Senhora

Como se viu na análise do conjunto dos romances de José de Alencar, “Senhora” encontra-se entre seus romances urbanos, numa obra que conta ainda com os romances indianistas, tais como “O Guarani” e “Iracema”; regionalistas, como “O Gaúcho” e “O Sertanejo”, e históricos, “As Minas de Prata” e “A Guerra dos Mascates”.

Enquanto romance urbano, anterior ao advento do Realismo em nossa literatura, “Senhora” é fundamentalmente uma crônica de costumes, um retrato da Corte ou da sociedade fluminense na segunda metade do século 19. Ou seja, o texto focaliza a época em que o próprio escritor viveu. Nesse sentido, é muito apropriado o comentário do crítico Alfredo Bosi sobre os romances urbanos do autor:

“Alencar, cioso da própria liberdade, navega feliz nas águas do remoto e do longínquo. É sempre com menoscabo ou surda irritação que olha o presente, o progresso, ‘a vida em sociedade’; e quando se detém no juízo da civilização, é para deplorar a pouquidade das relações cortesãs, sujeitas ao Moloc do dinheiro. Daí o mordente de suas melhores páginas dedicadas aos costumes burgueses em ‘Senhora’ e ‘Lucíola'”.

Em outras palavras, Alencar critica a sociedade que lhe é contemporânea, não a partir da perspectiva de uma transformação futura, mas na da nostalgia de um passado que só na ficção pode reviver plenamente. De qualquer modo, é em “Senhora” e “Lucíola” que atinge o ponto alto em termos de crítica social e procura se aprofundar na psicologia das personagens femininas, traçando o que se convencionou chamar de seus “perfis de mulher”.

De qualquer modo, publicado em 1875, “Senhora” traz características inequivocamente românticas, como se pode ver pelo núcleo de seu enredo, simples, atrelado aos esquematismos dos dramas de amor do Romantismo: Aurélia Camargo, filha de uma pobre costureira, apaixonou-se por Fernando Seixas, a quem namorou. Este, porém, desfez a relação, movido pela vontade se casar com uma moça rica, Adelaide Amaral.

Passado algum tempo, Aurélia, já órfã, recebe uma grande herança do avô e ascende na escala social. Ainda ressentida com o antigo namorado, resolve vingar-se dele. Sabendo que Fernando, ainda solteiro, andava em dificuldades financeiras, resolve comprá-lo para marido. Na época, o Segundo Reinado, vigora o regime de casamento dotal, em que o pai da noiva (ou, no caso, ela mesma) deveria dar um dote ao futuro marido.

Assim, através de um procurador, Fernando recebe uma proposta de casamento e a aceita sem saber exatamente com quem se casará – interessa-lhe apenas o dinheiro, cem contos de réis, que vai receber por isso. Ao descobrir que sua noiva é Aurélia, Fernando se sente um felizardo, pois, na verdade, nunca deixara de amá-la. E abre seu coração para ela.

A jovem, porém, na noite de núpcias, deixa claro: “comprou-o” para representar o papel de marido que uma mulher na sua posição social deve ter. Dormirão em quartos separados. Aurélia não só não pretende entregar-se a ele, como aproveita as oportunidades que o cotidiano lhe oferece para criticá-lo com ironia. Durante meses, uma relação conjugal marcada pelas ofensas e o sarcasmo se desenvolve entre os dois.

Fernando, todavia, trabalha e realiza um negócio que lhe permite levantar o dinheiro que devia a Aurélia. Desse modo, propõe-se a restituir-lhe a quantia em troca da separação. Considerando o gesto uma prova da regeneração de Fernando, Aurélia, que nunca deixara de amá-lo, é vencida pelo amor. Ao receber o dinheiro, entrega-lhe a chave de seu quarto e o casamento se consuma, afinal

O Guarani

O romance tem sua ação desenvolvida na primeira metade do século XVII, iniciando-se no ano de 1604. Na primeira parte do livro, o narrador nos apresenta a D. Antônio Mariz, pai da heroína Ceci (Cecília), sendo este um fidalgo português que teria participado na fundação da cidade do Rio de Janeiro, em 1567.

Ele havia decidido permanecer no Brasil após derrotas portuguesas sofridas no Marrocos. Assim, ele fixa-se no Rio de Janeiro em terras que foram oferecidas por Mem de Sá como retribuição a serviços prestados à Coroa.

A casa de D. Antônio é construída tendo-se como modelo os castelos medievais europeus e ele passa a viver lá com sua família, criados e outros companheiros. A propriedade fica localizada na Serra dos Órgãos, às margens do Rio Paquequer, um afluente do Rio Paraíba, e esse é o local em que se dará a ação do romance.

A propriedade de D. Antônio Mariz é organizada de acordo com os modelos coloniais portugueses e segue um código cavalheiresco de vassalagem medieval, sendo que os criados juram lealdade eterna a seu senhor. Assim, o clima na propriedade é de um espírito patriótico e leal à Portugal. Lá habitavam, além da família, cavaleiros, aventureiros, fidalgos e até mercenários em busca de ouro e prata.

Esses eram liderados pelo ex-frei Ângelo di Lucca, que agora atendia pelo nome de Loredano. Este era um homem desalmado que abusava da cordialidade de D. Antônio e planejava destruir a família desse e raptar sua filha Cecília. Porém, ela estava sempre muito bem guardada pelo índio Peri, o herói da história. Ele havia salvado Cecília de uma avalanche de pedras e conquistou a amizade e gratidão tanto da moça quanto de seu pai.

Em certo momento, o filho de D. Antônio mata uma índia da tribo aimoré por acidente durante uma caçada, o que deixa a tribo enfurecida e com sede de vingança. Então, dois índios aimorés vigiam Ceci enquanto a moça se banhava e se preparam para mata-la quando são mortos pelas flechadas certeiras de Peri. Uma índia aimoré que viu todo o ocorrido relata os fatos para sua tribo e isso acaba desencadeando uma guerra entre a família de D. Antônio e os aimoré.

Em paralelo a essa luta, Loredano continua em seu plano de destruir a família do fidalgo português e raptar Ceci. Porém, seus planos são sempre frustrados por Peri, que está sempre vigiando a moça. Além disso, tem-se a personagem de Álvaro, um jovem nobre apaixonado por Ceci, mas que não tem seu amor retribuído por ela. Mais tarde, porém, Álvaro irá se envolver com Isabel, filha bastarda de D. Antônio e apresentada oficialmente como sendo prima de Ceci.

A guerra com os aimoré vai ficando cada vez mais tensa e Peri resolve entregar-se a um ato heroico de sacrifício. Sabendo que a tribo aimoré é antropófaga, Peri toma veneno e vai lutar na própria aldeia aimoré. Assim, após Peri morrer em combate, os índios iriam devorar sua carne envenenada e acabariam morrendo.

Esta seria a única solução para a guerra, mas Álvaro o salva. Diante o desespero de Ceci ao saber de tudo, Peri resolve tomar um antídoto e sobrevive. Álvaro acaba falecendo em combate e Isabel se suicida. Algum tempo depois, Loredano trama a morte de D. Antônio, mas é preso e condenado a morrer na fogueira por traição.

O cerco dos aimoré chega a um nível muito perigoso para a família do fidalgo e D. Antônio pede a Peri para que ele se converta ao cristianismo e fuja com Ceci. Assim, os dois jovens fogem em uma canoa pelo Rio Paquequer e ouvem ao fundo o castelo de D. Antônio pegando fogo, pois quando os índios invadiram a residência do nobre ele explodiu barris de pólvora matando a todos.

Após um tempo Ceci, que estava entorpecida com um vinho dado por seu pai, acorda e Peri relata a ela todo o ocorrido. Ela fica atormentada e resolve viver com Peri no meio da mata. A forte tempestade que estava caindo faz a água dos rios subirem perigosamente. Então, Peri arranca uma palmeira do chão e improvisa uma canoa. O romance termina com a imagem dos dois sumindo no horizonte.

Lista de personagens
Peri: herói da história, é um índio corajoso e valente.

Ceci (Cecília): filha do nobre D. Antônio Mariz, é uma moça linda, loira e de olhos azuis. Meiga e suave, é a perfeita heroína do Romantismo.

D. Antônio Mariz: nobre português que fixa-se no Rio de Janeiro.

Isabel: filha bastarda de D. Antônio com uma índia, é apresentada oficialmente como sobrinha do nobre. É morena, sensual e de sorriso provocante.

Dona Lauriana: esposa de D. Antônio Mariz. É uma senhora paulista egoísta e orgulhosa.

D. Diogo Mariz: filho de D. Antônio Mariz. É um jovem que passa seu tempo em meio a aventuras e caçadas.

Loredano: ex-frei Ângelo di Lucca, é um italiano ganancioso e traidor de sua fé.

Álvaro: capataz de D. Antônio Mariz, é apaixonado por Ceci, mas acaba se envolvendo com Isabel.

Sobre José de Alencar
José de Alencar nasceu em Fortaleza, Ceará, no dia primeiro de maio de 1829. Formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo, teve intensa carreira política como deputado, ministro e outros cargos. Em 1856 publica seu primeiro romance, Cinco Minutos, seguido por “A Viuvinha” (1857). Porém, é com “O Guarani” (1857) que José de Alencar torna-se um escritor reconhecido pelo público e pela crítica. Vitimado pela tuberculose, faleceu no Rio de Janeiro em 12 de dezembro de 1877.

Sua obra é dividida em quatro fases e é tida como uma das maiores representações do Romantismo brasileiro. A primeira, a dos romances indianistas, tem suas maiores obras: “Iracema” (1865), “Ubirajara” (1874) e “O Guarani”. A segunda fase, a dos romances históricos, temos “Minas de Prata” (vol. 1: 1865; vol. 2: 1866) e “Guerra dos Mascates” (vol. 1: 1871; vol. 2: 1873). A terceira fase é a dos romances regionalistas e tem como representantes as obras “O Gaúcho” (1870), “O Tronco do Ipê” (1871) e “Til” (1871). Por fim, a última fase é a dos romances urbanos, onde temos “Lucíola” (1862), “Diva” (1864) e “A pata da Gazela” (1870).

Til

Besita, moça pobre, porém das mais belas da região, é objeto de desejo tanto de Luis Galvão, jovem fazendeiro, quanto de Jão, um órfão que foi criado junto com Luis Galvão. A moça corresponde ao amor do rico fazendeiro, mas este não tem interesse em desposar Besita, pois ela é pobre.

Influenciada por seu pai, Besita acaba casando-se com Ribeiro. Esse, logo após a noite de núpcias, parte em viagem para resolver problemas relacionados a uma herança de família e fica anos afastado. Durante o período em que Ribeiro não se encontra pela região, Luis procura Besita, que o recebe achando tratar-se de seu marido. Desse encontro nasce Berta.

Uma tarde, Ribeiro retorna e, ao encontrar sua esposa com uma filha, descontrola-se e assassina Besita. Jão não consegue evitar a morte dela, mas consegue salvar Berta, que passa a viver com nhá Tudinha e seu filho Miguel. Zana, uma negra que vivia com Besita, enlouquece após presenciar o assassinato desta. Jão torna-se capanga dos ricos da região, cometendo várias mortes e tornando-se o temido o Jão Fera.

Quinze anos depois de assassinar sua esposa, Ribeiro retorna irreconhecível e com o nome de Barroso. Com o propósito de vingar-se de Luis Galvão, ele contrata Jão Fera, que não o reconhece. Porém, Berta descobre os intentos de Ribeiro e consegue salvar Luis.

Em uma segunda tentativa, dessa vez com a ajuda de alguns escravos da Fazenda das Palmas, Ribeiro incendeia o canavial. Ao tentar apagar o fogo sozinho, Luis leva uma pancada na cabeça. Quando está para ser lançado ao canavial em chamas, Luis é salvo por Jão, que mata os responsáveis pelo incêndio, com exceção de Ribeiro.

Após isso, Jão Fera é preso em Campinas. Sabendo da ausência desse, Ribeiro planeja uma outra vingança, dessa vez contra Berta. Aproxima-se dela, que está com Zana, mas nesse momento chega Jão (que tinha se libertado) e mata Ribeiro de forma violenta. Brás, sobrinho de Luis com problemas mentais, leva Berta para ver a cena. Ela foge horrorizada e João, sabendo que a moça o desprezava a partir de então, entrega-se a polícia.

Convém neste ponto relatar a relação entre Brás e Berta. O jovem Brás possui problemas mentais e é completamente excluído em sua família. Apesar de Brás ser apaixonado por Berta, ela não pode corresponder aos sentimentos do rapaz, resolvendo então ensinar o abecedário e rezas a ele. Porém, o menino tem grandes dificuldades em aprender, tendo apenas decorado o acento “til”, que o encantava. Para facilitar o aprendizado, Berta se autonomeia Til e passa a ensinar Brás relacionando cada coisa com nomes de pessoas que ele conhecia.

Em certo momento, Luis decide contar toda a verdade para sua esposa, D. Ermelinda. Em um primeiro momento ela se entristece, mas depois passa a apoiar o marido e decide que ele deve reconhecer Berta como filha. Dessa forma, os dois a procuram e contam tudo, omitindo as partes desagradáveis.

Jão foge mais uma vez da prisão e vai procurar Berta. Desconfiada que Luis Galvão e sua esposa escondem algo, ela implora a Jão que conte toda a verdade sobre a história de sua mãe Besita, o que Jão faz. Berta se emociona com a história e abraça Jão, dizendo que ele sempre cuidou dela, sendo, então, seu pai.

Luis quer que Berta vá morar com ele, mas ela nega e pede que ele leve Miguel. Todos partem e Berta fica na fazenda com Jão Fera e Brás.

Lista de Personagens
As personagens de Til são arquétipos da sociedade brasileira do século XIX: os escravos, os aristocratas, o povo pobre. A sociedade da época estava estruturada basicamente em duas camadas sociais: de um lado os aristocratas, grandes latifundiários e escravocratas, e de outro lado estavam os escravos e a gente humilde do campo. Tanto na região rural, onde se passa o romance, quanto nas grandes cidades quase não há classe média.

Berta, Inhá ou Til: personagem central do livro, Berta, filha bastarda do fazendeiro Luis Galvão com Besita, é a representação típica da heroína romântica. Após a morte de sua mãe, passa a viver com nhá Tudinha e seu filho Miguel. Muito bonita e graciosa, atrai o carinho e o amor de todos, tendo contato inclusive com as pessoas mais desprezadas da região. Berta é personagem central e exerce grande influência sobre todas as outras personagens do livro.

Miguel: filho de nhá Tudinha, mostra-se apaixonado por sua irmã de criação, Berta (ou Inhá, como ele a chama). Por ser pobre, Miguel busca estudar para ascender socialmente e poder se casar com Linda.

Luis Galvão: dono da Fazenda das Palmas. Homem de muitas aventuras amorosas desde a juventude, é sempre protegido por seu “capanga” João Fera.

Linda: é filha de Luis Galvão e D. Ermelinda. Educada aos moldes da corte, mas amiga de Berta e Miguel, jovens de camada social inferior.

Afonso: irmão de Linda. Possui o mesmo espírito conquistador de seu pai e acaba se apaixonando por Berta, sem saber que esta é sua irmã de sangue.

Jão Fera ou Bugre: capanga dos ricos da região, é um homem temido. Sem conseguir salvar Besita, por quem era apaixonado, passa a proteger Berta após a morte de sua mãe.

Brás: sobrinho de Luis Galvão que sofria de ataques epiléticos e era débil mental. Era apaixonado por Berta (ele a chama de Til), que lhe ensinava o abecedário e rezas.

Zana: negra que trabalhava para Besita e que elouquecera após presenciar o assassinato de Besita.

Ribeiro ou Barroso: marido de Besita. Logo após a noite de núpcias, parte para longe e fica anos afastado. Ao voltar e encontrar a esposa com uma filha, planeja vingança e assassina Besita. Promete vingar-se de Luis Galvão e Berta.

D. Ermelinda: elegante esposa de Luis Galvão.

Sobre José de Alencar
José de Alencar nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1º de maio de 1829. Formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo, teve intensa carreira política como deputado, ministro e outros cargos. Em 1856 publicou seu primeiro romance, Cinco Minutos, seguido por A Viuvinha (1857). Porém, foi apenas com O Guarani (1857), que José de Alencar torna-se um escritor reconhecido pelo público e pela crítica. Vitimado pela tuberculose, faleceu no Rio de Janeiro em 12 de dezembro de 1877.

Sua obra, tida como uma das maiores representações do Romantismo brasileiro, é dividida em quatro fases. A primeira, a dos romances indianistas, tem suas maiores obras: Iracema (1865), Ubirajara (1874) e O Guarani. A segunda fase, a dos romances históricos, temos Minas de Prata (vol. 1: 1865; vol. 2: 1866) e Guerra dos Mascates (vol. 1: 1871; vol. 2: 1873). A terceira fase é a dos romances regionalistas e tem como representantes as obras O Gaúcho (1870), O Tronco do Ipê (1871) e Til (1871). Por fim, a última fase é a dos romances urbanos, onde temos Lucíola (1862), Diva (1864) e A pata da Gazela (1870).

Iracema

O foco narrativo é em 3a. pessoa e o narrador é onisciente. O narrador participa da história: “Uma história que me contaram nas lindas vargem onde nasci”.

 
01. O romance, na definição de Machado de Assis, é uma “poema em prosa”, é um poema épico-lírico (para Machado de Assis, é um poema essencialmente lírico).

1.1. Elementos épicos

    Ver relação fatos-autor-narrador ( nas epopéias e em Iracema – rever capítulo I).
    Presença do “maravilhoso” nas epopéias e em Iracema.
    Ver capítulo XI – a nota 5 – a intervenção do narrador “quebrando” o sentido mágico.

        O texto é épico por ser narrativo. José de Alencar narra os feitos heróicos dos portugueses na figura de Martim. Iracema, também, é transformada em heroína. É o vinho de Tupã que permite a posse de Iracema (presença do “maravilhoso”). Além disso, temos, também, a presença dos deuses indígenas representando as forças da natureza.

1.2. Elementos líricos

        O amor de Iracema por Martim: Iracema é a heroína típica do romantismo, que padece de saudades do amante, que partiu, e da pátria que deixou. Ela se enquadra dentro de uma corrente luso-brasileira cujo início data das cantigas medievais.

02. A narrativa se fundamenta em pesquisas históricas ou em lendas da tradição oral? Como o autor define o romance? Comparar ficção propriamente dita e as “notas”.

        Conclui-se que “Iracema” se fundamenta tanto na história do Brasil quanto no relato oral. Segundo seu autor, é uma lenda: “Quem não pode ilustrar a terra natal, canta as suas lendas” (em carta ao Dr. Jaguaribe, sobre “Iracema”). “Este livro é irmão de Iracema. Chamo-lhe de lenda como ao outro” (Ubirajara).
        Martim Soares Moreno e Filipe Camarão são vultos da história do Brasil. Ambos lutaram contra a invasão holandesa. Martim é considerado, realmente, o fundador do Ceará e Poti recebeu a comenda de Cristo e o cargo de capitão-mor dos índios pelos seus méritos. Alencar prefere acreditar no relato oral quando se refere à tribo tabajara cruel e sanguinária que habitava o interior, quando a história diz ser uma tribo litorânea.

03. A narrativa se estrutura em “flash back”. Comprove ( reveja o 1o. e o 32o. capítulos).

        O texto se abre pelo fim. Iracema, no 1o. capítulo, já está morta, e Martim, Moacir e o cachorrinho Japi vão embora na jangada. O 32o. capítulo narra a morte de Iracema e o 33o. conta o retorno de Martim para fundar o Ceará.

04. Análise do enredo.
        4.1. Ponto de partida.

    Fato
    Sentido Simbólico

        Fato: é o encontro de Iracema e Martim.
        Sentido Simbólico: o encontro do colonizador com o colonizado, ou seja, a relação português X terra brasileira.

        4.2. Elementos da trama – os elementos geradores do conflito.

        O dilema de Martim: oscila entre a fidelidade a seu amigo pitigura (Poti) e seu amor por Iracema (tabajara).
        Iracema não poderia ser desvirginada, pois era uma espécie de sacerdotisa.
        Irapuã, cacique da tribo, desejava Iracema e funciona como obstáculo à realização de Martim.

        4.3. Desfecho

    Ambigüidade: primitivismo nacionalista X transplantação cultural.
    Visão preconceituosa do narrador – capítulo final – referência a Deus.
    Comparar batismo indígena de Martim (capítulo 24) ao batismo católico de Poti (capítulo 33).

        Martim volta à terra selvagem para fundar a Mairi (refúgio) dos Cristãos (Ceará). Com ele, vem o sacerdote da sua região. Poti ajoelha-se ao pé da cruz para receber o mesmo Deus de Martim. Além de perder a sua religião, perde também a sua cultura e o seu próprio nome.
        Segundo Alencar, finalmente “germinou a palavra do Deus verdadeiro na terra selvagem”. Para ele, a cultura do branco e o Deus do branco são colocados como superiores aos dos indígenas.
        A cerimônia do batismo de Martim é episódica e superficial, não havendo nenhuma transformação básica em Martim, o que não ocorre com Poti.

05. As tribos indígenas, suas alianças e conflitos.

        As tribos são os Tabajaras (habitantes do interior) e os Pitiguaras (habitantes do litoral).

06. Elementos romântico. Sentido da Natureza (paisagens, animais).

        6.1. Na idealização dos personagens.

        Capítulo 2: É a Natureza que serve para pintar Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que as asas da graúna, mais longos do que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como o seu sorriso, nem a baunilha recendia no bosque como o seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem…

        6.2. Na idealização da terra

        Capítulo 1: Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba. Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda, afaga impetuosa, as brancas areias, a lua argentando os campos ( para idealizar a terra, usa a própria Natureza).

07. Associe personagens aos sentimentos e/ou qualidades.

1. Andira        ( 3 ) amor, abnegação, dedicação, sacrifício pelo amado
2. Araquém        ( 2 ) sabedoria e pendência da velhice
3. Iracema        ( 5 ) amizade
4. Irapuã        ( 6 ) afeto familiar fraterno
5. Poti        ( 1 ) impetuosidade do jovem
6. Caubi        ( 4 ) ciúme, oposição

08. Valores simbólicos.

        8.1. A palavra Iracema é um anagrama de AMÉRICA. Comente.

        Seria o símbolo secreto do romance de Alencar, que é o poema épico definidor de nossas origens históricas, étnicas (miscigenação, formação do povo brasileiro) e, sociologicamente, segundo Afrânio Peixoto.
        Iracema é o símbolo da terra brasileira virgem e exótica (Iracema morre assim como os índios – mostra a docilidade dos índios).
        Como Iracema se entrega a Martim e é destruída, a terra brasileira, por permissão dos índios ( que sofrerão uma aculturação), passara a ser de posse portuguesa.

        8.2. Iracema: objeto proibido do desejo: posse do objeto = transgressão.
        Comente:

    Postura de Martim
    O licor de Jurema
    Postura de Iracema

        Há proibição de se tocar o corpo de Iracema. O gesto transgressor seria punido com a morte. Martim só procura Iracema sobre os efeitos da droga. Martim não tem o corpo de Iracema em seus braços, tem apenas a sua imagem. A virgindade de Iracema é justificada pela sua situação dentro da taba, onde ocupa o lugar de sacerdotisa de Tupã. Qualquer atitude dela para unir-se a Martim transgride os valores tabajaras. Mas o amor se revela mais forte e a postura de Iracema é, desde o início, de desobediência.
        O licor de Jurema é a droga que servirá como intermediário, isto é, que servirá para derrubar as barreiras entre os dois, remetendo a relação para o nível do inconsciente.

        8.3. Valor simbólico do personagem Moacir.

        Moacir simboliza o 1o. brasileiro nascido da miscigenação índio X português. Duas vezes filho da dor de Iracema: dela nascido e, também, dela nutrido. Tal mescla de vida e morte, de dor e de alegria, acha-se tematizada pelo leite branco, ainda rubro do sangue de que se formou.

9.0 Identifique características da linguagem de Alencar em “Iracema”.

        Alencar tenta concretizar a proposta do Romantismo de construir uma linguagem brasileira. Tenta, então, escrever um romance usando termos indígenas, o que revela uma linguagem autenticamente nacional.
        Obs.: a busca de uma linguagem brasileira era reflexo de uma lusofobia que invadiu o Brasil na época do Romantismo.

10. Identifique exemplos da Linguagem não verbal (rever capítulos II, X, XI, XXVI)

        Quebrar a flecha da paz no encontro de Martim e Iracema.
        A flecha atravessando o gaiamum (Iracema deveria permanecer na cabana esperando a volta de Martim, não deveria seguir em frente).
        O ramo do maracujá: a flor da lembrança. Iracema deveria guardar, com a flor, a lembrança de Martim até morrer.

11. Compare o indianismo de Alencar ao indianismo de Osvald de Andrade

        I. Relações colonizador X nativo
        II. Valor simbólico do índio: nacionalismo X primitivismo

        I. Para Alencar, desta relação que se processou por permissão do índio, provocou o surgimento do povo brasileiro. Para Osvald de Andrade, a relação foi de antropofagia e aculturação: o português aproveitou-se da fragilidade do índio para a dominação.
        II. O índio, para Alencar, era a possibilidade de despertar, no povo brasileiro recém-independente, o amor pela pátria (nacionalismo ufanista). Para Osvald de Andrade, é a forma de criticar o absurdo da dominação portuguesa, a aculturação e a destruição de um povo (nacionalismo crítico).