Os Maias

Os Maias do escritor português Eça de Queirós é leitura obrigatória para quem deseja passar com louvor num vestibular disputado ou melhorar as notas de Literatura na escola. Sua importância é tamanha, pois Eça é considerado dentre os autores de ficção em língua portuguesa, um dos mais relevantes. A obra se torna ainda mais interessante ao revelar-se uma análise – algumas vezes crítica – da alta sociedade de Lisboa, sendo denominada por Eça como “cenas da vida portuguesa”. “Os Maias” faz parte de uma trilogia, composta ainda por “Primo Basílio” e “O Crime do Padre Amaro”, que também retratam em alguns trechos a vida da burguesa portuguesa e o conflito de valores com os mais humildes. De forma muito forte para alguns, o escritor utilizou o livro para criticar a hipocrisia e os vícios daquela sociedade. O principal papel do livro acaba sendo o de forçar o leitor a refletir sobre os ócios e virtudes que fazem parte da vida de cada indivíduo, e como o papel da sociedade é capaz de moldá-lo.

 

Triste vida e morte

Pedro da Maia era filho único de Afonso Maia, um rico e nobre proprietário. Dona Maria Eduarda Runa, esposa de Afonso, deu ao filho uma educação exacerbadamente rígida e religiosa, criando um garoto assustado e de caráter fraco. Quando se torna adulto, mesmo contra a vontade de seu pai, Pedro acaba por casar-se com Maria Monforte, filha de um antigo negreiro e com quem teve duas crianças, uma menina e um menino.

Para infortúnio de Pedro, sua esposa conhece Tancredo, um príncipe italiano, apaixona-se e acaba por fugir com ele levando Maria Eduarda, sua filha. O menino filho do casal, Carlos, é deixado para trás e fica com o pai. Pedro da Maia nunca foi razoável ao lidar com perdas, sempre fora um garoto melancólico, deprimido. O estado agravou-se quando sua mãe faleceu, e perdendo agora a esposa que tanto amara, não sabia como suportaria. E de fato, não suportaria. Desiludido com a vida após ter sido deixado tão bruscamente e sequer saber o paradeiro da filha que foi levada por sua esposa juntamente com o amante, acaba por cometer suicídio, deixando Carlos para ser criado por seu pai, o senhor Afonso.

O avô cria Carlos com todo o zelo e carinho possíveis, dando uma forte educação britânica que pudesse preparar o rapaz para os melhores empregos e estudos, e apenas depois focando em religião. Posteriormente, o rapaz iria para Coimbra estudar Medicina, tornando-se então um médico formado.
O retorno e o reencontro

Após finalmente formar-se, Carlos retorna para Lisboa, onde decide exercer com afinco sua profissão. O status de médico lhe rendeu muitas paixões e o rapaz não tinha pudores em relacionar-se com diversas mulheres, mesmo as casadas, provocando profunda reprovação em seu avô. Entre suas amantes estavam Madame Castro Gomes e Gouvarinho.

Carlos é educado pelo avô, Afonso, que segue a doutrina britânica. Após formar-se em Medicina, ele regressa a Lisboa, exercendo a sua profissão com gosto e mantendo relações amorosas com mulheres casadas como a condessa Gouvarinho e Madame Castro Gomes.

Madame Castro Gomes era uma moça muito bela, e quando a conheceu Carlos não poupou esforços em saber mais sobre ela. Fica encantado e passa a segui-la, sem êxito. Para sua felicidade, consegue uma aproximação com Madame na ocasião em que sua governanta adoece ela chama o médico para que a diagnostique e a trate. Castro Alves era ausente, e assim Carlos e a Madame passaram a encontrar-se sempre que podiam, como amantes.

Sem conseguir mais esconder seu desejo e necessidade em estar com Madame, Carlos acaba comprando uma casa para instalá-la e encontrarem-se tranquilamente, mas é descoberto por Castro Gomes. Para a surpresa do médico, segundo Castro, Madame não era sua esposa, e sim sua amante, então Carlos poderia ficar com ela sem maiores problemas.
Passado revelado

Tudo parecia bem entre o casal, até que chega um emigrante de Paris dizendo ter conhecido a mãe de Madame, que na realidade se chamava Maria Eduarda. Ele buscava a moça para lhe entregar um cofre de sua mãe que, conforme o contou, possuía documentos que a identificariam e lhe renderiam uma boa herança. A mãe de Maria Eduarda era Maria Monforte, assim, mãe também de Carlos. O casal de amantes na realidade eram irmãos.

Carlos toma conhecimento da verdade antes de Maria Eduarda e decide esconder o que sabe, mantendo abertamente o relacionamento entre eles. Ao descobrir que o neto ao qual criou cometia incesto conscientemente, Afonso da Maia acaba por morrer de desgosto.

Maria Eduarda acaba descobrindo toda a verdade sobre seu passado e, agora rica pela sua herança, parte para o estrangeiro, abandonando Carlos que, para se distrair, decide correr o mundo.

O Crime do Padre Amaro

O Crime do Padre Amaro, do escritor luso Eça de Queirós, é tido pela crítica como o melhor romance realista português do século XIX e, sem dúvida, um dos melhores de todos os tempos da literatura portuguesa. Trata-se do primeiro grande romance de Queirós, onde o autor critica severamente a sociedade portuguesa mediante os temas: provincianismo e anticlericalismo. Praticamente todos os personagens são apresentados de maneira irônica e sarcástica, sofrendo suas críticas de acordo com a classe que representavam. Como naturalista, o autor apóia-se na ideia de que o homem é moldado e fruto de seu ambiente, do momento histórico em que vive e da carga genética que carrega. Assim, “O Crime do Padre Amaro” acabou se tornando um verdadeiro marco do Naturalismo Português e passou a ser requerido como leitura obrigatória para provas e vestibulares, não somente de Portugal, mas de outros países como o Brasil. É essencial que se leia, ao menos uma vez na vida, essa intrigante obra de Queirós, e recorra-se ao resumo abaixo sempre que for preciso relembrar algum detalhe importante.

 

A carreira de alguém sem vocação

O protagonista da obra é Amaro Vieira, menino de origem humilde, filho de uma criada que faleceu enquanto ele era ainda uma criança. Marquesa de Alegros, patroa de sua mãe, bondosamente o adotou e criou como a um filho, dando-lhe a mesma educação religiosa que dava a suas filhas. Após o falecimento da Marquesa, passou a viver com um tio que se encarregou de encaminhá-lo ao seminário para realizar o sonho de Marquesa de que Amaro se tornasse padre. O garoto não possuía nenhuma vocação para o celibato, mas fez aulas de latim e, ao entrar para o seminário, descobrira que muitos outros garotos eram como ele, sem interesse ou vocação pelo o que estavam ali fazendo.

Nutria os desejos pertinentes à adolescência, sonhando durante as noites com mulheres sedutoras, e vendo na Virgem uma mulher loura e desejável. Era cheio de curiosidade sobre as coisas da vida e do mundo, mas cumpriu o que lhe fora designado e formou-se no seminário.

Foi então enviado para a pequena vila de Leira, onde o nomearam Pároco. Conheceu Amélia, uma bela moça comprometida que facilmente se deixa seduzir por ele. Nasceu uma paixão entre eles, na qual cada um passava seu tempo imaginando o que o outro estaria a fazer, desejando-se nitidamente.
Os encontros da carne

Padre Amaro vivia num meio corrompido, o qual acompanhara desde que entrou para o seminário: mulheres que durante o dia eram beatas e durante a noite eram amantes; padres corrompidos e pervertidos que não respeitavam a lei da castidade, vivendo regados aos prazeres mundanos como qualquer pagão. Amélia, que nunca fora moça de família, não se sentiu incomodada ao tornar-se amante de Amaro, e ambos corrompiam-se sem sentir qualquer peso na consciência.

O que parecia ser terminantemente secreto fora desvendado quando João Eduardo, noivo de Amélia, por sentir ciúmes da atenção que a moça despedia ao padre, decide escrever no jornal da província um comunicado onde criticava e relatava as relações sexuais e românticas que padres e beatas vinham mantendo, desrespeitando o celibato. Ainda, João sugere nomes em seu artigo, sujando a honra de Amélia, que agora era vista por toda a cidade como amante de um homem de Deus.

A polêmica na cidade e o burburinho foram gerais, e entre idas e vindas Amélia acabou por romper o noivado com João Eduardo e tornar-se amante exclusiva de Amaro. Para que ele não perdesse o posto de padre, encontravam-se escondidos, mesmo sabendo que a situação já era de conhecimento geral. A moça acabava tendo crises nervosas algumas vezes, mas nada que prejudicasse o relacionamento.
Fim de vidas por começar

Tudo ia bem, até que Amélia engravida do Padre Amaro. Desesperado, busca uma solução para não ser efetivamente descoberto, chegando até mesmo a supor que a moça deveria casar-se com João Eduardo para que ele lhe assumisse o filho, mas o rapaz havia partido para o Brasil. Para evitar o falatório, Amélia passa a viver enclausurada, sofrendo com tamanha solidão.

Aparece então o abade Ferrão, homem de espírito bondoso e gentil, que cuida da moça paternalmente. Amélia dá à luz, mas acaba falecendo no parto, e seu filho é levado por uma “tecedeira de anjos”, desaparecendo e posteriormente tendo sido dado como morto. Ao chegar para buscar seu filho e saber das mortes, Amaro sente um pequeno remorso, mas segue tranquilamente sua carreira no celibato, apenas cuidando-se para não ser descoberto em novas aventuras. Continuou a ser visto por muitos como um homem de Deus, já que não era possível enxergar em seus olhos toda maldade e sofrimento que causara por seus pecados.

A Divina Comédia

A Divina Comédia é obra prima de Dante Aliguieri, o maior poeta italiano perante crítica e público. Dante nasceu em 1265, e muito se especula sobre a data correta a qual teria sido escrita “A Divina Comédia”, acreditando-se que sua escrita tenha ocorrido entre os anos 1304 e 1321. A obra é tida como um poema, sendo dividida em três partes: Inferno; Purgatório e Paraíso. No livro é narrada a história do personagem Dante, que em determinado momento de sua existência, extremamente desgostoso com o mundo e com a humanidade, recebe a oportunidade de visitar o inferno, o purgatório e o céu, para que assim pudesse refletir de forma profunda sobre como realmente se deve levar a vida e, após a viagem, passar suas conclusões à diante.

O escritor Dante possuía exatamente este desejo ao escrever A Divina Comédia: que as pessoas pudessem refletir sobre como estavam vivendo, como tratavam o próximo, como utilizavam o tão precioso tempo, e como desejariam ser lembradas após sua morte. Dante faleceu razoavelmente jovem – com apenas cinquenta e seis anos – acontecimento que coincidiu com o ano em que se acredita ter finalizado a obra, e sempre fora um patriota fervoroso, o qual até mesmo chegou a se envolver com política, mas decidira abandoná-la ao notar que os políticos não possuíam genuíno interesse algum na nação. Suas reflexões o tornaram um livro mundialmente conhecido e atemporal. No século XIV, quando foi escrito, muitas pessoas viviam de modo frívolo, desperdiçando suas vidas, e isso incomodava Dante profundamente. Nos dias atuais ainda existem pessoas que não conseguem dar a devida atenção aos motivos que, de fato, lhes guiam a vida, e o objetivo de Dante era justamente forçar seus leitores a pensarem a respeito. A Divina Comédia possui tamanha importância que, não apenas no Brasil, mas em diversos outros países, provas para concursos e vestibulares contam com a obra em sua lista de leitura obrigatória para a realização. Assim, esperamos que tire bom proveito do detalhado resumo exposto abaixo, e que possa sempre recorrer a ele em vésperas de provas para relembrar pontos chaves. Frisamos, no entanto, que nenhum resumo substitui o prazer e riqueza encontrados durante a leitura completa da obra original.
Parte 1 – Inferno

No meio de sua vida, Dante se encontra totalmente perdido em uma escura floresta, e sente que sua vida havia saído do caminho correto. Não sabe para onde ir, mas decide que precisa sair da floresta o quanto antes para sobreviver. Avista então uma montanha e logo imagina que ela poderia ser sua salvação, mas ao tentar subir Dante é impedido por três feras: uma loba, um leopardo e um leão.

O que Dante não imaginava é que Beatriz – sua paixão de infância – estava do céu visualizando seu sofrimento e decidira ajudá-lo, indo até o Limbo para pedir a Virgílio que o guiasse. Virgílio era um poeta da antiguidade, muito admirado por Dante, e que decide auxiliá-lo lhe propondo uma viagem: primeiramente adentrariam aos portais do inferno, atravessariam todo o mundo subterrâneo até encontrar Lúcifer, rumariam aos pés do purgatório e de lá partiriam rumo ao paraíso.

Dante aceita a proposta do poeta e o segue. Durante toda a longa viagem, Virgílio protege e guia o rapaz. Chegam à primeira parada e Virgílio mostra a Dante os nove círculos do inferno, o sofrimento de cada condenado, as cidades, os demônios, os monstros e explicando onde os diferentes tipos de pecados são expurgados. No centro da terra encontram Lúcifer, do qual conseguem fugir por um caminho subterrâneo.
Parte 2 – Purgatório

Ao saírem do inferno, Virgílio e Dante se deparam diante do purgatório: uma altíssima montanha, a qual ultrapassava a esfera do ar e chegava a penetrar a esfera do fogo, alcançando o próprio céu. Dante fica grandemente impressionado, pois jamais em sua vida imaginara ver algo parecido.

Aos pés da montanha encontram o ante-purgatório, local onde as pessoas que se arrependeram de seus pecados tardiamente aguardariam a oportunidade de adentrar ao purgatório de fato. Os dois viajantes passam por dois níveis de ante-purgatório e entram na montanha, subindo cada vez mais alto. Passam pelos sete terraços, onde cada um expurga um pecado capital.

Ao chegarem ao topo, Virgílio e Dante se despedem. Através do fogo que separa o paraíso do purgatório, um anjo levaria Dante aos céus. Às margens do rio Letes, Dante se banha para purificar-se e encontra Beatriz, para que possam dar continuidade à viagem.
Parte 3 – Paraíso

Dante encontra o paraíso dividido em duas partes: uma espiritual (onde não existe matéria) e uma material. Passando primeiramente pela material, ele circula pelo céu cosmológico formado por nove círculos e sete planetas. Beatriz o guia para próximo ao Sol e ambos passam a se elevar, como se estivessem “transumanando”. O poeta visualiza personagens como o Imperador Justiniano e São Tomás de Aquino.

Ao chegar ao céu de estrelas fixas, os santos o interrogam sobre suas posições religiosas e filosóficas. Após todo o interrogatório, é permitido a Dante que prossiga sua viagem para o céu espiritual. Lá ele ganha uma capacidade visual nova, a qual lhe permite compreender o mundo espiritual de maneira visual. Separa-se de Beatriz e ganha a Rosa Mística, tendo a chance de sentir o amor divino emanando diretamente de Deus, o qual finaliza a obra como “o amor que move o Sol e as outras estrelas”.

A Hora da Estrela

A Hora da Estrela, obra da consagrada Clarisse Lispector, foi seu último livro. Embora não tenha feito parte da época de ouro da literatura brasileira, juntamente com Machado de Assis, Lispector ganhou espaço com sua maturidade – mesmo quando ainda era bem jovem – e psicologismo. O romance “Perto do Coração Selvagem”, lançado em 1944, foi responsável pela explosão de seu sucesso, deixando todos perplexos em perceber como ela era uma escritora especial. Com o passar de anos e obras, Clarisse era vista como uma romancista excelente, mas escritora alienada das realidades do país – principalmente a política – já que evitava abordá-las em seus livros. “A Hora da Estrela” serviu para encerrar esse paradigma, pois traz uma forte carga política ao abordar o contato do imigrante nordestino com uma cidade grande, como o Rio de Janeiro. Na obra ela mostra que não é nem um pouco alienada, mas não abandona seu típico psicologismo. Clarisse cria um narrador fictício – Rodrigo S.M. – responsável por relatar a vida de uma jovem vinda do Nordeste, refletindo ricamente sobre seus conflitos internos, manias e sonhos.

Triste Infância

Macabéa nasceu em Alagoas e perdeu os pais enquanto era ainda uma pequena criança, tendo pouca ou nenhuma lembrança deles. Acabou sendo criada por uma tia extremamente religiosa e supersticiosa, cheia de tabus e moralismos, os quais acabaram sendo transmitidos para Macabéa.

A pobre garota sofreu uma infância realmente miserável, privada de qualquer conforto, de relacionar-se com amigos e animais de estimação – já que não pôde ter nenhum dos dois –, e sem ter o essencial para a sobrevivência de qualquer ser humano: amor. A tia de Macabéa possuía ainda o mórbido prazer de castiga-la, deixando-a sem a tão desejada goiabada com queijo de sobremesa, além de enchê-la de cascudos na cabeça, raramente precisando de motivos para isso.
Cidade nova, vida nova?

Quando já estava um pouco crescida, Macabéa e a tia acabaram se mudando para o Rio de Janeiro. Numa cidade nova, a jovem sonhava com uma mudança de vida, na qual se tornaria uma estrela de cinema tão famosa quanto Marilyn Monroe, a quem idolatrava. No entanto, sua miserável vida não guinou tanto quanto ela gostaria.

Embora mal soubesse escrever e possuísse muito pouco estudo, a jovem fez um curso de datilografia e conseguiu conquistar um emprego, no qual receberia menos de um salário mínimo. Nesse meio tempo a tia acaba falecendo, e Macabéa deixa de frequentar a igreja.

Passou a viver repartindo um quarto de pensão com quatro moças, balconistas de uma loja. A miséria não havia abandonado a moça, que cheirava mal pelas raras oportunidades que tinha de tomar banho, passava fome – a qual procurava disfarçar comendo pequenos pedaços de papel –, sofria de fortes e persistentes tosses e mal conseguia dormir pela azia que sofria como consequência do café frio que tomava antes de deitar-se.

Os poucos luxos que a moça sustentava era pintar as unhas de vermelho – para roê-las em seguida –, ir ao cinema quando recebia seu salário e comer diariamente Coca-Cola e cachorro quente. Ela desconhecia o que era uma real alimentação quente, a qual toda a população deveria ter direito a usufruir. Era preocupantemente pálida e magra.

Certa vez, Raimundo, chefe de Macabéa, decidiu demiti-la, pois já não aguentava mais lidar com o péssimo trabalho executado por ela – vide textos com marcas de gordura e crassos erros ortográficos. Surpreso com a reação da moça, que apenas se desculpa pelos aborrecimentos causados, Raimundo decide permitir que ela continuasse trabalhando.
Deslumbrando-se com pouco

Num dia do mês de maio, a moça liga para o trabalho dizendo que precisaria arrancar o dente e por isso não poderia comparecer. Aproveita a falta para fazer coisas novas, como ficar sozinha em casa dançando ao som de música alta e até mesmo poder sentir-se entediada. Nesse dia acaba conhecendo Olímpico de Jesus, o homem que seria seu único namorado.

Olímpico não era o tipo de homem que pais sonham para sua filha, mas Macabéa não tinha quem olhasse por ela. Seu namorado vira do Nordeste fugido, pois lá matara um homem. No Rio de Janeiro consegue emprego numa metalúrgica, fato que traz para Macabéa delírios de grandeza, já que para ela, ele era metalúrgico e ela datilógrafa.

Homem de mau caráter e extrema ambição, Olímpico de Jesus sempre fazia com Macabéa programas gratuitos, como sentarem-se na praça para conversar, e comumente irritava-se com as perguntas da moça, que logo se desculpava por medo de perdê-lo. Quando o rapaz finalmente decidiu lhe pagar um café, deslumbrada com a situação, ela encheu o copo de açúcar para aproveitar o momento, passando mal em seguida.
O trágico fim

Olímpico conhece Glória, colega de trabalho de Macabéa, e decide terminar com ela para investir na outra. Glória vivia numa casa confortável, alimentava-se corretamente, tinha um pai açougueiro, e acabou despertando a ambição do rapaz, onde começam a namorar em seguida. Enquanto isso, Macabéa vai ao médico e descobre ter tuberculose, mas sua miséria e ingenuidade não lhe permitem mensurar a gravidade de sua doença, deixando de tomar remédios já que ‘sentia-se bem apenas por ter ido ao médico’.

Sentindo remorso por ter roubado o namorado da pobre colega, Glória a convida para um lanche em sua casa e a incentiva para ir a uma cartomante saber de seu futuro.  Macabéa segue o conselho e vai até a casa de Madama Carlota, que lhe prevê o casamento com um estrangeiro financeiramente estável, que lhe daria tudo o que precisasse e o amor que nunca tivera.

Encantada com as previsões, Macabéa atravessa a rua sem atentar-se para o trânsito e acaba sendo atropelada por um Mercedes-Benz amarelo. Inúmeras pessoas aglomeram-se ao redor dela, mas não ousam se mover para socorrê-la. Caída na calçada, a moça tosse sangue e perde a vida. Como finaliza a obra, ‘a hora da estrela havia chegado’.

Viagem

Viagem é uma das mais importantes obras da escritora brasileira Cecília Meireles, lançada em 1937. Trata-se de um conjunto de 99 poemas, dentre os quais 13 são epigramas – uma espécie de poema curto, originário da Antiguidade Clássica, satírico, mordaz ou picante. Em cada um deles, Cecília pôde expor sua essência como poetisa, acolhendo temáticas como melancolias, solidão e sonhos. O titulo não poderia ter sido mais bem escolhido, já que retrata justamente o que diz ser: uma viagem introspectiva em si própria, intimista, abordando sofrimento, saudades e outras características que percorrem todo o livro. No mesmo ano de seu lançamento, a obra rendeu à Cecília Meireles o prêmio da Academia Brasileira de Letras, consagrando-a para a história da Literatura Brasileira. Cativou do crítico paulista Mario de Andrade um elogio a sua “força criadora”, e afirma que “com Viagem, ela se firma entre os maiores poetas nacionais”.

 

Confira agora alguns dos principais poemas da obra:
Vento

Em “Vento” a autora utiliza-se de figuras de linguagem para abordar a esperança que permeia momentos ruins, quando cita que após toda a tempestade “o sol encontrou as crianças procurando outra vez o vento para soltarem papagaios de papel”. Ainda, o vento – que causou tanta destruição e contratempos – pôde ter seu lado bom e trazer para as crianças alegria na simplicidade de empinarem seus pipas no céu ensolarado.

Passaram os ventos de Agosto, levando tudo.

As árvores humilhadas bateram, bateram com os ramos no chão.

Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas:

os ninhos que os homens não viram nos galhos,

e uma esperança que ninguém viu, num coração.

Passaram os ventos de Agosto, terríveis, por dentro da noite.

Em todos os sonos pisou, quebrando-os, o seu tropel.

Mas, sôbre a paisagem cansada da aventura excessiva —

sem forma e sem éco,

o sol encontrou as crianças procurando outra vez o vento

para soltarem papagaios de papel.
Motivo

O eu lírico aborda também o processo de criação da literatura. Embora o faça em diversos poemas, fica clara a temática no poema “Motivo”, um dos mais aclamados e conhecidos poemas de Cecília até os dias de hoje.

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.
Assovio

Nesse poema o eu lírico deixa transparecer a solidão em que vive dada às irreversíveis perdas humanas que sofreu durante sua vida. Tem na noite a única companhia, rica em melancolia e tristeza, solicitando ao mundo que não o questione ou incomode sobre coisas do passado – o qual é simbolizado pela palavra “porta”. É exposta a dor que carrega em si deixada por todos aqueles que por ali passaram, embora busque ainda levar a vida – representada pela palavra “canção” – com a cabeça erguida, como segue:

Ninguém abra a sua porta

para ver que aconteceu:

saímos de braço dado,

a noite escura mais eu.

E ela não sabe o meu rumo,

eu não lhe pergunto o seu:

não posso perder mais nada,

se o que houve já se perdeu.

Vou pelo braço da noite,

levando tudo o que é meu:

– a dor que os homens me deram,

e a canção que Deus me deu.
Acontecimento

Nota-se em “Acontecimento” a abordagem da crise existencial que o eu lírico passava. O poema tem em seu início o advérbio “aqui” para que o eu lírico afirme sua presença no mundo, dizendo que já passou por tribulações passageiras e fortes, a qual simboliza pela palavra “tempestade”. Sente-se uma inocente criança representada pelo verbo “chorar” para transmitir a comparação, e nota seus desejos e vontades como irreais, angustiando-se e se sentindo até mesmo agredido pela vida que a natureza ganha.

Aqui estou, junto à tempestade,

chorando como uma criança

que viu que não era verdade

o seu sonho e a sua esperança.

A chuva bate-me no rosto

e em meus cabelos sopra o vento.

Vão-se desfazendo em desgosto

as formas do meu pensamento.

Chorarei toda a noite, enquanto

perpassa o tumulto nos ares,

para não me veres em pranto,

nem saberes, nem perguntares:

 “Que foi feito do teu sorriso,

que era tão claro e tão perfeito ?”

E o meu pobre olhar indeciso

não te repetir: “Que foi feito…?”
Breve biografia da autora

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu no Rio de Janeiro dia 07 de novembro de 1901, e na mesma cidade faleceu em 09 de novembro de 1964. Considerada uma das mais importantes vozes líricas da Literatura Brasileira, foi escritora, pintora, jornalista, professora e poetisa. Publicou “Espectros” – seu primeiro livro – aos dezoito anos de idade, e deu ao público desde então a oportunidade de desfrutar de sua leveza, delicadeza e sabedoria em diversas outras obras.

Maria Moisés

Maria Moisés é uma importante obra da literatura portuguesa, publicada no ano de 1876, escrita por Camilo Castelo Branco. O autor foi romancista, escritor, cronista, dramaturgo, crítico, poeta, historiador e tradutor. Boa parte de seu sucesso se deve justamente à vida atribulada que possuía, já que o sofrimento e drama por diversas vezes lhe serviram de inspiração para suas obras, tornando-o o primeiro escritor de língua portuguesa que pôde tirar seu sustento e sobreviver exclusivamente de seus escritos literários. Para conseguir tal fato era necessário escrever para o público o que fosse de interesse geral, sujeitando-se aos ditames da moda, mas sempre mantendo a originalidade de sua escrita. Tido por muitos como ultrarromântico, Camilo conseguia elaborar histórias mais trágicas e dramáticas que se podia imaginar, muitas vezes comparando-as com sua vida própria.

Pela dita popularidade que conseguiu durante sua vida – e continuamente após seu óbito – Castelo Branco escreveu muitas obras de sucesso, mas dentre todas, “Maria Moisés” é a mais aclamada, sendo até hoje alvo de provas importantes e vestibulares. Assim, é importante conhecer detalhes da obra e estudá-la bem.
O romance proibido

A obra é dividida em duas partes, sendo retratada na primeira o amor entre Josefa da Lage e Antônio de Queirós. Josefa era filha de pais extremamente conservadores, sendo sua mãe carola e seu pai casto. Sabia que eles jamais aceitariam que ela se envolvesse romanticamente com um rapaz, já que vislumbravam para a filha a mesma vida de castidade e pureza que levavam. Antônio de Queirós era um jovem militar de aparência atraente, porte atlético e desimpedido para levar a vida que quisesse. Quando os jovens se conheceram, ocorreu o inevitável: o olhar de um para o outro demonstrava que se apaixonaram.

Com a juventude à flor da pele, a atração em níveis altíssimos, a adrenalina em suas veias e a vontade de viver aquele amor, passaram a ter um caso. Encontravam-se sempre que podiam, obviamente às escondidas para que não fossem descobertos e separados pelos pais de Josefa. Tudo dava certo para o casal, até a inesperada descoberta de que, do amor que nutriam um pelo outro seria concebida uma nova vida, a jovem estava grávida.
O trágico fim do casal

O jovem casal continuou escondendo seu amor proibido enquanto pôde, mas sabiam que já não seria possível postergar a situação por muito mais tempo. Em breve a moça apresentaria sintomas de gravidez, e mesmo que pudesse disfarçá-los diante de outros, o crescimento de seu ventre não deixaria dúvidas de sua condição. Naturalmente, num dado período não foi mais cabível manter a gravidez em segredo, o estado de gestante falava por si só. Os conservadores pais descobriram a gestação da filha e, para evitar que ela e toda a família se tornassem falatório na cidade, passaram a escondê-la em casa.

Pressionado pela situação e pela distância que lhe era imposta entre sua amada, Queirós decidiu fugir e comunicou sua decisão à Josefa. Diante do nervoso que passou ao se encontrar grávida e mãe solteira, a jovem deu à luz prematuramente sua criança. Saiu de casa carregando-a sua filha, e não se teve mais notícias dela. Um jovem pastor, empregado do pai de Josefa, anda próximo ao rio quando avista a moça se suicidando misteriosamente, e avisa seus patrões.

Posteriormente é descoberto que Josefa não teve intenção de tirar a própria vida, tudo não passou de um trágico acidente. A jovem andava próximo ao rio com a filha nos braços, quando a criança por desventura caiu na água. A mãe imediatamente atirou-se no rio para salvar a filha, mas acabou por perder a vida.
A menina vinda do rio

Inicia-se então a segunda parte do livro quando um caseiro encontra no rio uma criança que, para a sua surpresa, ainda estava com vida. Cria a menina com amor de pai e passa a chamá-la de Maria Moisés, pela semelhança de sua história com a do menino Moisés, personagem de relato bíblico que foi encontrado pela filha de Faraó num cesto no rio. Maria cresce uma moça de bem, caridosa, decidida em ajudar as crianças órfãs e carentes que encontrasse. No princípio ela cuida de apenas duas crianças, pois eram as únicas que necessitavam de seus cuidados no momento. Porém, o número de crianças não parou de aumentar, e com seu bom coração a moça não cogitou dar as costas para nenhuma delas.

Sua caridade deixou Maria Moisés numa situação delicada financeiramente, empobrecendo cada dia mais. Quando suas finanças já haviam extrapolado todos os limites, precisou hipotecar sua casa, sem saber como faria para continuar vivendo e ajudando as crianças necessitadas.
Retomando a relação de pai e filha

Numa grande coincidência da vida, Antônio de Queirós, pai de Maria, retorna ao Brasil disposto a descobrir o que realmente aconteceu com Josefa, o grande amor que nunca esqueceu, e com sua filha que sequer conheceu. Ouviu relatos sobre os acontecimentos da época, e soube também do aparecimento de uma criança pelo rio na mesma época em que sua ex-namorada perdeu a vida no mesmo rio tentando salvar a filha. Assim, imediatamente imaginou que Maria fosse sua filha perdida e passou a observá-la. Notou que a moça possuía bom coração, ajudava as crianças e passava por grave crise financeira. Assim Queirós, que voltara como importante general dá para Maria dinheiro suficiente para quitar todas as suas dívidas com direito à grande quantia excedente, e lhe revela que é seu pai, contando para moça a história de seu nascimento. Abraçam-se emocionados, em lágrimas, e assim termina a obra.

O Seminarista

O Seminarista é obra do escritor mineiro Bernardo Guimarães, lançada no ano de 1872. Bernardo Guimarães não era apenas um excelente escritor, mas era também um homem antenado, que acompanhava fortemente os assuntos que rodeavam sua cidade e seu país. Assim, quando houve a forte campanha jornalística no Rio de Janeiro contra o episcopado – situação que ficou marcada na história do Brasil como “Questão Religiosa” – Guimarães havia compreendido que o assunto estava em alta, e que seria interessante abordá-lo. O romance lhe rendeu grande popularidade, foi bem aceito pela crítica e se tornou um clássico da Literatura Brasileira.

No interior de Minas Gerais, duas crianças de famílias diferentes eram criadas juntas. Tratava-se de Eugênio, filho de um casal de fazendeiros, e de Margarida, filha de uma funcionária da fazenda dos pais de Eugênio. Os dois passaram a infância juntos, e viveram uma bela amizade, cheia de companheirismo e cumplicidade.

Um acompanhou a evolução do outro, não apenas como pessoa, mas como homem e mulher. Conforme foram crescendo, começaram a reparar um no outro com olhos diferentes, não mais de amigos, mas de pessoas que se amavam. Apaixonados, não conseguiam esconder o quanto ansiavam estar juntos, e seus pais rapidamente perceberam o que estava acontecendo.

Afastamento forçado

Com medo de que o rapaz, herdeiro da fazenda e dos bens da família, se envolvesse com a moça de classe inferior, seus pais decidiram lhe enviar para o seminário e obrigá-lo a servir a vocação cristã. Assim foi feito, mas mesmo longe Eugênio foi incapaz de esquecer Margarida, e vice-versa.

Os anos se passaram e quando já estava mais maduro, Eugênio decidiu que iria embora do seminário para viver sua vida da forma que quisesse, e certamente procuraria por Margarida. Cientes do que estava por trás da motivação do filho, os pais de Eugênio procuraram os padres do seminário e lhes fizeram um pedido imoral: juntos, mentiriam para Eugênio, dizendo que Margarida havia se casado com outro homem e seguira sua vida. Fizeram conforme o combinado e, por tamanha desilusão, Eugênio não apenas desistiu de sair do seminário como decidiu seguir definitivamente a carreira de padre.
Reencontro inesperado

O tempo passou, e Eugênio – já padre – foi visitar a antiga vila onde morava, quando é chamado para socorrer uma moça muito doente. Bondoso e prestativo, imediatamente foi em socorro da moça, sem saber que se tratava de seu grande amor, Margarida. Ela então, em muito sofrimento, lhe conta que depois que Eugênio foi para o seminário, os fazendeiros a expulsaram com sua mãe da fazenda e, agora que sua mãe havia falecido, Margarida vivia em grandes necessidades. Por amor a Eugênio, nunca fora capaz de olhar para outro homem, muito menos de casar-se, e desde então vivia sozinha em sua carência emocional e física.

Totalmente perplexo com o que ouvira, e vendo a mulher de sua vida em sua frente, Eugênio deixara de se importar com tudo e se entrega ao amor. Ambos passam uma noite de paixão, o que causa grande remorso no rapaz após o ato.

No dia seguinte, ainda sentindo-se pesaroso por seu pecado, Eugênio se apronta para que pudesse celebrar sua primeira missa. Quando recebe um chamado: em seu papel de padre, deveria encomendar um corpo que havia acabado de chegar à igreja. Ele se dirige ao corpo e não pode acreditar no que está diante de seus olhos: Margarida, seu grande amor, morta pela doença que a estava afligindo. Em choque, o rapaz havia perdido a mulher que sempre desejou, e o favor espiritual como padre pelo pecado que havia cometido. Sentia-se sem rumo, sem norte, como se nada mais em sua vida fizesse sentido – e ele sequer tinha esperança de um dia poder endireitar as coisas e viver feliz. Eugênio enlouquece ainda na igreja, e fica notável para todos que o padre tinha um envolvimento íntimo com a pessoa ali morta. Assim termina o triste romance de Eugênio e Margarida, pois após o falecimento da moça, o rapaz jamais retomou o juízo.

Auto da compadecida

Grande defensor da cultura nordestina, Ariano retrata com grande humor e leveza o drama vivido por seus conterrâneos, obrigados a lutar constantemente contra a miséria, sentindo-se sempre acuados pela tormenta da seca e da fome. O autor retrata praticamente todos os perfis que podem ser encontrados na região nordestina do Brasil (embora alguns deles possam ser reconhecidos em todas as regiões do território nacional), como o avarento padeiro e sua esposa, que não se importam com a fome e necessidade de seus empregados mesmo quando lhes sobram recursos; o povo acuado que busca sobreviver no sertão através de sua inteligência e, até mesmo, malandragem, representados pelo personagem João; as autoridades religiosas que utilizam de sua posição para saciarem a ganancia, retratados pelo bispo e pelo padre; e os malfeitores que são vistos no fim como vítimas da vida dura que tiveram, sendo obrigados pela seca e fome a se tornarem o que vieram a ser, retratados por Severino e seu cangaceiro. Por trabalhar uma tendência mundial de maneira regional, a obra pode ser considerada como tendência modernista. A peça foi escrita em 1955, encenada pela primeira vez no ano de 1956, e adaptada para cinema e televisão respectivamente em 1999 e 2000.

Confusões e ambição

Por ter sido escrita inicialmente como peça de teatro, a história é narrada por um palhaço, e se inicia quando João Grilo e Chicó – melhores amigos e ambos empregados do padeiro – vão até a igreja pedir ao padre que benza a cachorra que sua patroa tinha, e que estava muito doente. Diante da negativa do padre, João lhe disse que a cachorra pertencia a Antônio Morais, poderoso local, e assim o padre a benzeu.

Ao saírem da igreja com a cachorra, Chicó e João avistaram Morais e lhe disseram que o padre estava louco, chamando a todos de cachorros. Antônio entrou na igreja e solicitou ao padre que benzesse sua filha, dando início à confusão no momento em que o padre começa a se referir a cachorros.

Poucas horas depois, falece a cachorra pertencente à mulher do padeiro, e ele juntamente com sua esposa e os dois empregados voltam para a igreja e solicita que o padre faça o enterro dela em latim. Após um sonoro “não”, João garante que a cachorra era cristã e deixaria quatro contos para a paróquia e seis para a arquidiocese, convencendo-os imediatamente.
Tragédia dentro da igreja

Inicia-se uma grande discussão dentro da igreja, pois todos queriam tirar alguma vantagem do dinheiro que deveria ser pago pelo enterro da cachorra, quando então entram Severino e seu capanga. Severino teve seus pais mortos pela polícia quando era criança, encontrando no cangaço um meio de sobreviver, e era idolatrado por seu capanga, que faria de tudo para agradá-lo. Imediatamente, Severino toma todo o dinheiro destinado ao enterro da cachorra e mata o padre, o bispo, o sacristão, o padeiro e sua esposa.

No momento em que mataria João, ele decide lhe oferecer em troca de sua libertação uma gaita que, ao ser tocada, ressuscitava pessoas. Para comprovar a eficácia do aparelho, João esfaqueia Chicó propositalmente numa bexiga de bode cheia de sangue que havia escondido debaixo da blusa do amigo. Após fazer-se de morto, Chicó faz-se de ressuscitado quando João toca a gaita.

Para ter certeza de que não estaria sendo enganado, Severino solicita ao seu capanga que atire nele, para que encontre seu padrinho Padre Cícero, e depois o ressuscite com a gaita. Como era de se esperar, a gaita não ressuscitou Severino, e iniciou-se uma briga entre o capanga, Chicó e João Grilo. João conseguiu esfaquear o capanga, mas quando se aproximou do corpo de Severino para tomar o dinheiro que ele havia roubado, é acertado por um tiro de rifle do capanga, em seu último suspiro.
Redenção e julgamento

Todos se encontram no céu para o juízo final, onde Jesus e o Diabo apresentam suas defesas e acusações. Sentindo-se prejudicado, João chama Nossa Senhora para interceder por eles, e ela assim o faz. Severino e seu capanga são absolvidos e enviados para o paraíso, vistos como vítimas do sistema opressor. O bispo, o padre, o sacristão, o padeiro e sua esposa são mandados para o purgatório, e João simplesmente retorna ao seu corpo.

Ao retornar, pode ver Chicó lhe enterrando em lágrimas, levanta-se e assusta o amigo. Após muitas tentativas, João consegue convencê-lo de que não era uma assombração, estava de fato vivo, e fazem planos para o dinheiro do enterro da cachorra, até Chicó lembrar-se de que teria prometido dar todo o dinheiro para Nossa Senhora caso o amigo sobrevivesse. Após muito discutirem, decidem entregar o dinheiro à igreja.

O Santo e a Porca

O Santo e a Porca é obra do escritor brasileiro e paraibano Ariano Suassuna. Grande romancista, poeta e dramaturgo, Suassuna tornou-se conhecido por ser um dos maiores defensores da cultura nordestina – o que fica bem claro em outra de suas obras: “O Auto da Compadecida”. Como não poderia deixar de ser, O Santo e a Porca também retrata de bom humor e com leveza a forma da cultura nordestina de se manifestar até mesmo nas economias de seu povo. Inicialmente, a obra tratava-se de uma peça teatral, cujo tema principal era a avareza, estimulando o leitor a refletir sobre a maneira do ser humano se relacionar com o mundo espiritual (representado na obra por Santo Antônio) e com o mundo físico (representado pela porca cheia de dinheiro) de forma cômica e divertida. A obra teve como inspiração “Aulularia”, do romano Plauto, mas como foi ambientada para o Nordeste, tornou-se bem diferente da versão original. Seu lançamento ocorreu no ano de 1957.

Euricão Árabe é o protagonista da obra, um velho muito avarento que guardava todas as suas economias – que juntou ao longo da vida – numa porca de madeira. Extremamente apegado ao que é material e financeiro, Eurico se torna devoto de Santo Antônio, acreditando que o Santo teria a função de proteger sua fortuna. No entanto, um susto faz o homem entrar em desespero. Ele recebe uma carta de seu conhecido, Eudoro, na qual ele diz que lhe visitaria e o privaria de seu bem mais precioso. A primeira coisa a pensar quando se fala em tesouro ou preciosidade era o dinheiro contido na porca, e foi justamente o que Eurico imaginou que Eudoro lhe pediria, ficando muito angustiado.
Complô para tomar a porca

Eurico possuía uma empregada chamada Caroba, mulher muito esperta e aproveitadora quando tinha oportunidade. Rapidamente ela entendeu o que Eudoro desejava: não a porca com o dinheiro, mas sim a mão de Margarida, filha de Euricão, por quem Eudoro havia se apaixonado.

Já Margarida, alheia ao que estava acontecendo, mantinha escondido seu namoro com Dodó, filho de Eudoro. Rapidamente Caroba encontra um meio de ganhar dinheiro: casará Margarida com Dodó e Eudoro com Benona – irmã de Euricão, que já fora noiva de Eudoro. Enquanto isso, ela deixa Euricão pensar que o tesouro em questão seria sua porca, e percebe que ele a enterra no cemitério para não perdê-la.

Caroba tranca Margarida e Dodó num quarto, e Benona em outro. Então, disfarça-se e recebe Eudoro como se fosse Margarida. Retira-se e retorna, disfarçada então de Benona, fazendo Eudoro novamente se apaixonar pela antiga noiva. Seduz Eudoro e o tranca no quarto com Benona.
Mal entendido

Enquanto isso, Pinhão – noivo de Caroba – vai até o cemitério e rouba a porca de madeira, levando-a para o quarto da empregada. Euricão sai durante a madrugada e vai para o cemitério buscar sua porca, mas não a encontra. Volta furioso para casa e, ao chegar, percebe Margarida saindo do quarto com Dodó, e imediatamente desconfia de que o rapaz seria o ladrão, começando a brigar com ele.

A briga entre Euricão e Dodô faz um grande barulho pela casa, e todos saem de seus quartos. Pinhão confessa ter roubado a porca, e exige que Euricão lhe dê algum dinheiro para que possa contar onde ela está. Quando o avarento finalmente a recupera, percebe que o dinheiro era muito antigo e já não valia mais. Os casais então se entendem, enquanto Euricão fica só com a porca e sem o dinheiro que tanto tinha guardado, questionando a Santo Antônio o motivo de tamanho azar.

O Mulato

O Mulato é uma importante obra literária do cenário nacional, a qual foi escrita por Aluísio Azevedo e publicada no ano de 1881. Sem medo das represálias, Azevedo abordou temas de extrema delicadeza para sua época, mostrando como a população do Maranhão tratava os negros com absurdo preconceito, além da corrupção clerical. Como era de se esperar, os conterrâneos de Azevedo ficaram muito irritados e não pouparam críticas nas publicações locais. Para ter-se uma idéia do tamanho da insatisfação causada com o livro, um jornal da época chamado “A Civilização” deixou subentendido que o autor da obra deveria “pegar na enxada, em vez de ficar escrevendo”, e passou a ser conhecido por todos como “Satanás da cidade”. Com tamanha pressão, Aluísio Azevedo saiu do Maranhão e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde sua obra fora bem recebida e tornou-se um grande sucesso. Com tamanha importância em nossa história literária, é de extrema necessidade conhecer a obra, haja vista sua comum exigência em provas de concursos e vestibulares.
O Mulato

Foto: Reprodução
A infância do menino órfão

A obra se inicia com Raimundo ainda criança deixando a cidade de São Luís rumo a Lisboa, Portugal. O menino era órfão de pai, um português comerciante, e nunca conhecera a mãe, uma mulher chamada Domingas que era ex-escrava de seu pai. Passa muitos anos na Europa, onde recebe educação diferenciada e se forma, voltando para o Brasil como um homem culto e conhecedor de muitos assuntos.

Após viver um ano no Rio de Janeiro, decide voltar para São Luís e rever seu tio Manuel Pescada, o homem que o criara desde que seu pai havia falecido. É muito bem recebido por toda a família, e acaba chamando a atenção da prima Ana Rosa, que se apaixona por ele. Raimundo, homem muito educado e gentil, percebe o interesse da moça, mas sente no ambiente que se tratava de um amor proibido, embora ainda não entendesse plenamente o motivo.
Amor proibido

O primeiro obstáculo era o próprio tio Manuel Pescada, que embora nutrisse carinho pelo sobrinho, desejava ver sua filha casada com um dos caixeiros do bairro; o segundo era Cônego Diogo, conhecido que freqüentava a casa de seu tio regularmente e se postava como adversário de Raimundo; e por último a avó Maria Bárbara, que conhecia as origens negras do rapaz e era fortemente racista.

Para que seja possível compreender a ligação entre os personagens, deve-se retornar ao início da vida de Raimundo: quando ele nasceu, seu pai, o comerciante José Pedro de Silva, se casou com uma mulher branca chamada Quitéria Inocência de Freitas Santiago. No entanto, o português jamais deixou de dar atenção para o pequeno Raimundo e a escrava Domingas, sua mãe. A situação chamou a atenção da enciumada Quitéria, que ordenou aos seus servos para que açoitassem Domingas e lhe queimassem as genitálias.

Chocado com a situação e desesperado com o que a esposa poderia mandar ser feito com a criança, João Pedro carrega Raimundo para a casa de seu irmão, Manuel Pescada, em São Luís. Ao retornar para sua casa, ouve ruídos e vozes vindos de seu quarto, e bruscamente o invade, surpreendendo Quitéria adulterando com o então Padre Diogo. Sentindo-se desonrado e humilhado, José mata Quitéria na frente de Diogo.

Um, enquanto padre carregava a culpa do adultério, enquanto o outro carregava a culpa do homicídio, e assim tornaram-se cúmplices contando com o silêncio um do outro. José Pedro decide deixar sua fazenda para trás e vai morar com o irmão em São Luís, mas acaba adoecendo.

Depois de certo tempo, José se restabelece e decide retornar para sua fazenda, mas no meio da viagem sobre uma emboscada e é morto. O Padre Diogo fora responsável por sua morte.
Desvendando a própria essência

Raimundo se convence de que precisa desvendar suas origens, e juntamente com o tio vai visitar a fazenda onde nasceu em São Brás. Durante a viagem, pede por diversas vezes ao tio que lhe conceda a mão de Ana Rosa, mas as recusas são sempre as mesmas. Descobre, posteriormente, que o motivo da recusa seria a cor de sua pele.

Sentindo-se desiludido, Raimundo decide deixar a casa do tio e partir para o Rio de Janeiro. Informa sua intenção para Ana Rosa, declarando-se em carta, e juntos manipulam um plano de fuga. Infelizmente, porém, uma das cartas que trocaram fora interceptada pelo caixeiro Dias, cúmplice de Cônego Diogo e forte pretendente de Ana Rosa.
Trágico e impune fim

No momento da fuga, o casal de primos é surpreendido por Cônego Dias, que faz um grande escândalo. Completamente desolado, Raimundo se retira e, enquanto entra em sua casa é atingido por um tiro nas costas. O Caixeiro Dias havia atirado com a arma que Cônego Diogo o emprestara, matando assim seu rival.

A obra é finalizada quando, seis anos após o falecimento de Raimundo, Ana Rosa é vista saindo de um local de braços dados com o Caixeiro Dias, dizendo-se preocupada com “os três filhinhos que ficaram em casa, a dormir”.