Os Maias

Os Maias do escritor português Eça de Queirós é leitura obrigatória para quem deseja passar com louvor num vestibular disputado ou melhorar as notas de Literatura na escola. Sua importância é tamanha, pois Eça é considerado dentre os autores de ficção em língua portuguesa, um dos mais relevantes. A obra se torna ainda mais interessante ao revelar-se uma análise – algumas vezes crítica – da alta sociedade de Lisboa, sendo denominada por Eça como “cenas da vida portuguesa”. “Os Maias” faz parte de uma trilogia, composta ainda por “Primo Basílio” e “O Crime do Padre Amaro”, que também retratam em alguns trechos a vida da burguesa portuguesa e o conflito de valores com os mais humildes. De forma muito forte para alguns, o escritor utilizou o livro para criticar a hipocrisia e os vícios daquela sociedade. O principal papel do livro acaba sendo o de forçar o leitor a refletir sobre os ócios e virtudes que fazem parte da vida de cada indivíduo, e como o papel da sociedade é capaz de moldá-lo.

 

Triste vida e morte

Pedro da Maia era filho único de Afonso Maia, um rico e nobre proprietário. Dona Maria Eduarda Runa, esposa de Afonso, deu ao filho uma educação exacerbadamente rígida e religiosa, criando um garoto assustado e de caráter fraco. Quando se torna adulto, mesmo contra a vontade de seu pai, Pedro acaba por casar-se com Maria Monforte, filha de um antigo negreiro e com quem teve duas crianças, uma menina e um menino.

Para infortúnio de Pedro, sua esposa conhece Tancredo, um príncipe italiano, apaixona-se e acaba por fugir com ele levando Maria Eduarda, sua filha. O menino filho do casal, Carlos, é deixado para trás e fica com o pai. Pedro da Maia nunca foi razoável ao lidar com perdas, sempre fora um garoto melancólico, deprimido. O estado agravou-se quando sua mãe faleceu, e perdendo agora a esposa que tanto amara, não sabia como suportaria. E de fato, não suportaria. Desiludido com a vida após ter sido deixado tão bruscamente e sequer saber o paradeiro da filha que foi levada por sua esposa juntamente com o amante, acaba por cometer suicídio, deixando Carlos para ser criado por seu pai, o senhor Afonso.

O avô cria Carlos com todo o zelo e carinho possíveis, dando uma forte educação britânica que pudesse preparar o rapaz para os melhores empregos e estudos, e apenas depois focando em religião. Posteriormente, o rapaz iria para Coimbra estudar Medicina, tornando-se então um médico formado.
O retorno e o reencontro

Após finalmente formar-se, Carlos retorna para Lisboa, onde decide exercer com afinco sua profissão. O status de médico lhe rendeu muitas paixões e o rapaz não tinha pudores em relacionar-se com diversas mulheres, mesmo as casadas, provocando profunda reprovação em seu avô. Entre suas amantes estavam Madame Castro Gomes e Gouvarinho.

Carlos é educado pelo avô, Afonso, que segue a doutrina britânica. Após formar-se em Medicina, ele regressa a Lisboa, exercendo a sua profissão com gosto e mantendo relações amorosas com mulheres casadas como a condessa Gouvarinho e Madame Castro Gomes.

Madame Castro Gomes era uma moça muito bela, e quando a conheceu Carlos não poupou esforços em saber mais sobre ela. Fica encantado e passa a segui-la, sem êxito. Para sua felicidade, consegue uma aproximação com Madame na ocasião em que sua governanta adoece ela chama o médico para que a diagnostique e a trate. Castro Alves era ausente, e assim Carlos e a Madame passaram a encontrar-se sempre que podiam, como amantes.

Sem conseguir mais esconder seu desejo e necessidade em estar com Madame, Carlos acaba comprando uma casa para instalá-la e encontrarem-se tranquilamente, mas é descoberto por Castro Gomes. Para a surpresa do médico, segundo Castro, Madame não era sua esposa, e sim sua amante, então Carlos poderia ficar com ela sem maiores problemas.
Passado revelado

Tudo parecia bem entre o casal, até que chega um emigrante de Paris dizendo ter conhecido a mãe de Madame, que na realidade se chamava Maria Eduarda. Ele buscava a moça para lhe entregar um cofre de sua mãe que, conforme o contou, possuía documentos que a identificariam e lhe renderiam uma boa herança. A mãe de Maria Eduarda era Maria Monforte, assim, mãe também de Carlos. O casal de amantes na realidade eram irmãos.

Carlos toma conhecimento da verdade antes de Maria Eduarda e decide esconder o que sabe, mantendo abertamente o relacionamento entre eles. Ao descobrir que o neto ao qual criou cometia incesto conscientemente, Afonso da Maia acaba por morrer de desgosto.

Maria Eduarda acaba descobrindo toda a verdade sobre seu passado e, agora rica pela sua herança, parte para o estrangeiro, abandonando Carlos que, para se distrair, decide correr o mundo.

O Crime do Padre Amaro

O Crime do Padre Amaro, do escritor luso Eça de Queirós, é tido pela crítica como o melhor romance realista português do século XIX e, sem dúvida, um dos melhores de todos os tempos da literatura portuguesa. Trata-se do primeiro grande romance de Queirós, onde o autor critica severamente a sociedade portuguesa mediante os temas: provincianismo e anticlericalismo. Praticamente todos os personagens são apresentados de maneira irônica e sarcástica, sofrendo suas críticas de acordo com a classe que representavam. Como naturalista, o autor apóia-se na ideia de que o homem é moldado e fruto de seu ambiente, do momento histórico em que vive e da carga genética que carrega. Assim, “O Crime do Padre Amaro” acabou se tornando um verdadeiro marco do Naturalismo Português e passou a ser requerido como leitura obrigatória para provas e vestibulares, não somente de Portugal, mas de outros países como o Brasil. É essencial que se leia, ao menos uma vez na vida, essa intrigante obra de Queirós, e recorra-se ao resumo abaixo sempre que for preciso relembrar algum detalhe importante.

 

A carreira de alguém sem vocação

O protagonista da obra é Amaro Vieira, menino de origem humilde, filho de uma criada que faleceu enquanto ele era ainda uma criança. Marquesa de Alegros, patroa de sua mãe, bondosamente o adotou e criou como a um filho, dando-lhe a mesma educação religiosa que dava a suas filhas. Após o falecimento da Marquesa, passou a viver com um tio que se encarregou de encaminhá-lo ao seminário para realizar o sonho de Marquesa de que Amaro se tornasse padre. O garoto não possuía nenhuma vocação para o celibato, mas fez aulas de latim e, ao entrar para o seminário, descobrira que muitos outros garotos eram como ele, sem interesse ou vocação pelo o que estavam ali fazendo.

Nutria os desejos pertinentes à adolescência, sonhando durante as noites com mulheres sedutoras, e vendo na Virgem uma mulher loura e desejável. Era cheio de curiosidade sobre as coisas da vida e do mundo, mas cumpriu o que lhe fora designado e formou-se no seminário.

Foi então enviado para a pequena vila de Leira, onde o nomearam Pároco. Conheceu Amélia, uma bela moça comprometida que facilmente se deixa seduzir por ele. Nasceu uma paixão entre eles, na qual cada um passava seu tempo imaginando o que o outro estaria a fazer, desejando-se nitidamente.
Os encontros da carne

Padre Amaro vivia num meio corrompido, o qual acompanhara desde que entrou para o seminário: mulheres que durante o dia eram beatas e durante a noite eram amantes; padres corrompidos e pervertidos que não respeitavam a lei da castidade, vivendo regados aos prazeres mundanos como qualquer pagão. Amélia, que nunca fora moça de família, não se sentiu incomodada ao tornar-se amante de Amaro, e ambos corrompiam-se sem sentir qualquer peso na consciência.

O que parecia ser terminantemente secreto fora desvendado quando João Eduardo, noivo de Amélia, por sentir ciúmes da atenção que a moça despedia ao padre, decide escrever no jornal da província um comunicado onde criticava e relatava as relações sexuais e românticas que padres e beatas vinham mantendo, desrespeitando o celibato. Ainda, João sugere nomes em seu artigo, sujando a honra de Amélia, que agora era vista por toda a cidade como amante de um homem de Deus.

A polêmica na cidade e o burburinho foram gerais, e entre idas e vindas Amélia acabou por romper o noivado com João Eduardo e tornar-se amante exclusiva de Amaro. Para que ele não perdesse o posto de padre, encontravam-se escondidos, mesmo sabendo que a situação já era de conhecimento geral. A moça acabava tendo crises nervosas algumas vezes, mas nada que prejudicasse o relacionamento.
Fim de vidas por começar

Tudo ia bem, até que Amélia engravida do Padre Amaro. Desesperado, busca uma solução para não ser efetivamente descoberto, chegando até mesmo a supor que a moça deveria casar-se com João Eduardo para que ele lhe assumisse o filho, mas o rapaz havia partido para o Brasil. Para evitar o falatório, Amélia passa a viver enclausurada, sofrendo com tamanha solidão.

Aparece então o abade Ferrão, homem de espírito bondoso e gentil, que cuida da moça paternalmente. Amélia dá à luz, mas acaba falecendo no parto, e seu filho é levado por uma “tecedeira de anjos”, desaparecendo e posteriormente tendo sido dado como morto. Ao chegar para buscar seu filho e saber das mortes, Amaro sente um pequeno remorso, mas segue tranquilamente sua carreira no celibato, apenas cuidando-se para não ser descoberto em novas aventuras. Continuou a ser visto por muitos como um homem de Deus, já que não era possível enxergar em seus olhos toda maldade e sofrimento que causara por seus pecados.

A Relíquia

“A Relíquia”, publicada em 1887, é um dos livros mais irreverentes de Eça de Queirós (1845-1900), o grande mestre da prosa realista-naturalista em Portugal e um dos maiores estilistas de nossa língua.
Sem nenhum favor, Eça é hoje reconhecido e apreciado, mesmo fora do âmbito de nossa literatura, como o principal responsável pela definição do moderno idioma português e como um dos grandes precursores do romance do século 20.

O realismo de Eça, porém, precisa ser bem caracterizado, pois é mais complexo do que sugerem as definições habituais desse estilo.
Eça sabe ver o mundo de modo rigoroso, com um olhar frio e de desencanto. Mas, a exemplo de seu mestre, Flaubert, também sabe usar e abusar do humor, da ironia e da fantasia, não como atitudes opostas à de um espírito objetivo, mas como outras formas de apreensão da realidade.

 O realismo de Eça não exclui o quimérico e o sarcástico, como bem notou o escritor argentino Jorge Luis Borges, grande admirador de Eça e, ele mesmo, um dos principais autores do que, em nossos dias, se vulgarizou sob o rótulo de “realismo mágico”.

Essa observação vale especialmente para “A Relíquia”. O livro, por um lado, se inclui entre os grandes romances da segunda fase do escritor, a que vai de “O Crime do Padre Amaro” (1875) a “Os Maias” (1888).

Nesse período, Eça procurou fazer um “inquérito à vida portuguesa”, uma séria crítica das instituições que julgava responsáveis pela decadência e estagnação de Portugal: a Monarquia, a Igreja e a Burguesia.

Por outro lado, “A Relíquia” pode ser considerada, junto à fábula “O Mandarim”, a obra mais fantasista de Eça.

Sua leveza antecipa o abandono do esquema naturalista e a identifica com as obras da terceira e última fase do autor, a dos romances como “A Ilustre Casa de Ramires” e “A Cidade e as Serras”, em que o realismo se une ao lirismo.

“A Relíquia” faz uma grande crítica e uma sátira hilariante do catolicismo em Portugal, por meio das memórias do narrador Teodorico Raposo, o “Raposão” (como as mulheres o chamam).

Raposo é um jovem bacharel que, órfão, vive sob as ordens de Maria do Patrocínio, sua tia terrível e avara, casta e beatíssima, que controla a fortuna que o sobrinho espera herdar, em breve, com a morte da “Titi”.
Raposo, sabendo que “há razões de família como há razões de Estado”, finge grande devoção e cumpre o desejo da tia carola, que, preocupada com a saúde incerta, o envia como seu representante na missão religiosa de percorrer a Terra Santa.

Na companhia de Topsius, um caricaturesco arqueólogo alemão que vem a conhecer, Raposo vive grandes peripécias no Egito e na Palestina.
A maior delas é uma enigmática viagem ao passado, à antiga Jerusalém, que ocupa o centro do livro. Nessa viagem-sonho, Raposo assiste aos bastidores do martírio de Cristo e descobre “a lenda inicial do cristianismo”: a ressurreição não ocorreu.

O livro se encerra com outro desmascaramento, o do próprio Raposo pela “Titi”. Enganando-se no momento de entregar à tia a preciosa relíquia que trouxera (a coroa de espinhos de Cristo, que forjara com Topsius), Raposo lhe entrega outra “relíquia”, um embrulho com a camisola de Miss Mary, uma prostituta que conhecera em Alexandria.

Ao final do livro, Raposo conclui que perdera a herança da tia por não ter tido a coragem de afirmar: “Eis aí a relíquia! É a camisa de Maria Madalena!” (aludindo às iniciais “M.M.” que, num bilhete, a acompanhavam).

Como é comum em Eça, há no romance cenas simbólicas, cuja função é a de explicitar as teses do autor. Eça não aceitava o cristianismo como afirmação do sobrenatural, isto é, “a ideia de um deus transcendente que criou o universo” (Antônio José Saraiva).

Em “A Relíquia”, é o próprio Cristo quem afirma a Raposo, ao final do livro: “Eu não sou Jesus de Nazaré, nem outro Deus criado pelos homens (…). Sou anterior aos deuses transitórios: eles dentro em mim nascem, dentro em mim duram; dentro em mim se transformam (…). Chamo-me a Consciência”.

A Capital

Neste livro, Eça de Queiroz faz, com traços vigorosos e de maneira maliciosa, os retratos caricaturais de seus amigos íntimos. Com final ironia, chega a pôr em Artur Corvelo sua própria personalidade.

Examina em todos os ângulos a sociedade portuguesa de seu tempo. Artur deixa a modesta terra natal e vai para Lisboa, alimentando doces ilusões, certo de que lá haveria melhor lugar para um intelectual.

Depois das decepções voltou ao lugar tranqüilo, mas, em face da vida monótona, sentia saudade da capital, embora tivesse saído “daquele inferno em Lisboa, como um vencido de uma batalha” – com feridas por toda a parte – no seu amor traído, na sua ambição iludida.

O Primo Basílio

 INTRODUÇÃO: A Revolução Industrial iniciada no século anterior, na Inglaterra, provocou uma industrialização acelerada em vários países. As cidades cresciam rapidamente, camponeses transformavam-se em operários urbanos e a vida cultural diversificava-se.
Londres, Berlim, Viena e principalmente Paris eram o centro de um vigoroso processo criativo. Enquanto isso, Portugal mantinha-se apegado às glórias do passado. O pais não chegou a desenvolver uma burguesia empreendedora e capitalista, nem uma elite intelectual significativa que fizesse desenvolver as artes e as ciências. A elite de Lisboa vivia apegada às glórias coloniais passadas. De costas para o futuro, vivia centrada em sua vidinha sem perspectivas.

 

         A escola realista propõe uma criação literária apoiada na análise objetiva da realidade. O narrador vê os acontecimentos com neutralidade e domina as informações sobre o contexto o qual o enredo acontece. O Naturalismo traz uma preocupação a mais: tenta introduzir o método científico na obra literária e, com isso, intensifica e amplia as tendências básicas do Realismo.

POSICIONAMENTO DO AUTOR EM RELAÇÃO AO TEMA

         Eça de Queirós faz parte de uma geração de jovens intelectuais, centrada em Coimbra, que reagem contra o atraso do país. Eles criticam o Romantismo como um sinônimo desse atraso. E com seus Realismo e Naturalismo pretende incorporar à Literatura os métodos científicos próprios das ciências naturais. O autor disseca essas deformações da sociedade lusitana e explica sua fonte de pesquisa e inspiração neste trecho de uma carta enviada a Teófelo Braga “Mas a verdade é que eu procurei que os meus personagens pensassem, decidissem, falassem e atuassem como puros lisboetas, educados entre o Cais do Sodré e o Alto da Estrela; não lhes daria nem a mesma mentalidade, nem a mesma ação se eles fossem do Porto ou de Viseu; as individualidades morais variam de província a província”.
         Eça também observa que não ataca a família enquanto instituição, mas sim “a família lisboeta, produto do namoro, reunião desagradável de egoísmo que se contradizem, e, mais tarde ou mais cedo, centro de “bambochata”.
         O Primo Basílio apresentava-se como uma lente de aumento sobre a intimidade das famílias “de bem” de Lisboa da metade do século XIX. Representa um dos primeiros momentos de reflexão sobre o atraso da sociedade portuguesa em um mundo profundamente transformado pela Revolução Industrial e pelo desenvolvimento tecnológico.

PERSONAGENS

LUÍSA

         Na descrição que o próprio Eça de Queiroz faz na carta a Teófilo Braga, Luísa é “a burguezinha da Baixa” (Lisboa, Cidade Baixa): urna senhora sentimental, sem valores espirituais ou senso de justiça. É lírica e romântica, ociosa e nervosa pela falta de exercício e disciplina moral”. Luísa é esposa de Jorge, engenheiro de minas que ela conheceu após o abandono e rompimento (por carta) do noivado com o primo Basílio. Sua vida tranqüila de leitora de folhetins é alterada pela viagem do marido e o retorno do primo a Portugal.
         O motivo que a leva a se entregar a Basílio, de acordo com as reflexões de Eça, nem ela sabia. Uma mescla da falta do que fazer com a “curiosidade mórbida em ter um amante, mil vaidadezinhas inflamadas, um certo desejo físico…”

BASÍLIO

         O primo e ex-noivo que retorna a Portugal na ausência do marido de Luísa é para Eça de Queirós “um maroto, sem paixão nem a justificação de sua tirania, que o que pretende é a vaidadezinha de uma aventura e o amor grátis”.
         Malicioso e cheio de truques para atrair a amante explorando a sua vaidade fútil, Basílio compara a fidelidade conjugal a uma demonstração de atraso das mulheres de Lisboa frente aos hábitos supostamente liberais e modernos das senhoras de Paris – todas com seus amantes, conforme assegurava o primo.
         Desprovido de charme ou atributos mais sedutores, é o mais cínico dos personagens “conquistadores” de Eça de Queirós. Em momentos de maior dramaticidade, quando começam a enfrentar as conseqüências do adultério, o cinismo de Basílio fica mais evidente: ele pensa apenas que teria sido mais vantajoso trazer consigo uma amante de Paris.

JULIANA

         A criada Juliana faz desmoronar o mundo de Luísa ao chantageá-la com cartas roubadas. É a figura que aparece com alguma intensidade interior, destoando um pouco das razões fúteis que movimentam os demais personagens.
         Ela se conduz pela revolta (não suporta sua condição de serviçal), pela frustração (fracassou na tentativa de mudar de vida), pelo ódio rancoroso contra a patroa (ódio, na verdade, contra todas as patroas que a escravizaram por 20 anos).
         Assim como Basílio, Juliana tentará tirar proveito circunstâncias, reunindo provas do adultério para fazer chantagem. Mas ela pretende mais do que dinheiro – que exige sem sucesso de Luísa; ela quer a desforra. E os recursos que utiliza levarão o definhamento físico e emocional da patroa, até o desfecho da história.

JORGE

         Todo o drama iniciado com o roubo das cartas se deve à tentativa de Luísa de impedir que Jorge saiba do adultério. Com aparições, no romance, sua presença se faz sentir pelo papel social que representa: é o marido. E a forma como poderá reagir à infidelidade, é especulada pelo narrador através, de outro personagem, Emestinho Ledesma, autor medíocre que prepara uma peça teatral sobre um caso de adultério, pede a Jorge uma opinião sobre o final de sua obra. Um marido deve matar a mulher adúltera?

PERSONAGENS SECUNDÁRIOS

         Os personagens secundários completam o quadro social lisboeta. O Conselheiro Acácio, freqüentador do círculo próximo de Luísa, um dos mais citado e conhecido personagem de Eça, é o intelectual vazio. Sua habilidade em dizer o óbvio com empáfia deu origem à expressão “verdades acacianas”. Joana é a cozinheira que enfrenta Juliana por dedicação à Patroa; Dona Felicidade é a “beatice parva de temperamento irritado”. E também há, Sebastião (o bom rapaz), que se propõe a recuperar as cartas tomadas pela criada.

ESTILO E LINGUAGEM

         Notamos que a obra de Eça adapta o texto literário ao ritmo da língua falada. Assim, rejuvenesce a linguagem literária. O autor afasta-se do uso de frases extensas e sobrecarregadas. Esbanja habilidade para expressar-se em seqüências de frases curtas, cheias de ritmos e significados. Usa e abusa da descrição minuciosa, quase obsessiva, do espaço físico e da sociedade, explicando cada personagem a partir de seu contexto socioeconômico.

CARACTERÍSTICAS REALISTAS PRESENTES NA OBRA

         Segundo palavras do próprio autor, o Romantismo “… em lugar de estudar o homem, inventava-o. Hoje o romance estuda-o na sua realidade social. (… ) Toda a diferença entre o Idealismo e o Naturalismo está nisto. O primeiro falsifica, o segundo verifica”.
         Percebemos que em O Primo Basílio, o homem é observado como um animal que tem o comportamento determinado pelo meio ambiente, pelas circunstâncias que o pressionam e hereditariedade, caracterizando o Determinismo.
         Os elementos “científicos” tornam-se mais importantes do que a interioridade ou subjetividade dos personagens. A origem social, educação e influências externas ganham ênfase determinantes. Novos recursos são incorporados à linguagem, como termos e explicações científicos para expressar a fragilidade da condição humana, com suas doenças e seus vícios.
         A combinação da leveza e do brilho das descrições com o relato grosseiro da realidade é outra marca estilística de Eça. Ele opõe a expectativa romântica de Luísa e a ironização de suas idealizações ao descrever as atitudes grosseiras do amante Basílio. Bem ao gosto do Naturalismo, compara seres humanos com animais dominados por seus instintos, definindo a criada juliana como uma loba.
         O plano exterior de O Primo Basílio predomina sobre o plano interior. O exagero descritivo dos ambientes reforça e complementa a fragilidade psicológica dos personagens, que nada têm de admirável. Emoções, sensações e desejos surgem no texto como ações externas ao personagem.

CONCLUSÃO

         Diante do cenário histórico, descrito no início dessa análise, Eça de Queiroz publica, em 1878, O Primo Basílio. O livro inova a criação literária da época, oferecendo uma crítica demolidora e sarcástica dos costumes da pequena burguesia de Lisboa. Eça de Queirós ataca uma das instituições consideradas das mais sólidas: o casamento. Com personagens despidos de virtude, situações dramáticas geradas a partir de sentimentos fúteis e mesquinharias, lances amorosos com motivações vulgares e medíocres – tudo isso, ao mesmo tempo em que ataca, desperta o interesse da sociedade de Lisboa. Eça de Queirós explora o erotismo quando detalha a relação entre os amantes. Inova também ao incluir diálogos sobre homossexualismo. O autor, que já mostrara sua opção por uma literatura ácida e nada sentimental em O Crime do Padre Amaro, cria personagens fisicamente decadentes – cheios de doenças e catarros – e de comportamento sexual promíscuo.

RESUMO

         Luísa é uma jovem loira, de grandes olhos castanhos, romântica, sonhadora e frágil; é casada com Jorge, engenheiro de minas, homem de bons hábitos e com algumas posses. Casaram-se meio no escuro; no entanto Luísa dera uma boa esposa, “tinha cuidados muito simpáticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho”.
         A primeira cena se dá num domingo de muito calor. Estão marido e mulher na sala de jantar: ele anuncia sua próxima viagem a fim de cuidar de negócios no Alentejo; ela, displicentemente, folheia as páginas de um jornal, onde lê a notícia da chegada de seu primo Basílio a Lisboa. Basílio fora namorado da jovem e lhe prometera casamento. Mas, com a falência do pai, o rapaz viajara para o Brasil, onde acabara arranjando fortuna com a especulação da borracha. Fixara residência em Paris. Luísa recebe uma carta de Basílio rompendo o namoro e, depois de um ano de silêncio, casara-se com Jorge.
         Jorge parte. Alguns se passam e Luísa está enfadada; o calor é imenso e suas leituras não a consolam. Está se vestindo para ir à casa de uma amiga, a mal falada Leopoldina, quando recebe a visita do primo. Basílio não se arrepende de tê-la visitado, vendo aí uma oportunidade para um caso amoroso. Luísa por sua vez, fica embevecida com o primo, admira-lhe a nova vida, encanta-se com suas aventuras e viagens. Tudo o que ele fala serve para excitar a imaginação da moça; ouvindo-o, ela vive como em um romance.
         Basílio começa a visitá-la freqüentemente, dando muito o que falar à vizinhança e instigando a curiosidade e a maledicência de Juliana, a criada de dentro de casa. Por sua formação, Juliana fica à espreita, esperando uma oportunidade para despejar seu ódio não só contra a patroa, mas contra a vida que a maltratara. Dela exala revoltada amargura de viver: “servia, havia vinte anos. Como ela dizia, mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte anos a dormir em cacifros, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repelões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se quando voltada a saúde! (…)”
         Basílio não perde as esperanças de Ter a prima em seus braços; percebendo que a moça era passível de sedução, utiliza-se do pretexto de sua partida para a França, e, uma ocasião, ao despedir-se altas horas da noite, a jovem se entrega a ele.
         Juliana, desconfiada, só necessitava comprovar suas suspeitas. Certo dia Luísa recebe a visita de D. Felicidade, justamente quando estava a escrever uma carta extremamente comprometedora. Perturbada com o fato inesperado, joga a carta no lixo. a criada recolhe o papel amassado e o guarda. Quando Luísa vai procurar a carta, ela alega que já havia despejado o lixo.
         Depois do episódio, Luísa fica apreensiva e só se reanima quando recebe uma carta de Basílio, marcando um encontro no “Paraíso”, lugar afastado onde poderiam estar sossegado. O “Paraíso” constitui-se em uma grande decepção para Luísa, pois ela o imagina idilicamente e só encontra um aposento sórdido.
         Juliana põe-se mais servil, enquanto os comentários dos vizinhos prosseguem. Sebastião, bom amigo de Jorge, após ter viajado por duas semanas, ouve aturdido os falatórios. O primo não voltara à casa de Luísa, e ela saía todos os dias, ficando fora tardes inteiras. Sebastião, preocupado com a reputação da casa, tenta conversar com a esposa do amigo. Enquanto isso, Juliana, começa a perseguir mais provas do adultério, por isso rouba de Luísa a chave do cofre de correspondência.
         Luísa vai-se envolvendo em mentiras. Certa vez, a caminho do “Paraíso”, encontra Ernestinho, íntimo da casa, autor teatral que estava escrevendo uma peça justamente sobre uma mulher adúltera. Luísa escapa desajeitada e começa a refletir sobre seus atos. A indiferença de Basílio é nítida. Ele a ama menos…
         “Já não tinha aqueles arrebatamentos do desejo em que a volvia toda numa carícia palpitante, nem aquela abundância de sensação que o fazia cair de joelhos com as mãos trêmulas como as de um velho! … Já não se arremessava para ela, mal ela aparecia à porta, (…). E parecia, Deus me perdoes, parecia que lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir… E pensava em Jorge, para quem ela era decerto a mais linha, a mais elegante, a mais inteligente, a mais cativante!… E já pensava um pouco que sacrificara a sua tranqüilidade tão feliz a um amor bem incerto(…)!”
         Águas passadas. As brigas do casal adúltero, as insatisfações da moça não passavam de meras rusgas e reflexões. Luísa voltava dócil e fogosa aos braços do amante. Os encontros no “Paraíso” continuavam.
         Outro incidente, desta vez com o Conselheiro Acácio, que a encontra e a acompanha, fazendo-a perder o encontro com Basílio. Ao voltar para casa, meio histérica, vê que Juliana não arrumara o quarto e passa-lhe uma descompostura. A criada então confessa que nem todos os papéis foram para o lixo, que ela tinha a carta supostamente perdida.
         Luísa desmaia. Ao retornar a si, acredita estar perdida. Pensa em fugir com Basílio para Paris, como ele já havia proposto tantas vezes; vê-se nos braços do amante, com uma nova via, repleta de sensações. Mas Basílio recusa-se a partir com ela; foge sozinho, simulando um telegrama urgente que pedia sua presença em Paris, a fim de resolver negócios.
         Sozinha, desamparada e à mercê das chantagens da criada, Luísa passa a viver uma vida miserável. Inverte-se a situação na casa: Juliana começa a ter as regalias da patroa. Jorge retorna e estranha o relacionamento da esposa com a empregada que tanto a desgostara outrora, ela tenta explicar essa mudança dizendo que a criada cuidou dela, com muita dedicação, em um momento que se encontrava doente. Luísa tenta conseguir os seiscentos mil réis que lhe pede Juliana, a fim de terminar com a chantagem. Não tem como consegui-los, a não ser tornando-se amante do banqueiro Castro, que há muito a adorava; Leopoldina arranja-lhe um encontro com o ricaço, mas Luísa não consegue entregar-se a ele. A situação fica insustentável, à medida que Jorge vai percebendo os disparates da criada. Desesperada, recorre a Sebastião, contando-lhe a situação em que se vê envolvida.
         Sebastião, sensibilizado com tudo por que Luísa tem passado, recupera as cartas.
          “Juliana então alucinada de raiva, com os olhos saídos das órbitas, veio para ele e cuspiu-lhe na cara!
         Mas de repente a boca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para trás, levou com ânsia as mãos ambas ao coração e caiu para o lado, com um som mole, como um fardo de roupa.”
         Luísa adoece de uma febre nervosa, como conseqüência do medo de ter uma morta em casa. Juliana é enterrada numa vala comum.
         Tomam nova criada. Luísa começa a restabelecer-se, quando chega uma carta escrita por Basílio. Jorge, curioso, lê o texto revelador e em um lance descobre a traição da mulher.
         “(…) Vejo pela tua carta que não acreditaste nunca que minha partida fosse motivada por negócios. És bem injusta. A minha partida não te devia ter tirado, como tu dizes, todas as ilusões sobre o amor, porque foi realmente quando saí de Lisboa que percebi quanto te amava, e não há dia, acredita, em que me não lembre do Paraíso (…)”.
         Jorge, então, mostra a carta à esposa convalescente. Num gesto trágico, Luísa cai desmaiada; as febres voltam e logo sobrevém a morte. No final do romance, Eça registra a idiotizada figura do Conselheiro Acácio, envolto no dever de escrever um necrológico para Luísa, e a futilidade do amante ao saber da morte da prima.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Oliveira de, Clenir Bellezi. Arte Literária: Portugal – Brasil. São Paulo: Moderna, 1999.

http://www.ipn.pt/opsis/litera/index.html. Projeto Vercial – Literatura Portuguesa.

A Cidade e as Serras

Retrata a trajetória de Jacinto, um cidadão fanático pela vida urbana: vivia em Paris num palacete com os últimos produtos da modernidade: luz elétrica, elevadores… Num certo momento, porém, é tomado por um tédio mortal. Convida seu amigo José Fernandes, para ir a Portugal visitar a Quinta de Tormes. A paisagem serrana deslumbrou o parisense, que estava convertido ao bucolismo: casa-se com Joaninha, tem filhos, promove reformas no campo construindo casas de alvenaria para abrigar 100 famílias de empregados, posto médico e escola. Manda vir luz elétrica para todos. Finalmente se aquieta usufruindo da civilização apenas o que ela tem de melhor e faz do campo seu definitivo lar.