Amor

Ana era uma dona de casa preocupada com seus afazeres rotineiros. Tinha marido, filhos e morava em uma boa casa. Certo dia, saiu para fazer compras para o jantar e, ao retornar para casa, já dentro de um bonde, foi surpreendida por um cego parado no ponto, que mascava chicletes com muita naturalidade. Isso a despertou para novas sensações e sentimentos.
Quando o bonde voltou a andar, Ana deixou cair as compras. Passageiros recolheram o que ficou espalhado, depois seguiram viagem. A distração era tão grande, que Ana acabou perdendo o ponto que a faria retornar para casa, por isso, desceu próximo ao Jardim Botânico. Ficou toda a tarde observando cada detalhe do local, pássaros, insetos, folhas, flores, terra e vento. Em certo momento, lembrou dos filhos, do marido e do jantar, o que a fez correr.
Assim que chegou, também passou a ver o filho, o marido e a própria casa de maneira diferente, parecia que o amor por todos havia aumentado. Jantaram com amigos e crianças. Depois, Ana e o marido foram dormir.

A Hora da Estrela

A Hora da Estrela, obra da consagrada Clarisse Lispector, foi seu último livro. Embora não tenha feito parte da época de ouro da literatura brasileira, juntamente com Machado de Assis, Lispector ganhou espaço com sua maturidade – mesmo quando ainda era bem jovem – e psicologismo. O romance “Perto do Coração Selvagem”, lançado em 1944, foi responsável pela explosão de seu sucesso, deixando todos perplexos em perceber como ela era uma escritora especial. Com o passar de anos e obras, Clarisse era vista como uma romancista excelente, mas escritora alienada das realidades do país – principalmente a política – já que evitava abordá-las em seus livros. “A Hora da Estrela” serviu para encerrar esse paradigma, pois traz uma forte carga política ao abordar o contato do imigrante nordestino com uma cidade grande, como o Rio de Janeiro. Na obra ela mostra que não é nem um pouco alienada, mas não abandona seu típico psicologismo. Clarisse cria um narrador fictício – Rodrigo S.M. – responsável por relatar a vida de uma jovem vinda do Nordeste, refletindo ricamente sobre seus conflitos internos, manias e sonhos.

Triste Infância

Macabéa nasceu em Alagoas e perdeu os pais enquanto era ainda uma pequena criança, tendo pouca ou nenhuma lembrança deles. Acabou sendo criada por uma tia extremamente religiosa e supersticiosa, cheia de tabus e moralismos, os quais acabaram sendo transmitidos para Macabéa.

A pobre garota sofreu uma infância realmente miserável, privada de qualquer conforto, de relacionar-se com amigos e animais de estimação – já que não pôde ter nenhum dos dois –, e sem ter o essencial para a sobrevivência de qualquer ser humano: amor. A tia de Macabéa possuía ainda o mórbido prazer de castiga-la, deixando-a sem a tão desejada goiabada com queijo de sobremesa, além de enchê-la de cascudos na cabeça, raramente precisando de motivos para isso.
Cidade nova, vida nova?

Quando já estava um pouco crescida, Macabéa e a tia acabaram se mudando para o Rio de Janeiro. Numa cidade nova, a jovem sonhava com uma mudança de vida, na qual se tornaria uma estrela de cinema tão famosa quanto Marilyn Monroe, a quem idolatrava. No entanto, sua miserável vida não guinou tanto quanto ela gostaria.

Embora mal soubesse escrever e possuísse muito pouco estudo, a jovem fez um curso de datilografia e conseguiu conquistar um emprego, no qual receberia menos de um salário mínimo. Nesse meio tempo a tia acaba falecendo, e Macabéa deixa de frequentar a igreja.

Passou a viver repartindo um quarto de pensão com quatro moças, balconistas de uma loja. A miséria não havia abandonado a moça, que cheirava mal pelas raras oportunidades que tinha de tomar banho, passava fome – a qual procurava disfarçar comendo pequenos pedaços de papel –, sofria de fortes e persistentes tosses e mal conseguia dormir pela azia que sofria como consequência do café frio que tomava antes de deitar-se.

Os poucos luxos que a moça sustentava era pintar as unhas de vermelho – para roê-las em seguida –, ir ao cinema quando recebia seu salário e comer diariamente Coca-Cola e cachorro quente. Ela desconhecia o que era uma real alimentação quente, a qual toda a população deveria ter direito a usufruir. Era preocupantemente pálida e magra.

Certa vez, Raimundo, chefe de Macabéa, decidiu demiti-la, pois já não aguentava mais lidar com o péssimo trabalho executado por ela – vide textos com marcas de gordura e crassos erros ortográficos. Surpreso com a reação da moça, que apenas se desculpa pelos aborrecimentos causados, Raimundo decide permitir que ela continuasse trabalhando.
Deslumbrando-se com pouco

Num dia do mês de maio, a moça liga para o trabalho dizendo que precisaria arrancar o dente e por isso não poderia comparecer. Aproveita a falta para fazer coisas novas, como ficar sozinha em casa dançando ao som de música alta e até mesmo poder sentir-se entediada. Nesse dia acaba conhecendo Olímpico de Jesus, o homem que seria seu único namorado.

Olímpico não era o tipo de homem que pais sonham para sua filha, mas Macabéa não tinha quem olhasse por ela. Seu namorado vira do Nordeste fugido, pois lá matara um homem. No Rio de Janeiro consegue emprego numa metalúrgica, fato que traz para Macabéa delírios de grandeza, já que para ela, ele era metalúrgico e ela datilógrafa.

Homem de mau caráter e extrema ambição, Olímpico de Jesus sempre fazia com Macabéa programas gratuitos, como sentarem-se na praça para conversar, e comumente irritava-se com as perguntas da moça, que logo se desculpava por medo de perdê-lo. Quando o rapaz finalmente decidiu lhe pagar um café, deslumbrada com a situação, ela encheu o copo de açúcar para aproveitar o momento, passando mal em seguida.
O trágico fim

Olímpico conhece Glória, colega de trabalho de Macabéa, e decide terminar com ela para investir na outra. Glória vivia numa casa confortável, alimentava-se corretamente, tinha um pai açougueiro, e acabou despertando a ambição do rapaz, onde começam a namorar em seguida. Enquanto isso, Macabéa vai ao médico e descobre ter tuberculose, mas sua miséria e ingenuidade não lhe permitem mensurar a gravidade de sua doença, deixando de tomar remédios já que ‘sentia-se bem apenas por ter ido ao médico’.

Sentindo remorso por ter roubado o namorado da pobre colega, Glória a convida para um lanche em sua casa e a incentiva para ir a uma cartomante saber de seu futuro.  Macabéa segue o conselho e vai até a casa de Madama Carlota, que lhe prevê o casamento com um estrangeiro financeiramente estável, que lhe daria tudo o que precisasse e o amor que nunca tivera.

Encantada com as previsões, Macabéa atravessa a rua sem atentar-se para o trânsito e acaba sendo atropelada por um Mercedes-Benz amarelo. Inúmeras pessoas aglomeram-se ao redor dela, mas não ousam se mover para socorrê-la. Caída na calçada, a moça tosse sangue e perde a vida. Como finaliza a obra, ‘a hora da estrela havia chegado’.

Laços de Família

A obra Laços de Família, lançada em 1960, constitui o ápice da carreira literária de Clarice Lispector, além de constar do cânone literário nacional como um dos melhores livros de contos da história da literatura brasileira. Suas treze narrativas enfocam particularmente o universo da vida em família na classe média do Rio de Janeiro.

Seus personagens parecem estar sempre encarcerados na coexistência familiar e atados ao ambiente domiciliar por laços que não se desfazem, reféns de um cotidiano monótono e indistinto. Clarice recorre à técnica do fluxo de consciência para narrar suas histórias; através deste recurso o leitor pode estar ciente do que se passa no interior das protagonistas dos contos.

Esta prática da autora a inclui no rol das criadoras de uma literatura considerada psicológica ou introspectiva. Suas criaturas, sempre ansiosas para fugir de uma existência padronizada e profundamente atrelada às convenções sociais, embora presas a esta vida que flui inesgotavelmente de uma geração para outra, atingem inesperadamente outra margem do existir, sua esfera enigmática, imprevista, distinta da rotina humana. Ainda que não logrem compreender esta outra dimensão, nada as impede de navegar em suas ondas.

Os contos de Clarice assumem um tom cético e desencantado com relação às interações familiares, impregnadas de segundas intenções e de preocupações com as aparências sociais. Por essa razão suas personagens só alcançam a si mesmas através de referências externas; desta forma a procura da identidade percorre os mesmos caminhos que atingem o outro, não necessariamente um ser humano, mas igualmente um artefato ou um animal.

Seus contos mais célebres são Amor, Uma Galinha e Feliz Aniversário, embora também se destaque Devaneio e Embriaguez duma rapariga. Na primeira história, Devaneio e Embriaguez duma rapariga, a protagonista, uma portuguesa, passa subitamente a criar devaneios interiores diante de um espelho, abrigando-se depois embaixo da cama, o que assusta seu cônjuge. Com o retorno dos filhos para casa, a rotina se instaura novamente, até a jovem senhora participar de um encontro entre o esposo e seu patrão. Ela bebe além dos limites, mas se mantém protegida pelo marido; sente o prazer da vida dentro de si e, ao se comparar a uma bela moça presente no recinto, reassume sua auto-estima e a feminilidade, aceitando seu papel de mulher e mãe.

Em Amor, Ana, esposa e mãe, sempre tão aparentemente serena e amorosa, sente sua vida cotidiana se desmoronar quando, um dia, em sua tarefa rotineira de fazer compras, depara-se com um cego que a incomoda ao mascar automaticamente seu chiclete; quando o bonde freia subitamente, seus ovos se quebram e ela fica conturbada. Decide então andar pelo Jardim Botânico e se deixa contagiar pela beleza do lugar, que a lembra inesperadamente dos terrores infernais. O tempo passa e ela fica presa neste lugar, refletindo sobre a loucura de sua vida rotineira, enquanto o cego e sua atitude assumem outra conotação. Ela retoma sua vida, mas agora detém um novo olhar sobre ela, impregnado de um incômodo persistente.

No conto Uma Galinha, uma ave destinada a servir de comida para a família que a cria foge instintivamente para preservar sua existência, é furiosamente perseguida pelo chefe da casa, inesperadamente põe um ovo, torna-se símbolo da feminilidade e, anos depois, despojada de seu status sagrado, deixa de ser poupada e é consumida por todos.

Na história Feliz Aniversário, D. Anita celebra seus 89 anos. Seus familiares aí se encontram, mas não movidos por laços de amor, e sim por meras convenções sociais. Nenhum afeto se manifesta, apenas emoções compulsórias e desprovidas de naturalidade. Enojada deste comportamento, a protagonista cospe durante o evento, mas seu ato é atribuído a sua faixa etária. Quando um dos filhos anuncia o retorno da família no próximo ano, a personagem se sente vitoriosa, mais forte que seus parentes, que suas atitudes vulgares.

A paixão segundo G. H.

A paixão segundo G. H., romance da escritora Clarice Lispector, foi publicado em 1964 e, assim como em suas outras obras, os fluxos de consciência permeiam todo o livro. É uma criação angustiante e inquietante. Clarice transmite ao leitor as preocupações emocionais da personagem G.H, mulher bem sucedida profissionalmente, porém não conhece sua identidade, portanto, busca o conhecimento interior.

G.H. não tem nome, fato que a faz identificar-se com todos os seres. O enredo aparentemente tolo – a demissão da empregada doméstica faz com que a patroa faça uma faxina no quarto da funcionária, onde encontra uma barata – se torna um momento de profunda reflexão existencial. Ao ver e encarar a barata, ao esmaga-la e ao comê-la, a protagonista encontra a verdadeira razão de estar no mundo.

RESUMO

Seis meses após a demissão da empregada doméstica, G.H. resolve fazer uma arrumação no antigo quarto da funcionária, ao entrar ali ela emerge em seu próprio vazio interior. Tomada pela aflição ela procura algo para fazer, mas não há nada. Até que surge uma barata saindo do guarda-roupa; nesse instante a personagem é tomada por uma consciência de solidão.

A protagonista é tomada pelo nojo da barata, mas precisa enfrentá-la, tocá-la e provar o seu sabor. A náusea que a toma violentamente representa a angústia que antecede a epifania e resulta na dolorosa sensação de fragilidade da condição humana.

Com o intuito de retomar seus instintos primitivos, G.H. deve enfrentar a experiência de provar o gosto do inseto. O provar simboliza uma reviravolta em seu mundo alienado, imune e condicionado. Após o ocorrido é que a personagem se dá conta do seu verdadeiro estar no mundo. É tanto que depois ela tem dificuldades em narrar a sua impotência de descrever os fatos.

    Só à ideia, fechei os olhos com a força de quem tranca os dentes, e tanto apertei os dentes que mais um pouco eles se quebrariam dentro da boa. Minhas entranhas diziam não, minha massa rejeitava a da barata.

    Eu parara de suar, de novo eu toda havia secado. Procurei raciocinar com o meu nojo. Por que teria eu nojo da massa que saía da barata? não bebera eu do branco leite que é líquida massa materna? e ao beber a coisa de que era feita a minha mãe, não havia eu chamado, sem nome, de amor?

    […]

    Sabia que teria que comer a massa da barata, mas eu toda comer, e também o meu próprio medo comê-la. Só assim teria o que de repente me pareceu que seria o antipecado: comer a massa da barata é o antipecado, pecado seria a minha fácil.

    O antipecado. Mas a que preço.

    Ao preço de atravessar uma sensação de morte.

    […]

    LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G. H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998

O livro pode ser entendido como uma alusão ao sofrimento da Paixão de Cristo, relatada por Mateus, Marcos, Lucas e João.

A paixão segundo G.H. é uma obra que ecoa existencialismo, portanto, é considerada como uma luz sobre o entendimento da condição humana.