia livre na escola. Um golpe de Estado, entretanto, mexe com a vida de milhares de pessoas. Gente sendo presa, gente fugindo, gente perdendo o emprego, gente aparecendo para ajudar, novas amizades, ressentimentos…

O relato de Gabeira dá margem a heroicização do personagem-narrador, uma vez que a história gira em torno de um acontecimento real, como já visto, que foi o seqüestro do embaixador americano por um grupo de jovens militantes. O heroísmo só foi amenizado porque a narrativa contou o fracasso de uma empreitada política e tendeu a relativizar as convicções que guiavam o narrador naquela época. Evidenciou-se com freqüência as fraquezas do projeto, as fraturas dos grupos, a ingenuidade dos militantes. Em O que é isso, companheiro? a perspectiva do narrador é a de um indivíduo com vivências, idéias, sentimentos particulares e, principalmente, com críticas a respeito de seu papel na história:

Como é que um intelectual pode se negar tão profundamente? Passava os dias lendo jornais, fazendo planos para matar Eduardo e limpando ad nauseam meu revólver Taurus 38 que jamais disparei contra ninguém, mas que mantinha em um estado impecável, como se me esperassem, a cada manhã, fantásticas batalhas campais, ali naquele apartamento de Ana, onde o único vestígio de luta eram as camas desarrumadas com a agitação dos nossos sonhos.

A prosa de Gabeira distancia-se do neonaturalismo dos romances-reportagem por não aderir a uma versão unificada da situação política dos anos 70. O livro não segue a tendência principal do romance-reportagem que seria o de produzir ficcionalmente identidades lá onde dominavam as divisões, criando uma utopia de nação e outra de sujeito, capazes de atenuar a experiência cotidiana da contradição e da fratura. Por sua vez, o risco de uma visão mais centrada no personagem-narrador era o de que se anulasse a pluralidade de vozes, reduzindo tudo à perspectiva de um único indivíduo.

O livro de Gabeira não é uma exceção no que diz respeito ao caráter monológico dos textos autobiográficos de ex-exilados ou militantes políticos, em que se destaca, por exemplo, o fato de que os outros personagens não terem nenhuma profundidade subjetiva, nenhuma independência em relação à figura central do narrador. E a própria subjetividade do narrador não é explorada muito além de suas implicações referenciais.

O narrador autobiográfico centrou seu relato nas experiências vividas por ele próprio em um período do passado que a distância temporal lhe permitiu abordar com olhar crítico, mas não colocou em questão a possibilidade de narrar tais experiências. Se, por um lado, a narrativa autobiográfica ao estilo de O que é isso, companheiro? consegue expor o caráter contraditório dos acontecimentos, por outro, evita o problema de como representar, nos limites da linguagem, uma experiência traumática. Diante de determinadas situações traumáticas – como foram as grandes guerras ou as ditaduras nos países latino-americanos – os escritores se confrontaram com o silêncio, desconfiados da linguagem como meio de comunicar a experiência. O narrador autobiográfico, pelo contrário, acredita na possibilidade de comunicar uma experiência que sirva de lição para gerações futuras, mas seu relato acaba transmitindo ao leitor uma redução do trauma à vivência privada do narrador.

O Tempo e o Vento

Livro 1: O Continente
Publicados originalmente em 1949, a saga de “O Tempo e o Vento” começa com os dois volumes de “O Continente”. Esta primeira parte da trilogia narra o nascimento do Estado do Rio Grande do Sul através das famílias Terra, Caré, Cambará e Amaral.

Capítulo “Um certo Capitão Rodrigo”
Alguns capítulos dos três romances merecem destaque, seja pelo apuro estilístico do autor, seja pela temática desenvolvida. “Um Certo Capitão Rodrigo”, presente na primeira parte da trilogia, “O Continente”, merece essa atenção especial. O capítulo tem o mérito de retratar, ou recriar, a imagem do homem gaúcho forte, bravo, destemido, na figura do personagem principal: capitão Rodrigo Cambará.

A cena da chegada do capitão Rodrigo à cidade de Santa Fé já é suficiente para passar essa ideia do homem gaúcho, tanto pelas vestimentas como pela personalidade:

“Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal.

Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido:

– Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!
– Pois dê”

A descrição do valente e imponente capitão entrando no pacato vilarejo, seguida do desaforado cumprimento da chegada, antecipa o incômodo que essa figura produzirá em tal espaço. O dono da resposta curta e grossa que aceita o confronto, porém, não se tornará seu antagonista na história. Será seu futuro cunhado, Juvenal Terra.

A importância desse capítulo está no fato de que – além de apresentar a figura típica do gaúcho encarnada pelo capitão Rodrigo – mostra a união dos dois grandes sobrenomes que marcarão, na obra, a formação do estado do Rio Grande do Sul: os Terras e os Cambarás.

Apaixonando-se perdidamente por Bibiana Terra, o capitão a conquista após minar sua resistência e a de sua família, além de ter vencido em um duelo o pretendente rico de Bibiana: Bento Amaral, filho do coronel Ricardo Amaral. Essa união representa, estruturalmente, o eixo das duas famílias que irão protagonizar toda a trilogia.

O carisma de Rodrigo Cambará acaba por conquistar, de fato, não apenas Bibiana Terra, mas vários moradores de Santa Fé, como o padre Lara e Juvenal Terra, com quem monta um negócio. A figura do capitão, no entanto, distancia-se em todos os momentos do perfil do bom moço. Mesmo depois de casado com Bibiana, Rodrigo Cambará mantém o gosto pelo carteado, pela bebida e, principalmente, por outras mulheres.

O antagonista de Rodrigo Cambará é Bento Amaral, com o qual trava uma luta atrás do muro do cemitério, após um desentendimento em uma festa de casamento. Nesse confronto, o filho do coronel, desonrando a batalha, utiliza uma arma de fogo contra o capitão.

Antes de dar o tiro à traição, Amaral quase recebe a marca do capitão Rodrigo: um “R” na testa. Surpreendido pelo disparo, no entanto, o capitão só tem a possibilidade de talhar um “P”. Falta-lhe tempo para completar a letra “R”. A cena final desse capítulo é a invasão do casarão da família Amaral. Nesse episódio, morre o capitão Rodrigo Cambará, deixando órfão o filho Bolívar:

“O tiroteio começou. A princípio ralo, depois mais cerrado. O padre olhava para seu velho relógio: uma da madrugada. Apagou a vela e ficou escutando. Havia momentos de trégua, depois de novo recomeçavam os tiros.

E assim o combate continuou madrugada adentro. Finalmente se fez um longo silêncio. As pálpebras do padre caíram e ele ficou num estado de madorna, que foi mais uma escura agonia do que repouso e esquecimento. O dia raiava quando lhe vieram bater à porta. Foi abrir. Era um oficial dos farrapos cuja barba negra contrastava com a palidez esverdinhada do rosto. Tinha os olhos no fundo e foi com a voz cansada que ele disse:

– Padre, tomamos o casarão.
Mas mataram o capitão Rodrigo – acrescentou, chorando como uma criança.
– Mataram?

O vigário sentiu como que um soco em pleno peito e uma súbita vertigem. Ficou olhando para aquele homem que nunca vira e que agora ali estava, à luz da madrugada, a fitá-lo como se esperasse dele, sacerdote, um milagre que fizesse ressuscitar Rodrigo.

– Tomamos o casarão de assalto. O capitão foi dos primeiros a pular a janela. – Calou-se, como se lhe faltasse fôlego.
– Uma bala no peito…”

Livro 2: O Retrato
Rodrigo Terra Cambará decide voltar a sua terra-natal, Santa Fé, após ter ido estudar medicina em Porto Alegre. Nesse segundo romance da trilogia acompanha-se a decadência social de Santa Fé na passagem para o século 20 causada por interesses e jogos políticos.

Livro 3: O Arquipélago
O terceiro e último romance da trilogia “O tempo e o vento” narra a volta de Rodrigo Cambará à Santa Fé depois de passar muitos anos no Rio de Janeiro ao lado do então presidente Getúlio Vargas, seu amigo e aliado. Assim, o poder da família Terra Cambará, que era somente local, adquire em “O Arquipélago” um âmbito nacional. Após o fim do Estado Novo, Rodrigo está derrotado politicamente e doente. Rodrigo se vê na luta de não morrer na cama, uma vez que “Cambará macho não morre na cama”.

Sobre Érico Veríssimo
Érico Lopes Veríssimo nasceu em 17 de dezembro de 1905 na cidade de Cruz Alta, Rio Grande do Sul. Aos 13 anos, Érico já lia autores nacionais e internacionais. Em 1920 foi estudar em Porto Alegre e dois anos depois seus pais se separaram. Assim, Érico foi morar com seus irmãos e mãe na casa da avó materna.

Para ajudar nas finanças da família, ele começou a trabalhar como balconista no armazém de seu tio, até que conseguiu uma vaga no Banco Nacional do Comércio. Algum tempo depois, mudou-se com sua mãe e irmãos para Porto Alegre. Lá, Érico adoeceu e perdeu seu emprego no Banco. Por conta dessas dificuldades, a família resolve voltar para Cruz Alta, onde Érico torna-se sócio de uma farmácia. Ao lado dessas obrigações, ele dava aulas de inglês e literatura.

Em 1929, Érico publica “Chico: um conto de Natal” e outros contos na “Revista do Globo”, de Porto Alegre. No ano seguinte a farmácia entra em falência e Érico resolve mudar-se para Porto Alegre. Lá ele conhece diversos escritores renomados e toma mais contato com as vanguardas literárias do país. No final de 1930 é contratado como secretário de redação da “Revista do Globo”.

Em 1931, casa-se com Mafalda Halfen Volpe, com quem teria dois filhos. Durante essa época trabalha em outros jornais e realiza algumas traduções de obras estrangeiras. No ano seguinte, é promovido a diretor e passa a atuar também no Departamento Editorial da Livraria do Globo. Em 1933 publica seu primeiro romance, “Clarissa”. Nessa época, Érico publica também alguns livros infantis. Em 1938, publica “Olhai os lírios do campo”, um de seus maiores sucessos literários.

Em 1941, passa três meses nos Estados Unidos. Dessa sua estadia em terras norte-americanas, Érico tirou inspiração para escrever “Gato preto em campo de neve”. Motivado por discordâncias políticas frente a ditadura do governo Vargas, muda-se para os Estados Unidos em 1942, onde leciona Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia. Ao voltar para o Brasil, publicou A volta do gato preto (1946). Em 1947, Érico Veríssimo começa a escrever a sua obra-prima, a trilogia “O tempo e o vento”. Dois anos depois, publica o primeiro volume dessa obra.

Em 1953, Érico volta para os Estados Unidos ocupando um caro na Organização dos Estados Americanos a convite do governo brasileiro. No ano seguinte, ganha o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Alguns anos depois vai à Europa pela primeira vez.

Em 1962, publica “O Arquipélago”, último volume de sua trilogia “O tempo e o vento”. Três anos depois, ganha o Prêmio Jabuti pelo livro “O senhor embaixador”. Após esse, Érico publica diversos outros livros.

Em 28 de novembro de 1975, Érico Veríssimo sofre um infarto e falece deixando inacabados sua autobiografia e um romance.

Suas principais obras são: “Música ao longe” (1936), “Olhai os lírios do campo” (1938), “O tempo e o vento” (1949-1962) e “Incidente em Antares” (1971). Além dessas obras, Érico Veríssimo publicou contos, livros de literatura infantil, ensaios e críticas de literatura.

Os Ratos

A obra

Os Ratos tem uma linguagem simples, direta, econômica, onde não transparece nenhuma empolgação, apenas a angústia do protagonista Naziazeno em resolver seu problema. Descreve uma sociedade contemporânea preocupada com o dinheiro. Retrata a realidade e mesquinhez dos personagens, através do discurso direto ou indireto. A obra se enquadra no movimento modernista brasileiro, que tem como característica o linguajar simples, coloquial, direto, sem rodeios, nem sentimentalismo. Outra característica é o tempo de ação. A história se baseia em 24 horas de angústia e preocupação em arranjar o dinheiro para quitar a dívida com o leiteiro.

Dyonelio Machado era comunista e critica nessa obra a existência alienada do homem no capitalismo. Revela profunda pesquisa que o autor faz do individual, saindo da parte para chegar ao todo. Faz uma descrição microscópica de gestos, idéias, pensamentos e impulsos dos personagens. Através da influência de Freud em sua formação psiquiátrica, ele sabe que é através dos pequenos traços que iluminam as atitudes, ações, e comportamentos do ser humano, onde os valores dissolvem e perdem o sentido. Trata-se de uma leitura complexa onde o narrador semeia os vestígios e o leitor se converte em investigador.

O autor retrata o problema enfrentado por Naziazeno e o leiteiro que entrega o leite que alimenta seu filho Mainho. Por falta de pagamento por vários dias consecutivos, o leiteiro adverte a esposa de Naziazeno, Adelaide, que ele terá apenas mais um dia para quitar a dívida de 53 mil réis referente ao leite da criança e deixa um recado “Lhe dou apenas mais um dia”. A esposa apavorada recorre a Naziazeno que não tem meios para resolver o problema.

 

Resumo de Os Ratos

Em apenas 24 horas intermináveis o autor retrata toda a angústia, desespero e humilhação do protagonista em conseguir o dinheiro para quitar a dívida com o leiteiro. Naziazeno pensa em solicitar ao Diretor da repartição, Dr Romeiro, que já o socorreu outras vezes quando seu filho estava doente.

Ao chegar ao trabalho ele tentou várias vezes encontrar o Diretor e todas foram sem sucesso. Ficou horas a esperar pelo Diretor, procurou no canteiro de obras, na repartição e tudo em vão.

Ele dividiu sua preocupação com Alcides que propôs ajudá-lo e disse-lhe para procurar o Andrade que lhe devia uma comissão. Após andar sob o sol por vários quarteirões e chegar a casa de Andrade, corretor da rua quinze, este lhe disse que não devia nada ao Alcides e que ele recorresse ao subgerente do New York Bank, pois ele é quem devia lhe pagar a comissão. Naziazeno vai embora frustrado, pois já passa da hora do almoço e ainda não tem uma solução para seu problema. Pensou em procurar o subgerente para receber a comissão, mas achou melhor conversar primeiro com Alcides, mas não o encontrou. Procurou-o por vários cafés e nada de encontrá-lo. Resolveu ir à procura do subgerente que estava de viagem para o Rio.

Como o horário de almoçar já havia passado, Naziazeno tinha fome, muita fome, mas não tinha dinheiro para o almoço. Precisava arranjar dinheiro para o almoço. Ele queria encontrar com Otávio Conti. A caminho do local para encontrá-lo ele se deparou com Costa Miranda a quem pediu dez mil réis para almoçar. Ele lhe deu 5 mil réis e mandou um recado ao Alcides, que quitasse a letra com o agiota e limpasse seu nome.

Após conseguir o dinheiro Naziazeno fica na dúvida se irá almoçar, pois àquela hora já não tinha mais nada de bom para comer. Ao andar pela rua e observar os restaurantes se deparou com uma roleta nos fundos de uma Tabacaria. Ele já estava zonzo de fome, mas apenas tomou uma água e decidiu tentar a sorte no jogo. Após várias tentativas, umas com sorte e outras sem, ele perde os 5 mil réis. Ele não tem mais noção do tempo.

Sai andando pelas ruas sem rumo e se depara com um senhor de meia idade a quem já recorrera antes e teria que resgatar um título. Explicou-lhe as suas dificuldades e solicitou-lhe outro empréstimo que foi negado. Suplicou, explicou que não tinha almoçado, mas o homem apenas disse que entendia sua dificuldade, mas que não poderia ajudar. Naziazeno o segue e através de seu desespero solicita de novo e lhe é novamemte negado. O home quer fugir dele, mas ele continua em sua insistência. O home sobe no bonde e o deixa para trás.

Perdido mais uma vez, ele fica a andar sem rumo. Passa por ruas com pequenas construções, se depara com um rio e areia e continuar a vagar perdido. A tarde chega.

No limite de seu desespero ele consegue penhorar a jóia de um amigo e resolve seu problema temporariamente. Compra presentes para a esposa e Mainho, seu filho e vai para casa no início da noite. Após o jantar ele se deita, mas não consegue dormir e pensa em ratos roendo seu dinheiro. Sua frio, pois ele tem a certeza de novas inquietações e angústias, pois ao amanhecer ele se deparará com as mesmas preocupações e dívidas e  ao iniciar outro dia caminhará em busca de uma solução.

 

Tema

O tema da obra Os Ratos é a massificação do homem contemporâneo, sozinho na multidão. O autor prima pela análise psicológica que relata o drama financeiro de um homem comum, que trabalha em uma repartição, cercado de pessoas preocupadas consigo mesmas.

Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

A bíblia

       

Resumo dos Livros da Bíblia

PENTATEUCO = 5 primeiros livros da Bíblia, escritos por Moisés, também conhecidos como Lei de Moisés.

GÈNESIS = O princípio, o viveiro das gerações, nele se encontra todos os começos das doutrinas referentes a Deus, o homem, o pecado e a salvação.

ÊXODO = “Saída” refere-se à poderosa libertação de Israel, da escravidão do Egipto, saindo como povo de Deus, povo salvo, amparado e tendo acesso a Deus.

LEVÍTICO = Contém as leis que Deus deu a Moisés. Exige Santidade do adorador a Deus e ensina manter comunhão com Deus, através do sangue expiador.

NÚMEROS = Registra o censo de Israel, antes e depois da entrada em Canaã. O livro trata da fé que Deus requer de seu povo, dos castigos e juízos contra a rebelião.

DEUTERONÓMIO = Segunda Lei, resumo da história do povo de Israel, exortações e admoestações, a transmissão de cargo de Moisés para Josué.

LIVROS HISTÓRICOS

JOSUÉ = 1405 A. C. Filho de Num, um dos espias fiéis, sucessor de Moisés mandou o sol deter-se, morreu com 110 anos, Sexto Livro narra a consumação, redenção, conquista e possessão do povo de Deus.

JUÍZES = Conta a história do povo de Deus durante trezentos anos, habitando na terra da possessão, segundo a tradição e da autoria de Samuel.

SAMUEL = Profeta, último dos Juízes. Julgava em Betel, Gilgal e Mispa. Ocupa-se de três importantes transições, Eli para Samuel, Samuel para Saul e de Saul para David 1010 A.C.

RUTE = 1375 – 1050 A.C. Moabita, entra na genealogia do Messias, Rute tipifica a igreja como a noiva gentia de Cristo.

REIS = 560 – 550 A.C., a história de Salomão, dos Reis de Israel e dos Reis de Judá, englobam mais de quatrocentos anos da morte de David até a destruição do reino de Judá.

CRÔNICAS = 450 – 420 A.C., Livro Eclesiástico e Sacerdotal foi escrito por Esdras para os judeus que retornaram do exílio para a Palestina.

ESDRAS = Sacerdote e escriba, revisou e editou as escrituras depois que voltou do cativeiro, durante os reinados de Ciro, Smerdes, Dario, Histaspis, Xerxer e Artaxerxes.

NEEMIAS = Copeiro do rei persa, o Livro encerra a história do A.T., mostra a importância da renovação espiritual e mostra o que Deus faz em favor dos que guardam sua palavra.

ESTER = 400 A.C. – estrela – escolhida num concurso de beleza para ser esposa do rei Assuero, usou da sua posição para salvar o povo de Deus da destruição.

LIVROS POÉTICOS

JÓ = íntegro, reto, temente a Deus, viveu 200 anos, provavelmente Jô foi contemporâneo de ABRAÃO 2000 A.C, o autor do Livro pode ter sido o próprio Jô ou até Moisés. A Providência de Deus.

SALMOS = Hinário oficial de Israel, é o livro dos louvores, o homem falando a Deus, são autores; David, Asafe, Salomão, Moisés, Esdras, Ema, Etã, Ezequias, Jedutum e os filhos de Core.

PROVÉRBIOS = Máxima, Adágio, Ditado, expressa em poucas palavras o que se tornou popular. Tem o propósito de dar sabedoria prática tendo como fonte e base o caráter cristão Salomão, Agur, Lemuel e outros são autores.

ECLESIASTES = Escrito por Salomão 935 A.C, na sua velhice e no final de seu reinado quando o seu pecado o separava de Deus denota que riquezas, posição, sabedoria, não satisfazem, mas trazem cansaço e decepção.

CANTARES = É a alegria do amor do Esposo pela esposa – a igreja. É o único livro da Bíblia que trata exclusivamente do amor conjugal – “Cântico dos Cânticos”, 960 A.C

PROFETAS MAIORES

ISAÍAS = Salvação, “Quinto Evangelho”, 700 A.C., chamado de Profeta Messiânico, homem culto e poeta, seu livro confrontou as nações mostrando o pecado, o castigo e anunciando a Salvação.

JEREMIAS = Profeta das Lágrimas, este livro foi escrito para revelar o Juízo Divino contra os rebeldes, apóstatas e autoridade da palavra profética.

LAMENTAÇÕES = É um apêndice do Livro de Jeremias, 600 A.C., é lido em voz alta, no dia 09 de ABIB (julho) em todas as sinagogas do mundo. Expressa tristeza e dor emocional por Jerusalém.

EZEQUIEL = Profeta do Cativeiro, em Babilônia todos os 22 anos de seu Ministério, teve o mesmo propósito de Jeremias, e ressaltou a responsabilidade pessoal de cada um com Deus.

DANIEL = Contemporâneo de Jeremias, Ezequiel, Esdras e Lorobabel, serviram a três reis: Nabucodonosor, Ciro e Dario. Seu Livro serve de introdução à profecia do N.T. concernente ao anticristo, à Grande Tribulação, à vinda do Senhor, à ressurreição e aos Juízos. É o Apocalipse do Antigo Testamento.

PROFETAS MENORES

OSÉIAS = Seu Ministério durou 60 anos é o mais longo de todos. A profecia de Oséias foi a última tentativa de Deus de levar o povo a arrepender-se de sua idolatria, Julgamento e Redenção de Deus.

JOEL = Predisse a era do Evangelho e o derramamento do Espírito Santo e o Grande Dia do Senhor. Quando jovem conheceu o profeta Eliseu – Arrependimento, a chave do livro.

AMÓS = 755 A.C., durante seu Ministério a idolatria, a imoralidade, o hipocrisia, opressão aos pobres estavam em alta. Ele com coragem pregava: Justiça, Retidão, Retribuição Divina, pelo pecado.

OBADIAS = Menor Livro do A.T., nada se sabe sobre sua Genealogia, seu livro foi escrito depois que Nabucodonosor destruiu Jerusalém. Revelação da ira de Deus contra os Edomitas.

JONAS = Era Galileu da cidade de Gate-Hefer perto de Nazaré. É o livro Missionário no A.T., sua mensagem é: Deus é também Deus dos Gentios. A Misericórdia Divina 760 A.C.

MIQUÉIAS = Profeta do Campo, humilde de família, condenava os governantes corruptos, falsos profetas, sacerdotes ímpios, pregava as severas conseqüências do povo e seus lideres que não se convertiam.

NAUM = Seu livro é a obra-prima da Literatura Hebraica. Deus o usou para pronunciar a destruição eminente da ímpia e cruel NÍNIVE, e ao mesmo tempo consolar o povo de Deus.

HABACUQUE = Um levita cantor do Templo, pregou “O Viver Pela Fé”, sua profecia começa com perguntas e mistérios, mas termina com Certeza, confirmação e fé.

SOFONIAS = Tataraneto do Rei Ezequias, profetizou durante o reinado do Rei Josias, seu objetivo foi advertir sobre a apostasia de Judá, Jerusalém e as nações pagãs ao derredor, avisando-as da justa retribuição pelas suas iniqüidade.

AGEU = Já era velho quando profetizou, Homem de Grande Fé, nos tempos mais difíceis. Sua mensagem era exortar o Governador o Sumo Sacerdote e o povo a Reedificar o Templo. 520 A.C.

ZACARIAS = Profeta e Sacerdote, seu primeiro propósito foi encorajar o povo a concluir o Templo, o segundo, fortalecer os Judeus a esperar o aparecimento do Messias – 470 A.C.

MALAQUIAS = 420 A.C., última exortação do A.T., “Lembrai-vos da Lei de Moisés”. Os judeus viviam em declínio espiritual, eram cínicos e questionavam a Justiça de Deus. Malaquias pregava para que se arrependessem e voltassem ao Senhor, pois viria o grande e terrível dia do Senhor.

OS EVANGELHOS E ATOS

MATEUS = “Dom de Deus”, antes chamava Levi-publicano, recebedor de impostos, único livro do N.T. escrito em hebraico. O tema central é Jesus-Messias-Rei escrito em particular para os judeus, expondo Jesus como Messias e provando pela linhagem de David o direito Dele ser Rei de Israel.

MARCOS = João Marcos, escreveu esse livro em Roma e destinou-o aos crentes romanos 60 A.C. Os crentes eram torturados e mortos pelo imperador.

Marcos escreveu para fortalecê-los na fé e se necessário inspirá-los a sofrer pelo Evangelho, seguir o modelo de Cristo.

LUCAS = ” O Médico Amado “.É o único evangelho que registra acontecimentos da infância de Jesus. Deixa bem claro que foi escrito para os gentios, mostra Jesus como o Salvador-Divino-Humano. Que veio com a provisão divina da Salvação para todos. 63 D.C.

JOÃO = ” O Discípulo Amado”, foi escrito para a igreja geral. Não registra nenhuma Parábola. Seu propósito “Para que Creiais que Jesus é o Cristo, é o Filho de Deus, e que Crendo Tenhais Vida em Seu Nome” 90 D.C.

ATOS = É a História do Cristianismo, desde a ascensão de Cristo até o início do Ministério de Paulo no ano 63 D.C., os eventos em Atos abrangem um período de 33 anos, foi escrito a Teófilo por Lucas, mas extensível a toda igreja A Propagação do Evangelho pelo Poder do Espírito Santo.

EPÍSTOLAS PAULINAS E HEBREUS

ROMANOS = 53 D.C., carta dirigida aos irmãos Romanos e levada pela irmã Febe, seu propósito era registrar por escrito o que já se pregava a 25 anos e corrigir certos problemas da igreja causados por atitudes erradas.

CORÍNTIOS = Corinto era a maior cidade da Grécia e capital de Acaia, província romana. Era uma igreja que não levava a sério a questão dos pecados, por isso Paulo advertiu-os sobre vários assuntos doutrinários de conduta e pureza – 55 D.C.

GÁLATAS = 49 D.C., Paulo escreveu esta carta à igreja da Galácia para demonstrar que as exigências da lei nada têm a ver com a operação da graça. Seu tema é: a Justificação e a Salvação mediante a fé em Cristo.

EFÉSIOS = 62 D.C. Quando estava preso em Roma escreveu esta carta. Era a cidade da deusa Diana. Seu templo era uma das sete maravilhas do mundo.

FILIPENSES = 63 D.C. Filipos capital da Macedónia, a igreja foi fundada por Paulo, Silas, Timóteo e Lucas, na 2ª viagem. Esta carta foi escrita para agradecer os irmãos pela oferta generosa e exortar os crentes a conservar a Unidade, a Humildade, a comunhão e a Paz.

COLOSSENSES = Colosso grande cidade da Frigia, Ásia Menor, perto da Laudicéia. Foi escrita esta carta com o propósito de prevenir os crentes contra uma mistura de Judaísmo e filosofia pagã, que se infiltrava na igreja e mostrar a verdadeira nova vida em Cristo.

TESSALONICENSES = 51 D.C. Tessalónica cidade da Macedónia com 200.000 habitantes. Paulo expressa sua alegria pela fé e perseverança dos crentes desta igreja diante às perseguições e os instrui a andar na santidade e piedade, alertando-os para volta de Cristo.

TIMÓTEO = 65 D.C. Primeiro Bispo de Éfeso, onde morreu martirizado. Paulo escreveu esta carta exortando Timóteo a respeito de seu Ministério, vida pessoal, para defender a pureza do evangelho, alertar contra falsos mestres e dar instruções sobre vários assuntos e problemas de ÉFESO.

TITO = É uma carta pessoal de Paulo a um de seus auxiliares mais jovens, é chamada de “Epístola Pastoral ” porque trata de assuntos relacionados ao ministério da igreja, a Sã Doutrina e as boas obras. Tito era pastor na ilha de Creta, no mar Mediterrâneo.

FILEMON = Mais uma carta pessoal de Paulo. Filemon era um senhor de escravos e membro da igreja de Colossos. O objetivo desta carta era interceder por Onésimo, um escravo fugitivo, condenado à morte, mas agora convertido, retorna como irmão em Cristo.

HEBREUS = Carta de autor desconhecido supõe-se que, talvez seja Lucas. Foi escrita aos cristãos judeus que estavam sendo perseguidos para fortalecê-los na fé e mostrar a superioridade e finalidade da revelação e redenção da parte de Deus em Jesus Cristo e animá-los a manterem firmes suas confissões de Cristo até o fim.

EPISTOLAS GERAIS E APOCALIPSE

TIAGO = 49 D.C. Irmão do Senhor Jesus, foi apedrejado até a morte, Pastor da igreja em Jerusalém. Sua carta é para encorajar os crentes que punham sua fé à prova exortar e instruí-los concernentes ao resultado da fé, na vida de retidão e boas obras.

PEDRO = Cefas. Anteriormente chamava-se Simão, foi martirizado por decreto de Nero e segundo a tradição crucificado de cabeça para baixo. Na primeira carta o objetivo era animar os crentes, na segunda advertir contra os falsos ensinos dos homens.

JOÃO = 85 D.C. O apóstolo do amor, nestas cartas expõe e rebate os erros doutrinários e éticos de falsos mestres, falsos obreiros, alertando-os a não recebê-los, nem auxiliá-los, e exortá-los à verdade e a justiça ao andar em retidão e fidelidade.

JUDAS = 80 D.C. Irmão do Senhor Jesus e Tiago. Judas escreve esta carta para energicamente conclamar todos os verdadeiros crentes a “Batalhar pela Fé que uma vez foi dada aos Santos “. ( V .3)

APOCALIPSE = 96 D.C. Livro das Revelações A Consumação e o Conflito dos Séculos. É o último livro da Bíblia e singular, é ao mesmo tempo uma revelação do futuro, uma profecia e em conjunto de sete cartas. O Livro é uma revelação Divina quanto à natureza de seu conteúdo, uma profecia quanto à sua mensagem e uma epístola quanto aos seus destinatários.

Foi escrito por João quando estava desterrado na ilha de Patmos por ordem de Domiciano Imperador Romano.

O Pagador de Promessas

O Pagador de Promessas foi escrito em 1959 por Dias Gomes. O texto é “brasileiríssimo” e retrata a miscigenação religiosa do país. Muitos críticos e especialistas consideram o texto “um instante de graça” sintetizado por uma perfeita estrutura.

Dias Gomes destaca a sincera devoção e ingenuidade do povo em contrapartida à burocratização da organização interior católica. Através da insistência do protagonista e herói da peça, Zé do Burro, em levar adiante a “paga” de sua promessa apesar da argumentação da igreja, da perda amorosa e da lei, o autor, explora a força da fé popular.

A obra é escrita para o teatro e está dividida em três atos.
Resumo

Zé do Burro era um homem simples e trabalhador que vivia com a mulher, Rosa, e com um burro de estimação a que tinha muito apego.

O burro machucara-se na cabeça e Zé, desesperado, prometera à Santa Bárbara que dividiria suas terras com os necessitados e carregaria uma cruz tão pesada quanto a de Jesus Cristo até o altar da igreja cuja santa era padroeira caso salvasse o animal. A promessa fora feito em um terreiro de candomblé por não haver tal igreja em sua cidade.

Zé saiu com a esposa, Rosa, do interior da Bahia em direção a Salvador para pagar a promessa. A viagem durou cerca de 24 horas e quando chegaram à igreja, Rosa insistiu que ele deixasse a cruz na porta, mas Zé recusou-se, alegando que a promessa era de levar até o altar.

Enquanto esperavam na escadaria presenciaram a discussão do cafetão, Bonitão, e a prostituta, Marli. Quando Marli foi embora, Bonitão se aproximou do casal indicando a Zé que tentasse a porta lateral e ficou se insinuando para Rosa.

Bonitão convidou os dois para pousar em sua casa, mas apenas Rosa aceitou o convite, pois Zé recusou-se a abandonar a cruz.

Quando o padre abriu as portas da igreja, ouviu a história do Zé do Burro e descobriu sobre o candomblé, proibiu a entrada dele. Muitos curiosos se juntaram em frente à igreja defendendo o pagador de promessa.

A imprensa apareceu, um guarda tentou convencê-lo a partir e depois mudou de idéia, a Rosa voltou arrependida, o superior do padre propôs que ele fosse embora, a Rosa foi embora novamente com o Bonitão, alguém atirou e feriu mortalmente o Zé, os policiais foram embora, o padre sofreu com a culpa e o corpo do Zé foi colocado sobre a cruz e levado para dentro da igreja.

O Vampiro de Curitiba

O vampiro de Curitiba talvez seja o livro mais conhecido de Dalton Trevisan. Dedicando-se exclusivamente ao conto (só teve um romance publicado: A Polaquinha), Dalton Trevisan acabou se tornando o maior mestre brasileiro no gênero. Em 1996, recebeu o Prêmio Ministério da Cultura de Literatura pelo conjunto de sua obra. Mas Trevisan continua recusando a fama. Cria uma atmosfera de suspense em torno de seu nome que o transforma num enigmático personagem. Não cede o número do telefone, assina apenas “D. Trevis” e não recebe visitas – nem mesmo de artistas consagrados. Enclausura-se em casa de tal forma que mereceu o apelido de  O Vampiro de Curitiba, título de um de seus livros. Mestre na arte do conto curto e cruel, é criador de uma espécie de mitologia de sua cidade natal, Curitiba. O vampiro de Curitiba teve seus contos lidos na Rádio Educativa, nas leituras dramáticas e em oficinas. São pequeníssimos textos: leves, românticos, eróticos, existenciais… Mas tudo sempre inteligente e recheado de humor – às vezes negro.

O vampiro de Curitiba, Dalton Trevisan. Escrito assim, pode ser tanto o nome de um livro, seguido de seu autor, quanto uma explicação. O autor guarda informalmente o codinome de vampiro desde 1965, quando publicou o metafórico O vampiro de Curitiba. Desde então, o escritor paranaense alimenta a lenda em torno da própria figura envolta pelo mistério da reclusão. No conto que batiza essa coletânea, ele auto-ironiza sua estranha maneira de “promoção delirante”, mas não é pela mania de viver escondido que o leitor se sente sugado pelas mini-histórias.

Não deixa de ser um de seus principais personagens; recluso em sua vida pessoal a ponto de ser conhecido pela alcunha de um de seus livros – O Vampiro de Curitiba.

Um livro que se quer como novela, mas que cada unidade tem autonomia em relação às outras, e que inaugura uma .poética do vampirismo. As ações não ultrapassam as fronteiras que as separam, podendo ser lido como um livro de contos. O herói e sua tara, que na primeira parte revela a sua maldição: é obcecado por fêmeas, servem como elemento aglutinador destas narrativas. Não há descrições detalhadas. É o próprio personagem que se revela ao leitor ao revelar sua tara. Atormentado pelo desejo carnal, o herói se dilacera na busca constante do outro.

Foco Narrativo

Apenas os contos  O Vampiro de Curitiba e O herói perdido são escritos em 1ª pessoa.

Espaço

Alguns contos têm como cenário a cidade de Curitiba. No conto Visita à professora, o espaço mencionado é São Paulo. O narrador menciona lojas, ruas, igrejas, botequim.

Tempo

Não há flashbacks; Nelsinho tem idade diferente nos contos; os contos não estão em ordem cronológica.

Linguagem

linguagem coloquial, com termos vulgares (“grande cadela”); presença de diminutivos (safadinha, taradinha, casadinha); frases incompletas, mas de fácil compreensão (“Ai, eu morro só de olhar para ela, imagine então se.”); predomínio do discurso direto nos contos “Contos dos bosques de Curitiba” e, principalmente, “Arara bêbada”.

Intertextualidade Bíblica

Conto “A noite da paixão”: “terei de beber, ó Senhor, deste cálice?”; “Que se faça tua vontade, Senhor, e não a minha”; “Está consumado”.

Personagem

Nelsinho é o protagonista de todos os contos. Ao longo do livro, Nelsinho percorre uma via crucis, com o objetivo de saciar-se sexualmente com as belas mulheres que encontra nas ruas de Curitiba. Tarado insaciável, voyeur incontido, “não quero do mundo mais que duas ou três só para mim”. É a normalista, a garotinha de família, a professora, nenhuma foge ao fervor de Nelsinho, que, ora bem-sucedido ora nem tanto, vai deixando, nas ruas corrompidas de Curitiba, as marcas em suas vítimas singelas, repletas de ingenuidade e – simultaneamente – de morbidez.

Enredo

Seus contos, quase todos ambientados em sua cidade natal – Curitiba – são impregnados de suspenses e enigmas. Em relatos breves, o autor revela o cotidiano da degradação humana em uma linguagem direta. O Vampiro de Curitiba nos leva ao dia-a-dia de Nelsinho, o vampiro literário personagem dos quinze contos do livro. Um curitibano que segue e assedia velhinhas, senhoras respeitáveis, virgens e prostitutas, agoniado e indeciso entre aquela que “molha o lábio com a ponta da língua para ficar mais excitante”, a viúva toda de preto com joelho “redondinho de curva mais doce que o pêssego maduro”, a “casadinha” que vai às compras e a normalista.

Nelsinho é o personagem que transita por todos os contos, dando unidade ao livro. Obcecado por sexo, ele vagueia pela provinciana Curitiba atrás de suas vítimas, enquanto aos olhos do leitor vai se abrindo o quadro de uma cidade decaída. Cidade em que se esconde um vampiro no fundo de cada “filho de família”, conforme ironiza o protagonista do livro.

Curitiba, esquadrinhada por Nelsinho, que primeiro se vê seduzido pelos braços e pernas de uma sensual garota de outdoor – ou de uma virgem? – e, ao cabo, precipita-se para o círculo infernal mais baixo, para o quarto de um bordel ao lado de uma velha prostituta banguela. Ele é o próprio Drácula nivelado à cidade degradada sob as vestes do cafajeste brasileiro. Nelsinho, assim como o vampiro, é presa da repetição infindável dos seus atos e de sua obsessão, que agravam sua solidão: “Tem piedade, Senhor, são tantas, eu tão sozinho”.

Broquéis

É composto por 54 poemas, demarcados com a presença da cor branca em variados jogos e matizes – seja a presença da luminosidade do luar, da neblina; seja a presença da neve, das imagens vaporosas, dos cristais, como no belíssimo ‘Antífona’, poema de abertura da obra.

‘Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!…
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…
Incensos dos turíbulos das aras…’

A partir de um dos sonetos do livro – Carnal e Místico, define-se a dicotomia que será básica nesses poemas. A carne, a sensualidade e a luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas.
O soneto é a forma poética mais cultivada em ‘Broquéis’ – ainda um traço parnasiano – mas a temática é inteiramente simbolista, bem como determinados recursos verbais inequívocos: estilização de diferentes apoios fonéticos, como a assonância, as aliterações, os cognatismos e as sinestesias, criando assim um universo etéreo, delicado, musical.

‘Musselinosas como brumas diurnas
descem do ocaso as sombras harmoniosas,
sombras veladas e musselinosas
para as profundas solidões noturnas.’

A carne, a sensualidade e luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas. A lasciva da carne atrativa manifesta-se em ‘Lésbia’:

‘…Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente.
Das flamejantes atrações do gozo…’

Como revela este soneto, o transcendental de Cruz e Souza não se define claramente. Não se trata do ‘céu’ de nenhuma religião concreta. Sempre vagas são as expressões que a ele se referem: naves do Infinito, regiões tenuíssimas da bruma, mundos ignorados, vagos infinitos, branco Sacrário das Saudades, Estrelas do Infinito, Azuis dos siderais Empíreos, Azuis etéreos.
Essa mesma indefinição vaga caracteriza as referências reiteradas ao tema do sonho, bem como a redução frequente de tudo a ‘quimera’.
Os dilaceramentos paradoxais, a busca ansiosa de uma realidade satisfatória, o confronto dos débitos carnais com as aspirações místicas conduzem o poema a temáticas vigorosas, densas, trágicas e dramáticas, atingindo até o grotesco. São explosões de vida que se torturam na ânsia de realização, impedidas por barreiras, convenções ou preconceitos. A própria seleção vocabular densifica esse vigor dinâmico impresso nos versos: o poeta se refere a Satã como capro e revel, com bizarros e lúbricos contornos e báquicos adornos. A adjetivação carrega de particular intensidade dramática a realidade enfocada, como em ‘a torva Morte horrenda,/ atra, sinistra, gélida, tremenda’. Ou então é a tortura eterna da expressão arística que angustia o poeta:

‘Ah’ que eu não possa eternizar as dores
nos bronzes e nos marmóreos eternos.’

Broquéis é um livro de poesia maior. O Simbolismo nele refulge na sua linguagem colorida, exótica e vigorosa; na abstração vaga e diluída de toda a materialidade; na imprecisa mas dominante tendência mística, envolvendo todo um vocabulário litúrgico; na linguagem figurada, constantemente /*Se em ‘Broquéis’ predominam os sonetos, integram ‘Faróis’ menos sonetos e mais poemas longos. Se no livro anterior já emergia a concepção dramática da vida, em ‘Faróis’ se intensifica esse senso trágico da existência atingindo níveis de morbidez e satanismo. Conscientiza-se o poeta cada vez mais do seu em paredamento. Avoluma-se sua angústia ante o destino inclemente, como estabelece claramente ‘Meu Filho’, um dos raros poemas referentes à família:

‘Ah! Vida! Vida! Vida! Incendiada tragédia.
Transfigurado Horror, Sonho transfigurado,
Macabras contorções de lúgubre comédia
Que um cérebro de louco houvesse imaginado’.

Pemas como ‘Pandemonium’, ‘A Flor do Diabo’, ‘Tédio’, ‘Caveira’, ‘Música da Morte’, ‘Inexorável’, ‘Olhos de Sonho’, ‘Litania dos Pobres’ constituem alguns exemplos que acentuam os aspectos trágicos, macabros e mesmo satânicos da existência, conduzindo a cenas e descrições dramáticas. O poema final – ‘Ébrios e cegos’ – sintetiza, em cores negras, esse quadro trágico da existência:

‘Mas ah! Torpe matéria!
Se as atritassem, como pedras brutas,
Que chispas de miséria
Romperiam de tais almas corruptas!.’

Laços de Família

A obra Laços de Família, lançada em 1960, constitui o ápice da carreira literária de Clarice Lispector, além de constar do cânone literário nacional como um dos melhores livros de contos da história da literatura brasileira. Suas treze narrativas enfocam particularmente o universo da vida em família na classe média do Rio de Janeiro.

Seus personagens parecem estar sempre encarcerados na coexistência familiar e atados ao ambiente domiciliar por laços que não se desfazem, reféns de um cotidiano monótono e indistinto. Clarice recorre à técnica do fluxo de consciência para narrar suas histórias; através deste recurso o leitor pode estar ciente do que se passa no interior das protagonistas dos contos.

Esta prática da autora a inclui no rol das criadoras de uma literatura considerada psicológica ou introspectiva. Suas criaturas, sempre ansiosas para fugir de uma existência padronizada e profundamente atrelada às convenções sociais, embora presas a esta vida que flui inesgotavelmente de uma geração para outra, atingem inesperadamente outra margem do existir, sua esfera enigmática, imprevista, distinta da rotina humana. Ainda que não logrem compreender esta outra dimensão, nada as impede de navegar em suas ondas.

Os contos de Clarice assumem um tom cético e desencantado com relação às interações familiares, impregnadas de segundas intenções e de preocupações com as aparências sociais. Por essa razão suas personagens só alcançam a si mesmas através de referências externas; desta forma a procura da identidade percorre os mesmos caminhos que atingem o outro, não necessariamente um ser humano, mas igualmente um artefato ou um animal.

Seus contos mais célebres são Amor, Uma Galinha e Feliz Aniversário, embora também se destaque Devaneio e Embriaguez duma rapariga. Na primeira história, Devaneio e Embriaguez duma rapariga, a protagonista, uma portuguesa, passa subitamente a criar devaneios interiores diante de um espelho, abrigando-se depois embaixo da cama, o que assusta seu cônjuge. Com o retorno dos filhos para casa, a rotina se instaura novamente, até a jovem senhora participar de um encontro entre o esposo e seu patrão. Ela bebe além dos limites, mas se mantém protegida pelo marido; sente o prazer da vida dentro de si e, ao se comparar a uma bela moça presente no recinto, reassume sua auto-estima e a feminilidade, aceitando seu papel de mulher e mãe.

Em Amor, Ana, esposa e mãe, sempre tão aparentemente serena e amorosa, sente sua vida cotidiana se desmoronar quando, um dia, em sua tarefa rotineira de fazer compras, depara-se com um cego que a incomoda ao mascar automaticamente seu chiclete; quando o bonde freia subitamente, seus ovos se quebram e ela fica conturbada. Decide então andar pelo Jardim Botânico e se deixa contagiar pela beleza do lugar, que a lembra inesperadamente dos terrores infernais. O tempo passa e ela fica presa neste lugar, refletindo sobre a loucura de sua vida rotineira, enquanto o cego e sua atitude assumem outra conotação. Ela retoma sua vida, mas agora detém um novo olhar sobre ela, impregnado de um incômodo persistente.

No conto Uma Galinha, uma ave destinada a servir de comida para a família que a cria foge instintivamente para preservar sua existência, é furiosamente perseguida pelo chefe da casa, inesperadamente põe um ovo, torna-se símbolo da feminilidade e, anos depois, despojada de seu status sagrado, deixa de ser poupada e é consumida por todos.

Na história Feliz Aniversário, D. Anita celebra seus 89 anos. Seus familiares aí se encontram, mas não movidos por laços de amor, e sim por meras convenções sociais. Nenhum afeto se manifesta, apenas emoções compulsórias e desprovidas de naturalidade. Enojada deste comportamento, a protagonista cospe durante o evento, mas seu ato é atribuído a sua faixa etária. Quando um dos filhos anuncia o retorno da família no próximo ano, a personagem se sente vitoriosa, mais forte que seus parentes, que suas atitudes vulgares.

A paixão segundo G. H.

A paixão segundo G. H., romance da escritora Clarice Lispector, foi publicado em 1964 e, assim como em suas outras obras, os fluxos de consciência permeiam todo o livro. É uma criação angustiante e inquietante. Clarice transmite ao leitor as preocupações emocionais da personagem G.H, mulher bem sucedida profissionalmente, porém não conhece sua identidade, portanto, busca o conhecimento interior.

G.H. não tem nome, fato que a faz identificar-se com todos os seres. O enredo aparentemente tolo – a demissão da empregada doméstica faz com que a patroa faça uma faxina no quarto da funcionária, onde encontra uma barata – se torna um momento de profunda reflexão existencial. Ao ver e encarar a barata, ao esmaga-la e ao comê-la, a protagonista encontra a verdadeira razão de estar no mundo.

RESUMO

Seis meses após a demissão da empregada doméstica, G.H. resolve fazer uma arrumação no antigo quarto da funcionária, ao entrar ali ela emerge em seu próprio vazio interior. Tomada pela aflição ela procura algo para fazer, mas não há nada. Até que surge uma barata saindo do guarda-roupa; nesse instante a personagem é tomada por uma consciência de solidão.

A protagonista é tomada pelo nojo da barata, mas precisa enfrentá-la, tocá-la e provar o seu sabor. A náusea que a toma violentamente representa a angústia que antecede a epifania e resulta na dolorosa sensação de fragilidade da condição humana.

Com o intuito de retomar seus instintos primitivos, G.H. deve enfrentar a experiência de provar o gosto do inseto. O provar simboliza uma reviravolta em seu mundo alienado, imune e condicionado. Após o ocorrido é que a personagem se dá conta do seu verdadeiro estar no mundo. É tanto que depois ela tem dificuldades em narrar a sua impotência de descrever os fatos.

    Só à ideia, fechei os olhos com a força de quem tranca os dentes, e tanto apertei os dentes que mais um pouco eles se quebrariam dentro da boa. Minhas entranhas diziam não, minha massa rejeitava a da barata.

    Eu parara de suar, de novo eu toda havia secado. Procurei raciocinar com o meu nojo. Por que teria eu nojo da massa que saía da barata? não bebera eu do branco leite que é líquida massa materna? e ao beber a coisa de que era feita a minha mãe, não havia eu chamado, sem nome, de amor?

    […]

    Sabia que teria que comer a massa da barata, mas eu toda comer, e também o meu próprio medo comê-la. Só assim teria o que de repente me pareceu que seria o antipecado: comer a massa da barata é o antipecado, pecado seria a minha fácil.

    O antipecado. Mas a que preço.

    Ao preço de atravessar uma sensação de morte.

    […]

    LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G. H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998

O livro pode ser entendido como uma alusão ao sofrimento da Paixão de Cristo, relatada por Mateus, Marcos, Lucas e João.

A paixão segundo G.H. é uma obra que ecoa existencialismo, portanto, é considerada como uma luz sobre o entendimento da condição humana.