Ondas e Outros Poemas Esparsos

Autor do clássico da literatura nacional Os Sertões, Euclides da Cunha também escre­veu poe­sias, ensaios, crônicas e reportagens. Desbravador, consciência rebelde em conflito pela busca de exatidão entre ciência e arte, entre pes­quisa e denúncia, Euclides da Cunha trouxe para o primeiro plano, para o centro de sua obra, o ho­mem do sertão brasileiro. É o porta-voz de um oti­mis­mo crítico e sem veleidades ufanistas. No campo da poesia, além de outros poemas esparsos, produziu Ondas, escrito na ju­ventude, e que ainda não havia sido publicado em volume autônomo. Esta edição de Ondas foi organizada e anotada pelo sociólogo e es­cri­tor Adelino Brandão, um dos maio­res estu­diosos da obra de Euclides da Cunha.

À Margem da História

Compõe-se de quatro partes: Na Amazônia, Terra Sem História (7 capítulos, sobre essa região), Vários Estudos (3 capítulos, assuntos americanos), Da Independência à República (ensaio histórico) e Estrelas Indecifráveis (crônica).

O livro apresenta, bem nítidas, quatro constantes da personalidade cultural de Euclides: o cultor da língua e verdadeiro esteta da linguagem, o ensaísta e o humanista brasileiro.

Não há preciosismo no falar euclidiano; há, sim, o rigorismo da palavra exata.

Seu vocabulário riquíssimo, técnico e profissional quando necessário, era-lhe o instrumento próprio para captar todas as sutilezas da realidade e expor o logicismo de seu raciocínio de investigador e a lucidez do intérprete.

Nas palavras densas, carregadas de emoções e evocações, dispostas numa estruturação sintática de ritmo veemente, que se torna frêmito de vida e poesia, temos a própria autenticidade de Euclides, numa linguagem que é bem tropicalmente brasileira, no transbordamento fenomenológico de formas, sons, calor e luz.

Se em Os Sertões ele foi mais improvisado e por isso mais grandiloqüente e espetacular, em Á Margem da História está mais equilíbrio e maturidade.

O capítulo Judas Ahsverus (que nasceu inteiriço como um bloco de beleza) continua sendo uma das melhores páginas da língua portuguesa.

O espírito científico de Euclides, sempre estudando e sumariando os assuntos (formado na juventude conforme o espírito da época), dado a hipóteses e prefigurações muitas vezes discutíveis, extravasa-se na insopitável vocação ao ensaísmo, exigindo-lhe conhecimentos e pesquisas, para que se torne mais lúcido, mais penetrante, melhor intérprete.

Por isso achamos que há necessidade de uma iniciação cultural para se sentir e compreender Euclides. Não estranhamos ser ele um escritor pouco popular.

Sua irrefreável tendência à interpretação fisiológica dos fenômenos naturais mostra-se através de uma vibração romântica e idealística, fazendo surgir, dos algarismos e teorias, sua figura inigualável de artista.

Euclides é inesgotável. Por mais que se queira defini-lo e caracterizá-lo, ainda se descobrem novas veredas e magníficas perspectivas que escaparam à delimitação…

Seu tema central é a pátria e a gente brasileira. Seu nacionalismo mais se prende à preocupação do bem comum e da denúncia das estruturas desequilibradas de nossa sociedade.

Já de algum tempo era sua intenção escrever um “segundo livro vingador”.

Em À margem da história se encontram páginas literárias em que ficaram impressas as marcas inconfundíveis do seu estilo, a objetividade das conclusões, oriundas sempre da observação direta da realidade enfocada e de análises percucientes e honestas, expostas com a coragem de um escritor participante, que só tinha compromissos com a verdade.

Castro Alves e seu tempo

Este foi o tema de uma conferência incumbida ao escritor, engenheiro e militar, Euclides da Cunha, em 1907. Naquele ano, os estudantes do Centro Acadêmico XI de Agosto idealizaram a construção de hermas de três antigos alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco no século XIX: Álvares de Azevedo, Castro Alves e Fagundes Varela, grandes poetas românticos brasileiros.

Para viabilizar as homenagens, foram idealizadas conferências, com ingresso pago, para arrecadar fundos. Dessa forma, em 2 de dezembro de 1907, o já então consagrado escritor Euclides da Cunha, concordando com o convite feito pelos estudantes do centro acadêmico, ministrou, em São Paulo, a palestra.

O resultado, porém, não foi exatamente o esperado. Embora, à época, a repercussão na imprensa tenha sido boa, apenas a estátua de Álvares de Azevedo foi erguida e inaugurada naquele ano, estando atualmente instalada no Largo São Francisco, em frente à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. As hermas de Castro Alves e Fagundes Varela não foram construídas.

Após mais de um século, a história se reescreve. Com personagens e fatos similares, no mesmo cenário, mas com outro figurino. Idealizado pela Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da USP, o projeto das primeiras diretorias do XI de Agosto será concluído.

Uma das ferramentas para a conclusão do projeto é o lançamento do livro Castro Alves e seu tempo. A obra levantará fundos para a construção da herma de Castro Alves e o lançamento oficial será no dia 28 de setembro, na Faculdade de Direito da USP. Na pré-venda, mais de 750 unidades foram vendidas.

Como demonstra o título da obra, a palestra proferida por Euclides da Cunha em 1907 é o tema central. Porém, para os amantes das duas personalidades, das duas vidas e obras aparentemente desiguais, Castro Alves e seu tempo vai além da simples transcrição da conferência, que aconteceu no Centro Acadêmico XI de Agosto.

Escrito de forma leve e longe da densidade literária encontrada nas obras de ambos os poetas, o livro faz um passeio pela vida de Euclides da Cunha e Castro Alves. Mostra também, por exemplo, as semelhanças pouco imagináveis entre o poeta sonhador e o escritor e engenheiro militar.

Dentre as afinidades apontadas, algumas chamam a atenção: ambos eram abolicionistas e republicanos; faziam uma literatura engajada, de instigação; viviam no meio do povo, seja em praça pública, entre os estudantes, no sertão ou na Amazônia; tinham tuberculose e a saúde sempre fragilizada; tiveram profundas desilusões amorosas; Castro Alves, com a atriz Eugênia Câmara; Euclides, com a mulher, Ana; os dois estiveram ligados à cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras – Castro Alves, como patrono; Euclides, como segundo ocupante; os dois morreram, precocemente, por ferimentos com arma de fogo – Castro Alves em função de um tiro no pé, involuntário, durante uma caçada, em São Paulo; Euclides da Cunha, em tiroteio com o amante da mulher, Dilermando de Assis, na casa deste, no Rio de Janeiro.

A introdução do livro é do historiador, editor e diretor da Editora Lettera.doc, Cássio Schubsky, que é responsável, entre outras obras, pelo livro Advocacia Pública – apontamentos sobre a História da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo (Imprensa Oficial, 2008). Em 2007, Schubsky propôs à Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da USP a parceria para viabilizar a edição, em livro, da conferência de 1907, para levantar fundos para a construção das hermas dos poetas.

Ao demonstrar um pouco da vida dos escritores, a obra traz em fotos, documentos originais da época da conferência, como, por exemplo, uma cópia do jornal “Onze de Agosto” (editado pelos alunos do Centro Acadêmico Onze de Agosto, da Faculdade de Direito da USP). Naquela edição, o periódico destacava a palestra de Euclides da Cunha em dezembro de 1907. Recortes de jornais da época, tecendo críticas à conferência, também aparecem.

Contrastes e Confrontos

No primeiro ensaio, sob título de “Herois e bandidos”, Euclides nos apresenta o militar uruguaio Jose Artigas e o ditador Dr. Francia.
Artigas descrito como “salteador, policial, revolucionário, chefe de governo” que traído por seus seguidores, “viera bater às portas do seu mais sinistro adversário” – o ditador Dr. Francia. Desdobrando essa apresentação, traça as características gerais de diversos revolucionários com “os mesmos traços característicos: a combatividade irrequieta, a bravura astuciosa e a ferocidade não raro sulcada de inexplicáveis lances generosos”.

O segundo artigo, Marechal de Ferro, discorre sobre Marechal Floriano Peixoto, com uma linguagem ferina: “Destacou-se à frente de um país, sem avançar — porque era o Brasil quem recuava, abandonando o traçado superior das suas tradições…”
Com a mesma ironia fina que ataca O Marechal Floriano Peixoto, ataca a Alemanha de Bismarck com “sua política ferrotoada de caprichos”.
Sempre irônico, mas de um refinamento estético louvável, Euclides critica um antropólogo, cujo nome não cita, que atribui ao Brasil o título de Arcádia da Alemanha, estabelecendo relação com as migrações alemãs. Extremamente crítico, traçando o perfil belicoso dos alemães, Euclides conclui: Sendo assim, errou o minúsculo sociólogo precipitado, A Arcádia da Alemanha não é o Brasil. Lá está dentro dela mesmo, no seu melhor retalho, na Prússia liricamente guerreira e fantasista, onde, nesta hora, tumultuam não sabemos quantos marechais devaneadores e não sabemos quantos filósofos belicosos. Em outro artigo, “A vida das estátuas”, o autor usa o exemplo da estátua do Marechal Ney, para defender sua ideia de que a obra de arte deve perpetuar as emoções de quem a contempla: “Um arremesso que se paralisa na imobilidade da matéria, mas para a animar, para a transfigurar e para a idealizar na ilusão extraordinária de uma vida subjetiva e eterna, perpetuamente a renascer das emoções e do entusiasmo admirativo dos que a contemplam”.
Em Anchieta, temos um quadro do jesuíta como além de um missionário: A história dolorosa das reduções jesuíticas termina da pelo sombrio epílogo de Guaíra, patenteia uma inversão singular de papéis: o missionário reagia à frente dos bárbaros arrancados às selvas, contra os bárbaros oriundos das terras civilizadas.

Os Sertões

     

Faz 10 meses que terminei de ler “Os Sertões” de Euclydes da Cunha. Talvez, uma das melhores leituras que fiz na vida. E, com certeza, uma das mais difíceis. Porém, nada insuperável.
 
O livro é um retrato científico-histórico-jornalístico da Guerra de Canudos com detalhes impressionantes. A narrativa é recheada de opiniões ácidas e pessimismo em relação ao ser humano, frutos da própria angústia do autor, que fez parte da última expedição militar responsável por exterminar a comunidade de Canudos.
 
Para quem não sabe, a Guerra de Canudos foi deflagrada contra uma comunidade, situada no interior do estado da Bahia, entre os anos de 1896 e 1897, pela recém instaurada República Brasileira.
 
É muito dificil de caracterizar a comunidade de Canudos, mas existe unanimidade entre historiadores para afirmar que era uma comunidade religiosa, liderada por um líder fanático – Antônio Conselheiro – que não aceitava o fim da monarquia e a instituição do casamento civil, e profetizava que essas e outras características do novo regime de governo eram sinais dos “fins dos tempos”.

 
Também é cediço que a comunidade era autosustentável e seus membros possuíam passados diversos. Do pistoleiro e prostituta que procuravam, nas palavras de Antônio Conselheiro, rendenção por seus pecados ao homem simples do campo que, desiludido com a igreja católica e as arbitrariedades das oligarquias locais, procurava algum sentido para a sua existência. Em suma, todos eram bem vindos a Canudos.
 
Em que pese o fanatismo religioso, pode-se afirmar que a comunidade de Canudos e seus seguidores não ofereciam riscos à recém instaurada República.     Todavia, a comunidade era uma afronta à igreja católica e ao poder das oligarquias locais, bases de sustentação do novo governo. E, devido a essa ameaça à supremacia dessas classes, o Estado declarou guerra à comunidade de Canudos, cuminando em seu completo extermíno.
 
É verdade que as primeiras cem páginas se referem à descrição do semi-árido do Nordeste. Concordo que não há nada de provocativo ou intrigante nessas descrições de relevo, clima, mata e fauna. Contudo, essas descrições são essenciais para entender os capítulos subsequentes, que podem ser dividos em dois blocos: o homem e a guerra.
 
No capítulo “O homem”, o autor se dedica a descrever quem eram os habitantes que compunham a comunidade de Canudos. Nesse sentido, traça um perfil determinista de como a região semi-árida do Nordeste determina um homem que é extremamente místico e, ao mesmo tempo, um sobrevivente de um meio inóspito.
 
Com essas duas características delineadas – misticismo e condições naturais adversas – conclui-se que a comunidade de Canudos, sem qualquer intenção beligerante, criou um exército de fanáticos algozes. E, também por esse motivo, o exército brasileiro sofreu, em condições similares aos americanos na Guerra do Vietnã, para aniquilar a comunidade de Canudos. Faço essa comparação porque, da mesma forma que o exército americano, o exército brasileiro travou uma guerra com um inimigo altamente motivado e adaptado ao território inóspito. Enquanto os americanos foram destroçados pelos vietnamitas durante dez anos, o oficiais brasileiros insistiram, a base da pólovora e canhão contra foices e paus, até a aniquilação completa de Canudos.
 
Caso o leitor consiga ultrapassar esses dois primeiros capítulos – “A terra” e “O homem” – reconhecidamente díficeis de serem lidos, não terá problemas para ler o restante do livro, que se trata do conflito propriamente.
 
O restante do livro são seis capítulos – “A luta”, “A travessia do Cambaio”, “Expedição Moreira César”, “Quarta expedição”, “Nova fase de luta” e “Últimos dias” – que descrevem como a República Brasileira iniciou um conflito com prepotência e muita incompetência e o terminou com muita truculência e barbárie em face dos seus “inimigos”.
 
Após a tomada de Canudos, o autor narra com extrema frieza o que os oficiais do exército brasileiro achavam das degolações dos prisioneiros de guerra, uma vez que a comunidade já havia sido dominada e não se sabia o que fazer com os vencidos. Em uma das passagens do livro, justificava-se a necessidade de degola dos “perdedores” com o exemplo de uma avó, que procurava desesperadamente, como um animal ávido, restos de comida para dar aos dois netos que passavam fome. Na “nobre” lógica militar, a degola de prisioneiros era mais digna do que mendicância pelos escombros da guerra.
 
“A degolação era, por isto, infinitamente mais prática, dizia-se nuamente. Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada. Não era a ação severa das leis, era a vingança. Dente por dente. Naqueles ares pairava, ainda, a poeira de Moreira César, queimado; devia-se queimar. Adiante, o arcabouço decapitado de Tamarindo; devia-se degolar. A repressão tinha dois pólos – o incêndio e a faca.”[1]
 
Na verdade, tais comentários fascínoras refletiam a raiva consciente e inconsciente dos militares, fruto do longo conflito com a comunidade de Canudos, que teve como final um pequeno saldo positivo, resumido em quatro expedições militares, muitas baixas e a destruição de qualquer vestígio da comunidade que “desafiou” a República.
 
Decerto, se o livro não cultivar o leitor pela boa prosa, o cultivará pelos temas de interesse universal e atual que aborda: fanatismo religioso, o papel do Estado e a elite que o controla, estratégias de guerras em território inimigo, propaganda ideológica, etc. Esses são só alguns temas que o autor disserta com maestria nas entrelinhas de um diário preciso sobre uma guerra apolcalítica.
 
Por fim, ressalta-se que os temas abordados no livro são muito atuais, principalmente no Brasil.
 
Desde o início do século XXI, o Brasil passa por situações similares ao início da República, em que novos paradigmas na sociedade se atritam com setores mais conservadores. Seja do surgimento de uma nova classe média e o, conseqüente, desconforto de uma elite tacanha, seja no conflito entre um arcaico e novo conceito de família e relacionamentos humanos. Por esses motivos suscitados e outros, sequer tangenciados, ler “Os Sertões” é fazer uma leitura atual (velha) sobre a sociedade brasileira.

* Mario Henrique Ribeiro Suzigan é advogado, especializado em direito público.

Como citar: SUZIGAN, Mario Henrique Ribeiro. O sertão de Euclydes da Cunha. Fonte:http://suziganadvocacia.webnode.com
 
[1] CUNHA, Euclydes da. Os Sertões. 39ª Edição. Publifolha, 2000. Página 478.