Mayombe

Nesta obra, originalmente publicada em 1980, Mayombe foi escrito durante a participação do escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) na guerra de libertação de Angola na década de 70. Recompõe o cotidiano dos guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) em luta contra as tropas portuguesas. O romance, inovador, aborda as ações, os sentimentos e as reflexões do grupo, e as contradições e os conflitos que permeavam as relações daqueles que buscavam construir uma nova Angola, livre da colonização.

Foco narrativo

A obra é organizada em seis capítulos nos quais há variação do foco narrativo – um narrador onisciente e onipresente se intercala com as personagens, guerrilheiros do MPLA, no papel de narrador da história. Com isso, Pepetala demonstra que nem mesmo a revolução se organiza como um conjunto, sendo enxergada de forma diferente e conflitante pelos seus próprios membros. Cada um desses observadores-participantes, com origem, ideologia, visão e propostas próprias, possuem também ideais distintos que os impedem de lutar pela mesma unidade libertadora.

Tempo

“O Mayombe começa com um comunicado de guerra. Eu escrevi o comunicado e… o comunicado pareceu-me muito frio, coisa para jornalista, e eu continuei o comunicado de guerra para mim, assim nasceu o livro”, escreve o autor numa obra híbrida entre o romance e a reportagem.

Mayombe, nome de uma região da África, é uma narrativa em tempo cronológico que analisa profundamente a organização dos combatentes do MPLA, lançando luz às dúvidas, que também eram as do autor, sobre as contradições, medos e convicções que impulsionavam os guerrilheiros em busca de liberdade no interior da densa floresta tropical. Eles confrontam-se não só com as tropas colonizadoras portuguesas, mas também com as diferenças culturais e sociais que procuram superar em direção a uma Angola unificada e livre.

Enredo

O livro é dividido em seis capítulos: A Missão; A Base; Ondina; A Surucucu; a Amoreira e o Epílogo. Os personagens são nomeados como alegoria de guerra conforme os objetivos do MPLA. Assim, temos o personagem Sem Medo (o comandante), Teoria (o professor), Verdade e Lutamos (destribalizados) e Mundo Novo, representante da elite africana que vai estudar fora de seu país, entre outros.

Ondina, a personagem feminina, é a mulher que instaura as transformações em alguns guerrilheiros do Mayombe. Por exemplo, o Comissário Político, seu noivo, é obrigado a amadurecer diante da traição e do rompimento da relação com ela. Sem Medo é impelido a refletir sobre o amor e a sacrificar seu desejo por ela.

Interessante notar que Ondina é a personagem que não tem voz na narrativa de Pepetela, o que reflete a crítica para a desigualdade de gênero na luta instaurada em Angola por libertação e justiça.

Por fim, a floresta – personagem – gesta um novo homem para um novo momento histórico em Angola. Pepetela, por meio da apropriação do espaço do Mayombe, procura, simbolicamente, percorrer a história angolana por meio do território invadido e ocupado pelos colonos, seja no que diz respeito à terra ou à identidade do povo de Angola.

Análise

A obra é uma reflexão, envolta pelos ideais socialistas, sobre a dura realidade da sociedade angolana, sobre as perspectivas do movimento de libertação e da população local em relação aos princípios conflitantes do MPLA.

Cada personagens luta a seu modo por seus ideais de libertação. Em meio a isso, vimos uma Angola despedaçada e sem unidade. O livro procura retratar esse desfacelamento e critica as lutas de grupos que não se unem por um ideal comum.

A estrutura narrativa polifônica (várias vozes), que retrata os acontecimentos sob o ponto de vista de várias personagens em primeira pessoa, revela o profundo respeito a cada homem na sua individualidade e o desejo do autor de transformar os agentes da revolução em sujeitos da luta.

Durante toda a narrativa, ocorre um mesmo registro linguístico, a despeito do abismo existente entre as classes sociais das personagens e as suas origens culturais, o que reforça a ideia de propor a igualdade entre as pessoas. Além disso, há a tentativa de criar um ideal nacionalista que une os povos distintos e a MPLA em oposição ao colonialismo.

Conexões

Ao retratar a luta de tribos em busca da libertação de seu país, Mayombe pode ser comparada ao romance indianista Iracema, de José de Alencar. Ambas apresentam conflitos entre tribos e a tentativa de se isolar do colonialismo português.

Sagarana

Elementos estruturais e resumos
Os narradores de “Sagarana” têm o estilo marcante criado por Guimarães Rosa, cuja principal característica é a oralidade. No entanto, esse traço ainda não está tão acentuado como em obras posteriores, como “Grande Sertão: Veredas” e “Primeiras Estórias”, entre outras. Considerando que a oralidade acentuada é um dos principais obstáculos para a leitura de Guimarães Rosa, o livro “Sagarana” é uma excelente opção para iniciar-se na obra do autor.

Em relação ao foco narrativo, com exceção dos contos “Minha Gente” e “São Marcos” – que são narrados em primeira pessoa –, os demais possuem narradores em terceira pessoa. Quanto ao tempo e ao espaço de “Sagarana”, pouco há o que ser dito. Sobre o primeiro elemento, vale destacar a linearidade da narrativa, que se desenvolve na maior parte sob o tempo psicológico dos personagens.

O espaço é quase sempre Minas Gerais. Mais especificamente, o interior do estado. Vale uma atenção maior para o nome dos povoados e vilarejos dos contos. Os estados de Goiás e do Rio de Janeiro são mencionados no livro, mas têm pouca relevância na narrativa.

“O burrinho pedrês”
Enredo: Sete-de-Ouros é um burrinho decrépito que já fora bom e útil para seus vários donos. Esquecido na fazenda do Major Saulo, tem o azar de ser avistado numa travessia pelo dono da fazenda, que o escala para ajudar no transporte do gado. Na travessia do Córrego da Fome, todos os cavalos e vaqueiros morrem, exceto dois: Francolim e Badu; este montado e aquele agarrado ao rabo do Burrinho Sete-de-Ouros.
Principais personagens: Sete-de- Ouros (burrinho pedrês), Major Saulo, Francolim e Badu.

“A volta do marido pródigo”
Enredo: Lalino é um típico malandro que não aprecia o trabalho, apenas a boa vida. Abandona o serviço na estrada de ferro e vai para o Rio de Janeiro, largando sua mulher, Maria Rita, a Ritinha, na região. No retorno, a encontra casada com o espanhol Ramiro. Torna-se cabo eleitoral do Major Anacleto, que, graças a ele, ganha a eleição. Laio, como também é conhecido, reconcilia-se com Maria Rita no fim do conto.
Principais personagens: Lalino Salathiel, Maria Rita, Ramiro e Major Anacleto.

“Sarapalha”
Enredo: a história de dois primos, Ribeiro e Argemiro, contagiados pela malária que se espalhou no vau de Sarapalha. Os dois estão solitários na região, já que parte da população morrera e os demais fugiram, entre os quais a mulher de Ribeiro, Luísa. Argemiro, percebendo a iminência da morte e desejando ter a consciência tranqüila, confessa o interesse pela esposa do primo. Ribeiro reage à confissão de forma agressiva e expulsa Argemiro de suas terras, sem nenhuma complacência.
Principais personagens: Primo Ribeiro e Primo Argemiro.

“Duelo”
Enredo: Turíbio flagra sua mulher, Silvana, com o ex-militar Cassiano Gomes. Ao procurar vingar sua honra, confunde-se e acaba matando o irmão de Cassiano Gomes. Turíbio foge para o sertão e é perseguido pelo ex-militar. Nessa disputa, os dois alternam os papéis de caça e de caçador. Cassiano adoece e, antes de morrer, ajuda um capiau chamado Vinte-e-um, que passava por dificuldades financeiras. Turíbio volta para casa e é surpreendido por Vinte-e-um, que o executa para vingar seu benfeitor.
Principais personagens: Turíbio Todo, Cassiano Gomes, Silvana e Vinte-e-um.

“Minha gente”
Enredo: Emílio visita a fazenda de seu tio, candidato às eleições, e apaixona-se por sua prima Maria Irma, mas não é correspondido. Ela se interessa por Ramiro, noivo de outra moça. Emílio finge-se enamorado de outra mulher. O plano falha, mas a prima apresenta-lhe sua futura esposa, Armanda. Maria Irma casa-se com Ramiro Gouveia.
Principais personagens: Emílio (narrador), Maria Irma, Ramiro Gouveia e Armanda.

“São Marcos”
Enredo: José, narrador-personagem, é supersticioso, mas mesmo assim zomba dos feiticeiros do Calango-Frito, em especial de João Mangolô. Izé, como é conhecido o protagonista, recita por zombaria a oração de São Marcos para Aurísio Manquitola e é duramente repreendido por banalizar uma prece tão poderosa.

Certo dia, caminhando no mato, Izé fica subitamente cego e passa a se orientar por cheiros e ruídos. Perdido e desesperado, recita a oração de São Marcos. Guiando-se pela audição e pelo olfato, descobre o caminho certo: a cafua de João Mangolô. Lá, irado, tenta estrangular o feiticeiro e, ao retomar a visão, percebe que o negro havia colocado uma venda nos olhos de um retrato seu para vingar-se das constantes zombarias.
Principais personagens: José, ou Izé (narrador), Aurísio Manquitola e João Mangolô.

“Corpo fechado”
Enredo: Manuel Fulô, falastrão que se faz de valente, é dono de uma mula cobiçada pelo feiticeiro Antonico das Pedras-Águas. Este, por sua vez, tem uma sela cobiçada por Manuel. Enquanto o protagonista se gaba de pretensas valentias, o verdadeiro valentão Targino aparece e anuncia que dormirá com sua noiva. Desesperado, Manuel recebe a visita do feiticeiro, que promete fechar-lhe o corpo em troca da mula. Após o trato, há o duelo entre os dois personagens; o feitiço parece funcionar e Manuel vence a porfia.
Principais personagens: Manuel Fulô, feiticeiro Antonico das PedrasÁguas e Targino.

“Conversa de bois”
Enredo: conta a viagem de um carro de bois que leva uma carga de rapadura e um defunto. Vai à frente Tiãozinho, o guia, chorando a morte do pai, ali transportado, e Didico. Tiãozinho, que se tornara dependente de Soronho, angustiava- se com este por dois motivos: ele maltratava os bois e havia desfrutado os amores de sua mãe durante a doença do pai.
Paralelamente, o boi Brilhante conta aos outros a história do boi Rodapião, que morrera por ter aprendido a pensar como os homens. Há uma indignação entre os animais em relação aos maus-tratos que os humanos lhes infligem. Agenor, para exibir a Tiãozinho seus talentos como carreiro, obriga, de forma cruel, os bois a superar a ladeira onde a carroça de João Bala havia tombado. Superado o obstáculo, os bois aproveitam-se do cochilo de Agenor e puxam bruscamente a carroça, matando seu algoz.
Principais personagens: Tiãozinho, Didico, Agenor, Soronho e o boi Brilhante.

“A hora e a vez de Augusto Matraga”
Enredo: Augusto Estêves manda e desmanda no pequeno povoado em que vive. Pródigo, com a morte do pai perde todos os seus bens. Certo dia, Quim Recadeiro dá-lhe dois recados que alterarão sua vida: perdera os capangas para seu inimigo, o Major Consilva, e a mulher e a filha, que fugiram com Ovídio Moura.
Augusto Estêves vai sozinho à propriedade do major para tomar satisfação com seus ex-capangas. O Major Consilva ordena que Nhô Augusto seja marcado a ferro e depois morto. Ele é espancado à exaustão; depois os homens esquentam o ferro usado para marcar o gado do major e queimam o seu glúteo. Augusto, desesperado, salta de um despenhadeiro.
Quase morto, o protagonista é encontrado por um casal de pretos, que cuida dele e chama um padre para seu alívio espiritual. Nhô Augusto decide que sua vida de facínora chegara ao fim. Recuperado, foge com os pretos para a única propriedade que lhe restara, no Tombador. Trabalha de sol a sol para os habitantes e para o casal que o salvara, em retribuição a tudo que fizeram por ele. Leva uma vida de privações e árduo trabalho, com a finalidade de purgar seus pecados e, assim, ir para o céu.
Um dia, aparece na cidade o bando de Joãozinho Bem-Bem, o mais temido jagunço do sertão. Nhô Augusto e o famigerado jagunço tornam-se amigos à primeira vista e, depois da breve estada, despedem-se com pesar. Com o tempo, Nhô Augusto resolve sair do Tombador, pressentindo a chegada da “sua hora e vez”. Encontra-se por acaso com Joãozinho Bem-Bem, que está prestes a executar uma família, como forma de vingança. Nhô Augusto pede a Joãozinho Bem-Bem que não cumpra a execução. O jagunço encara essa atitude de Nhô Augusto como uma afronta e os dois travam o duelo final, no qual ambos morrem.

Sobre Guimarães Rosa
João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908 na cidade de Cordisburgo, Minas Gerais. Autodidata, começou ainda criança a estudar diversos idiomas, iniciando pelo francês, quando nem completara 7 anos. Em 1925 matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, formando-se em 1930. No mesmo ano, casou-se com Lígia Cabral Penna, com quem teve duas filhas.

Passou a exercer a profissão de médico no interior de Minas Gerais, onde teve um primeiro encontro com os elementos e a realidade do sertão. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932 atuou como médico voluntário. Mais tarde foi aprovado no concurso e ingressou na Força Pública. Em 1934 foi aprovado em um concurso para o Itamaraty e exerceu diversas funções diplomáticas no exterior, tais como a de cônsul em Hamburgo, na Alemanha – onde conheceu Aracy Moebius de Carvalho (Ara), sua segunda mulher. De volta ao Brasil, em 1951, assumiu outros cargos no Itamaraty, sendo promovido em 1958 a ministro de primeira classe, cargo correspondente a embaixador.

Ao lado de sua atividade profissional, como médico ou como diplomata, Guimarães Rosa nunca deixou de escrever. Tinha também paixão por aprender outros idiomas. Seus conhecimentos nesse campo impressionavam pela amplitude: falava fluentemente alemão, francês, inglês, espanhol, italiano e esperanto, além de um pouco de russo. Lia em sueco, holandês, latim e grego. Havia estudado também a gramática das seguintes línguas: húngaro, árabe, sânscrito, lituano, polonês, tupi, hebraico, japonês, tcheco, finlandês e dinamarquês.

A estreia literária de Guimarães Rosa se deu em 1929, quando a revista “O Cruzeiro” publicou alguns contos seus, vencedores de um concurso literário da edição. Seu primeiro livro, a coletânea de contos Sagarana, foi publicado em 1946 e chamou muita atenção pelas inovações técnicas e riqueza de simbologias.

O escritor fez, em maio de 1952, um percurso de 240 quilômetros no sertão mineiro, durante dez dias, conduzindo uma boiada. Na viagem, anotou expressões, casos, histórias, procurando apreender de forma mais profunda aquele universo com o qual tinha contato desde a infância. Seu intuito era recriar literariamente o sertão, dando voz a seus personagens. Dessa viagem resultou seu único romance, “Grande Sertão: Veredas”, publicado em 1956 e tido como um dos mais importantes textos da literatura brasileira de todos os tempos.

Em 1961, Guimarães Rosa recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Candidatou-se à Academia Brasileira de Letras, pela segunda vez, em 1963 e foi eleito por unanimidade. Mas não foi empossado imediatamente, porque adiou a cerimônia enquanto pôde. Dizia ter medo de morrer no dia do evento. Só tomou posse em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, em 19 de novembro, morreu subitamente em seu apartamento no Rio de Janeiro, de infarto.

Suas principais obras são: “Sagarana” (1946), “Grande Sertão: Veredas” (1956), “Corpo de Baile” (1956; atualmente é publicada em três volumes: “Manuelzão e Miguilim”, “No Urubuquaquá, no Pinhém” e “Noites do Sertão”) e “Primeiras Estórias” (1962).

Minha vida de menina

“Uma vez uma porção de meninas fizeram a primeira comunhão como vocês vão fazer hoje. Receberam a sua hóstia e foram contritas para os seus lugares; nesse momento uma delas caiu para trás e morreu. O padre disse à mãe da menina: ‘Foi Deus que a levou para a sua glória!’. Todas as outras invejavam a companheira na graça de Deus. Nisto, o que foi que elas viram? O capeta arrastando por detrás do altar o corpo da desgraçadinha. Sabem por quê? Porque a menina escondeu um pecado no confessionário.”

O DIÁRIO DE UMA ADOLESCENTE

Cid Ottoni Bylaardt, professor do Pré-Vestibular Pitágoras

O livro Minha vida de menina, de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, tem uma gênese peculiar. Ele teria sido composto de várias passagens do diário de uma adolescente escrito entre os anos de 1893 e 1895, quando ela tinha de 13 a 15 anos de idade. Depois de muitas décadas guardados e esquecidos, os escritos foram reunidos e selecionados pela autora e publicados em 1942, para mostrar “às meninas de hoje a diferença entre a vida atual e a existência simples que levávamos naquela época”.
Há quem possa duvidar da autenticidade dos manuscritos. Não é de todo impossível que o diário tenha sido escrito muitos anos depois da época retratada, ou ainda não é inadmissível que tenha sido dado algum trato literário de proposital despojamento aos escritos da menina, pelas mãos de escritores modernistas mineiros. Unicamente a revelação pública dos manuscritos poderia deslindar o mistério.

AS PALAVRAS E AS COISAS

Seja como for, é inquestionável a qualidade literária dos escritos. Sua prosa coloquial possui o tom da franqueza, a linguagem é desataviada, próxima do concreto do dia-a-dia da autora, e de seu modo de vida, ligado às coisas práticas, aos prazeres sensíveis e percepções imediatas. Escrever é para a garota ser fiel à realidade dos acontecimentos, e a ausência deles é um estorvo para a realização lingüística, conforme ela observa em determinada passagem: “Eu estava com a pena na mão pensando o que havia de escrever, pois há dias não acontece nada”. A hesitação é quebrada por um providencial enterro que passa à porta de sua casa, e lhe proporciona o ingrediente necessário para o exercício da redação: “Fiquei contente porque achei um assunto”.
Helena acha que o pai tinha razão quando aconselhou-a a escrever diariamente o que lhe acontecia, porque há casos que, de tão engraçados, tinham mesmo é que ficar registrados no papel, pois a memória um dia os esqueceria. É o caso do maior bebedor da cidade, “nosso pobre professor Seu Leivas que em todas as festas acaba sempre bicudo”, que no aniversário de Siá Aninha, encheu as bochechas de cerveja e esguichou-a pelas narinas sobre a comidaria que estava em cima da mesa.
É evidente a necessidade de alimentar as narrativas e reflexões com produtos reais. Até o inverossímil cria contornos de realidade, como o caso do ladrão que não se podia prender porque ele se metamorfoseava em cadeira, ou em vassoura, ou, no mato, em cupim. O absurdo da situação poderia até passar por verídico se não contradissesse a lógica da menina: se se prender o cupim na cadeia, o ladrão não estará lá ao reverter à forma humana?
Com as histórias que ouve, a expectativa de Helena não é muito diferente. Há que ter lógica e realidade. Grande contadeira de histórias é a negra Reginalda. Certa noite, ela começou a contar histórias, e os ouvintes pediam sempre mais, até que ela esgotou seu estoque de casos, e teve que inventar alguma coisa. Helena e o primo Leontino perceberam na hora que o caso era inventado e se retiraram decepcionados. Suas histórias preferidas são as do tempo antigo, principalmente as dos casamentos de suas tias. Acha repetitivas e sem graça as histórias do pai.

Até o inverossímil cria contornos de realidade, como o caso do ladrão que não se podia prender porque ele se metamorfoseava em cadeira, ou em vassoura, ou, no mato, em cupim.

A arte narrativa é entendida como reprodução do mundo e seus valores. Ou representação, como no teatro dos fantoches, cujo encanto reside no fato de parecerem com gente.
O diário não serve apenas para se registrarem os acontecimentos quando eles acontecem. Há as digressões, como a lembrança do ano da fome, quando Helena era muito menina. A auto-confiança da diarista é tanta que ela afirma que certamente não teriam passado tantas dificuldades se ela fosse na época “maior ou mais esperta como hoje”.
Para Helena, os mecanismos do mundo têm de ser bem explicados para que eles possam ter valor. É o que ocorre, por exemplo, com a superstição, de que a Diamantina daquela época era plena. Helena sofria desde menina com a superstição do povo, e na adolescência duvida dela. Treze pessoas na mesa e espelho quebrado dão azar, pentear cabelo de noite manda a mãe para o inferno, varrer a casa de noite faz a vida desandar, e muitas outras crenças deixam Helena incrédula. Uma superstição em que ela acredita, porque tem lógica, e funciona por estar ligada à realidade, é a de que jogar sal no fogo faz com que uma visita indesejada vá embora. Como as visitas conhecem as crenças, elas ouvem o sal estalando no fogo e percebem que estão sobrando, e resolvem ir embora.
Quanto ao pensamento, Helena percebe que, quanto menos as pessoas pensam, menos sofrem: “A gente faz tudo sem pensar, graças a Deus”. Ela, entretanto, se considera a pessoa que mais raciocina na família, e declara que desde os dez anos ela pensa, reflete e tira conclusões, o que não ocorre com os parentes de sua mãe, que não refletem sobre as coisas e acabam acreditando em tudo o que lhes é dito: “São todos felizes assim!”.
Apesar de tanto pragmatismo, Helena também tem seus momentos de devaneios. “Fazer castelos” é para ela um exercício de irrealidade que provoca prazer, mas não tem nenhum efeito prático sobre sua rotina; eles se bastam por si mesmos: “Adoro fazer castelos e cada dia faço um mais lindo… Os que tenho feito ultimamente são tão bons, que até gosto de perder o sono só para pensar neles. Não me importo de realizá-los e não penso mesmo nisso. Fazê-los me basta”.
O pensamento lógico de Helena está relacionado a sua visão pragmática do mundo, o que acentua sua postura questionadora. Um exemplo é a vida de sofrimentos, que engrandece e glorifica, a qual a tradição judaico-cristã prescreve para os homens, mas a lógica da menina não quer aceitar essa situação: “Mas eu é que não serei tola de fazer de uma vida tão boa uma vida de sofrimentos”.
A lógica questionadora também funciona para os “conselhos médicos” que a tradição perpetuou. A mãe a proíbe de entrar na água após o almoço, porque faz mal. O mal é meio misterioso, pois ninguém sabe explicar em que ele consiste. Por que então o mal não ocorre com os mineiros, que ficam dentro d’água o dia inteiro procurando diamantes? A resposta é que eles estão acostumados; por outro lado, ninguém deixa os jovens acostumarem também. Conclusão: os adultos não têm lógica, apenas repetem coisas que lhes falam e as aceitam como verdade inquestionável, o que não combina com o espírito investigador de Helena.
O caso do menino que ficou cego por desleixo do pai ilustra como as explicações pouco convincentes para o sofrimento, relacionados à vontade de Deus, são também objeto de questionamento. Helena se sente infeliz com a condição do menino, e é consolada pela mãe: “Não sofra assim, minha filha, Deus sabe o que faz. Quem sabe se Deus não quer fazer desse menino um santo para Sua glória? Deus nunca erra, minha filha! Ele sempre sabe o que faz!”. Apesar de se sentir um pouco confortada com as palavras da mãe, a lógica da menina não permite que essa fala seja definitiva: “Estas palavras aliviaram-me um pouco, apesar de eu não compreender para que Deus queria santo cego. Podia tanto deixá-lo com vista e fazê-lo santo enxergando”.

O UNIVERSO SOCIAL DE HELENA

Diamantina, cidade situada a 280 km. ao norte de Belo Horizonte, a 1.262 m. de altitude, teve seu esplendor como região produtora de diamante no século XVIII. Ao final do século XIX, período em que teriam sido feitas as anotações de Helena Morley, a cidade já via escassear a preciosa pedra que lhe fizera a riqueza passada (e, naturalmente, a da corte portuguesa), e começava a presenciar uma nova relação entre as classes sociais, com a escravidão recém-abolida. A transição do quadro econômico-social completa-se com a mudança política, com o advento da república.
O universo social de Helena Morley não se restringe à família e aos parentes. Ela compõe um quadro reflexivo de toda a sociedade de seu tempo, que inclui a convivência com ricos, pobres, escravos, crianças e bichos.
A avó, dona Teodora, é para a menina a melhor pessoa do mundo, em contraste com os filhos (seus tios e tias), que são invejosos e egoístas. Não por acaso, ela é a netinha preferida de dona Teodora, que a adula sempre. Há um certo incômodo da menina com a preferência da avó por ela, porque a repercussão entre os primos e tias não é muito boa. Dos tios da família da mãe, apenas tia Agostinha, além da avó, gosta de Helena. O pai da menina é uma pessoa correta, calma, ponderada, e é visto às vezes pela esposa como tolo, com o que a avó não concorda: “Não é bobo não. Seu pai é muito bom e bem-educado. Ela é que é muito malcriada”. Ela, no caso, é Carolina, a mãe de Helena.
Tio Conrado e tia Aurélia são os parentes de posses, cheios de regras. Há uma compensação nas festas ou passeios que eles promovem: a abundância de coisas gostosas. No mais, há tanto patrulhamento que as diversões são as mais sem graça. As proibições são gerais: nada de subir em árvores, andar pelo rio, catar gabiroba. Os tios e os primos são tão educados que eles não conseguem nem pescar peixes ou capturar passarinhos. Helena tem uma explicação surpreendente para isso: “Eu penso que Deus castiga gente educada”. É a visão da menina de que Deus não pode concordar com tão mesquinho modo de vida. Assim é a festa de S. João no tio Conrado: não são permitidas, ou ocorrem sob severa fiscalização, brincadeiras típicas do evento, como soltar fogos, pular fogueira, assar cana ou batata-doce.

Os tios e os primos são tão educados que eles não conseguem nem pescar peixes ou capturar passarinhos. Helena tem uma explicação surpreendente para isso: “Eu penso que Deus castiga gente educada”.

Entretanto, ela surpreende mais uma vez dizendo-se invejosa (mas sem muita certeza) do fato de os primos terem que estudar após a festa, para desmentir o sentimento concluindo que se sua mãe fizesse o mesmo com ela, ela seria uma boa aluna. “Mas felizmente ela não se lembra disso”, completa a garota. Felizmente por não ter de estudar após a festa ou por não ser uma boa aluna? Talvez pelas duas coisas. Os primos são estudiosos e provocam admiração das pessoas, mas Helena não quer viver aprisionada como eles. O fato de cada família ser como é tem uma explicação lógica, que afasta a possibilidade indesejável de mudança: o tio é comerciante, pode olhar os filhos; o pai dela vive na lavra, por isso os filhos têm de ser necessariamente mais largados. Felizmente para ela.
O mesmo raciocínio se aplica à bondade das pessoas. Helena declara-se admiradora e invejosa das pessoas boas e santas, mas vai permanecer como é porque não pode deixar de ser o que é. A lógica da existência tem seu lado cômodo. Chininha é um exemplo de menina levada que voltou “santinha” do colégio, e ostentava sua santidade fingida para ser elogiada pelos adultos, o que incomodava Helena tremendamente. A hipocrisia da prima leva Helena a cometer uma infração. As infrações fazem parte da vida, mas podem ser justificadas e até perdoadas, como no caso do jejum forçado, que a menina não conseguiu manter. Ao final ela tem o apoio da avó, e assim triunfa sobre a prima. A própria avó relativiza o efeito das infrações, e as considera até necessárias em alguns casos, para evitar piores malefícios, como quando escondia as coisas do marido para evitar-lhe aborrecimentos.
Em alguns momentos as infrações adquirem um verniz perverso, como aconteceu no aniversário de Helena. Ela convenceu a irmã a gastar as economias para lhe proporcionar um jantar, que traria convidados e, conseqüentemente, presentes, que ao final seriam divididos. A divisão, obviamente, foi injusta para Luisinha, que reclamou frouxamente. A lógica prática de Helena, evidentemente, não permitiu que ela sofresse remorsos, alegando que ela precisava mais do que a irmã de vestidos, lenços, meias etc., porque ela saía muito e a irmã estava sempre em casa.
Tia Madge é representante da tradicional família inglesa, e sempre que pode ensina a sobrinha a se comportar com etiqueta. Helena gosta dela, apesar de sua formalidade, mas não vê muito sentido prático nos ensinamentos dela. Na lição de boas maneiras à mesa, por exemplo, a professora prescreve que, além de não palitar os dentes, não se pode empurrar o prato após a refeição. A pessoa educada deve ficar “agüentando o prato na frente até a criada tirar”. A avó fica exultante com as maravilhas que tia Madge ensina a Helena, e aconselha-a a praticar. Pela lógica da menina, vai ser um pouco difícil praticar isso, já que na casa dela não existe criada e ela é que faz o prato no fogão e o lava depois de comer. Etiqueta não é para qualquer um.
A menina mostra um certo determinismo ao avaliar seu próprio desenvolvimento: pouco pode ser mudado, por mais que tia Madge lhe empreste livros e cobre sua leitura, como A força de vontade e O caráter, de Samuel Smiles. Para ela, seu caráter, bondade, vontade ou o que seja não mudaram em nada com as leituras. Talvez apenas sua capacidade de economizar e guardar tenha aumentado, mas não necessariamente por causa dos livros.
Uma peculiaridade das mulheres da família Morley são os frouxos de riso. A intenção talvez não seja exatamente destilar o sarcasmo sobre as vítimas, mas rir da própria vida, ou do estranhamento que certas situações provocam, como no acontecido na casa de dona Mariquinha, que dizia ter uma sobrinha, ausente no momento, parecidíssima com a Luisinha, irmã de Helena. O fato franqueava a elas o pomar da residência: “Nós íamos aproveitando a parecença e comendo as frutas”. No dia do encontro das “sósias”, o grotesco da situação disparou nelas a máquina do riso, criando um constrangimento que terminou com a amizade entre as famílias. No affair Quitinha/Luisinha, o benefício da manutenção da amizade e do obséquio não justifica não rir, pois, afinal de contas, a fartura da natureza acaba contrabalançando as carências. O riso espanta também o hóspede estranho e calado, estraga a visita de pêsames, acentua a timidez do irmão Renato. Difícil é ficar sem rir, porque “riso comprimido deve fazer mal”. A única maneira de não rir, quando a situação não o permite, é pensar em coisas tristes, como a mãe de perna quebrada ou a irmã num caixão.

O PRAGMATISMO DA MENINA

Embora a família de Helena pareça ser feliz, é marcada, na visão da menina, pela falta de sorte ou incompetência nos negócios e atividades de sobrevivência, a começar pelo início da carreira de minerador do pai, em que ele perdeu uma sociedade com o cunhado por interferência da mulher, que recebeu um “sinal” de Santo Antônio. O santo se enganou e a lavra produziu grande quantidade de diamante, enriquecendo tio Geraldo.
Todos os negócios que a família inicia — com exceção da lavra de diamantes, que dá alguma coisa — fracassam: a venda administrada por seu Zeca, as quitandas de dona Carolina, as verduras da horta
Helena sabe que é vista pelos adultos em geral, principalmente os que não gostam de seu jeito atrevido, como uma menina “impaciente, rebelde, respondona, passeadeira, incapaz de obedecer”. Possui uma inteligência inquieta, mesmo os “inimigos” reconhecem sua vivacidade. Personalidade agitada, não entende a mania de sossego que os outros têm: “Eu acho engraçado na nossa família a mania de sossego que todos têm. Meu pai, vovó e todos só pedem a Deus sossego.”

Helena sabe que é vista pelos adultos em geral, principalmente os que não gostam de seu jeito atrevido, como uma menina “impaciente, rebelde, respondona, passeadeira, incapaz de obedecer”.

Helena demonstra ser uma pessoa de bons sentimentos em geral, mas se decepciona quando o que constata nas pessoas foge de sua expectativa. É o caso das irmãs Correias, de quem ela gostava, e a quem encontrou a enforcar um gato que havia furtado a carne. O mesmo ocorreu com a Isabelinha, que cobrava para ensinar a fazer flores e fazia de tudo para os alunos não aprenderem para não fazerem concorrência a ela. Ou a decepção por não ter recebido, na procissão, o cartucho de “manuscritos”(confeitos de cacau) das mãos de Seu Broa. As decepções a ensinam a ter paciência e a conviver com a falsidade das pessoas.
É interessante observar as inversões freqüentes que a autora faz das categorias normalmente conhecidas como bom e ruim, certo e errado, rico e pobre etc. Num dos episódios do livro, Helena fala dos comentários maldosos sobre sua conduta por ocasião da morte de uma tia paterna desconhecida e que morava longe. Helena vai a um baile e dança no dia da morte da tia. Para a sociedade, ela estava errada. Para ela, dançar é tão bom, e a tia já estava para morrer há tanto tempo, que não havia motivo para deixar de se divertir por causa de sua morte. Ao final, desfaz-se da culpa demonstrando a certeza de que as pessoas não vão se lembrar de seu procedimento durante muito tempo. Afinal, a tia podia ter morrido um dia depois, para que ela pudesse mostrar seu sentimento. Defunta inconveniente.
As inversões se processam em vários momentos. Na casa da avó, Helena diverte-se muito mais na cozinha junto com os negros e negras do que na sala da sociedade branca. Quanto a tia Madge, ela reconhece que a tia a adora, mas esse gostar não produz felicidade, o interesse da tia por ela é sincero, mas só a faz sofrer. Quando ela furta da gaveta da mãe um broche para vender e mandar fazer um vestido, ela chega a hesitar sobre sua culpa, mas conclui que o ato não configura furto, pois a idéia lhe foi sugerida pela própria Nossa Senhora. Onde a culpa então? Outra inversão é a inveja que diz sentir da pobreza de uma colega de escola, cuja mãe é lenheira e não tem pai, mas mora num lugar idílico, e tem uma vida de liberdade. Em contrapartida, não inveja nem um pouco os primos filhos de tia Aurélia, que, embora ricos, vivem numa prisão.
Tudo o que cerca a menina deve apresentar uma finalidade prática ou proporcionar prazer. É o caso da escola, que representa para ela inicialmente a possibilidade de fazer algum dinheiro e tirar o pai da lavra. Sua intenção era, após formada no curso Normal, “dar escola”, para ganhar dinheiro e melhorar a condição da família. Afinal, quando passa pela experiência de reger uma classe, entra em pânico e retira de sua cabeça qualquer possibilidade de voltar a dar aula. Era melhor continuar pobre para não ter que fazer semelhante sacrifício.
Em relação ao dinheiro, ela não é completamente alheia, mas não acalenta sonhos de riqueza, convivendo bem com o bordão de que “dinheiro não traz felicidade”, repetido pelo pai.
Morte e doença são dois elementos com os quais Helena convive e que não se afiguram muito trágicos para ela, apresentando-se às vezes até bem divertidos, como no caso da mãe que perdeu o filho e, mesmo conformada, insistia em gritar e chorar porque achava muito feio uma mãe não chorar a morte do filho. A doença também pode não estar muito longe da alegria de uma festa, como durante a caxumba de Renato, que faz a casa se encher de gente, tornando o ambiente alegre. Mesmo um caso macabro como a morte dos meninos, queimados pelo incêndio, que Renato pôs em cima da mesa, “torrados como torresmo”, para Helena ver, não é apresentado como algo terrível.
Uma lacuna que chama a atenção no diário de Helena é a da sexualidade. O período que o relato compreende coincide com a época de maior inquietação relacionada à sexualidade na vida de uma adolescente. Deve-se considerar também que o espírito investigativo e questionador de Helena não deixaria de registrar, em condições normais, suas inquietações de moça. Nesse período ela deve ter tido a experiência da menarca, deve ter convivido de alguma forma com o desejo, a masturbação, as confidências com as colegas. Entretanto, sua maior confidente e depositária de seus segredos, a folha de papel, nunca recebeu a menor menção de que o ser humano que se manifestava ali era um ser sexuado.
Há uma breve referência a sua condição feminina quando raciocina que em determinados momentos ser mulher apresenta algumas vantagens práticas sobre ser homem, como o fato de os irmãos terem que levar a besta para o pasto num dia particularmente frio enquanto ela permanece no quente de sua cama. A possibilidade de desenvolver algum tipo de relacionamento com um homem é prontamente rejeitada: “Eu vou dizendo a todas que não quero ter namorado, que não gosto de ninguém e que me deixem em paz”. O amor é regulado pela providência divina, e não deve constituir preocupação dos mortais: “Casamento e mortalha no céu se talha”.

“Meu pai entrou para a Companhia Boa Vista e tudo dos estrangeiros é só com ele, porque é o único que fala inglês e conhece bem as lavras. Agora não vamos sofrer mais faltas, graças a Deus.
Não é mesmo proteção de vovó lá do céu?”

O trabalho é um componente importante na vida de Helena e de sua família. A mãe e o pai transmitem aos filhos, e com bons exemplos pessoais, a necessidade do trabalho, evitando, por isso, ter criados, para que os filhos possam trabalhar. Helena e os irmãos não se queixam do trabalho; ao contrário, ela acha que a suprema infelicidade é uma pessoa não poder, ou não conseguir trabalhar. Trabalhar é ainda melhor do que estudar, no entender da menina.
Religião e reza são vistos pela menina como um componente importante da vida. Rezar pode não dar prazer, mas deixar de rezar provoca dor de consciência. Nas relações com as coisas de Deus, a lógica de Helena também prevalece. O pai, por exemplo, não gosta muito de rezar, mas a menina não vislumbra a possibilidade de ele ir para o inferno, porque senão quase toda a Diamantina teria que ir junto com ele, pois ele é melhor do que todos. “Eu sei que Deus é justo”, afirma ela.
A religião é um misto de beleza, mistério e terror. Deus manda um raio para matar um homem que debocha de sua divindade, o demônio em pessoa desce na igreja para carregar uma estudante que não confessou ao padre todos os pecados, o inferno ronda ostensivamente os pecadores. Por outro lado, os rituais religiosos aparentam grandeza e beleza na impressão da menina: a procissão, a festa do divino, a festa da Igreja do Rosário.
O final dos relatos é marcado pela morte da avó e de uma certa mudança na vida do pai. Dona Teodora havia deixado uma pequena herança, que propiciou ao pai de Helena saldar as dívidas. O pai consegue um emprego estável na Companhia Boa Vista e a vida melhora. A bondade da avó certamente é responsável pela mudança:
“Meu pai entrou para a Companhia Boa Vista e tudo dos estrangeiros é só com ele, porque é o único que fala inglês e conhece bem as lavras. Agora não vamos sofrer mais faltas, graças a Deus.
Não é mesmo proteção de vovó lá do céu?”

Ideias de Jeca Tatu

Jeca Tatu vivia no interior de São Paulo – mais precisamente no Vale do Paraíba – com a mulher e vários filhos. Era um homem muito pobre, moravam numa casinha de sapé, suas crianças eram tristes e pálidas, e sua esposa era muito feia e magra. A miséria da família era alarmante e deixava a todos boquiabertos. Não boquiabertos pela pobreza em si, mas pela atitude de Jeca para com a vida. O homem passava o dia de cócoras, desanimado e indisposto para realizar qualquer tarefa que fosse.

Perto de sua casa havia um ribeirão, no qual por vez ou outra ele ia pescar uns lambaris. Também poderia ir ao mato tirar palmitos, caçar, mas nada que lhe deixasse muito cansado: apenas o básico para sobreviver com sua família.
Preguiça sem fim

“Que grandíssimo preguiçoso!” murmuravam os vizinhos. O casebre de Jeca não possuía móveis, a família mal tinha roupas para se cobrir, e não encontrariam por lá nada que pudesse lembrar conforto ou comodidade. Algumas peneiras furadas, um banquinho com apenas três pernas, uma espingardinha ordinária e já teriam encontrado muito!

De tão preguiçoso e fraco, quando precisava buscar lenha, Jeca voltava com um feixinho tão fino e pequeno que até parecia ser uma piada. Para piorar a situação, o carregava arqueado, com dificuldade, como se fosse um peso enorme. Quando lhe perguntavam o motivo de não trazer uma lenha ou um feixe maior, o caboclo respondia que “não pagava a pena”. Para Jeca, nada pagava a pena, nada era importante. A única coisa que lhe era útil e “pagava a pena” era beber, sendo visto por todos como, além de preguiçoso, um bêbado.

Jeca possuía alguns poucos animais: um cãozinho, um porco e algumas galinhas. O cachorro era um companheiro fiel do caboclo, mas sofria de bernes que lhe causavam muito sofrimento, a qual Jeca jamais se preocupara em tirar-lhes dele. As pessoas torciam o nariz e o achavam insensível, mas ele simplesmente não se importava. Assim como seu porco, que nunca engordava porque não era alimentado, e as galinhas que, pelo mesmo motivo jamais punham ovos. Para Jeca, se os animais quisessem comer, que buscassem seus próprios interesses sozinhos.

O homem não via futuro na vida, não tinha empenhos, objetivos, sonhos ou qualquer situação que lhe entusiasmasse com a vida. As coisas passaram a mudar quando, num dia muito chuvoso, um doutor pediu para aguardar em sua casa até que a chuva terminasse. Ao notar a miséria da casa e a situação de Jeca – xucro e amarelado – pediu para examiná-lo. Constatou que Jeca não era apenas um homem preguiçoso, ele era doente.
Mudando de vida

As dores de cabeça, assim como a canseira infinita que o caboclo sentia eram, segundo o doutor, causadas por anquilostomiase. Tratava-se de uma doença provocada por vermes que penetravam na pele dos pés descalços de Jeca e alojavam-se em seu intestino. O doutor lhe orientou a comprar botas resistentes e tomar algumas medicações.

Mesmo descrente, Jeca seguiu as orientações do médico e os resultados foram surpreendentes. O homem simplesmente não conseguia mais parar de trabalhar. Possuía disposição para dar e vender, cortando e carregando lenha em quantidades cada vez maiores, cuidando de sua esposa, de seus filhos, de sua casa e de seus animais. A aparência de todos na casa melhorou, as galinhas agora botavam muitos ovos e os porcos haviam se multiplicado.

Preocupado com os vermes que lhe acometeram durante tanto tempo, ele mandou fazer botas rígidas para todos, inclusive para os porcos e galinhas. A população ficava impressionada de ver como o caboclo havia mudado, e como era agora um homem trabalhador e esforçado. Comprou caminhões, enriqueceu e faleceu de consciência tranquila após muitos anos de sua cura, com 89 anos de idade. Ele não teve estátuas ou reconhecimentos à nível nacional, mas tornou-se uma grande inspiração.