Viagem

Viagem é uma das mais importantes obras da escritora brasileira Cecília Meireles, lançada em 1937. Trata-se de um conjunto de 99 poemas, dentre os quais 13 são epigramas – uma espécie de poema curto, originário da Antiguidade Clássica, satírico, mordaz ou picante. Em cada um deles, Cecília pôde expor sua essência como poetisa, acolhendo temáticas como melancolias, solidão e sonhos. O titulo não poderia ter sido mais bem escolhido, já que retrata justamente o que diz ser: uma viagem introspectiva em si própria, intimista, abordando sofrimento, saudades e outras características que percorrem todo o livro. No mesmo ano de seu lançamento, a obra rendeu à Cecília Meireles o prêmio da Academia Brasileira de Letras, consagrando-a para a história da Literatura Brasileira. Cativou do crítico paulista Mario de Andrade um elogio a sua “força criadora”, e afirma que “com Viagem, ela se firma entre os maiores poetas nacionais”.

 

Confira agora alguns dos principais poemas da obra:
Vento

Em “Vento” a autora utiliza-se de figuras de linguagem para abordar a esperança que permeia momentos ruins, quando cita que após toda a tempestade “o sol encontrou as crianças procurando outra vez o vento para soltarem papagaios de papel”. Ainda, o vento – que causou tanta destruição e contratempos – pôde ter seu lado bom e trazer para as crianças alegria na simplicidade de empinarem seus pipas no céu ensolarado.

Passaram os ventos de Agosto, levando tudo.

As árvores humilhadas bateram, bateram com os ramos no chão.

Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas:

os ninhos que os homens não viram nos galhos,

e uma esperança que ninguém viu, num coração.

Passaram os ventos de Agosto, terríveis, por dentro da noite.

Em todos os sonos pisou, quebrando-os, o seu tropel.

Mas, sôbre a paisagem cansada da aventura excessiva —

sem forma e sem éco,

o sol encontrou as crianças procurando outra vez o vento

para soltarem papagaios de papel.
Motivo

O eu lírico aborda também o processo de criação da literatura. Embora o faça em diversos poemas, fica clara a temática no poema “Motivo”, um dos mais aclamados e conhecidos poemas de Cecília até os dias de hoje.

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.
Assovio

Nesse poema o eu lírico deixa transparecer a solidão em que vive dada às irreversíveis perdas humanas que sofreu durante sua vida. Tem na noite a única companhia, rica em melancolia e tristeza, solicitando ao mundo que não o questione ou incomode sobre coisas do passado – o qual é simbolizado pela palavra “porta”. É exposta a dor que carrega em si deixada por todos aqueles que por ali passaram, embora busque ainda levar a vida – representada pela palavra “canção” – com a cabeça erguida, como segue:

Ninguém abra a sua porta

para ver que aconteceu:

saímos de braço dado,

a noite escura mais eu.

E ela não sabe o meu rumo,

eu não lhe pergunto o seu:

não posso perder mais nada,

se o que houve já se perdeu.

Vou pelo braço da noite,

levando tudo o que é meu:

– a dor que os homens me deram,

e a canção que Deus me deu.
Acontecimento

Nota-se em “Acontecimento” a abordagem da crise existencial que o eu lírico passava. O poema tem em seu início o advérbio “aqui” para que o eu lírico afirme sua presença no mundo, dizendo que já passou por tribulações passageiras e fortes, a qual simboliza pela palavra “tempestade”. Sente-se uma inocente criança representada pelo verbo “chorar” para transmitir a comparação, e nota seus desejos e vontades como irreais, angustiando-se e se sentindo até mesmo agredido pela vida que a natureza ganha.

Aqui estou, junto à tempestade,

chorando como uma criança

que viu que não era verdade

o seu sonho e a sua esperança.

A chuva bate-me no rosto

e em meus cabelos sopra o vento.

Vão-se desfazendo em desgosto

as formas do meu pensamento.

Chorarei toda a noite, enquanto

perpassa o tumulto nos ares,

para não me veres em pranto,

nem saberes, nem perguntares:

 “Que foi feito do teu sorriso,

que era tão claro e tão perfeito ?”

E o meu pobre olhar indeciso

não te repetir: “Que foi feito…?”
Breve biografia da autora

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu no Rio de Janeiro dia 07 de novembro de 1901, e na mesma cidade faleceu em 09 de novembro de 1964. Considerada uma das mais importantes vozes líricas da Literatura Brasileira, foi escritora, pintora, jornalista, professora e poetisa. Publicou “Espectros” – seu primeiro livro – aos dezoito anos de idade, e deu ao público desde então a oportunidade de desfrutar de sua leveza, delicadeza e sabedoria em diversas outras obras.

Mar Absoluto

O clima de segunda guerra mundial afundou Cecília nos versos de Mar Absoluto (1945). Características: virtuosismo verbal, musicalidade, preferência por versos curtos, delicadeza e espiritualidade. Melancolia que se manifesta na preferência por temas como solidão, fugacidade do tempo, resignação diante da falta de sentido da vida. Abstração,atmosfera de sonho e tom intimista.
Um conjunto de lirismo único, expresso em versos como os do poema Guerra, de Mar Absoluto e Outros Poemas (1945), em que Cecília mantém a métrica e o ritmo sem (supostamente) se desligar do seu século, atenta, como seus contemporâneos, ao mundo ao redor: “Tanto é o sangue / que os rios desistem de seu ritmo, / e o oceano delira / e rejeita as espumas vermelhas. // Tanto é o sangue / que até a lua se levanta horrível, / e erra nos lugares serenos, / sonâmbula de auréolas rubras, / com o fogo do inferno em suas madeixas. // Tanta é a morte / que nem os rostos se conhecem, lado a lado, / e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.”.

Em Mar Absoluto e Outros Poemas a poetisa mais uma vez pronuncia seu olhar pictórico e deixa uma das suas marcas poéticas que é a acuidade perceptiva, a agilidade em diluir o arco-íris em poesia como podemos observar no seguinte poema:

Amor-perfeito

Suas cores são as de outrora,
com muito pouca diferença:
o roxo foi-se quase embora,
o amarelo é vaga presença.
E em cada cor que se evapora
Vê-se a luz do jardim suspensa.

Veludo de divinos teares,
hoje seda seca e abolida,
preserva os vestígios solares
de que era feita a vida:
frágil coração, capilares
de circulação colorida.[…].

Nesse livro, além da valorização imagística, há também pluralidade de cenas representativas do cotidiano humano, uma visão subjetiva do mar, relevante destaque às pedrarias e um especial carinho a variados tipos de flores. Em Retrato Natural os recursos visuais também marcam fortemente o exercício poético de Cecília Meireles; os traços, as cores, as sombras, as claridades e as sugestões de desenhos são aspectos importantes na composição do referido livro que retrata tão bem instantâneos de todos nós. Além das artes plásticas, outras artes que sempre estiveram presentes na vida da poeta se revelam entranhadas em toda a sua poética. Percebe-se no livro Romanceiro da Inconfidência, um épico-lírico, uma íntima relação com o teatro, a música e a pintura. Pode-se ver, através da linguagem múltipla presente na obra, o entrelaçamento dos recursos cênicos, sonoros e plásticos que fluem ao longo do texto.
Em torno do texto poético da autora sempre percebemos uma névoa que em vez de criar uma obscuridade, sugere uma leveza, como se os versos flutuassem ao som de uma vaga música oriunda, quem sabe, do som de alguma lira que estabelece a ligação dos tempos poéticos, numa dimensão outra que a real, o tempo do misticismo lírico tão próprio da poetisa:

“Falai! meu mundo é feito de outra vida. / Talvez nós não sejamos nós”. Assim, Cecília Meireles foi prosseguindo a sua escritura, compondo as suas canções poéticas com os reflexos da vida, os raios do sol, o pisca-pisca das estrelas, as alegrias, tristezas e ilusões humanas, não importando se eles provinham de um metal rossicler [pedra negra que depois de bastante martelada pode transformar-se em pedrinhas de todas as cores] ou de eventos dispersos levando-se em conta a complexidade da existência tão bem captada pelas nuanças da solombra que cercam a vida dos mais variados mistérios. Percebe-se uma infinita nostalgia na alma de Cecília, “uma espécie de tonto maravilhamento por se encontrar num mundo formal, anguloso, ensolarado, cruamente realista e um ansiado desejo de regressão ao seu neblinoso mundo interior, feito de esgarçados devaneios. É como a tristeza de um exilado que não se conforma com a paisagem espiritual e física do seu exílio. Daí, como uma constante, a nota de desenanto, a tristeza de uma enervante saudade interior por outro tipo de vida ou por outra essência de criaturas”.
No poema Transição pode-se verificar um pouco dessa aura de mistério que circunda a existência humana:

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo
a cada instante,
outra imagem se despedaça.
Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.
(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas,
e pelas mil que vão chegando.
dia…- não consentidos,
mas recebidas e esperadas!)

…………………………..

Mar Absoluto

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.
E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
“Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! – Disciplina humana para a empresa da vida!”
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

Romanceiro da Inconfidência

Inspirada por uma visita a Ouro Preto, Cecília Meireles compôs esse poema de temática social, que evoca a luta pela liberdade no Brasil do século XVIII e incorpora elementos dramáticos, épicos e líricos

Fruto de longa pesquisa histórica, Romanceiro da Inconfidência é, para muitos, a principal obra de Cecília Meireles. Nesse livro, por meio de uma hábil síntese entre o dramático, o épico e o lírico, há um retrato da sociedade de Minas Gerais do século XVIII, principalmente dos personagens envolvidos na Inconfidência Mineira, abortada pela traição de Joaquim Silvério dos Reis, o que culminou na execução de Tiradentes.

GÊNERO ROMANCEIRO
O gênero romanceiro é uma coleção de poesias ou canções de caráter popular. De tradição ibérica, surgiu na Idade Média e é, em geral, uma narrativa com um tema central. Cada parte tem o nome de romance – que não deve ser confundido com a denominação do atual gênero em prosa.

Nessa obra de Cecília Meireles, há 85 romances, além de outros poemas, como os que retratam os cenários. Em sua composição, é utilizada principalmente a medida velha, ou seja, a redondilha menor, verso de cinco sílabas poéticas (pentassílabo) e, predominantemente, a redondilha maior, verso de sete sílabas (heptassílabo), como ocorre na “Fala Inicial”:

Não posso mover meus passos
por esse atroz labirinto
de esquecimento e cegueira
em que amores e ódios vão:
(…)

No entanto, deve-se observar que, por ser uma autora moderna, Cecília não se prende totalmente a esse modelo. Vale-se, também, de versos mais curtos, de quatro sílabas, como em “Fala aos Inconfidentes Mortos”:

Treva da noite,
lanosa capa
nos ombros curvos
dos altos montes
aglomerados…
(…)

Há também os mais longos, como os decassílabos em “Cenário”, no início:

Passei por essas plácidas colinas
E vi das nuvens, silencioso, o gado,
Pascer nas solidões esmeraldinas.
(…)

Quanto às rimas, a autora utiliza as chamadas imperfeitas (terminações de versos semelhantes), como se pode observar no Romance XIII:

Eis que chega ao Serro Frio,
à terra dos diamantes,
o Conde de Valadares,
fidalgo de nome e sangue,
José Luís de Meneses
de Castelo Branco e Abranches.
Ordens traz do grão Ministro
de perseguir João Fernandes.
(…)

A escritora faz uso, ainda, de rimas perfeitas (terminação em sons vocálicos e consonantais idênticos), tal como no Romance VI:

Já se preparam as festas
para os famosos noivados
que entre Portugal e Espanha
breve serão celebrados.
Ai, quantas cartas e acordos
redigidos e assinados!
(…)

CONTEXTO HISTÓRICO
Romanceiro da Inconfidência caracteriza- se como uma obra lírica, de reflexão, mas com um contexto épico, narrativo, firmemente calcado na história. Em 1789, inspirados pelas idéias iluministas européias e pela independência dos Estados Unidos, alguns homens tentam organizar um movimento para libertar a colônia brasileira de sua metrópole portuguesa.

Uma pesada carga tributária sobre o ouro extraído das Minas Gerais deixava os que viviam dessa renda cada vez mais descontentes. Assim, donos de minas, profissionais liberais – entre os quais alguns poetas árcades – e outros começaram a conspirar contra Portugal. Contudo, o movimento é delatado e os envolvidos, presos. Alguns são condenados ao exílio, e o único a ser executado, na forca, é Tiradentes, em 21 de abril de 1792.

GÊNESE EM OURO PRETO
Nessa obra, Cecília Meireles utiliza-se, pela primeira vez, da temática social, de interesse histórico e nacional, enfatizando a luta pela liberdade. Sem aprofundadas reflexões filosóficas, mas com muita sensibilidade, a autora dá uma visão mais humana dos protagonistas daquele que foi o primeiro grande movimento de emancipação do Brasil: a Inconfidência Mineira.

Como se trata de um fato histórico, e dos mais importantes, a autora tem o cuidado de não se limitar a relatá-lo em versos, mas procura recriá-lo por meio da imaginação.

A gênese da obra ocorreu, de acordo com depoimento da escritora, quando foi pela primeira vez à cidade de Ouro Preto (ex-Vila Rica), local onde se organizou o movimento de Tiradentes e seus companheiros.

Cecília afirmou: “Todo o presente emudeceu, como platéia humilde, e os antigos atores tomaram suas posições no palco. Vim com o modesto propósito jornalístico de descrever as comemorações de uma Semana Santa; porém os homens de outrora misturaram-se às figuras eternas dos andores; (…) na procissão dos vivos caminhava uma procissão de fantasmas (…). Era, na verdade, a última Semana Santa dos inconfidentes: a do ano de 1789”.

ROMANCES
Tematicamente, pode-se localizar a ambientação da narrativa nos primeiros 19 romances. A descoberta do ouro, o início de uma nova configuração social com a chegada dos mineradores e toda a estrutura formada para atendê-los, os costumes, os “causos”, como o da donzela morta por uma punhalada desferida pelo próprio pai (Romance IV), ou os cantos dos negros nas catas (VII), o folclore, a história do contratador João Fernandes e de sua amante Chica da Silva e o alerta sobre a traição do Conde de Valadares (XIII a XIX). A ênfase recai na cobiça do ouro, que torna as pessoas inescrupulosas.

Vila Rica é o “país das Arcádias”, numa alusão direta ao neoclassicismo brasileiro, com seus principais poetas e suas pastoras: Glauceste Satúrnio e Nise, Dirceu e Marília. No belo Romance XXI, as primeiras idéias de liberdade começam a circular.

A partir do Romance XXIV, a insatisfação, a revolta contra a corte portuguesa é explicitada com a confecção de uma bandeira (Libertas quae sera tamen). Do XXVII ao XLVII, há a atuação do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que procurava atrair mais gente para a conspiração, em longas cavalgadas pela estrada que levava ao Rio. Contudo, os planos são abortados antes de ser efetivamente colocados em prática por causa dos delatores, principalmente Joaquim Silvério dos Reis (XXVIII):

(…)
Ai, que o traiçoeiro invejoso
junta às ambições a astúcia.
Vede a pena como enrola
arabescos de volúpia,
entre as palavras sinistras
desta carta de denúncia!
(…)

Segue-se uma devassa completa, prisões, confisco de bens, falsos testemunhos, a morte de Cláudio Manuel da Costa, o Glauceste Satúrnio, sob condições misteriosas (XLIX), a execução de Tiradentes, antecipada na fala do carcereiro (LII) e explicitada nos romances LVI a LXIII:

(…)
Já lhe vão tirando a vida.
Já tem a vida tirada.
Agora é puro silêncio,
repartido aos quatro ventos,
já sem lembrança de nada. (…)

Após um período como magistrado, Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu, é também preso, julgado e condenado ao exílio em Moçambique (LIV e LV). Lá, longe de sua ex-noiva e agora inconsolada Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília (LXXIII), casa-se com Juliana de Mascarenhas (LXXI).

Os romances finais falam do poeta Alvarenga Peixoto, sua esposa, Bárbara Eliodora, e sua filha, Maria Ifigênia (LXXV a LXXX); o retrato de Marília idosa; lamentos pela calamidade mineira; e a loucura e morte de D. Maria I (LXXXII e LXXXIII). A obra é concluída com a “Fala aos
Inconfidentes Mortos”:

E aqui ficamos
todos contritos,
a ouvir na névoa
o desconforme,
submerso curso
dessa torrente
do purgatório…
Quais os que tombam,
em crimes exaustos,
quais os que sobem,
purificados?

Um dos romances mais significativos, o XXIV, relaciona o ato da confecção da bandeira dos inconfidentes com todo o movimento que eles preparavam em Ouro Preto:

(…)
Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam,
uns ouvem, uns aconselham.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
“Escreva-me aquela letra
do versinho de Virgílio…”
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
“Tenha meus dedos cortados
antes que tal verso escrevam…”
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).
Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
“Que estão fazendo, tão tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Lêem notícias nas gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?”
(Antiguidades de Nîmes
em Vila Rica suspensas!

Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da independência!
Liberdade – essa palavra,
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)

E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.