Ciço de Luzia

Romance revela a história de amor entre um herói sertanejo que se vê enamorado pela filha do patrão

Num tempo em que o amor anda em crise, eis que brota do universo matuto do monteirense Efigênio Moura, uma narrativa lúdica e subjetiva sobre o tema. O romance “Ciço de Luzia” revela a história de amor entre um herói sertanejo que se vê enamorado pela filha do patrão. Amor impossível? Que nada. O impossível se faz possível perante à simplicidade desses dois. Ciço e Luzia são peças de um romance que acontece numa terra de ventos quentes, num cenário de paisagem atraente, cujo protagonista é o Cariri, com seus costumes e peculiaridades.

Ciço de Luzia é a segunda publicação de Efigênio, que ingressou na cena literária em outubro de 2010 com o livro Eita Gota! Uma Viagem Paraibana. A primeira experiência como escritor foi concebida em 12 meses e resultou no esgotamento das três edições do livro publicadas no mesmo ano do lançamento. Diferente do primeiro, que apresenta de forma direta e bem humorada, a viagem de uma família paraibana pelos interiores do estado, o segundo livro mostra a profundidade nas sutilezas de um amor quase infantil.

A história de Ciço e de Luzia se passa nos anos 70, segundo o autor, “naquele tempo, amor era amor de verdade”. Os 36 contos que compõe o livro colocam o leitor numa posição de onipresença, transitando entre observador e personagem. De forma curta, a narrativa explora as sensações entre os personagens, o que enlaça o leitor numa trama repleta de jogos linguísticos, que prioriza a tradição oral do nordestino. Ao fim de cada capítulo, o leitor desacostumado poderá achar no glossário o significado das palavras do dialeto matuto.

Sobre a empolgação na hora de escrever, o autor expõe a necessidade de propagar nossa cultura para valorizar o que é da região. “O Nordeste ainda não foi descoberto; o Cariri nem se fala. Sou mais um a segurar a bandeira de Monteiro. Eu quero mostrar minha terra como de forma ela é”, ressalta Efigênio Moura, que com satisfação diz “eu escrevo matutês” e avisa que seu objetivo é lançar um livro por ano. Dois livros já se encontram em fase final. São eles: Santana do Congo, que será lançado no fim deste ano, e As Urnas do Cafundó, com previsão de lançamento para 2012.

Várias Histórias

Publicado em 1896, Várias Histórias é um exemplo perfeito da maestria com a qual Machado de Assis desenvolveu o conto, produzindo tesouros que estão entre os mais preciosos da Literatura Brasileira. Antes de mergulhar em suas narrativas, portanto, necessário se faz entender um pouco da técnica do autor em tal forma artística.

Machado de Assis notabilizou-se por dominar a análise psicológica, dissecando a alma humana em busca de sua essência, que muitas vezes é dilemática, ou seja, expressa o conflito e muitas vezes a conciliação entre elementos opostos. É muito comum em suas narrativas depararmo-nos com ações que, mesmo tendo uma determinada inspiração, revelam também o seu oposto, como no caso do usurário (pessoa extremamente apegada a bens materiais, a lucro e a dinheiro) de Entre Santos, que, em pleno desespero por causa da possibilidade da perda de sua esposa, faz uma promessa fervorosa que tanto revela seu amor à mulher quanto seu apego à noção de lucro, pois se perde em delírios diante da cifra de orações que se propõe a rezar.

Dessa forma, a complexa visão machadiana sobre o homem vai muito além do que os seus contemporâneos faziam. Reforça essa superioridade a intensidade que imprime ao caráter psicossocial, entendendo a personalidade humana como fruto de forças da sociedade, principalmente aquelas que valorizam o status, o prestígio social. É um elemento ricamente abordado em obras-primas como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro.

Assim, os contos de Várias Histórias constituem rico material para um estudo da psicologia do homem e de como ele se comporta no grupo em que vive. Vemos neles a análise das fraquezas humanas, norteadas muitas vezes pela preocupação com a opinião alheia. Em inúmeros casos as personagens fazem o mesmo que nós: mentem, usam máscaras, para não entrar em conflito com o meio em que estão e, portanto, conviver em sociedade. O pior é que levam tão a sério essa máscara que chegam até a enganar a si mesmas, acreditando nela como a personalidade real.

Por causa desses elementos temáticos, notamos uma peculiaridade nos contos machadianos. Esse gênero, graças à sua brevidade, dá, por tradição, forte atenção a elementos narrativos. Não há espaço, pois, para digressões, tudo tendo de ser rápido e econômico. No entanto, no grande autor em questão o mais importante é o psicológico, o que permite caminho para características marcantes do escritor, como intertextualidade, metalinguagem e até a digressão, entre tantas, tornando a leitura muito mais saborosa.

Contos

1. A Cartomante – Visão objetiva e pessimista da vida, do mundo e das pessoas (abolição do final feliz). Leia mais…

2. Entre Santos – Trata-se de uma narrativa dentro de narrativa, que em determinado momento dá caminho para mais outra. Um discreto narrador em terceira pessoa abre, já no primeiro parágrafo, espaço para um narrador em primeira pessoa, testemunha de um acontecimento surpreendente. Leia mais…

3. Uns Braços – Conto tocante que narra a descoberta do amor e de toda a sensualidade que cerca o descortinar desse mundo novo. Leia mais…

4. Um Homem Célebre – Tipicamente machadiano, Um Homem Célebre, conto publicado, primeiramente, no periódico “A Estação”, em 1883, e, posteriormente, em 1896, no livro Várias Histórias, aborda o tema da incompatibilidade entre os ideais e a realidade, constituindo, uma quase parábola, a parábola da existência humana. Leia mais…

5. A Desejada das Gentes – Conto em que o protagonista rememora a um interlocutor a história de Otília, cobiçada dama da sociedade que costumava desenganar todos que tentavam estabelecer uma relação com ela. O narrador lembra que chegou a fazer uma aposta com seu grande amigo, sócio de uma banca de advocacia, para ver quem angariaria o coração da mulher.

A primeira conseqüência é o final da amizade tão forte e o auto-exílio do companheiro em um grotão do país, onde acabara morrendo cedo. A outra conseqüência é o narrador perder o controle de seus sentimentos. No entanto, apesar da maneira diferente com que o tratava, destacando-o dos demais pretendentes, deseja deste apenas amizade. Houve um momento em que o quadro parecia ter mudado. Primeiro, o narrador havia ficado abatido com a morte de seu pai. Otília conforta-o, o que os aproxima. Pouco depois, era o tio dela, praticamente um tutor, quem falece. Com a equivalência garantida pela dor, o apaixonado imagina ter caminho aberto para o casamento. Mas seu pedido é recusado. Some por alguns dias, um pouco por despeito, um pouco porque mergulhado em compromissos burocráticos referentes à morte do seu parente. Quando volta, encontra uma carta de Otília, instando que a amizade se reatasse. Promete, em troca, não se casar com ninguém. E tudo fica nesse pé, até que a dama adoece, definhando aos poucos. Dois dias antes de morrer, casa-se com o narrador. O único abraço que se dão foi durante o último suspiro dela, como se quisesse não o aspecto corporal da união, mas algo próximo do espiritual.

6. A Causa Secreta – Este é um dos contos mais fortes de Machado de Assis. Leia mais…

7. Trio em Lá Menor – Este é um conto alegórico que apresenta a história de Maria Regina, sofredora de um dilema, pois não consegue decidir-se entre dois homens, Miranda e Maciel. Este se apresenta como cheio de vivacidade, alegria, mas que logo se transforma em futilidade, pois está apegado a aspectos mundanos, como fofocas e moda. Aquele é mais velho e, portanto, mais sério e circunspeto. Não tem a vivacidade do primeiro, mas é uma companhia de mais conteúdo, que não enfastia.

É um conflito que lembra Esaú e Jacó. No final a heroína se perde nos sonhos, em que vê, como uma metáfora de sua situação, a encantadora imagem de uma estrela dupla que se aparenta com um único astro. Termina por ouvir uma voz fantástica que lhe diz: “É a tua pena, alma curiosa de perfeição; a tua pena é oscilar por toda a eternidade entre dois astros incompletos, ao som desta velha sonata do absoluto: lá, lá, lá…” Fica a tese de que a conciliação de opostos é impossível e a busca da perfeição, conciliadora dessas contradições, só faz mergulhar na angústia da indecisão.

8. Adão e Eva – Outro conto que apresenta o esquema de história dentro de história. Em meio à degustação de doces, começa a discussão sobre quem é mais curioso: o homem ou a mulher? Um dos convivas apresenta uma narrativa com um quê de enigmático e que vem de um livro apócrifo (livro que não é reconhecido pela Igreja e que, portanto, está fora da Bíblia) da Bíblia.

É um relato que inverte a história de Adão e Eva. Primeiro porque apresenta a criação do Universo como fruto da ação do Diabo – Deus é que ia consertando as falhas provocadas pela malignidade. Dentro desse aspecto está a criação do homem e da mulher. Na forma crua, estavam dominados por instintos ruins. O toque divino atribui-lhes alma, tornando-os sublimes, sendo levados para o Paraíso. Inconformado com a destruição de sua obra, mas impossibilitado de entrar no campo divino, convence sua criação dileta, a serpente, a tentar Adão e Eva a comerem o fruto proibido. De pronto o animal o atende, mas, por mais que insistisse, não obteve sucesso. Satisfeito com tal proeza de caráter, Deus conduz os dois para o caminho da glória.

Termina assim o relato que deixa incrédulos entre a platéia, a maioria achando que tudo não passava de brincadeira do seu narrador. No entanto, o comentário final de um dos convivas é bastante interessante: “Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma coisa primorosa”. Além de o conto apresentar o oposto (mais uma vez a visão dilemática machadiana!) de uma questão, ou seja, uma outra história da criação, há uma idéia já desenvolvida, por exemplo, em Dom Casmurro: a graça de nossa existência está justamente na imperfeição em que se processa.

9. O Enfermeiro – O conto O Enfermeiro está, certamente, entre os melhores contos de Machado de Assis. Leia mais…

10. O Diplomático – Outro conto que trata das fraquezas humanas. Trata-se da história de Rangel, homem de sonhos gigantescos e ações minúsculas, quase nulas. Tanto que alcança a meia idade sem ter casado, pois sempre procurava uma mulher de posição.

É mais uma personagem machadiana, pois, preocupada com status, prestígio social, não enxergando o prejuízo que tal comportamento trazia para si mesma. Até que flagramo-la em um encontro de amigos. Tentará seu último golpe, considerado pelo narrador um amor de outono, dessa vez sobre a jovem Joana. Mas, típico de seu comportamento, vacila muito entre a idéia e a ação. Até que surge um furacão em meio à festa: Queirós. Chega de forma repentina e da mesma maneira consegue a atenção e o carisma de todos os presentes, menos do protagonista, que sente um misto de ciúme e inveja, piorado quando seu alvo afetivo, Joana, torna-se mais uma das conquistas do novo conviva. Derrota fragorosa, que fica clara quando o protagonista mergulha no choro no instante em que está sozinho, de volta à sua casa. É o resultado da inércia inutilizando toda uma vida.

11. Mariana – É um conto de lição cruel, mas realista, ao narrar as mudanças por que passou uma paixão no espaço de 18 anos.

Evaristo e Mariana mantiveram uma relação tórrida e descabelada, entrando em crise no momento em que, por pressões, ela estava para se casar com Xavier. Diante do amante, nosso protagonista, jura que a união “oficial” não ia diminuir a intensidade do enlace que, clandestinamente, estabeleciam. Pouco depois, por meio de flashback, sabemos que Mariana havia tentado suicídio, provavelmente em nome do sentimento que tinha por Evaristo, conflitante com a união que iria contrair. Este é impedido de vê-la. Parte, então, para a Europa num quase auto-exílio, desligando-se quase que por completo das coisas do Brasil.

Sem grande explicação, 18 anos depois sente necessidade de voltar à pátria. Ao chegar, visita Mariana, encontrando-a mergulhada na dor de ter o marido, Xavier, doente terminal. É o que o impede de um contato mais aprofundado. Com a morte do moribundo, fica sabendo por meio de várias pessoas da intensidade do amor que havia entre o casal, o que já tinha sido indicado pela dor dela quando do último suspiro do esposo. Pouco depois, flagra-a voltando da igreja e percebe que ela fez de conta que não o havia visto.

Uma paixão tão fulminante fora esmagada pelo tempo, pois terminava de forma tão fria, ela evitando-o, ele encarando o fato num misto de indiferença e chiste.

12. Conto de Escola – Conto que segue a tradição do estilo delicioso com que Machado de Assis se apresenta como memorialista. Leia mais…

13. Um Apólogo – Famoso conto que narra o desentendimento entre a agulha e a linha.

A primeira vangloriava-se por ser responsável pela abertura do caminho para a segunda. Tudo isso ocorre enquanto a costureira ia preparando o vestido de uma baronesa.

No final, com a ida da nobre para a festa, a linha joga na cara que, se a agulha abrira caminho, agora iria voltar para a caixa de costura, enquanto o fio iria no vestido freqüentar os salões da alta sociedade.

A frase final do conto, de alguém que ouvira essa história (um professor de melancolia) – “Também tenho servido de agulha a muita linha ordinária” –, é bastante sintomática. Faz lembrar um aspecto muito comum na obra machadiana que é, na busca por status, as pessoas acabarem sendo usadas e depois descartadas.

É o que ocorre, por exemplo, em Quincas Borba, na relação entre o casal Palha e Rubião. Ou mesmo em Memórias Póstumas de Brás Cubas, na conveniência do casamento entre Eulália Damasceno de Brito (linha) e Brás Cubas (agulha).

14. D. Paula – Percebe-se neste relato um tema que já fora desenvolvido em O Enfermeiro e outros contos: a desconexão entre o externo e o interno, pois se dizia e pregava o moralismo, no seu íntimo desejava, ou pelo menos deliciava-se com algo imoral. Leia mais…

15. Viver! – Conto de temática alegórica e grandiosa. Além disso, sua estrutura aproxima-o por demais do teatro. Trata-se do diálogo entre Ahasverus e Prometeu.

A primeira personagem recebera a maldição de, por menosprezar Cristo em seu calvário, vagar pelo mundo sem encontrar abrigo e ser desprezada até que o último homem desaparecesse. Sua longevidade, portanto, deu-lhe uma experiência massacrante sobre o gênero humano.

A segunda personagem pertence à mitologia clássica e havia criado o homem, sendo, portanto, condenada pelos deuses a ter uma águia comendo seu fígado por toda a eternidade. Diante dessa revelação, Ahasverus fica indignado e faz com que Prometeu volte para o seu castigo, de onde havia escapado.  No entanto, a entidade mitológica declara que faria de Ahasverus o início de uma nova espécie, mais forte do que a anterior, que estava findando na figura do rejeitado, que agora se tornaria o rei dessa nova raça. Diante desse futuro grandioso, Ahasverus mergulha em devaneios, feliz com sua nova condição, esquecendo até o fato de estar morrendo para realizá-la. Como observam duas águias que voavam por ali, ainda na morte mostra um enorme apego à vida.

16. O Cônego ou Metafísica do Estilo – Conto metalingüístico que em alguns aspectos antecipa as sondagens introspectivas e intimistas da prosa modernista.

É a história de um cônego que se dedicava à escritura de um sermão. Tem sua tarefa interrompida porque não conseguia achar um adjetivo que se ligasse adequadamente ao substantivo que havia colocado em seu texto. Esforçava-se, mas a palavra não vem.

Enquanto o protagonista espairece, para descansar a mente e buscar inspiração, o narrador mergulha no cérebro da personagem, defendendo a idéia de que as palavras têm sexo. Assim, o substantivo, masculino, que é nomeado como Sílvio, está procurando um adjetivo, feminino, designado Sílvia. É interessante nesse ponto como todo o universo de elementos que povoam nossa mente – sonhos, impressões, sensações, lembranças – é bem metaforizado ao ser apresentado como os obstáculos que o casal tem de suplantar até que finalmente consiga efetuar o seu encontro. Concretizada a união, o estalo mental surge para o cônego. Finalmente conseguia dar prosseguimento a redação de seu sermão, terminando-o.

Últimos Cantos

A obra “Primeiros Cantos” foi recebida com entusiasmo pela crítica e fez grande sucesso junto ao público ledor de poesia. Alexandre Herculano renomado e recatado escritor romântico de Portugal e o imperador D. Pedro II registram rasgados elogios ao livro e tecem palavras de simpatia e incentivo ao poeta maranhense.

“Os primeiros cantos são um belo livro; são inspirações de um grande poeta. A terra de Santa Cruz, que já conta outros no seu seio, pode abençoar mais um ilustre filho. O autor, não o conhecemos; mas deve ser muito jovem. Tem os defeitos do escritos ainda pouco amestrado pela experiência: imperfeições de língua, de metrificação, de estilo. Que importa? O tempo apagará essas máculas, e ficarão as nobres inspirações estampadas nas páginas deste formoso livro.”

Como se vê no “Prólogo aos Primeiros Cantos”, o próprio Gonçalves Dias, traça o perfil da sua poesia, que é bem a concepção romântica de poetar, na qual se destaca a liberdade formal, a imaginação criadora e valorização do indivíduo, de suas contradições e das emoções particulares e circunstanciais.

“Dei o nome de Primeiros Cantos às poesias que agora publico, porque espero que não serão as últimas.
Muitas delas não têm uniformidade nas estrofes, porque menosprezo regras de mera convenção; adotei todos os ritmos da metrificação portuguesa, e usei deles como me pareceram quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir.
Não têm unidade de pensamento entre si, porque foram compostas em épocas diversas – debaixo de céu diverso – e sob a influência de expressões momentâneas. Foram compostas nas margens viçosas do Mondego e nos píncaros enegrecidos do Gerez – no Doiro e no Tejo – sobre as vagas do Atlântico, e nas florestas virgens da América (…)
Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena política para ler em minha alma, reduzindo à linguagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as ideias que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano – aspecto enfim da natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento – o coração com o entendimento – a ideia com a paixão – colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia – a Poesia grande e santa – a Poesia como eu a compreendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.
O esforço – ainda vão – para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só merecimento deste volume. O Público o julgará; tanto melhor se ele o despreza, porque o Autor interessa em acabar com essa vida desgraçada, que se diz de Poeta.”

Sermão de Santo Antônio aos Peixes

O sermão foi proferido em São Luís do Maranhão em 13 de junho de 1654, dia de Santo Antônio e três dias antes da partida de Vieira para Portugal, onde pretendia interceder em favor dos índios diante das autoridades portuguesas. O sermão é construído em forma de alegoria, dirige-se aos peixes mas, na verdade, fala aos homens.

O texto está dividido em seis partes. A primeira delas é o exórdio, ou introdução, na qual faz o chamamento “Vós sois o sal da terra”. Os pregadores são o sal da terra, cabendo ao sal impedir a corrupção. Mas na terra não lhes dão ouvidos, por isso voltam-se para o mar, onde estão os peixes. Há também a invocação da Virgem Maria.

Nas partes II a V temos o desenvolvimento do sermão. Antônio Vieira exalta as qualidades dos peixes, como a obediência, e repreende os vícios, como a soberba e o oportunismo. Deve-se destacar aí a citação de diversos tipos de peixes. As virtudes são descritas nos peixes de Tobias, Rémora, Torpedo e Quatro-Olhos. Já os defeitos estão nos seguintes peixes: Roncadores, Pegadores, Voadores e no Polvo. O principal defeito apontado é a voracidade, já que os peixes devoram uns aos outros, e, pior ainda, os maiores devoram os menores.

A última parte é a peroração, ou conclusão, na qual Vieira exalta os peixes que, por sua natureza, não podem ser sacrificados vivos a Deus e sacrificam-se então, em respeito e reverência. Confessando-se pecador, o orador se despede com uma oração de louvor a Deus.

Contexto

Sobre o autor
Antônio Vieira é o maior representante da prosa barroca no Brasil e o maior orador sacro do Brasil-Colônia. Nascido em Portugal, veio para o Brasil ainda criança e estudou no Colégio dos Jesuítas, em Salvador.

Importância do livro
Os sermões do Padre Vieira são o melhor exemplo do Barroco Conceptista no Brasil. São textos que usam a retórica, com jogos de ideias e palavras, para convencer os leitores (no caso, os assistentes) pelo raciocínio, mais que pela emoção. No Sermão de Santo Antônio aos Peixes, além de exaltar a necessidade da pregação, Vieira usa a alegoria dos peixes para criticar a exploração do homem pelo homem e, mais especificamente, para condenar a escravidão indígena.

Período histórico
Na época em que o sermão foi escrito, 1654, Padre Antônio Vieira lutava contra a escravidão indígena e contra a exploração portuguesa. Logo depois do sermão, o Padre foi para Portugal interceder pelos índios.
Análise

Os sermões de Vieira são textos que chamam a atenção tanto pela forma quanto pelo conteúdo. Nascido em Portugal, mas criado no Brasil desde os seis anos de idade, Vieira experimentou a efervescência política do Brasil-Colônia e da corte portuguesa. Seu estilo literário é essencialmente barroco: longos períodos construídos com o uso intensivo de figuras de linguagem, como metáforas e antíteses, formando um discurso altamente persuasivo, com o intuito de convencer o ouvinte pelo raciocínio e pela razão.

No Sermão de Santo Antônio aos Peixes, Vieira junta sua devoção ao santo à preocupação que o levaria, dias depois da pregação, a fugir secretamente para Portugal: a questão da escravidão e dos maus tratos contra os indígenas. A alegoria e a ironia são a chave de um discurso argumentativo que quer levar o ouvinte à reflexão. Ao mesmo tempo, a saudação inicial “Vós sois o sal da terra” é um chamamento à participação ativa na sociedade.

A discussão sobre as virtudes e os vícios humanos passa necessariamente por uma preocupação social. A ideia de que peixes maiores comem os peixes menores, ou seja, que a grandeza de cada um na sociedade tem valor relativo, surge espantosamente à frente do seu tempo. Em plena era mercantil, o texto de Vieira, por meio da alegoria, desvenda para os colonos do Maranhão a realidade da competição proto-capitalista: são peixes grandes na colônia, pois escravizam os nativos, que consideram inferiores, porém, uma vez na metrópole, serviriam de alimento para outros peixes maiores, contra os quais não teriam defesa.

Portanto, o texto de Vieira, datado do século XVII, traz para nós uma inquietante contemporaneidade, pois seus temas principais são a ganância humana e a corrupção da sociedade, assuntos mais do que presentes em nosso cotidiano. Por meio de sua linguagem finamente elaborada, Vieira nos faz refletir sobre os desafios da sociedade de seu tempo, nos ajudando também a pensar sobre a nossa realidade.

Os dous ou o inglês maquinista

Os dous ou o inglês maquinista, peça teatral (comédia de um ato) de Martins pena, datada de 1845, e reúne em um espaço único, uma sala da casa de uma família rica, as duas pontas extremas da sociedade brasileira: o senhor e o escravo. Martins Pena não teria escrito esta peça se não existisse então no Brasil o problema dos meias-caras, isto é, dos africanos introduzidos ilegalmente no país pelos barcos dos traficantes, que conseguiam furar o cerco dos navios de guerra ingleses, que policiavam as rotas marítimas do sul do Atlântico. Na peça ele explora a rivalidade existente entre os ingleses e os que se beneficiavam com o trabalho de escravos. O problema era velho vinha de onze anos, quando foi composta a comédia.

Essa comédia adquire uma perspectiva globalizante e crítica que vai além dos simples costumes e dos indivíduos, e atinge a própria forma de organização da sociedade e, inlcusive, o Estado imperial. Adquire uma dimensão política, no sentido de levar o espectador a refletir também sobre as regras do seu mundo social e as formas de suas relações com o Estado.

O inglês Gainer, personagem da obra, logo de saída se revela um refinado finório, buscando conseguir do governo imperial privilégios para a realização de empreendimentos mirabolantes: produzir açúcar a partir de ossos e construir uma máquina de beneficiar bovinos. Procura ainda, ao mesmo tempo, obter da família que o recepciona, a mão de Mariquinha, a brasileira virtuosa, ocultando suas verdadeiras intenções a respeito da jovem. É Felício, o rapaz brasileiro bom caráter e de fato sinceramente apaixonado pela moça, que percebe seu intento de, desposando-a, apossar-se do dote da família.

Os propósitos nada nobres do estrangeiro, e sua pouca consideração pelos brasileiros, são também expressos de modo direto, por ele próprio. Como quando confessa, no seu português estropiado que acaba por acentuar seu alheamento em relação ao universo brasileiro – e que o torna ridículo aos olhos dos espectadores e leitores –, que “Destes tolas eu quero muito”.

O texto opera com base em uma partição simples, maniqueísta: de um lado estão os interesseiros, figurando aqui, junto a Gainer, Negreiros, um traficante de escravos também de olho no dote da menina. Do outro encontra-se Felício, cuja atuação vai no sentido de evitar o êxito dos primeiros. Conseguindo, ao final, o intento perseguido, sua intervenção lhe garante a mão de Mariquinha, que funciona como uma espécie de recompensa a sua fidelidade aos valores puros e castos, embora ingênuos, que organizaria a boa sociedade brasileira. Do ponto de vista do público, cuja cumplicidade é alimentada ao longo de toda a peça, fica desta forma preservado o resguardo das virtudes nacionais, encarnadas pelo jovem herói.

Entre suas 11 personagens, destacam-se, como já citado, Gainer, o comerciante inglês, e Negreiro, um traficante de escravos, ambos rivalizando pela mão da filha de uma rica viúva, este último dá margem a apresentar um painel desse comércio iníquo:

FELÍCIO – Sr. Negreiro, a quem pertence o brigue Veloz Espadarte, aprisionado ontem junto quase à fortaleza de Santa Cruz pelo cruzeiro inglês, por ter a seu bordo trezentos africanos?
NEGREIRO – A um pobre diabo que está quase maluco… Mas é bem feito, para não ser tolo. Quem é que neste tempo manda entrar pela barra um navio com semelhante carregação? Só um pedaço de asno. Há por aí além uma costa tão longa e algumas autoridades tão condescendentes!…

Se olharmos a produção de Martins Pena como um todo, percebe-se que a comédia que marca o ponto de inflexão da obra é Os dous ou O inglês maquinista, que esboça em vários momentos uma comédia de meios tons, refinada, que poderia ser um caminho desenvolvido por Martins Pena, se assim o desejasse. Observe-se a leveza do diálogo na cena 10, que funciona pelo que não diz, e que é absolutamente impensável no teatro da época:

Mariquinha — … Primo?
Felício — Priminha?
Mariquinha — Aquilo?
Felício — Vai bem.
Cecília — O que é?
Mariquinha — Uma cousa.

Lavoura Arcaica

Lavoura Arcaica, obra de Raduan Nassar, traz uma narrativa pesada, cheia de confusões; protestos; abstenções; amor de irmão com irmã deixando a narrativa ostensiva e cansativa. André se vê diferente de todos que cheio de pressões resolve fugir de casa, fato que remonta bem à narrativa bíblica do filho pródigo.

É um texto onde se entrelaçam o novelesco e o lírico, através de um narrador em primeira pessoa. André, o filho encarregado de revelar o avesso de sua própria imagem e, conseqüentemente, o avesso da imagem da família. Lavoura Arcaica é sobretudo uma aventura com a linguagem.

ARGUMENTO

André, o protagonista, é um jovem do meio rural arcaico que resolve abandonar sua numerosa família do interior para ir morar em uma pequena cidade (ainda no interior), fugindo, em parte, daquele mundo asfixiante da lavoura, onde o passar do tempo parecia consumir as gerações, onde a rigidez moral mantinha as estruturas sociais análogas às da Idade Média, um mundo em que a loucura das paixões primitivas consumia sua alma, como, por exemplo o relacionamento amoroso e incestuoso (fantasioso ou carnal) com sua irmã Ana.

Com sua fuga, André põe a perder o precário equilíbrio da família – baseada em uma estrutura patriarcal clássica e impregnada por um forte caráter religioso e bíblico. O pai, então, determina que o filho mais velho, Pedro, vá em busca do filho pródigo na cidade. Pedro encontra o irmão em um quarto de pensão marcado pela sordidez e, após inúmeros apelos, consegue convencê-lo a retornar ao lar. Este retorno explicitará ainda mais os aspectos doentios e perturbadores do relacionamento entre os membros da família, com destaque para outros dois personagens: o caçula, Lula, que também pretende, a exemplo de André, abandonar a fazenda em busca de um mundo que promete possibilidades infinitas (o drama do êxodo rural), e a figura cigana, sensual e mediterrânea da irmã Ana, personagem que posteriormente será o pivô da ruína final do clã.

A volta de André ao lar traz uma aparente (porém precária) paz ao ambiente já inviabilizado. A palavra do pai, oriunda da tradição dos Dez Mandamentos, das parábolas bíblicas, dos profetas e dos grandes pregadores cristãos, torna-se ineficaz, configurando a simbólica “lavoura arcaica”, e o resultado não poderia ser outro senão a tragédia: o pai mata a filha Ana, ao perceber que ela ama André, e depois, de modo não explícito no livro, também acaba por perder a vida.

O núcleo familiar em que se desencadeia a trama de Lavoura Arcaica é de imigrantes árabes do Líbano para o Brasil. O livro é dividido em duas partes: a primeira “A partida”; e a segunda “O retorno”. Esta divisão corresponde à temática e inversão que Nassar faz da história bíblica do filho que deixa a casa e retorna, a parábola do filho pródigo.

Como se verá mais adiante, Raduan Nassar utiliza-se fartamente dos recursos poéticos para compor a fala do personagem narrador, André. Contudo, a bela expressão lírica que André faz da sua inconformidade não muda o desenlace de suas ações. ‘Lavoura’ mostra a incongruência entre a beleza das palavra se o desastre das ações humanas levadas ao individualismo extremo.

A sua revolta nasce perante uma condição que ele considera absurda, em que a igualdade aparente de todos os membros da família oculta as grandes desigualdades entre eles e a opressão do discurso da tradição (encarnado pelas palavras do pai, Iohána). André nega o homem, a moral e Deus, não exatamente a existência deste último, mas sim o seu poder de transcendência, em nome do instinto sexual, no qual o impulso decreta a posse integral dos seres a troco da sua destruição.

Este conflito entre indivíduo, leis e sociedade compõe os conflitos do próprio personagem narrador. ‘Lavoura’ fala do problema da integração entre o indivíduo e a sociedade, em que a particularidade das vontades e das dores de André não consegue coexistir com o mundo em que ele vive.

O personagem busca a integração, o seu lugar na mesa da família, justamente por meio do que a destruiria, o amor incestuoso entre ele e Ana, sua irmã.

Às ambigüidades das palavras de André confrontadas com suas atitudes somam-se às ambigüidades do tempo construídas na narrativa. Neste confronto pode-se explorar no texto o trabalho que Raduan Nassar realiza entre o que se pode chamar de aventura romântica e destino trágico no ‘Lavoura’. A aventura romântica é o conflito apresentado pelas palavras entre a busca pela experiência e a vivência do acaso, o ímpeto de sair a campo e transformar sua história e seu entendimento do mundo. O destino trágico é a vivência de uma história prefigurada, escrita antes mesmo da personagem tomar ciência dela, em que o destino impera sobre a vontade. Assim, na aventura romântica, o tempo é o tempo que se abre aos acasos e ações humanas. E no destino trágico, o tempo trava seus ponteiros, deixando de existir, acontecendo à parte da história; ou confunde-se com o tempo mítico (da tradição milenar da costa pobre do Mediterrâneo), que é aquele em que o destino retorna, num tempo cíclico.

Quando André resolve conduzir a sua história, o seu tempo é o da aventura; mas quando o mundo lhe diz não, o tempo se torna aquele já marcado pelo destino das coisas, que retorna como uma maldição, num ciclo repetitivo. O tempo do destino e da aventura é um tempo constituído pela palavra. A busca de André é compor tempo e palavra “como gêmeos com as mesmas costas”, pela narrativa. Esta busca tenta fundir palavra e coisa, sentido e sentimento, mas sabe do perigo que corre, sabe da impossibilidadede levar até o fim este projeto. A palavra, senhora do tempo, verbo oleoso, reúne a lucidez e o delírio de André. Esta palavra nasce no lodo, no charco, no lugar daqueles que não têm lugar. O tempo na palavra do narrador é o tempo que quer explodir, corroer o mundo que produziu o fosso onde o relegado sente-se jogado. Pois, para André, àqueles que não ganham do mundo o seu quinhão restam duas alternativas: dar as costas a tudo ou alimentar uma expectativa de destruição deste mundo. É o tempo na narrativa de Nassar que não se deixa capturar, parecendo indicar algo numa das partes do romance que em outras páginas se desfaz, apontando possibilidades de interpretação e sendo a principal mola para dissolvê-las.

O romance é constituído por vários tempos num mesmo tempo e também vários tempos que parecem não se conciliar, senão por um final destruidor. A falta de síntese entre os tempos, ou o tempo no ‘Lavoura’, fala sobretudo da condição do homem, em que o conflito das diferenças, a violência, a imposição de uma tradição e, o outro lado da moeda, o individualismo, põem em xeque a existência da própria humanidade, as suas instituições e a viabilidade da sua reprodução. Nassar semeia as palavras para compor o tempo da narrativa, que é múltiplo. A história e a temporalidade estão concentradas na própria narrativa de André, onde os dramas, conflitos e percepções humanas constituem a marca da própria linguagem. A busca pela escrita do tempo é uma atividade arcaica, uma lavoura arcaica, da qual os homens se ocupam há milênios.

LINGUAGEM

Narrado em primeira pessoa, Lavoura arcaica está longe de ser uma narrativa linear, embora a ordem dos fatos possa ser apreendida sem maior esforço. A grande dificuldade do livro (simultaneamente fonte de sua riqueza) é a linguagem. De uma riqueza só superada na moderna prosa brasileira por Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, Lavoura arcaica, no entanto, não pode ser considerado um romance de invenção ou de resgate léxico-sintático como é o do escritor mineiro. Muito antes pelo contrário. O estilo da prosa de Lavoura arcaica é dos mais elegantes e elevados, é patente o cuidado e a meticulosidade na escolha das palavras e na construção das frases. A inovação se dá no modo elíptico com que o narrador se expressa, nesse fluxo de consciência terrível e assustador, adquirindo assim extrema funcionalidade, permitindo que o narrador tenha um modo singular de revelar, por meio de meias-palavras, as grandes atrocidades que cometeu na sua Odisséia às avessas.

As sombras, paradoxalmente, realçam as feridas familiares, que no escuro acabam por se tornar ainda mais ofuscantes (basta lembrar da sutilíssima cena de incesto entre André e o irmão caçula, ou da morte do pai ao final do relato). Em Lavoura arcaica o não dito parece ser mais importante do que a narração dos fatos, contrariando a perspectiva clássica da ficção ocidental a partir do século XIX e principalmente a tendência real-naturalista, muito em voga na ficção brasileira desde a retomada promovida pela chamada geração do Romance de 30. No entanto, as relações do livro com sua época e com a crise da ficção nacional nos anos 1970 são evidentes.

O dramático em Lavoura arcaica

É inquestionável que romance e teatro têm pontos de contato entre si. Cada um, a sua maneira, narra uma história (enredo) de algumas pessoas (personagens) num certo tempo e espaço. Contudo, no romance, personagem, enredo e significado são indissociáveis. Pensar em um romance é pensar na fusão desses três elementos. No resultado da síntese entre os traços e ações das personagens, o enredo que estas desenrolam, o tempo e o espaço nos quais tudo isso acontece e, enfim, no significado que gera. Já no teatro, a personagem concentra toda a carga de expressividade do texto. Um romance pode falar através da descrição de paisagens, através do simples desenvolver de idéias, sem para isso pedir a presença de um personagem. Já é impossível no teatro algo ser contado fora dos limites de um sujeito/ ator. Enquanto o romance se constrói através da combinação de seus elementos, no teatro, todo foco fica na personagem.

E isso é o primeiro ponto merecedor de atenção em Lavoura arcaica. Todo o romance é contado pela voz de André. Isso não teria nada de especial se não levássemos em conta a carga de expressividade concentrada nas palavras de André. Não se trata de mais um caso de narrador personagem. Em Lavoura arcaica o valor à voz de André parece ir bem além. Os fatos não só se desenrolam a partir do contar do protagonista, como todo o texto, toda a ação do enredo parece se voltar para ele, assemelhando-se mais ao teatro que ao romance. André não é simplesmente o narrador da história, mas pivô de toda ela. Mais que narrar uma história, André traça um longo monólogo. Um monólogo em que ele, ao mesmo tempo, conta e questiona os acontecimentos. Não é uma visão de narrador que olha para a história na perspectiva do passado, mas de um ator que a vive, como se pode constatar no seguinte trecho do romance:

(…) eu, o filho torto, a ovelha negra que ninguém confessa, o vagabundo irremediável da família, mas que ama a nossa casa, e ama esta terra, e ama também o trabalho, ao contrário do que se pensa; foi um milagre, querida irmã, foi um milagre, eu te repito, e foi um milagre que não pode reverter (…) (NASSAR, 1989, p. 120)

Esses dois papéis, de narrador e de ator, ora se distinguem ora se misturam no romance. Há o André que relembra e o André que vive. Há o André que retoma o passado e o André que age no presente. Contudo os dois aparecem dentro do mesmo contexto. Quando relembra, André também atua e virce-versa.

Por exemplo, a conversa entre o protagonista e seu irmão Pedro pode ser classificada como muito mais teatral que romanesca. Ela tem a marca do presente, parece que está acontecendo exatamente no tempo em que está sendo escrita. Porém, nessa conversa, há interferências do André narrador. Nos trechos a seguir, fica evidente o caráter teatral desse diálogo:

Pedro, meu irmão, engorde os olhos nessa memória escusa, nesses mistérios roxos, na coleção mais lúdica desse escuro poço. (NASSAR, 1989, p. 73)

não faz mal a gente beber” eu berrei transfigurado, essa transfiguração que há muito devia ter-se dado em casa “eu sou um epilético” fui explodindo, convulsionando mais do que nunca pelo fluxo violento que me corria o sangue (…) (NASSAR, 1989, p. 41)

No primeiro trecho, há somente a presença do ator. Na seqüência do trecho no livro, há a total concentração no depoimento de André. Todo o desenrolar do texto se dá através daquilo que André diz naquele momento. Todo esclarecimento vem da palavra de André. Nele se fixa a expressividade do texto. É na intensidade de suas palavras que vai se imaginar suas expressões e as reações do seu irmão. Já na segunda passagem, temos ainda o mesmo diálogo entre Pedro e André, mas agora com a interferência do narrador.

A presença do teatro no texto nassariano, não se verifica pela total ausência do narrador, mas sim pela contundência que é dada ao discurso de André. Como já exemplificado, o narrador se faz presente em várias passagens, sendo usado, como é comum nos romances, para descrição de personagens e retomada de posições. Em contrapartida, as descrições mais esclarecedoras se fazem através do que as personagens dizem e da maneira como estas se comportam dentro da trama.

Os conflitos que são estabelecidos, os campos de força que vão sendo construídos através do discurso de cada personagem delimitam o espaço de cada um dentro do texto. Através dos diálogos é que se percebe que o pai e Pedro estão do lado oposto ao de André, enquanto Ana e a mãe parecem ter dois lados em conflito: um real e outro aparente. O lado aparente mantém a tradição familiar, a real rompe diretamente com ela.

Outra característica do teatro, presente em Lavoura arcaica, é a limitação de tempo. Na obra em questão, o desenrolar de fatos da infância, desembocam na adolescência e desfecham no André já adulto. Mas isso não toma um tempo grande no desenrolar do texto. Os fatos vão sendo contados entrecortados, de forma que todo o panorama do “como”, “quando” e “porque” se reduzem a poucas páginas.

No trecho a seguir, retirado de um dos diálogos entre André e o pai, fica bem clara a dramaticidade nas vozes de ambos:

– Não há proveito em atrapalhar nossas idéias, esqueça os teus caprichos, meu filho, não afaste o teu pai da discussão dos teus problemas.
– Não acredito na discussão dos meus problemas, não acredito mais em troca de pontos de vista, estou convencido, pai, de que uma planta nunca enxerga a outra. (NASSAR, 1989, p.162)

Analisando assim as características do teatro, percebe-se que o viés dramático marca intensa presença no romance nassariano. Esses elementos emprestam vigor e veracidade ao texto, colocando o leitor diante de personagens ricos de diversas facetas e, por isso, verdadeiramente humanos.

O poético em Lavoura arcaica

Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul, violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, o quarto catedral, onde nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiros os objetos do corpo (…) (NASSAR, 1989, p. 9)

É desta maneira que Raduan Nassar inicia seu romance. Não com um diálogo, não com a descrição de um personagem, nem com nada que possa esclarecer a idéia que perpassará as páginas seguintes. Não há nada de enunciativo, nada que possa dar uma idéia do porvir. Raduan Nassar começa seu romance como um texto poético, uma poesia de André para o seu quarto e os limites que ele estabelece. Não seria necessário que nada viesse depois para explicá-la. O trecho já se completa por si só. Dispensa laços, renega qualquer fundamentação.

Todo o romance nassariano é marcado por passagens, frases e expressões recheadas de carga poética, repletas de metáforas e musicalidade. O texto de Raduan Nassar nega-se a se prestar unicamente a fazer um relato. O texto é material de criação em si mesmo.

É no uso da linguagem poética na construção da sua obra que Raduan Nassar coloca a poesia como o gênero essencialmente literário, o gênero que tira a linguagem do seu eixo norteador.

O discurso de André é, ao mesmo tempo, forma e conteúdo: narra o enredo do livro e constrói, através da linguagem, o caráter do texto e das suas personagens. Nas palavras de André, estão escondidos todos os enigmas do texto, e sua poeticidade o tira do campo das certezas, deixando que os significados voem, se multipliquem, se espalhem.

Renata Pimentel, em seu estudo acerca de Lavoura arcaica, chama bastante atenção para a presença do poético na obra de Raduan Nassar. Em meio à narração, ela percebe “doses concentradas de fazer poético”, efeito que ela chama de desautomatização da linguagem. É desautomatizando o texto, buscando maneiras novas de falar sobre o que todos já conhecem, que Raduan Nassar consegue causar estranhamento e deslumbramento no leitor. O autor tira o leitor do conforto do conhecido para jogá-lo diante de formas inesperadas que remetem a um mundo essencialmente real.

Raduan Nassar garimpa a língua em busca da palavra mais certa, da expressão mais pura, do conceito mais distante do comum. O texto se constrói através de metáforas, repetições e se desenlaça num compasso que mais encontra identidade no campo da poesia que no da prosa, como se observa na passagem a seguir, na qual se encontra os delírios poéticos de André:

(…) que essa mão respire como a minha, ó Deus, e eu em paga deste sopro voarei me deitando ternamente sobre o Teu corpo, e com meus dedos aplicados removerei o anzol de ouro que Te fisgou um dia a boca, limpando depois com rigor Teu rosto machucado, afastando com cuidado as teias de aranha que cobriram a luz antiga dos Teus olhos (…) (NASSAR, 1989, p. 104, 105)

Em Lavoura arcaica, não há a busca por uma organização rigorosamente lógica. O texto flui na corrente dos pensamentos e sentimentos das personagens. Isso se verifica na ausência de parágrafos e no uso diferenciado da pontuação. Só há pontos finais no final de cada capítulo. No mais, a pontuação do texto se faz, sobretudo, através das vírgulas. E em alguns trechos, como em “(…) branco branco o rosto branco(…)” (NASSAR, 1989, p. 98), o efeito do poético é tão forte que até essas são dispensadas.

A repetição é um dos elementos que caracterizam o fazer poético. Repetição não para retomar uma idéia, mas para criar uma nova e, além disso, gerar cadência e musicalidade no texto, como se vê presente nos trechos abaixo:

O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros (…) (NASSAR, 1989, p. 95)

(…) que paixão mais pressentida, que pestilências, que gritos! (NASSAR, 1989, p. 94)

(…) róseo, azul, violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual (…) (NASSAR, 1989, p. 9)

Em Lavoura arcaica, Raduan Nassar repete sons, palavras e até uma passagem inteira. O trecho da festa está presente no início e no final do livro, sendo repetido quase integralmente. Mas cada um com uma função distinta: em primeiro, o trecho é o anúncio do romance entre Ana e André (p. 29 e 30); no final, ele é o enlace final do amor proibido (p. 186,187).

Assim: buscando o sentimento definitivo de cada expressão. Fazendo do seu texto não somente material de apreensão, também de degustação, Raduan Nassar inova escrevendo o que se hoje denomina na moderna literatura de prosa poética, mistura de forma e conteúdo, concreto e sublime.

PERSONAGENS

André: filho de fazendeiro que, ao apaixonar pela irmã foge de casa.

Ana: irmã apaixonada pelo irmão André.

Mãe de André: sofre muito com a fuga do filho.

Pedro: irmão de André que foi buscá-lo no vilarejo onde morava num quarto de pensão.

Iohána: pai de André, morreu logo que percebeu o amor do filho pela irmã Ana.

Lula: irmão de André que também pretendia fugir.

Rosa, Zuleika, Huda – irmãs de André.

ENREDO

O enredo de Lavoura Arcaica revisita, em pequena medida, a história de Amon e Tamar, os incestuosos filhos de Davi, segundo Rei de Israel. Faminto de um tipo de amor que não viceja nos leitos meretriciais que assiduamente freqüenta, André, adolescente instável e presa de uma psique tumultuada, acaba encontrando em Ana, sua irmã mais nova, o combustível do seu desejo sexual e de suas afeições.

Se constitui numa trama dos costumes de uma família onde é mostrado a fuga de André, um adolescente que sempre fora criado na fazenda sob um duro modelo educativo passado por seu pai, o chefe do modelo familiar.

Tal fuga de casa pode ser entendida pelo grande amor que André sentia por Ana, sua própria irmã. Paixão esta que nunca poderia ser compreendida por seu pai. Assim, ele foge para um vilarejo.

A reação de Pedro, seu irmão mais velho, foi a de ir até a pensão onde ele estava e tentar trazê-lo de volta para sua casa na fazenda, onde sua mãe o esperava com ansiedade, sofria bastante com seu filho longe.

Ao achar André, Pedro começou a contar sobre os acontecimentos que estavam ocorrendo na fazenda sem ele. O irmão o recebeu contando lições sobre questões e preceitos da família como a história de um homem faminto que pediu comida. Demonstrou seus pensamentos, apesar de pouca idade acreditava que não valia a pena esperar em algum momento, em certas ocasiões era necessário agir, e logo. Contudo, nada disse sobre sua volta à fazenda.

Suas irmãs apenas rezavam para sua volta, cumpriam as ordens do pai e da mãe, e esta última apenas cumpria com suas funções de dona de casa.

André acaba voltando para casa, suas idéias não batiam com as dos pais que não entendiam a que se passava com o filho. E ele não aceitava a situação de amar a irmã e nada poder fazer. Porém desabafou ao pai que estava cansado, humilde, entendendo a solidão e a miséria, pedindo o seu perdão e amor.

Seu outro irmão, o Lula, acaba dizendo que também queria fugir de casa, que não agüenta mais aquela vida parada da fazenda.

No dia seguinte à chegada de André foi preparada uma festa por seu pai. E assim como iniciou a obra sua irmã Ana dança sensualmente para ele. Foi nesta festa que o pai percebeu o que realmente passava com os irmãos. Desesperado o pai sofre um ataque de tristeza e morre.

COMENTÁRIOS GERAIS

Lavoura arcaica possui a característica comum a toda grande obra de arte: a de nunca se esgotar. Há tantos signos há serem desvendados, tantos caminhos a serem percorridos que não se pode imaginar o dia em que um ponto final seja colocado nas questões que o livro abrange.

Já a partir de seu enredo, Lavoura arcaica começa a tumultuar: um jovem, André, sai de casa fugitivo do rigor do pai e da paixão por sua irmã, Ana. De volta para casa, ele trava uma longa conversa com seu irmão mais velho (uma espécie de sucessor do pai), permeada por uma série de conflitos que vão se desdobrar e refletir na própria estrutura do texto. Uma estrutura densa, capaz de adentrar as superfícies movediças de temáticas como religião, família, incesto, sem se deixar engolir pelo previsível. Raduan Nassar cria uma linguagem nova baseada em textos da Bíblia e do Alcorão, em que o poético se funde ao dramático para construção de um romance que pulsa no sentimento do novo.

Um estudo da obra nassariana intitulado Uma Lavoura de Insuspeitos Frutos, Renata Pimentel Teixeira chama atenção para o caráter desnorteador de Lavoura arcaica. Uma obra que pula a cerca das classificações e corre livre no campo do variado. À primeira vista poderia até ser chamada de romance, mas sua estrutura circular, sua linguagem poética e sua carga de dramaticidade vão além do que se espera desse, em sua formulação tradicional. O texto nassariano é, pois, uma obra de múltiplos gêneros. É romance por sua base mestra no encadeamento de episódios. É teatro por dirigir o vigor do texto para as personagens. É poesia por suas ricas metáforas, uso de aliterações, repetições e sinestesias.

Lavoura arcaica é a fala de André, sua ambigüidade é a de André, e da mesma forma sua indefinição é reflexo do não-enquadramento do André em um padrão. E como André está em todos da sua casa e ao mesmo tempo não está em nenhum, o texto nassariano não se fecha em um só gênero já que passeia por muitos.

A obras é sem dúvida um romance apaixonante tanto para os leitores leigos como para os especialistas em literatura. Oferece material de deleite tanto para um quanto para outro. Um texto que coloca o leitor diante da poesia e da intensidade escondida nos fatos mais corriqueiros da vida. Uma obra de todos os lugares que acaba por se fixar naquele que cada um particularmente busca. Que fala de tradição enquanto remete a um tempo imensurável e individual.

A obra mistura o hoje, o ontem e o sempre. Mistura repulsa e paixão. Mistura o perene à descoberta. Lavoura se desvencilha do pré-estabelecido como forma de se fazer pertencer. Sai da casa da tradição em busca do seu próprio caminho. É filha pródiga que escapa da vigilância do seu senhor, mas que logo volta ao lar, convicta de que nada poderá encontrar fora dos limites da história.

Fogo Morto

Obra-prima de José Lins do Rego, esse romance regionalista mostra o declínio dos engenhos de cana-de-açúcar nordestinos e traça amplo perfil das figuras decadentes que giravam em torno dessa atividade econômica.

Resumo
Primeira parte: “O mestre José Amaro”
Seleiro renomado da região, Mestre José Amaro vive nas terras pertencentes ao Seu Lula. A dedicação do homem ao ofício consome a saúde, conferindo-lhe um aspecto doentio. Mora inicialmente com a filha Marta, uma solteirona que acaba enlouquecendo, e com a mulher, Sinhá.

José Amaro reside na beira da estrada, localização que favorece o contato com vários personagens que passam pelo caminho. Entre as principais figuras com as quais desenvolve suas conversas estão o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, de quem se apieda pelo modo como é tratado pelo povo da região; o cego Torquato e Alípio, mensageiros do Capitão Antônio Silvino, cangaceiro temido da região. O mestre admira e respeita o cangaceiro, por considerá-lo o vingador dos pobres e explorados.

Em certo momento, Marta tem um forte ataque de convulsão nervosa e José Amaro a espanca no intuito de curá-la. Em virtude de seu semblante doentio e da insônia, que o leva a vagar pelas madrugadas nas ermas estradas da região, José Amaro é amaldiçoado pelo povo, que o acusa de ser um lobisomem. Homem orgulhoso, que sempre se gabava de trabalhar apenas para quem lhe aprouvesse, o mestre se indispõe com o dono da terra em que vivia, de onde acaba sendo expulso.

A tragédia do personagem se completa com a internação da filha, que enlouquece, e com a fuga da mulher, que teme sua figura doentia e vai aos poucos acreditando nas histórias do povo, até enxergar no marido a figura maldita do lobisomem.

Seu fim trágico só será revelado na terceira parte do livro: entregue à própria sorte, José Amaro é preso e humilhado pela tropa do Tenente Maurício, acusado de colaborar com o Capitão Antônio Silvino. Perdido irremediavelmente o orgulho, único bem que possuía, o mestre se suicida.

Segunda parte: “O Engenho do Seu Lula”
Para contar a história do personagem Luís César de Holanda Chacon (Seu Lula), o narrador promove um recuo temporal rumo à época da construção do Engenho de Santa Fé. O fundador do engenho fora o capitão Tomás Cabral de Melo, que chegou à região, um sítio próximo ao engenho Santa Rosa, e criou um dos maiores engenhos do local, conquistando o respeito e a admiração de todos.

Homem sério e trabalhador, o capitão trouxera para a região gado de primeira ordem, escravos e a família. Construído seu imenso patrimônio, faltava a ele uma única realização: casar a filha – que tocava piano e havia estudado no Recife – com um homem digno de sua educação. Rejeitando todos os pretendentes da região, por não terem os requisitos necessários, o capitão começa a se preocupar com a idade da filha e com sua condição de solteira.

É quando chega de Pernambuco o filho de Antônio Chacon, homem de coragem e muito admirado pelo capitão. O nome do rapaz é Luís César de Holanda Chacon. Fino e estudado, é considerado pelo capitão Tomás um ótimo partido para a filha e para suas ambições.

Depois de casado, o capitão percebe que o genro não se interessa pelo trabalho do engenho e passa a considerá-lo um leseira (pessoa tola ou preguiçosa) para os negócios. Após a morte do capitão, essas suspeitas se confirmam. Seu Lula, como passou a ser chamado, mostra-se um senhor de engenho autoritário, que impõe severos castigos aos escravos e lidera sua família e o engenho sem o talento nem o trabalho do capitão Tomás. Dessa forma, o engenho entra em decadência e, após a abolição da escravatura, os escravos debandam e o engenho deixa de produzir açúcar (torna-se “fogo morto”).

Comandando tudo de forma autoritária, Seu Lula proíbe sua filha Neném de namorar um moço de origem humilde e a moça acaba virando motivo de chacota na cidade. Após um ataque epilético, Seu Lula passa a se entregar à religião sob influência do negro Floripes. Por fim, acaba gastando todo o dinheiro que havia recebido de seu sogro como herança. Esta parte do livro se encerra com a famosa frase “Acabara-se o Santa Fé”.

Terceira parte: “O Capitão Vitorino”
Capitão Vitorino é uma personagem que perambula pelas estradas, como um cavaleiro errante, ostentando um poder e uma dignidade que está longe de possuir, sendo uma paródia de Dom Quixote de La Mancha. O capitão vive, assim como Mestre José Amaro e Seu Lula, em uma realidade muito diferente da que tenta aparentar.

Certo dia, o capitão Antônio Silvino invade o engenho Santa Fé após saquear a cidade do Pilar. Ao tentar defender o engenho, Capitão Vitorino é agredido. Porém, ele é salvo com a intervenção de José Paulino. Com a chegada da polícia, todos são presos. Após ser liberado, Vitorino pensa em seguir carreira política na região.

Personagens
Mestre José Amaro: é branco e sente-se orgulhoso por isso. É explorado por seu patrão, mas sabe que não tem outra alternativa. Trabalhador livre, tem coragem e apoio do cangaço.
Seu Lula (Lúis César de Holanda Chacon): preguiçoso e autoritário, acaba perdendo toda a herança que recebeu e arruinando o Engenho Santa Fé. Após perder tudo, refugia-se na religião.
Capitão Vitorino Carneiro da Cunha (Papa-Rabo): é o defensor dos mais pobres e dos oprimidos. Embora plebeu, por ter parentesco com o Coronel José Paulino, diz-se capitão.
Coronel José Paulino: poderoso senhor de engenho.
Sinhá e Marta: respectivamente mulher e filha do Mestre José Amaro.
Amélia: esposa do coronel Lula.
Adriana: esposa do Capitão Vitorino.
Capitão Antônio Silvino: chefe dos jagunços que atemorizam os senhores de engenho e políticos da região, lembra a figura do lendário Lampião.
Tenente Maurício: chefe das tropas do governo, é antagonista do Capitão Antônio Silvino.

Eles não usam black-tie

Primeira peça de Gianfrancesco Guarnieri, Eles não usam black-tie, de 1958, foi encenada pela primeira vez quando o movimento Cinema Novo começava a surgir e a convocar a arte ao neo-realismo. No lugar de cenários pomposos e figurinos luxuosos, ficaram apenas os elementos de cena indispensáveis. Ao invés de personagens ricos e nobres, operários e moradores do morro tomaram o palco. Ali, em plenos anos 50, negros eram cidadãos comuns. Pela primeira vez, os conflitos da realidade brasileira ganhavam espaço na caixa cênica.

Eles não usam black-tie situa-se numa favela, nos anos 50, e tem como tema a greve, e ao lado da greve a peça tem como pano de fundo um debate sobre as grandes verdades eternas, reflexões universais sobre a frágil condição humana, sobre os homens e seus conflitos. É a história de um choque entre pai e filho com posições ideológicas e morais completamente opostas e divergentes, o que, por sinal, dá a tônica dramática ao texto.

O pai, Otávio, é operário de carreira, um sonhador, um idealista, leitor de autores socialistas e, ao mesmo tempo um revolucionário por convicção e consciente de suas lutas. Forte e corajoso entre os seus companheiros, experimentou várias lideranças, algumas prisões, com isso ganha destaque entre os seus transformando-se num dos cabeças do movimento grevista.
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O filho, Tião, em razão das prisões do pai grevista, é criado praticamente, na cidade, longe do morro, com os padrinhos, sem conviver com esse mundo de luta e reivindicação da classe operária. Hoje adulto e morando no morro com os pais, vive um dos maiores conflitos de sua vida. Em primeiro lugar não quer aderir à greve, pois acha que essa é uma luta inglória, sem maiores resultados para a classe. Em segundo lugar pretende se casar com Maria, moça simples, porém determinada e leal ao seu povo, e está esperando um filho seu. Desta forma, Tião está mais preocupado com o seu futuro do que com a luta de seus companheiros, que sonham com melhores salários. Para Tião, greve é algo utópico. Ele não tem tempo para esperar, precisa resolver seus problemas de imediato, ou seja, se casar.

É preciso esclarecer que Tiäo, ao contrário de seu amigo Jesuíno, malandro, fraco e oportunista, é um jovem corajoso, mesmo porque fura a greve sem medo dos companheiros, achando que está agindo corretamente. Por essa atitude, acaba perdendo a amizade de todos de seu grupo, restando apenas um colega da fábrica e João, irmão de Maria, um homem ponderado e maduro capaz de compreender a situação conflitante vivida pelo amigo Tião e ainda apoiar sua irmã neste momento difícil.

Na realidade, Tião não tem medo do confronto com o inimigo. O seu medo é outro, é o grande medo de toda a sociedade, o medo de ser pobre, por isso quer subir na vida e deixar para trás a condição difícil e miserável do morro, que, por sinal, é desafiada cotidianamente pela coragem e bravura de Romana, sua mãe, mulher de pulso e determinação e responsável pelo equilíbrio da casa e da família.

Eles não usam black-tie é um texto político e social, sempre atual no qual Gianfracesco Guarnieri criou de um lado, personagens marcantes e populares como Terezinha, Chiquinho, Dalvinha e Jesuíno que nos revelam um mundo alegre, descontraído e aparentemente feliz. Já por outro lado a peça se apresenta forte e densa revelando de maneira real os conflitos que atormentam personagens como Otávio, Romana, Tião, Maria e Bráulio. São tais encontros e são esses momentos alegres e comoventes , que nos provocam o riso e a dor, alegria e tristeza. Assim, se por um lado mostra um olhar profundo dentro da sociedade brasileira, por outro esse olhar vem embalado por um valor poético materializado na visão romântica do mundo de seus personagens.

Embora, na convencional teoria de dramaturgia teatral não se enquadre essa abordagem, o drama social é de natureza épica e por isso mesmo uma contradição em si mesma. Aqui, novamente Guarnieri quebrou também outra regra essencial, presente nos manuais do “bom drama”: ao invés de trazer personagens “superiores” como protagonistas, ele se utilizou de gente humilde, trabalhadores comuns, para conduzir sua história. Mesmo as mais simples metáforas, foram pinçadas nos mais básicos valores de nossa cultura popular, como por exemplo, na metáfora do amor, o feijão, prato massivo na América do Sul, teria um “coração de mãe”.

A temática não é política, muito menos panfletária. O que discorre são relações de amor, solidariedade e esperança diante dos percalços de uma vida miserável. Assim, a peça alia temas como greve e vida operária com preocupações e reflexões universais do ser humano. Sob o olhar de Karl Marx, em um retrato iluminado por um feixe de luz na parede do cenário, o debate entre a coletividade e o individualismo, simultaneamente cru e sensível, vai crescendo.

Eles não usam black-tie é um marco do teatro de temática social.

Foi com a encenação de Eles não usam black-tie, que se iniciou uma produção sistemática e crítica de textos dispostos a representar as classes subalternas, com ênfase para a representação do proletariado. Nesse sentido, a peça de Guarnieri insere-se num quadro que se ampliou a partir da década de 1950, quando surgiu uma dramaturgia com preocupações ligadas à representação de uma camada específica da sociedade brasileira e, para além disso, em busca da construção de uma identidade nacional pautada em variedades culturais internas.

Clara dos Anjos

Concluído em 1922, ano da morte de Lima Barreto, o romance Clara dos Anjos é uma denúncia áspera do preconceito racial e social, vivenciado por uma jovem mulher do subúrbio carioca.

O grande historiador e crítico literário Sérgio Buarque de Holanda, já apontava, escrevendo sobre Clara dos Anjos, que é muito difícil “escrever sobre os livros de Lima Barreto sem incorrer um pouco no pecado do biografismo”. Poucos escritores brasileiros foram tão obsessivos na investigação da temática do preconceito quanto Lima Barreto.

Mulato, nasceu em 1881, mesmo ano em que o também mulato Machado de Assis introduzia o Realismo na literatura nacional com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Aluísio Azevedo inaugurava a Naturalismo no Brasil com o romance O Mulato.
Não são apenas coincidências. A questão do preconceito contra a mestiçagem, já denunciada no obra de Aluísio Azevedo, será fundamental no pensamento nacional entre a implantação do Naturalismo e a do Modernismo, em 1922, ano da morte de Lima Barreto.
Até por razões pessoais, e por viver exatamente nesse período, sempre retratando-o de forma crítica e até ressentida, o autor de Clara dos Anjos seria o escritor que mais sentiria (na pele) o preconceito e o retrataria com tintas mais ácidas na nossa literatura. É ainda Sérgio Buarque de Holanda que melhor resume como essa temática se apresenta em Clara dos Anjos:

“Em Clara dos Anjos relata-se a estória de uma pobre mulata, filha de um carteiro de subúrbio, que apesar das cautelas excessivas da família, é iludida, seduzida e, como tantas outras, desprezada, enfim, por um rapaz de condição social menos humilde do que a sua. É uma estória onde se tenta pintar em cores ásperas o drama de tantas outras raparigas da mesma cor e do mesmo ambiente. O romancista procurou fazer de sua personagem uma figura apagada, de natureza “amorfa e pastosa”, como se nela quisesse resumir a fatalidade que persegue tantas criaturas de sua casta: “A priori”, diz, “estão condenadas, e tudo e todos parecem condenar os seus esforços e os dos seus para elevar a sua condição moral e social.” É claro que os traços singulares, capazes de formar um verdadeiro “caráter” romanesco, dando-lhe relevo próprio e nitidez hão de esbater-se aqui para melhor se ajustarem à regra genérica. E Clara dos Anjos torna-se, assim, menos uma personagem do que um argumento vivo e um elemento para a denúncia.”
 
O ENREDO
Clara é uma mulata pobre, que vive no subúrbio carioca com seus pais, Joaquim e Engrácia, mulher “sedentária e caseira.” Joaquim era carteiro, “gostava de violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instrumento que já foi muito estimado em outras épocas, não o sendo atualmente como outrora”. Também “compunha valsas, tangos e acompanhamentos de modinhas.” Além da música, a outra diversão do pai de Clara era passar as tardes de domingo jogando solo com seus dois amigos: o compadre Marramaque e o português Eduardo Lafões, um guarda de obras públicas.
 
Marrameque e as rodas literárias
Poeta modesto, semiparalisado, Marramaque freqüentara uma pequena roda de boêmios e literatos e dizia ter conhecido Paula Nei e ser amigo pessoal de Luís Murat.
A descrição dessa figura revela a crítica de Lima Barreto a vários aspectos da vida literária brasileira:
“Embora atualmente fosse um simples contínuo de ministério, em que não fazia o serviço respectivo, nem outro qualquer, devido a seu estado de invalidez, de semi-aleijado e semiparalítico do lado esquerdo, tinha, entretanto, pertencido a uma modesta roda de boêmios literatos e poetas, na qual, a par da poesia e de coisas de literatura, se discutia muita política, hábito que lhe ficou. (…)
A sua roda não tinha ninguém de destaque, mas alguns eram estimáveis. Mesmo alguns de rodas mais cotadas procuravam a dele.
Quando narrava episódios dessa parte de sua vida, tinha grande garbo e orgulho em dizer que havia conhecido Paula Nei e se dava com Luís Murat. Não mentia, enquanto não confessasse a todos em que qualidade fizera parte do grupo literário. Os que o conheciam, daquela época, não ocultavam o título com que partilhava a honra de ser membro de um cenáculo poético. Tendo tentado versejar, o seu bom senso e a integridade de seu caráter fizeram-lhe ver logo que não dava para a coisa. Abandonou e cultivou as charadas, os logogrifos, etc. Ficou sendo um hábil charadista e, como tal, figurava quase sempre como redator ou colaborador dos jornais, que os seus companheiros e amigos de boêmia literária, poetas e literatos, improvisavam do pé para a mão, quase sempre sem dinheiro para um terno novo. Envelhecendo e ficando semi-inutilizado, depois de dois ataques de apoplexia, foi obrigado a aceitar aquele humilde lugar de contínuo, para ter com que viver. Os seus méritos e saber, porém, não estavam muito acima do cargo. Aprendera muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas. (…)
Tendo vivido em rodas de gente fina — como já vimos — -, e não pela fortuna, mas pela educação e instrução; tendo sonhado outro destino que não o que tivera; acrescendo a tudo isto o seu aleijamento — Marramaque era naturalmente azedo e oposicionista.”
Lima Barreto denuncia, na figura de Marramaque, a influência das rodas literárias, grupos fechados que abundam no Brasil; a cultura da oralidade, dos que aprendem “muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas”, tendo um cultura superficial, de verniz; e o azedume dos que não conseguem brilhar nas “rodas de gente fina”.
 
Clara: a “natureza elementar”
Clara era a segunda filha do casal, “o único filho sobrevivente…os demais…haviam morrido.” Tinha dezessete anos, era ingênua e fora criada “com muito desvelo, recato e carinho; e, a não ser com a mãe ou pai, só saía com Dona Margarida, uma viúva muito séria, que morava nas vizinhanças e ensinava a Clara bordados e costuras.”
O autor reitera sempre a personalidade frágil da moça – sua “alma amolecida, capaz de render-se às lábias de um qualquer perverso, mais ou menos ousado, farsante e ignorante, que tivesse a animá-lo o conceito que os bordelengos fazem das raparigas de sua cor” – como resultado de sua educação reclusa e “temperada” pelas modinhas:
“Clara era uma natureza amorfa, pastosa, que precisava mãos fortes que a modelassem e fixassem. Seus pais não seriam capazes disso. A mãe não tinha caráter, no bom sentido, para o fazer; limitava-se a vigiá-la caninamente; e o pai, devido aos seus afazeres, passava a maioria do tempo longe dela. E ela vivia toda entregue a um sonho lânguido de modinhas e descantes, entoadas por sestrosos cantores, como o tal Cassi e outros exploradores da morbidez do violão. O mundo se lhe representava como povoado de suas dúvidas, de queixumes de viola, a suspirar amor.”
Essa “natureza elementar” de Clara se traduzia na ausência de ambição em melhorar seu modo de vida ou condição social por meio do trabalho ou do estudo:

“Nem a relativa independência que o ensino da música e piano lhe poderia fornecer, animava-a a aperfeiçoar os seus estudos. O seu ideal na vida não era adquirir uma personalidade, não era ser ela, mesmo ao lado do pai ou do futuro marido. Era constituir função do pai, enquanto solteira, e do marido, quando casada. (…) Não que ela fosse vadia, ao contrário; mas tinha um tolo escrúpulo de ganhar dinheiro por suas próprias mãos. Parecia feio a uma moça ou a uma mulher.”
A descrição de Clara reforça os malefícios da formação machista, superprotetora, repressiva e limitadora reservada às mulheres na nossa sociedade. Ecoa, portanto, a descrição de Luísa, do romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós, ou a Ana Rosa de O Mulato, de Aluísio de Azevedo. Todas são, na verdade, herdeiras diretas da figura de formação débil, educada nas leituras dos romances românticos, que é Emma Bovary, criada por Gustave Flaubert no romance inaugural do Realismo, Madame Bovary (1857).
 
Cassi: o corruptor
Por intermédio de Lafões, o carteiro Joaquim passa a receber em casa o pretendente de Clara, Cassi Jones de Azevedo, que pertencia a uma posição social melhor. Assim o descreve Lima Barreto:

“Era Cassi um rapaz de pouco menos de trinta anos, branco, sardento, insignificante, de rosto e de corpo; e, conquanto fosse conhecido como consumado “modinhoso”, além de o ser também por outras façanhas verdadeiramente ignóbeis, não tinha as melenas do virtuose do violão, nem outro qualquer traço de capadócio. Vestia-se seriamente, segundo as modas da rua do Ouvidor; mas, pelo apuro forçado e o degagé suburbanos, as suas roupas chamavam a atenção dos outros, que teimavam em descobrir aquele aperfeiçoadíssimo “Brandão”, das margens da Central, que lhe talhava as roupas. A única pelintragem, adequada ao seu mister, que apresentava, consistia em trazer o cabelo ensopado de óleo e repartido no alto da cabeça, dividido muito exatamente ao meio — a famosa “pastinha”. Não usava topete, nem bigode. O calçado era conforme a moda, mas com os aperfeiçoamentos exigidos por um elegante dos subúrbios, que encanta e seduz as damas com o seu irresistível violão.”
O padrinho Marramaque, que já lhe conhecia a fama, tenta afastá-lo de Clara quando percebe seu interesse. Na festa de aniversário da afilhada, provoca Cassi e deixa claro que ele não é bem-vindo ali e que seria melhor que se retirasse. Cassi vinga-se de modo violento: junta-se a um capanga e ambos assassinam Marramaque. Clara, que já suspeitava das ameaças do rapaz ao padrinho, passa a temê-lo, mas ele consegue seduzi-la, principalmente ao confessar seu crime, dizendo que matou por amor a ela.
Malandro e perigoso, Cassi já havia se envolvido em problemas com a justiça antes, mas sempre fora acobertado pela sua família, especialmente sua mãe, que não queria que fosse preso. Assim, conseguia subornar a polícia e continuar impune, mesmo depois de ter levado a mãe de uma de suas vítimas ao suicídio e da perseguição da imprensa.
O exagero narrativo de Lima Barreto torna-se patente ao descrever a figura do sedutor. Branco, sardento e de cabelos claros, é a antítese de Clara. Como o apontou Lúcia Miguel Pereira: “Até os animais da predileção de Cassi, os galos de briga, são apresentados com visível má vontade: ‘horripilantes galináceos’ de ‘ferocidade repugnante’.”
 
O desfecho
Clara engravida e Cassi Jones desaparece. Convencida pela vizinha, dona Margarida, que procurara na tentativa de conseguir um empréstimo e fazer um aborto, ela confessa o que está acontecendo à sua mãe. É levada a procurar a família de Cassi e pedir “reparação do dano”. A mãe do rapaz humilha Clara, mostrando-se profundamente ofendida porque uma negra quer se casar com seu filho. Clara “agora é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos no conceito de todos.”
O autor representa, na figura de Clara e no seu drama, a condição social da mulher, pobre e negra, geração após geração. No final do romance, consciente e lúcida, Clara reflete sobre a sua situação:
“O que era preciso, tanto a ela como às suas iguais, era educar o caráter, revestir-se de vontade, como possuía essa varonil Dona Margarida, para se defender de Cassi e semelhantes, e bater-se contra todos os que se opusessem, por este ou aquele modo, contra a elevação dela, social e moralmente. Nada a fazia inferior às outras, senão o conceito geral e a covardia com que elas o admitiam…”
E, na cena final, ao relatar o que se passara na casa da família de Cassi Jones para a sua mãe, conclui, em desespero, como se falasse em nome dela, da mãe e de todas as mulheres em iguais condições: “— Nós não somos nada nesta vida.”
 

O UNIVERSO SUBURBANO

O romance passa-se no subúrbio carioca e Lima Barreto descreve o ambiente suburbano com riqueza de detalhes, como os vários tipos de “casas, casinhas, casebres, barracões, choças” e a vida das pessoas que ali vivem.
Nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda:
 “Ao oposto de Machado de Assis, que saído do Morro do Livramento procuraria os bairros da classe média e abastada, este homem, nascido nas Laranjeiras, que se distinguiu nos estudos de Humanidades e nos concursos, que um dia sonhou tornar-se engenheiro, que no fim da vida ainda se gabava de saber geometria contra os que o acusavam de não saber escrever bem, procurou deliberadamente a feiúra e a tristeza dos bairros pobres, o avesso das aparências brancas e burguesas, o avesso de Botafogo e de Petrópolis.”
 
Os “bíblias”
Ao descrever o subúrbio, Lima Barreto aborda o advento dos “bíblias”, os protestantes que alugam uma antiga chácara e passam a conquistar novos fiéis para seu culto:
“Joaquim dos Anjos ainda conhecera a “chácara” habitada pelos proprietários respectivos; mas, ultimamente, eles se tinham retirado para fora e alugado aos “bíblias”… O povo não os via com hostilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres raparigas dos arredores freqüentavam-nos, já por encontrar nisso um sinal de superioridade intelectual sobre os seus iguais, já por procurarem, em outra casa religiosa que não a tradicional, lenitivo para suas pobres almas alanceadas, além das dores que seguem toda e qualquer existência humana.”
E reflete sobre a nova seita:

“Era Shays Quick ou Quick Shays daquela raça curiosa de yankees fundadores de novas seitas cristãs. De quando em quando, um cidadão protestante dessa raça que deseja a felicidade de nós outros, na terra e no céu, à luz de uma sua interpretação de um ou mais versículos da Bíblia, funda uma novíssima seita, põe-se a propagá-la e logo encontra dedicados adeptos, os quais não sabem muito bem por que foram para tal novíssima religiãozinha e qual a diferença que há entre esta e a de que vieram.”
A crítica às “novas seitas cristãs” revela também a ojeriza de Lima Barreto à influência americana no Brasil. Como o colocou Antônio Arnoni Prado, o autor de Clara dos Anjos “interessou-se pelos Estados Unidos, em virtude do tratamento desumano que este país dispensava aos seus cidadãos de cor. (…) Censurou duramente a discriminação racial americana, assim como o expansionismo imperialista dos ‘yankees’, que, através da diplomacia do dólar, ia, a seu ver, convertendo o Brasil num autêntico protetorado.” Nada mais profético.

O PRÉ-MODERNISMO BRASILEIRO
Durante as primeiras duas décadas do século XX, enquanto a Europa se via invadida pelos movimentos da vanguarda modernista, a literatura brasileira ainda se encontrava dominada pelos estilos surgidos no século anterior. Parnasianismo e simbolismo predominavam na poesia, realismo e naturalismo na prosa.
Alguns escritores, no entanto, rompiam com estas quatro tendências, e, ainda que muito diferentes, não comungando de um estilo comum, antecipavam, cada um a seu modo, as inovações que seriam propagadas pelos modernistas de 1922, problematizando a realidade social e cultural brasileira. Entre estes escritores, destacam-se Graça Aranha (1868-1931), Simões Lopes Neto (1865-1916), e, principalmente, Euclides da Cunha (1866 – 1909), Augusto dos Anjos (1884 – 1914), Lima Barreto (1881 – 1922) e Monteiro Lobato (1882 – 1948).
 
A herança naturalista
O Realismo-naturalismo aparece por volta de 1870 como uma derivação do realismo. Recebeu profunda influência de algumas das teorias e doutrinas que estavam no auge naquele momento, sobretudo do materialismo e do determinismo. O Naturalismo considerava a vida do homem resultado de fatores externos (raça, ambiente familiar, classe social, etc.). Influenciado pelas ciências experimentais, o escritor naturalista tentava demonstrar, com rigor científico, que o comportamento humano está sujeito a leis semelhantes às que regem os fenômenos físicos. Se o realismo pretendia ser objetivo e imitar a realidade, o Naturalismo desejava fazer uma análise histórica, social e psicológica da realidade, um estudo profundo a partir de uma ampla documentação prévia.
O Realismo-naturalismo, que tanto influenciou Lima Barreto na composição de Clara dos Anjos, é cientificista e determinista, considerando que as ações humanas são produtos de leis naturais: do meio, das características hereditárias e do momento histórico. Portanto, os romances naturalistas procuravam, através da representação literária, demonstrar teses extraídas de teorias científicas. Para isso, o Naturalismo buscou compor um registro implacável da realidade, incluindo seus aspectos repugnantes e grotescos. São exatamente esses os aspectos que mais chamam à atenção na narrativa exagerada de Clara dos Anjos.

A última Quimera

Este livro conta um pouco sobre quem foi Augusto dos Anjos. Através da narração de um, então, amigo de infância de Augusto, o leitor é jogado na vida de um homem que sofre com a perda do amigo e mergulha nas memórias de sua vida com ele. Esse poeta notável que viveu sem nenhum reconhecimento e, depois de sua morte (1884-1914), tornou-se uma lenda, tem uma história encantadora. Além do mistério do narrador, Ana Miranda consegue, através de muita pesquisa e carinho, trazer para nós um livro envolvente que, sem querer, aumenta o nosso conhecimento sobre esse poeta que viveu sem ver seu trabalho reconhecido.

Augusto dos Anjos foi um poeta livre e verdadeiro, segundo o narrador. Durante sua vida, onde o romantismo, o parnasianismo, o realismo e o simbolismo travavam longas lutas para saber qual escola se consagraria, Augusto não escrevia nada relacionado a elas e, por isso, foi ignorado pela sua época e, só se tornou famoso por todo o país depois de sua morte.

No livro, essa parte importante sobre quem foi Augusto dos Anjos e a sua forma artística, representada pela publicação do Eu (único livro publicado de Augusto dos Anjos), se passa através de um diálogo entre um professor, aspirante a novo marido de Esther e o nosso narrador, que, garanto, não gostou nada desse visitante misterioso.

Apesar de ser um livro envolvente é, também, muito irritante, porque nos deixa com várias perguntas não respondidas: quem era o narrador? Camila morreu ou não? Ana Miranda, ao optar por ficcionar a figura histórica de Augusto dos Anjos, mistura com elegância biografias, romances e documentos históricos, que juntos, formaram essa quimera ambulante, consequentemente, fica difícil conseguir respostas…

E como uma boa quimera, nessa, temos o contraste berrante entre duas pessoas que viviam e trabalhavam na mesma época. Essa obra mostra a diferença entre a realidade de vida entre Olavo Bilac e Augusto dos Anjos, que escreviam com objetivos diferentes, por isso, aquele alcançou um título muito honroso: Príncipe dos Poetas e este teve que sair de sua terra natal, a Paraíba, por não ter meios de viver dignamente e acabou morrendo a quilômetros de distância, em Leopoldina, MG.

Em meio a isso, temos a contextualização histórica feita pela autora, nos mostrando a urbanização do Rio de Janeiro, os conflitos ideológicos políticos e a guerra entre os poetas e movimentos na Paraíba de agitação política, movimentos armados nos sertões, cangaceiros e etc.

E a parte romântica do livro se dá com a descrição do amor do narrador pela mulher de Augusto, Esther. Um amor platônico que nunca foi concretizado, pois o narrador não poderia, jamais, trair o amigo dessa forma. Por isso, teve que se contentar com outras mulheres, como meretrizes e jovens que tiveram seus corações arrasados, como Marion.