Auto da compadecida

Grande defensor da cultura nordestina, Ariano retrata com grande humor e leveza o drama vivido por seus conterrâneos, obrigados a lutar constantemente contra a miséria, sentindo-se sempre acuados pela tormenta da seca e da fome. O autor retrata praticamente todos os perfis que podem ser encontrados na região nordestina do Brasil (embora alguns deles possam ser reconhecidos em todas as regiões do território nacional), como o avarento padeiro e sua esposa, que não se importam com a fome e necessidade de seus empregados mesmo quando lhes sobram recursos; o povo acuado que busca sobreviver no sertão através de sua inteligência e, até mesmo, malandragem, representados pelo personagem João; as autoridades religiosas que utilizam de sua posição para saciarem a ganancia, retratados pelo bispo e pelo padre; e os malfeitores que são vistos no fim como vítimas da vida dura que tiveram, sendo obrigados pela seca e fome a se tornarem o que vieram a ser, retratados por Severino e seu cangaceiro. Por trabalhar uma tendência mundial de maneira regional, a obra pode ser considerada como tendência modernista. A peça foi escrita em 1955, encenada pela primeira vez no ano de 1956, e adaptada para cinema e televisão respectivamente em 1999 e 2000.

Confusões e ambição

Por ter sido escrita inicialmente como peça de teatro, a história é narrada por um palhaço, e se inicia quando João Grilo e Chicó – melhores amigos e ambos empregados do padeiro – vão até a igreja pedir ao padre que benza a cachorra que sua patroa tinha, e que estava muito doente. Diante da negativa do padre, João lhe disse que a cachorra pertencia a Antônio Morais, poderoso local, e assim o padre a benzeu.

Ao saírem da igreja com a cachorra, Chicó e João avistaram Morais e lhe disseram que o padre estava louco, chamando a todos de cachorros. Antônio entrou na igreja e solicitou ao padre que benzesse sua filha, dando início à confusão no momento em que o padre começa a se referir a cachorros.

Poucas horas depois, falece a cachorra pertencente à mulher do padeiro, e ele juntamente com sua esposa e os dois empregados voltam para a igreja e solicita que o padre faça o enterro dela em latim. Após um sonoro “não”, João garante que a cachorra era cristã e deixaria quatro contos para a paróquia e seis para a arquidiocese, convencendo-os imediatamente.
Tragédia dentro da igreja

Inicia-se uma grande discussão dentro da igreja, pois todos queriam tirar alguma vantagem do dinheiro que deveria ser pago pelo enterro da cachorra, quando então entram Severino e seu capanga. Severino teve seus pais mortos pela polícia quando era criança, encontrando no cangaço um meio de sobreviver, e era idolatrado por seu capanga, que faria de tudo para agradá-lo. Imediatamente, Severino toma todo o dinheiro destinado ao enterro da cachorra e mata o padre, o bispo, o sacristão, o padeiro e sua esposa.

No momento em que mataria João, ele decide lhe oferecer em troca de sua libertação uma gaita que, ao ser tocada, ressuscitava pessoas. Para comprovar a eficácia do aparelho, João esfaqueia Chicó propositalmente numa bexiga de bode cheia de sangue que havia escondido debaixo da blusa do amigo. Após fazer-se de morto, Chicó faz-se de ressuscitado quando João toca a gaita.

Para ter certeza de que não estaria sendo enganado, Severino solicita ao seu capanga que atire nele, para que encontre seu padrinho Padre Cícero, e depois o ressuscite com a gaita. Como era de se esperar, a gaita não ressuscitou Severino, e iniciou-se uma briga entre o capanga, Chicó e João Grilo. João conseguiu esfaquear o capanga, mas quando se aproximou do corpo de Severino para tomar o dinheiro que ele havia roubado, é acertado por um tiro de rifle do capanga, em seu último suspiro.
Redenção e julgamento

Todos se encontram no céu para o juízo final, onde Jesus e o Diabo apresentam suas defesas e acusações. Sentindo-se prejudicado, João chama Nossa Senhora para interceder por eles, e ela assim o faz. Severino e seu capanga são absolvidos e enviados para o paraíso, vistos como vítimas do sistema opressor. O bispo, o padre, o sacristão, o padeiro e sua esposa são mandados para o purgatório, e João simplesmente retorna ao seu corpo.

Ao retornar, pode ver Chicó lhe enterrando em lágrimas, levanta-se e assusta o amigo. Após muitas tentativas, João consegue convencê-lo de que não era uma assombração, estava de fato vivo, e fazem planos para o dinheiro do enterro da cachorra, até Chicó lembrar-se de que teria prometido dar todo o dinheiro para Nossa Senhora caso o amigo sobrevivesse. Após muito discutirem, decidem entregar o dinheiro à igreja.

O Santo e a Porca

O Santo e a Porca é obra do escritor brasileiro e paraibano Ariano Suassuna. Grande romancista, poeta e dramaturgo, Suassuna tornou-se conhecido por ser um dos maiores defensores da cultura nordestina – o que fica bem claro em outra de suas obras: “O Auto da Compadecida”. Como não poderia deixar de ser, O Santo e a Porca também retrata de bom humor e com leveza a forma da cultura nordestina de se manifestar até mesmo nas economias de seu povo. Inicialmente, a obra tratava-se de uma peça teatral, cujo tema principal era a avareza, estimulando o leitor a refletir sobre a maneira do ser humano se relacionar com o mundo espiritual (representado na obra por Santo Antônio) e com o mundo físico (representado pela porca cheia de dinheiro) de forma cômica e divertida. A obra teve como inspiração “Aulularia”, do romano Plauto, mas como foi ambientada para o Nordeste, tornou-se bem diferente da versão original. Seu lançamento ocorreu no ano de 1957.

Euricão Árabe é o protagonista da obra, um velho muito avarento que guardava todas as suas economias – que juntou ao longo da vida – numa porca de madeira. Extremamente apegado ao que é material e financeiro, Eurico se torna devoto de Santo Antônio, acreditando que o Santo teria a função de proteger sua fortuna. No entanto, um susto faz o homem entrar em desespero. Ele recebe uma carta de seu conhecido, Eudoro, na qual ele diz que lhe visitaria e o privaria de seu bem mais precioso. A primeira coisa a pensar quando se fala em tesouro ou preciosidade era o dinheiro contido na porca, e foi justamente o que Eurico imaginou que Eudoro lhe pediria, ficando muito angustiado.
Complô para tomar a porca

Eurico possuía uma empregada chamada Caroba, mulher muito esperta e aproveitadora quando tinha oportunidade. Rapidamente ela entendeu o que Eudoro desejava: não a porca com o dinheiro, mas sim a mão de Margarida, filha de Euricão, por quem Eudoro havia se apaixonado.

Já Margarida, alheia ao que estava acontecendo, mantinha escondido seu namoro com Dodó, filho de Eudoro. Rapidamente Caroba encontra um meio de ganhar dinheiro: casará Margarida com Dodó e Eudoro com Benona – irmã de Euricão, que já fora noiva de Eudoro. Enquanto isso, ela deixa Euricão pensar que o tesouro em questão seria sua porca, e percebe que ele a enterra no cemitério para não perdê-la.

Caroba tranca Margarida e Dodó num quarto, e Benona em outro. Então, disfarça-se e recebe Eudoro como se fosse Margarida. Retira-se e retorna, disfarçada então de Benona, fazendo Eudoro novamente se apaixonar pela antiga noiva. Seduz Eudoro e o tranca no quarto com Benona.
Mal entendido

Enquanto isso, Pinhão – noivo de Caroba – vai até o cemitério e rouba a porca de madeira, levando-a para o quarto da empregada. Euricão sai durante a madrugada e vai para o cemitério buscar sua porca, mas não a encontra. Volta furioso para casa e, ao chegar, percebe Margarida saindo do quarto com Dodó, e imediatamente desconfia de que o rapaz seria o ladrão, começando a brigar com ele.

A briga entre Euricão e Dodô faz um grande barulho pela casa, e todos saem de seus quartos. Pinhão confessa ter roubado a porca, e exige que Euricão lhe dê algum dinheiro para que possa contar onde ela está. Quando o avarento finalmente a recupera, percebe que o dinheiro era muito antigo e já não valia mais. Os casais então se entendem, enquanto Euricão fica só com a porca e sem o dinheiro que tanto tinha guardado, questionando a Santo Antônio o motivo de tamanho azar.

Romance d’A Pedra do Reino

Trata-se de uma obra extensa, complexa, híbrida, que não cabe em classificações limitadoras. Para Suassuna, esta obra é um romance picaresco. Ao longo da narrativa há epopéia, poesia, romance de cavalaria, memorial e mais outras formas que implicam “lembrança, tradição e vivência na integração do popular ao erudito, com toque pessoal de originalidade e improvisação”, segundo definiu a escritora cearense Raquel de Queiroz. Para o poeta e escritor Maximiano Campos (1940-1988), discípulo de Suassuna, trata-se de “nossa epopéia áspera, sertaneja e mestiça, criada por um escritor nordestino. Uma projeção profética e simbólica do futuro no tempo do agora, a expectativa messiânica da redenção aos pobres”.

Uma das inspirações primeiras do escritor aqui foram as jornadas de 1838 em São José do Belmonte, em Pernambuco, que resultaram na morte de dezenas de pessoas, vítimas de um movimento messiânico que as induziu a lavar com sangue duas formações rochosas locais, a Pedra do Reino. A história é contada pelo Cronista-Fidalgo-Rapsodo-Acadêmico e Poeta Escrivão Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, ilustre descendente de Dom João Ferreira-Quaderna ou Dom João, o Execrável. Semelhante a uma narrativa policial – pelo tema do crime e o tom de mistério -, o romance-epopéia é formado por cinco livros, dividido em folhetos, que mostram como o protagonista foi parar na prisão. É um herói que, após perder a integridade, afasta-se dos outros para então viver uma série de aventuras e, assim, lutar para reaver sua identidade. Segundo a professora Guaraciaba Micheletti, o enredo mistura a realidade ao mágico e leva ao Nordeste um espírito medieval, explícito no domínio da piedade, nas santas que aparecem para interceder, nas entidades que vêem assassinatos em tocaias e se tornam outros personagens.

Ariano Suassuna nasceu em 1927, em Nossa Senhora das Neves, então capital da Paraíba. Defensor da cultura nacional, fundou em 1970, no Recife, o Movimento Armorial, cuja proposta era realizar uma arte brasileira erudita com base em raízes populares da cultura do país. Muito desse princípio está presente em Pedra do Reino, em que há uma notável intertextualidade com outros autores da literatura local e elementos característicos regionais, perceptível inclusive no nível do léxico e da sintaxe.

O escritor tinha se lançado a proposta de criar uma trilogia, que até hoje não vingou – a segunda parte, História d’O Rei Degolado, foi publicada em 1977. Por outro lado, Suassuna conseguiu que se criasse uma festa popular inspirada no livro e pelo Movimento Armorial. Todo ano, no último fim de semana de maio, uma cavalhada em São José de Belmonte celebra o escritor e sua obra-prima.