Terra Sonâmbula

 

O título Terra Sonâmbula envia o narratário para dois dos componentes principais deste romance: a terra e o sonho. Na epígrafe da obra é  explicada uma crença dos habitantes de Matimati, que consiste em a terra se mover aquando do sono dos homens. No momento em que  acordavam viam o novo ambiente em seu redor e sabiam que, naquela noite, o sonho os iluminara. A esta ideia é acrescentada ainda uma fala de Tuahir com o mesmo objetivo: «O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva.» (2) De facto, as menções à terra são diversas, nesta composição, e prendem-se com a noção de que ela é um elemento vivo, que também sofre, porque está em divórcio com os antepassados e, principalmente, caminha à procura de um tempo melhor, tal como as personagens. Muidinga apercebe-se dessa estranha ocorrência e constata igualmente que: «(…) nem sempre a estrada se movimenta. Apenas de cada vez que ele lê os cadernos de Kindzu.» (3) Assim, há uma relação directa entre os cadernos e a terra, já que os seus movimentos estão condicionados pela esperança do Homem. Se ele a perder, o chão deixará de se mover em busca de novos dias. A terra tenta, através do sonho, alcançar o renascimento.

Terra Sonâmbula é, essencialmente, um romance de esperança e de procura. Muidinga quer conhecer as suas origens e a sua identidade, enquanto que Kindzu quer encontrar os guerreiros naparamas (4) e Gaspar. Ao longo do texto inter-seccionam-se estas duas histórias que, no final, acabam por se ligar e provar que ainda se pode acreditar no futuro. Moçambique descobrirá a sua identidade, tal como Muidinga descobrirá as suas raízes.

No primeiro capítulo são apresentadas as duas personagens principais, Tuahir e Muidinga, o primeiro um homem idoso que contrasta com o seu companheiro, ainda jovem, e que representam o encontro entre duas gerações, dois tempos, e os conflitos daí decorrentes. É igualmente neste momento que o leitor conhece o espaço onde se localiza grande parte da ação. As duas personagens caminham num local desolador, onde impera a morte, cores sujas, um céu pardo, uma estrada sem fim e restos de pilhagem. E é precisamente dentro de um machimbombo  queimado que o velho decide que devem montar casa. Argumenta que se o menino quer encontrar os pais deve estar perto de uma estrada; decidem enterrar os cadáveres carbonizados para acabarem com os resquícios de morte no local; aspiram a se instalar em paz.
 
É durante esta operação que descobrem um corpo mais afastado, virado para baixo, vítima de um tiro recente pelas costas e acompanhado de uma mala fechada. Constatam, consequentemente, que o autocarro teria sido atacado há pouco e resolvem terminar a tarefa: «Enterram o último cadáver. O rosto dele nunca chega a ser visto: arrastam-no assim mesmo, os dentes charruando a terra.» (5) A face de Kindzu não chega, deste modo, a ser conhecida por aqueles que penetrarão na sua vida, a partir daquele instante. No interior da mala, os protagonistas encontram comida, roupa e cadernos escolares manuscritos, que o jovem guarda ciosamente e que passarão a constituir a história dentro da história.
 
Durante a noite, Muidinga é dominado pelo medo e o choro surge como forma de desabafo das tristezas e da dor. O desalento ocupa-o e a falta de esperança é um facto: «Nós nunca mais vamos sair daqui.» (6) Para combater o temor do escuro, acende uma fogueira e inicia a leitura dos papéis encontrados, sentindo orgulho por ser capaz de ler, dote que Tuahir não possui. O velho pede-lhe para partilhar com ele as estórias das folhas e até o caminho escuta a sua voz, iluminado pela lua: «Pratinhada, a estrada escuta a estória que desponta dos cadernos (…)» (7). É neste momento que a esperança começa a renascer no coração das duas personagens e no íntimo da própria terra.
 
A história de Muidinga e Tuahir começa a desenvolver-se em paralelo com a história de Kindzu. Assim, dentro de uma ação principal encontramos outras secundárias, histórias dentro da história, que acabam por se inter-seccionar e no final do romance se complementar. Terra Sonâmbula organiza-se, assim, segundo os paradigmas de coordenação e de encaixe, sendo a segunda narrativa, a de Kindzu, uma segunda estória, contada por episódios, a partir da primeira.
 
Muidinga lê a Tuahir o diário (9) de Kindzu, onde este se dá a conhecer. Apresenta-se como filho de Taímo, pescador e contador de histórias, e irmão de Junhito, assim chamado por ter nascido numa data marcante: 25 de Junho de 1975, dia da Independência moçambicana. No entanto, os tempos de felicidade não demoram a desaparecer com o início da guerra civil e com a previsão da morte de um membro da família, feita pelo pai: Junhito estava condenado. Esta morte anunciada representa não só o começar da dissolução familiar, como ainda o início da fragmentação nacional. Porém, o pai de Kindzu encontra uma alternativa para não lhe levarem o filho: alojá-lo no galinheiro e dar-lhe aspecto de galinha; assim «os bandos quando chegassem não lhe iriam levar.» (10) Apesar desta ideia parecer inicialmente absurda, não o é, dado que corporiza uma metáfora riquíssima que acompanhará todo o desenvolvimento da acção. O único estatuto que permitirá ao Homem sobreviver ao período de guerra será o de animal. Apenas regido por instintos e livre de sentimentos, o ser humano poderá ultrapassar as carências físicas e afectivas, características de uma época de luta armada.
 
A degradação da estrutura familiar, já abordada neste estudo, ganha ênfase através de Kindzu e do desaparecimento, inexplicável, do irmão, da capoeira, que provoca o enfraquecimento e a morte do pai, assim como a tristeza infinita da mãe. O funeral do velho Tuahir ocorre nas ondas do mar, o que o leva a pertencer a um modelo descoincidente de ser, Este aspecto origina diversos acontecimentos insólitos e rituais sequentes dedicados ao morto, com o intuito de aquietar o seu espírito. Kindzu suspeita destes cultos devotados ao pai, não crê no feiticeiro e demonstra, deste modo, pertencer a um mundo diferente do antigo, regido por livros, pela ciência e pelo saber: «Antes ainda eu me acostumava em casa do pastor Afonso, lendo seus livros, escutando suas lições.» (12), «Com ele aprendia outros saberes, feitiçarias dos brancos, como chamava meu pai. Com ele ganhava essa paixão das letras.» (13) No entanto, tanto este mundo como o antigo são considerados inimigos em tempos de guerra, pelo que o professor foi assassinado depois de lhe terem cortado as mãos, símbolo da escrita, e de lhe terem queimado a escola.
 
Mas não é esta a única atrocidade a que Kindzu assiste. Representante de uma mente aberta e liberal, fomenta uma grande amizade com um indiano: Surendra Valá, comerciante casado com Assma e vítima de racismo (14). É na sua loja que surge um dos maiores elementos impulsionadores da narrativa: um naparama. Este guerreiro salva o estrangeiro de um incêndio no seu estabelecimento e extasia Kindzu. Surendra explica: «Eram guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que lutavam contra os fazedores da guerra. Nas terras do Norte eles tinham trazido a paz. Combatiam com lanças, zagaias, arcos. Nenhum tiro lhes incomodava, eles estavam blindados, protegidos contra balas.» (15) No entanto, a proteção é insuficiente e a loja do indiano acaba por ser assaltada e queimada, obrigando-o a abandonar o local e o amigo, que se entrega à angústia e desespero totais, só colmatados pelo desejo de evasão e de união ao movimento naparama.
 
A partida de Kindzu não será fácil. Em primeiro lugar sonha com o pai, que o ameaça de se tornar seu inimigo no caso do filho deixar a sua origem e depois consulta a sabedoria dos velhos, que o aconselham a sossegar a morte do progenitor, em vez de procurar a guerra: «A morte só ensina a matar.» (16) Todavia, o descendente de Tahimo não fica convencido, até porque repara que há uma perda de identidade no país e que os anciãos estão desorientados com a visão do sofrimento da terra. Por esse motivo, dirige-se ao adivinho que o aconselha a fugir junto ao mar, sem deixar marcas, para não ser perseguido por recordações e lembranças.
 
Teria de se transformar num novo homem, desligado dos antepassados e conectado com o mar. No final, avisa-o que «(…) só mora no mar quem é mar.» (17) A proposição do adivinho pareceu indecifrável ao autor do diário, mas surge com um carácter divinatório, dado que revela que Kindzu nunca conseguirá abandonar as suas raízes, por mais que se tente afastar delas. Estas palavras são de realçar, porque indiciam que só através do reencontro com o passado é que surgirá a identidade de um país.
 
Kindzu prepara a canoa e parte, deixando a mãe grávida, há anos, de um futuro melhor, e as recordações dos amigos e da infância. A partir deste momento, as peripécias enfrentadas pelo protagonista de Terra Sonâmbula serão muitas. No início da viagem, o espírito do pai não o deixa, desafiando-o através de magias várias, que põem à prova os seus limites. O filho resiste até que acaba por encontrar terra: a baía de Matimati, onde a intriga secundária se passará a localizar maioritariamente. A recepção que o aguarda nessa baía está longe de ser amigável.
 
Pelo contrário, mandam-no partir, visto que o local tem sido palco de acontecimentos trágicos: tinha-se despenhado ali um navio com mantimentos que foi, imediatamente, assaltado pelo povo esfomeado. Porém, no regresso, todos os conchos tinham ido parar ao fundo do mar com os seus ocupantes. Logo tinham sido preparados novos movimentos de ataque aos víveres do barco, impedidos pelo Governo, que defendia uma recolha bem organizada. Esta obstrução levantou inúmeros boatos e murmúrios, em redor da ideia de que os responsáveis queriam enriquecer com os produtos e de que eram eles que impediam o naufrágio de mais navios naquela zona. Assim, o clima que se vivia na localidade era de desconfiança e dor, até porque os castigos chegavam a ser implantados contra inocentes. Neste momento do texto, emerge uma crítica do autor, que será mais desenvolvida ao longo do romance e que encontrará uma consistente repercussão noutras obras: a corrupção e a ganância dos poderosos que sublevam o povo impotente.
 
Kindzu decide sair de Matimati, receoso de sofrer qualquer tipo de represália pelo seu estatuto de pessoa de fora, e volta a navegar, acontecendo-lhe o inesperado. Apanhado por uma tempestade, é arrastado, precisamente, para o barco que em terra causa conflitos vários, onde encontra uma mulher belíssima, Farida, que lhe conta a sua vida. A tradição oral retorna a ser o fundamento para a escrita e permite que as histórias se entrelacem.
 
Farida é filha do céu, porque partilhara o ventre da mãe com uma irmã gêmea. Como esse aspecto prenunciava desgraça, as duas foram separadas à nascença, assim como uma figura de madeira, cujas metades cada uma usava pendurada, num colar, ao pescoço. A mãe acabou por morrer e Farida decidiu partir, por não aguentar as acusações que lhe faziam, quando o tempo era mau, ou quando a fome e a morte se tornavam insustentáveis (19). A viagem deixou-a fraca e foi acolhida por um casal de portugueses, Romão Pinto e D. Virgínia. Os tempos vividos na casa colonial foram um misto de satisfação e terror: «O desejo dele crescia por toda a casa, como uma viscosa humidade. Ela o sentia com uma mistura de nojo e receio. Teria odiado aquela casa não fosse a velha a ter tratado como uma mãe, fazendo nascer a outra raça que agora nela existia.» (20) No entanto, o desejo de Romão Pinto culminou numa violação e numa gravidez indesejada, que a fizeram voltar à origem, ao local onde vivera com a mãe e com a tia Euzinha.
 
A busca da paz obriga as personagens de Mia Couto a uma redefinição do passado e da memória, sendo este processo natural em nações que foram descolonizadas. O retorno de Farida ao local onde viveu com a mãe representa uma tentativa de resgate do passado e da memória que não é bem sucedida, visto que continua sem encontrar a completude. Odeia o filho e entrega-o a uma missão. Mais tarde, arrepende-se e decide reavê-lo, mas Gaspar, seu nome, foge quando sabe que a mãe o procura e nunca mais se encontram. A filha do céu, então, acalenta um sonho, consequência do conflito interno que vive: viajar para longe de todos os lugares. É esse desejo que a leva ao barco, donde se avista um farol que acende a sua esperança: «É uma pequenita ilha. Nessa ilhota está um farol. Já não trabalha, se cansou. Quando esse farol voltar a iluminar a noite, os donos deste barco vão poder encontrar o caminho de volta. A luz desse farol é a minha esperança, apagando e acendendo tal igual a minha vontade de viver.» (23) Farida termina as suas confidências, revelando a Kindzu que estava à espera dele e que já sabia que ele viria.
 
As duas personagens, com tanto em comum, decidem partilhar a existência e iniciam uma relação. Ambos são vítimas das atrocidades do mundo e ambos se sentem perdidos entre o passado e o futuro, entre a realidade moçambicana e a influência portuguesa. Kindzu está consciente deste conflito: «Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de Virgínia, de Surendra. E sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África.» (24) Através desta reflexão, apercebemo-nos da dificuldade que ele e Farida sentem em identificar-se com o universo africano. As duas personagens são aculturadas e representam a fusão do mundo ocidental com o Terceiro Mundo.

Por estas razões é que, Kindzu, perdido no meio de referências diversas e de um mundo interior em conflito, decide continuar a sua busca, a demanda pelas tradições, e realizar a missão de ser um guerreiro naparama. Farida acrescenta um outro elemento à sua epopeia: encontrar o filho dela com Romão Pinto: Gaspar (29).
 
É com estes objetivos e apaixonado, que Kindzu regressa a Matimati e à realidade da guerra, que nunca terminará dentro das pessoas. Na terra das águas, reencontra Antoninho, ajudante do indiano Surendra, que o leva para casa de Assane, antigo secretário do administrador, com quem o amigo de infância vive e tem negócios. Lá conversa longamente com o dono da habitação, que lhe revela os planos que têm em relação a investimentos e comenta que vai fazer uma grande festa de inauguração de uma loja, que construiu com o indiano, de modo a colmatar os sentimentos racistas e a desigualdade vigente. Explica, igualmente, que também cultiva ideias xenófobas (30) mas que o dinheiro muda tudo: «O gajo é que domina os tacos. É só isso. Depois de um tempo, eu nacionalizo tudo. Para o ano que vem, eu privo tudo. Chuto o baniane no rabo.» (31)

Assane, ao contrário do que pretende transmitir, não é um homem cruel, já que mostra a Kindzu que cuida dos parentes, defendendo uma estrutura familiar alargada, tribo, sustentada através de um enorme galinheiro, disfarçado dentro de um tanque. Assane, ao proteger a família e ao recuperar valores do passado, como a tribo, revela-se um defensor da nação e das tradições. As estórias sucedem-se até à entrada de Surendra que está muito diferente, desmazelado e aparentando traços de loucura: «Seus olhos buscavam uma outra margem do mundo.» (33) Tanto o indiano como a mulher não suportam a dor da distância, o anseio por regressar à Índia e o sofrimento resultante da não-aceitação.
Mia Couto realça, mais uma vez, o apelo da terra (34), não só através da personagem Surendra Valá, que representa todos os estrangeiros residentes no país vitimizados por um regime de diferença, como também do próprio Kindzu que, durante a noite, naquela casa, acorda com a canção de embalar da mãe, proveniente do tanque-capoeira, e vê lá dentro os olhos tristes de um galo, que o fazem recordar o irmão Junhito. Aquele momento fá-lo sentir remorsos por ter abandonado as memórias do irmão, mas logo decide continuar a perseguição do seu objetivo.

Neste sexto caderno de Kindzu, lido por Muidinga a Tuahir, ainda encontramos outro episódio digno de realce, que se relaciona com uma estátua erigida numa pequena praça da terra: «Era um monumento aos heróis da Independência. A estátua tinha sido levantada a substituir uma outra, antiga, de política avessa, gloriando os coloniais guerreiros. Derrubaram-na no início da Independência, (…). E edificaram uma outra, disseram que provisória, mas que ainda durava. Estava suja, coberta de pó, com lixos ao redor. Ninguém parecia lhe dedicar grande respeito. Exceto uma mulher que ali se postava, horas a fio.» (35) Estes acontecimentos verificados em redor da estátua têm um valor simbólico elevado, assim como uma vertente alegórica facilmente compreensível. A estátua é uma metáfora do próprio sistema político que, primeiro procurou destruir uma forma de representação (o colonialismo) para governar e que, depois, implantou um novo regime que não se coaduna às necessidades do país e que motivou o desinteresse popular. O exercício desenvolvido pelo governo resulta, assim, num sentido negativo e afasta-o do imaginário do povo. Mas nem todos os habitantes da nação desrespeitam a época presente. A esposa do administrador presta culto diário ao monumento e fascina Kindzu, com os cânticos da luta armada de libertação, que entoa. A sua tristeza revela um profundo abandono de si própria e os seus olhos parecem familiares ao filho de Tahimo, como se os destinos de ambos já se tivessem cruzado ou se fossem ainda cruzar.

De fato, os dois, Kindzu e Carolinda, voltam a encontrar-se na inauguração da loja de Assane e Surendra, construída na antiga cantina de Romão Pinto, falecido entretanto. O indiano parece um subordinado dentro do seu próprio espaço. Mas nem isso evita que se desencadeie uma enorme desordem, provocada por homens fardados a disparar sobre a multidão, com o intuito de matarem os estrangeiros. O medo domina tudo e todos e a explosão final da loja mata Assma. O marido nunca mais regressa da apatia em que se instala e Kindzu perde a esperança no mundo e no futuro, readquirida com Farida: «(…) nós, que nascêramos naquele tempo, éramos os últimos viventes. Depois de nós já não havia mundo para receber mais ninguém.» (36)

Cansado de assistir à miséria humana que o rodeia, Kindzu toma a iniciativa de procurar a tia de Farida, Euzinha, com o objetivo de saber informações sobre Gaspar e encontrá-lo. Para isso tem de se deslocar a um campo de refugiados com um guia experiente, capaz de sobreviver aos matos mortais. Quintino Massua é esse homem. Kindzu encontra-o num bar, embriagado, e tem de aguardar que ele recupere. É nessa espera que se encontra pela terceira vez com a esposa do administrador e inicia com ela uma relação amorosa. Este momento é marcante porque o protagonista trai o seu amor por Farida mas não a consegue esquecer. Revela que «De passagem, Carolinda me fez lembrar Farida.» (37) Esta enunciação é uma prolepse de revelações futuras e, conjugada com o espaço onde o desejo é saciado, o curral da Missão, sublima a entrega. A palha do curral possui uma dimensão mística e um teor sagrado que une os dois amantes sacralmente e apaga as réstias de infidelidades possíveis.

No dia seguinte, Kindzu guarda um colar de Carolinda como recordação e vai ao encontro do seu guia; encontra-o a ser arrastado para a esquadra. Tenta ajudá-lo e acabam os dois prisioneiros do administrador. Quintino aceita fugir em direcção ao campo de refugiados até
porque não aguenta permanecer em Matimati. É perseguido pelo fantasma do seu patrão Romão Pinto que, mesmo depois de morto, não lhe dá descanso.

Neste momento da narrativa, o leitor assiste ao desenvolvimento de outra estória, uma estória contada oralmente dentro da estória da estória e verifica que este processo acontece devido ao tempo da ficção ser assumido pelo estatuto enunciativo da personagem que conta a estória, neste caso Kindzu. As estórias dentro da estória de Mia Couto acabam por ser, desta forma, quer uma aproximação à realidade cultural moçambicana, quer um afastamento dos modelos ocidentais.

Os fatos relatados pelo guia são importantes para o desenrolar da ação. Romão Pinto morreu vítima das suas canalhices. Tinha tido relações com uma mulher menstruada e estranhos poderes traçaram o seu destino. Dez anos depois, Quintino viu-o voltar do mundo dos mortos e levantar-se do caixão que permanecia na cave da casa (41). Não lhe tinham devotado as cerimónias devidas e por isso andava a vaguear entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

É através do diálogo entre o guia e ex-empregado do português e o patrão renascido, contado por Quintino, que Kindzu se apercebe que D. Virgínia ainda está viva e de que ela poderá dar-lhe indicações sobre o paradeiro de Gaspar. Torna-se, então, urgente sair da prisão.

Carolinda parece ouvir as preces dos dois condenados e solta-os com muita dor, porque sabe que assim perderá o amado. No final deste capítulo, surge uma reflexão sobre o amor, que é única: «Eu sei que em cada mulher a gente lembra outra, a que nem há. Mas Carolinda me entregava essa doce mentira, o impossível cálculo do amor: dois seres, um e um, somando o infinito. Se aproximou e me acariciou os braços, ali onde as cordas me doeram. A cintura de suas mãos me afagavam, em suave arrependimento. Aquele momento confirmava: o melhor da vida é o que não há-de vir.» (42) Podemos transportar a anterior ponderação para o plano global da existência: aquilo que o homem espera não se realizará. O sofrimento vai imperar sempre e a incompletude seguirá o ser humano. A vida só se consegue manter na esperança do porvir, só a
crença num futuro melhor é que pode aliviar o ser. São estas as noções que estão subjacentes a todo o romance e constituem o elo de ligação entre todas as estórias e todas as personagens. O nono caderno de Kindzu incide sobre D. Virgínia. Kindzu procura-a e apresenta-a como se estivesse a traçar um retrato impressionista: «…retiro meu caderno e escrevo ali mesmo como se receasse que seu desenho me fugisse.» (43) A mulher fascinou-o porque, para além de ser branca de cor e negra de raça, juntava fantasias na sua cabeça e voltava à infância. Esta saudável loucura fazia com que associasse o seu marido e a sua vida ao futuro e não ao passado e criava uma empatia substancial da parte das crianças, que não largavam a sua casa e não passavam sem as suas estórias. A narração mais apreciada pelos miúdos era a de um farol construído longe do mar como pagamento de uma promessa. O farol surge, assim, associado à esperança e à procura. Também Farida espera dentro do barco por um farol que a ilumine e a salve. Será que ela ouviu esta estória de D. Virgínia? Kindzu decide abordar directamente a velha criança e pergunta-lhe por Gaspar. Assustada, a senhora manda-o entrar em casa e revela-lhe que, um dia, encontrara um menino meio morto no seu quintal e decidiu acabar de o matar, com as outras crianças, para evitar o sofrimento futuro daquele ser. Para ela, no mundo, não havia lugar para ninguém indefeso. Porém, antes do fim, decidiram ouvir a sua estória (44) e foi assim que ela descobriu que o menino era quase seu filho, visto que tinha os genes do seu marido. Convidou-o a ficar com ela mas, passados alguns dias, fugiu. D. Virgínia não soubera mais nada dele. O cenário de guerra volta, mais uma vez, a tomar forma. As pessoas, as famílias separam-se múltiplas vezes e não se conseguem enquadrar nos ambientes em existência pacífica. Também Gaspar preferiu fugir a ter de lidar com o drama da sua origem e com a sua condição dual de mulato, filho da mistura de sangue branco com negro.

O encontro com Virgininha não é só esclarecedor em relação ao filho de Farida; permite ainda que Kindzu assista a um encontro entre o administrador de Matimati e o falecido Romão Pinto. Combinam negócios escusos e corruptos, em que o português investirá o dinheiro que tem, na posse da mulher, e Estêvão dará a cara e a assinatura. Para tudo dar certo, é imprescindível que o administrador reforce a sua raiva contra os brancos e que instigue os sentimentos racistas. Carolinda surge no final do encontro e ameaça denunciar o marido. Não concorda com as traições dele e compara-o a uma hiena, que só sabe comer e aproveitar-se dos mortos. No entanto, este relembra a condição feminina em África: «…ela era esposa de um africano, devia beneficiar de estar calada, subordinadinha.» (45) e retira-se com pressa. Também Virgínia abandona Kindzu para voltar ao seu refúgio na loucura. Daquela forma, ninguém a poderia obrigar a assinar nada, nem a mexer em dinheiro algum. A portuguesa revela uma esperteza maior do que a do marido.

Kindzu e Carolinda ficam sós. Ela aproveita para desabafar e contar como amou o marido na altura das guerras pela Independência e como começou a odiá-lo quando se apercebeu das transformações nele operadas e dos jogos de poder em que andava envolvido. Até que apareceu Farida e o marido se dedicou a ela, provocando-lhe ciúmes. Carolinda revela que não gostou daquela mulher nessa altura e odiou-a ainda mais por ela ter tido coragem para fazer algo que nunca conseguiu: fugir. Quando soube o local onde ela se encontrava, encetou vinganças e inventou perigos na sua estada no barco. Todavia, nada resultou e continuou a sentir muito rancor por aquela que todos consideravam parecida consigo. E, depois deste discurso, Carolinda entrega-se a Kindzu, novamente, sem imaginar que, para além de serem parecidas, ela e Farida, partilhavam o mesmo homem.

O décimo caderno de Kindzu decorre no campo de refugiados. O filho de Taímo e Quintino percorrem quilómetros de mato para lá chegarem. O cansaço é tal que o protagonista precisa de descansar e fica só, encostado a uma árvore. O desânimo e a descrença tomam conta dele, até que surge o mampfana, a ave matadora de viagens, e o pai começa a falar através da árvore. Kindzu revela que quer voltar, que está cansado e que não aguenta mais. O fundamento da narrativa assenta neste pilar: a contingencialidade. As personagens foram lançadas para um tempo e arrastadas, pela guerra, para situações que não podem controlar. E, de facto, Kindzu vai ensinar alguém a sonhar: Muidinga. A descrição do campo de refugiados é dolorosa e marca o próprio estado da nação. As pessoas sofrem à espera de comida e assistência que não vem e a única certeza é a da morte.

No meio daqueles seres encontram a tia de Farida que relembra a sobrinha, com doçura. Kindzu mostra-lhe o colar de Carolinda e Euzinha confirma as suas suspeitas: Farida e Carolinda são gémeas e a mulher do administrador, de forma inconsciente, vinga-se da irmã por ter sido ela a escolhida para ficar com a mãe. Segundo a tia, aquela estória tem de continuar em segredo para não serem atraídas mais desgraças. Em relação a Gaspar, não pode ajudar muito, porque a criança foi transferida para outro campo que ninguém conhece nem pode conhecer, por segurança. As crianças estavam sempre a serem levadas dali pelos bandos e foi imprescindível protegê-las.

Depois disto, Kindzu resolve seguir o conselho da velha e esperar, permanecer uns dias no campo a acalmar os espíritos e a observar aquela realidade, o modo como a fome se fazia sentir, como as mulheres procriavam incessantemente e como as mães roubavam comida e agasalho aos próprios filhos, para os prepararem para o futuro e para a sobrevivência. A escuridão rodeava tudo e todos, naquele local.

Durante a noite, Quintino conhece uma jovem, Jotinha, mulher de poderes e considerada feiticeira por muitos; Carolinda aparece para concretizar a sua fuga: partirá no avião que traz os medicamentos. O sonho de evasão de uns contrasta com o desejo de permanência de outros. Foram os quatro dormir para uma barraca. Jotinha insinuou-se a Kindzu e tiveram relações, sem ninguém notar. De manhã viram que estavam rodeados de sacos de comida. Lá fora morria-se à fome e ali dentro nada faltava. Carolinda explicou: «Seu marido tinha dado as expressas ordens: aqueles sacos só poderiam ser distribuídos quando ele estivesse presente. Era uma questão política para os refugiados sentirem o peso de sua importância. No entanto, o administrador há semanas que não ousava arriscar caminho para visitar o centro de deslocados. E assim a comida se adiava.» (49) A crítica é evidente. Os jogos de poder sobrepõem-se à vida, ao ser humano. O povo é deixado morrer sem culpas e sem remorsos, por aqueles que o deviam proteger. O amor ao dinheiro e ao poder impera. Neste capítulo, há ainda outra crítica relacionada com a inversão de valores. Euzinha trabalha arduamente a rachar e a transportar lenha, não admitindo qualquer tipo de ajuda: «(…) as velhas ali não eram queridas. Sua carga era um indesejado fardo. As de sua idade já haviam todas sido abandonadas. Apenas as que ainda trabalhavam eram suportadas. Por isso Euzinha simulava as mais pesadas labutas. Pediu-nos que nunca a ajudássemos em nada.

Prometemos.» (50) Em períodos de guerra tudo se altera. Aqueles que não ajudam só atrapalham e os velhos serão abandonados como um fardo pesado, à primeira oportunidade. Esta situação contrasta com os ideais antigos. Na sociedade moçambicana primordial, os idosos eram respeitados e olhados com deferência. Constituíam as maiores fontes de sabedoria e todos os consultavam. Para Mia Couto, é importante que eles voltem a ser ouvidos, porque o retomar de tradições ancestrais é a chave para iniciar o renascimento do país. A recuperação está na conjugação do passado com o futuro. Kindzu abandona o campo de deslocados depois de assistir a uma celebração e se aperceber da esperança que ainda reinava naquele mundo. Euzinha aconselha-o a ir embora, visto que tinha tido relações com Jotinha, tinha contrariado a tradição de não fazer amor num local novo e isso era sinal de partida. Ele devia escolher outros confins. O filho de Taímo é uma personagem ligada ao ocidente, ele lê, escreve, cultiva as crenças dos brancos e, como tal, deve seguir o seu caminho. Mas, antes de se afastar, Kindzu participa na distribuição de comida do celeiro, assimila a felicidade inerente, comemora o futuro sonhado e apercebe-se da morte de Euzinha, um final feliz envolto na crença de que a guerra estava para acabar. Nada disto o anima.

Kindzu regressa a Matimati sem esperança, já que perdera a amizade de Quintino e não trazia Gaspar de volta para os braços da mãe. Mas os desgostos não terminaram aqui. Na casa de Assane soube que Farida morrera. Prestes a perder a esperança tentou acender o farol para ver a luz que sempre ansiara. No entanto, a ilha explodiu e Farida desapareceu com ela. Face a esta situação, Kindzu decide regressar à raiz, ao passado, à família. Não aguenta mais sofrer. A origem surge como um abrigo e um espaço seguro. Só lá poderá encontrar a paz. Assane sugere-lhe partir, no dia seguinte, no novo autocarro da empresa e o herói da estória aceita a proposta. Faltavam algumas horas, apenas, para rever a mãe e a aldeia.

Durante a noite sonha com acontecimentos que lhe parecem verdadeiros. E este é o momento alto da narrativa, é através do sonho que se deslindará a realidade. A terra transmite ao homem a verdade do mundo baseada na fantasia e permite-lhe encontrar o que procura. É ela o motor que impulsiona a acção e contribui para a esperança. Kindzu sonha que desce um vale cheio de luz na primeira madrugada do mundo, quando vê um grupo de gente pobre e esfarrapada a avançar atrás do feiticeiro da sua aldeia. Cabia-lhe a ele a grande decisão de criar um novo dia. Parou no centro de uma paisagem invisível, decretou o final das estradas, caminhos e pontes e iniciou um longo e rico discurso, preenchido
por duras profecias. Se os dias vividos já traziam dor, o futuro seria muito pior, porque a guerra tinha contribuído para arruinar o tempo e terminar com a esperança. Para ele, já não existiam homens, mas sim bichos. Não havia sentimento de família nem amor à nação: «Porque esta guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro de vós. Agora, a arma é a vossa única alma. Roubaram-vos tanto que nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos. Será mil vezes pior que o passado pois não vereis o rosto dos novos donos e esses patrões se servirão de vossos irmãos para vos dar castigo.» (51) Os seres humanos deixaram de existir e, principalmente, de sentir. Não havia amor, carinho e afecto e o que reinava era a lei da sobrevivência animal.
Ninguém tinha coração nem alma e os poderosos sem rosto servir-se-iam do povo para alimentar os seus caprichos. Todos passariam a viver à custa de interesses e de injustiças e até os mortos não alcançariam a paz. Os tempos que viriam ainda seriam piores porque dominava a brutalidade e só viveria quem passasse por cima dos outros e não respeitasse ninguém.

O discurso do feiticeiro prosseguiu com a reação da natureza àquelas calamidades. O vento, as areias, os pássaros e a terra também castigariam o homem, por não suportarem tanta desgraça: «E há-de vir um vento que arrastará os astros pelos céus e a noite se tornará pequena para tantas luzes explodindo sobre as vossas cabeças. As areias se voltarão em redemoinhos furiosos pelos ares e os pássaros tombarão extenuados e ocorrerão desastres que não têm nome, as machambas serão convertidas em cemitérios e das plantas, secas e mirradas, brotarão apenas pedras de sal. As mulheres mastigarão areia e serão tantas e tão esfaimadas que um buraco imenso tornará a terra oca e desventrada.» (52) Mas, apesar do anterior cenário de desolação e sofrimento, ainda havia razões para ter esperança porque, segundo o adivinho, no final, surgiria uma manhã cheia de uma nova luz e ouvir-se-ia uma voz antiga, anterior a tudo, e se escutaria uma canção de embalar: «E surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da primeira mãe. Esse canto, sim, será nosso, a lembrança de uma raiz profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz nos dará a força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingênuo entusiasmo dos namorados.» (53) A profecia do feiticeiro aponta, precisamente, para o
tema desta dissertação. Moçambique só recuperará se souber ouvir a voz da ancestralidade e se se refugiar nos seus valores culturais, não precisando, para isso, sequer, de rasurar a história do colonialismo. Pelo contrário, a nação deve retirar desse período tudo o que for preciso para, hoje, distinguir o que é seu de original e de direito. O povo deverá valorizar-se como é, com as suas tradições, crenças e história, para alcançar a harmonia e recuperar a memória coletiva africana. Esta memória, a cultura tradicional, não assenta somente no período pré-colonial, mas em todo o percurso africano, ao longo dos tempos.

A partir destas constatações podemos inferir que a organização das nações não deve ser igual, porque cada país possui uma cultura e uma memória diferentes. Por isso, todos os povos, em geral, devem procurar a sua identidade e assumir-se em função dessa descoberta. Moçambique, em particular, deve ouvir o conselho e as estórias dos ancestrais e dedicar-se à construção de um novo mundo com base naquilo que é antigo e com a destruição de todas as recordações da guerra. E é, desta forma, que o feiticeiro termina o seu discurso. Exorta os seus seguidores a deixarem a sua condição de animais e a morrerem como gente que não são.

Consequentemente, Kindzu assiste, no seu sonho, a um espectáculo inédito. O adivinho proferiu palavras ininteligíveis e espargiu os presentes com um líquido que os fez entrar em convulsões, perder as dimensões humanas e transformarem-se em animais. A fala, a palavra, foi o último aspecto a ser convertido, dado que é o verbo que marca a nossa existência, permite que os outros nos recordem e nos faz alcançar a imortalidade. Como é que se poderá explicar esta situação? Sem dúvida que as mortes dos intervenientes no período de guerra civil é a melhor solução para se alcançar a paz. Por isso faleceram Taímo, Farida, Tuahir e mesmo Kindzu. Mas não basta a morte para se alcançar a regeneração, a renovação e a purificação. É também imprescindível que surja a verdade e a realidade puras. Por isso os homens que não merecem tal tratamento, que se regem somente por instintos e se comportam como animais, se devem transformar no que verdadeiramente são: bichos. Esta mutação não sucedeu a Kindzu por ele ser verdadeiro, puro e lutador. Soube perseguir os seus ideais, tentou vencer o ambiente que o rodeava e descobriu, no final da epopeia, que a chave para a felicidade estava na sua aldeia natal, ao lado da mãe. Além disso,
no mesmo sonho, consegue transformar-se no que mais aspirava: um guerreiro naparama, para salvar o seu irmão que, entretanto, surge a humanizar-se. Junhito, como sempre foi simples e não maltratou ninguém, merece pertencer ao novo mundo e com ele verifica-se o processo
inverso: de galinha transforma-se em homem. No entanto, ainda há réstias de mal a deflagrar e todos os que corporizam a corrupção e a crueldade na estória, Romão Pinto, Estêvão, Shetani, Assane, Antoninho e milicianos, tentam atacá-lo, fugindo com a aproximação de Kindzu: «-Teu pai tinha razão: sempre te viemos buscar. Então, Junhito me chamou. Eu me olhei, sem confiança. Mas o que em mim vi foi de dar surpresa, mesmo em sonho: porque em meus braços se exibiam lenços e enfeites. Minhas mãos seguravam uma zagaia. Me certifiquei: eu era um naparama! Ao me verem, em minha nova figura, aqueles que maltratavam o meu irmão se extinguiram num fechar de olhos.» (57)

O sonho termina com o filho mais velho do pescador Taímo a cantar canções de embalar, o som que marcará o início de uma nova era, para ajudar o irmão a voltar à condição humana, e com a consequente chegada da mãe com uma nova criança ao colo, símbolo de um
futuro melhor. A família volta a reunir-se e tudo indicia um feliz retorno à harmonia. Kindzu despede-se.

Este sonho é marcante dentro da economia da narrativa, visto comprovar que, através dele, tudo se alcança. Kindzu, durante a estória, desesperou muitas vezes, mas nunca largou a esperança e nunca deixou de sonhar. Por isso conseguiu tudo o que procurava: tornar-se um guerreiro naparama, aperceber-se de que os tempos iam mudar e a guerra terminaria. Só lhe faltava encontrar Gaspar… Mas, também isso conseguirá a partir de uma visão alucinada do seu destino próximo. Seguia numa estrada estranha que se deslocava de paisagem em paisagem: a estrada do sonho. Era a terra que o levava, sonâmbulo, a conhecer o seu fado; a mesma terra que recolhia os sonhos dos homens, todas as noites, a fim de criar um novo mundo. E Kindzu viu um autocarro queimado de encontro a uma árvore, sentiu dentro de si uma grande força que o obrigava a não desistir e encontrou Gaspar, antes de morrer: «Uma voz interior me pede para que não pare. É a voz de meu pai que me dá força. Venço o torpor e prossigo ao longo da estrada. Mais adiante segue um miúdo com passo lento. Nas suas mãos estão papéis que me parecem familiares. Me aproximo e, com sobressalto, confirmo: são os meus cadernos. Então, com o peito sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse pela segunda vez.» (58)

Neste momento do romance, em que a realidade da estória se funde com a fantasia e se dá a revelação suprema, há também uma espécie de início de um tempo inaugural. Kindzu morre durante a viagem no machimbombo, mas os cadernos que deixa representarão o início de Muidinga. É através deles que o menino descobrirá que é Gaspar, encontrará a identidade, as raízes e o seu verdadeiro eu, que tanto procurava. É com ele que virá o futuro e foi por ele que valeu a pena sonhar e ter esperança. Então, a morte de Kindzu trouxe-lhe a vida.

Não podemos esquecer que o elo de ligação entre as personagens desta narrativa são os cadernos. É através da sua escrita que Kindzu ganha força, é a partir da sua leitura que Gaspar ganha esperança e é com as suas folhas que a terra renascerá. Esta passagem da oralidade para a escrita não é considerada uma negação da tradição oral; pelo contrário, a escrita representa a difusão do conhecimento e é uma conquista da luta com o povo colonizador.

O romance Terra Sonâmbula é uma narrativa de dor e de sofrimento mas é, acima de tudo, um romance de sonho e de esperança. E é a esperança o sentimento que predomina em Tuahir e Muidinga, assim como em outras personagens que contactam com eles: Siqueleto, Nhamataca, as idosas profanadoras ou o Pastor. Siqueleto é uma figura curiosa que, abandonada à solidão, pretende semear Muidinga e Tuahir para fazer nascer mais gente. Ficou só, quando os habitantes da aldeia fugiram, com medo dos bandos e salvou-se porque fingia que estava morto. Para não se cansar, abria só um olho de cada vez, tinha arrancado os dentes, com o objectivo de não sentir fome e era protegido por uma hiena, que não admitia a aproximação de ninguém. Depois de interpelado pelo velho e pela criança, o ancião desdentado explicou que tratava mal os visitantes porque eles vinham com intenções cruéis, os tempos eram outros: «Antigamente, quem chegava era em bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos dedos.» (63) E nem a mensagem de esperança num futuro melhor, sem medos e sem inquietações, veiculada por Tuahir, o demoveu do objectivo de os matar. No entanto, o episódio tem um final surpreendente. Quando Siqueleto
se apercebe que Muidinga sabe escrever, solta-os e ordena ao miúdo que escreva o nome dele com um punhal numa árvore, matando-se em seguida. A sua existência física já pode terminar, porque alcançou algo muito mais importante: a perenidade: «A aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore.» (64) Este momento da narrativa representa a chegada da escrita à África profunda, o princípio de um novo tempo. Com ela, os objectos lembrados tornam-se presentes mesmo na ausência e os tempos fundem-se: «Lembrar (…) reforça maximamente o efeito de temporalidade, de temporalidades, de convivência de muitos espaços e de muitas vozes. Esse acentuar da temporalidade tem consequências definitivas na presentificação dos objectos ausentes, e na distanciação dos objectos presentes.» (65) Percebemos, deste modo, que a escrita assume um papel crucial para a memória colectiva da nação moçambicana. través dela, as estórias e a tradição oral não serão esquecidas. A oralidade sofre um processo de construção inverso, intralinguístico, que a fortifica e Siqueleto tem consciência desse aspecto, pelo que, ao contrário de rejeitar a inovação, a emprega em proveito próprio. A inscrição do seu nome dá a vida, permite o renascimento e a iniciação.

Outra personagem que se revela marcante nesta estória é Nhamataca, o Fazedor de Rios. O velho e a criança encontram-no durante umas deambulações nos terrenos em redor do machimbombo e, mais uma vez, constatam que a esperança permanece no coração do povo.

Nhamataca trabalhou com Tuahir no tempo colonial e, naquele momento, cava para fazer um rio. Sonha com esse elemento para matar a sede, a fome e para oferecer aos homens e a Moçambique uma nova vida. O mais velho habitante do autocarro adere imediatamente à causa, ao contrário do jovem, que não se quer entregar a loucuras e a irrealidades. Mas, acaba por aceder e abrem um buraco durante dois dias, até ao início de uma tempestade. A água da chuva começa, então, a encher o sulco aberto, ferozmente, e acaba por levar consigo o Fazedor de Rios, feliz, porque pensa ter alcançado o seu objectivo. No dia seguinte, a seca volta a imperar e Muidinga e Tuahir entristecem novamente: «Muidinga olha a paisagem e pensa. Morreu um homem que sonhava, a terra está triste como uma viúva.» (66) De facto, a terra perdeu mais um aliado para a metamorfose do país; mas esse aliado desapareceu preenchido pela ilusão de que alcançara o seu maior sonho e isso é o que é significante. A estória de Nhamataca – tal como a de Siqueleto, das Idosas Profanadoras e do Pastor – funciona, dentro da economia narrativa, como uma parábola, visto ter um sentido iniciático. Ana Mafalda Leite acentua o papel de instância crítica inovadora dessa unidade narrativa e destaca o papel do autor que, através dela, educa o receptor: «A leitura ou audição da parábola requer do auditor uma competência lúdica – narrativa e semântica – e a actividade de leitura / escuta só se realiza se ela é entendida. A parábola tem carácter cultural e público, crítico e subversivo, não é uma prática inocente. Instaura a ficção no texto base em que é inserida e obriga o ouvinte ou a personagem a reflectir sobre uma aprendizagem de sentidos.» (67) A vocação educativa do Fazedor de Rios incide na concretização dos sonhos e na capacidade deles se tornarem reais, a partir das crenças individuais e colectivas. Nhamataca acredita e morre na ilusão de ter alcançado o que aspirava. Mia Couto enfatiza, deste modo, a força das convicções e da esperança, como meio de realização dos desejos. A esperança volta a sentir-se em personagens singulares, como as idosas profanadoras.

Muidinga é atacado, abusado e violentado por este conjunto de mulheres, porque quebrou a tradição e interrompeu uma cerimônia para afastar os gafanhotos das plantações (68). As crenças e as magias ancestrais são sagradas e revelam a memória coletiva do povo, que não cede à inadequação dos dias experimentados. Este ritual anuncia, ainda, que as idosas acreditam que devem manter os seus ritos, ignorar os estranhos poderes estrangeiros e esperar, pacientemente, pelo respeito das culturas autóctones. A esperança, assim, permanece. O Pastor é uma figura que se adapta ao contexto moçambicano de um modo diverso.

Não tem grandes ambições como alcançar a imortalidade ou encontrar água, mas refugia-se na simplicidade de contar uma história. Encontra Muidinga no pântano, onde este viaja com o tio, e atrai-o com o som da xigovia, para depois lhe contar um maravilhoso e triste caso de amor, ocorrido entre o maior dos seus bois e uma garça. Apercebendo-se que o animal do rebanho andava distraído, só e melancólico, começou a espiá-lo e notou que contemplava assiduamente uma garça a voar no céu. Para seu espanto, começou a assistir à metamorfose do animal na dita ave, em noites de lua cheia, e ao namoro entre os dois pássaros, enquanto o sol não nascia. Todavia a lua deixou de aparecer durante muito tempo e o boi acabou por morrer, com lágrimas de dor nos olhos e uma saudade intensa no coração.

Muidinga fica muito agradecido por o pastor ter partilhado com ele aquela estória, capaz de realçar os mais belos sentimentos. De novo, o mundo do maravilhoso contribui para suavizar a existência e, mais uma vez, a tradição oral demonstra o caminho para cosmos mágicos.

As duas personagens que mais sonham são Tuahir e Muidinga. Todas as noites, o velho pede ao jovem para lhe ler mais um pouco dos cadernos de Kindzu e assim ambos são transportados para um universo irreal, abandonando a existência física marcada pela dor. Mas esta busca de mundos possíveis não se limita aos textos de Kindzu ou à acção de outras personagens, porque os dois habitantes do machimbombo conseguem, igualmente, criar sozinhos um todo de fantasia e evasão. É o que se verifica quando Tuahir afaga Muidinga e manda-o pensar em mulheres, para se ir iniciando na sexualidade, ou quando os dois simulam estar numa estação de comboios, o velho com a bandeira e a lâmpada, a controlar as passagens, e o jovem a aguardar a chegada das carruagens.

O desejo de evasão, inerente a todas as personagens do romance, avulta-se quando os protagonistas resolvem brincar ao “faz de conta”. Estas duas figuras não foram escolhidas em vão, pelo autor, visto que simbolizam as classes etárias que mais sofrem em períodos de conflito armado: as crianças e os velhos. Também são estes grupos que conseguem, com maior facilidade, criar outras realidades e transportar-se para um mundo maravilhoso. Por isso é que Muidinga e Tuahir resolvem, em determinado momento, fingir que são filho e pai, unidos por laços familiares verdadeiros. Um vestirá a pele de Kindzu e outro de Taímo. Procuram, desta forma, colmatar carências afectivas. Mas o jogo não corre sempre bem, porque o velho pede apoio ao jovem e o menino sente uma grande revolta por ver os valores invertidos. Sente que não devia ser ele a cuidar do pai, mas sim o contrário, e sofre por não poder gozar o estatuto de criança, tendo sido transportado para a idade adulta precocemente: «O miúdo lhe cobre com seu corpo. E sente pena de si. Como é que ele, tão menino, tão recém-recente, andava cuidando de seu pai? Como é que a sua mão, do tamanho de um beijo, protegia um homem tão volumoso?

(…) Ou seria que apenas depois da infância ele poderia ser criança?» (69) Muidinga acaba por ceder à dor, deixando as lágrimas escorrerem livremente. E é então que algo de novo lhe surge diante dos olhos. O pai de fingimento protege-o e apoia-o, fazendo desaparecer as mágoas. Transforma-se num menino: dá cambalhotas e brinca. Muidinga ri, depois de muito tempo, e percebe quais os maiores ensinamentos que Tuahir lhe poderá dar: ser criança e sonhar. A temática da infância é comum na literatura e pode, neste caso, ser relacionada com a busca da identidade cultural moçambicana. 

O resgate do passado e a busca do autóctone é metaforizado, desta forma, na simplicidade das crianças. Elas são as maiores vítimas da guerra, mas é nelas que a esperança se concentra. Com a conjugação da inovação e do genuíno, que a infância simboliza, encarna-se a possibilidade de uma sociedade justa e o advento de um novo tempo. A escolha de Muidinga, para símbolo da identidade moçambicana, reitera, precisamente, as enunciações anteriores.

É graças ao sonho que os dois habitantes do machimbombo se aproximam do destino final. A paisagem em frente ao autocarro continua a mudar, a terra continua a viagem em busca da libertação e aproxima um pântano dos dois protagonistas. Quando o vislumbram, Tuahir e Muidinga resolvem abandonar a habitação dos últimos tempos e procurar o mar. Esperam encontrar naquela imensidão uma maior razão para a existência. Em terra já não havia nada.

Porém, a caminhada no pântano é dolorosa e os mosquitos atacam-nos ferozmente. Tuahir adoece, provavelmente com malária, e começa a ouvir aves a agourarem a sua morte. Apesar desse aspecto, ainda encontra forças para fazer uma jangada e prosseguir em busca do mar. É lá que quer ser enterrado, nas águas tumultuosas, tal como Tahimo.

A situação do velho deixa Muidinga a viver um conflito interior. Por um lado sofre porque ao perder o amigo, perderá tudo: «À medida que a jangada avança no mangal o miúdo vai medindo o quanto afecto guarda por aquele homem. No fundo, o velho foi toda a sua família, toda a sua humanidade.» (71) e, por outro lado, receia aproximar-se dele porque tem medo da morte e do seu poder. Receia ser contaminado pelo fim. Muidinga ainda é novo, é uma criança com a vida toda pela frente e, apesar de amar intensamente o tio e de estar inserido numa realidade castrante, sente que se encontra no início e que deve agarrar a existência; para ele, há possibilidade de encontrar um futuro. Por isso é que o som da xigovia se faz sentir enquanto está confuso: para incutir esperança.

Tuahir morre no décimo primeiro capítulo de Terra Sonâmbula, depois de terem chegado à praia e de verem o mar. Mas, antes, pede a Muidinga para o deitar numa canoa e o empurrar pela água, de forma a falecer sem ver terra. Este elemento natural desiludiu-o em vida e quer deixá-lo na morte. O miúdo faz-lhe a vontade e nota, com espanto, que o concho onde vai deitar o idoso se chama Taímo, o nome do pai de Kindzu e o nome da canoa onde o aventureiro viajou.

As estórias fundem-se mais uma vez e indiciam o final. Com Tuahir deitado na embarcação, os dois aguardam a subida da maré, acompanhados pelo piar das gaivotas, pela serenidade do mar e pelas lágrimas de Muidinga. E, quando a água se aproxima, inicia-se a última leitura dos cadernos de Kindzu: «As ondas vão subindo a duna e rodeiam a canoa. A voz do miúdo quase não se escuta, abafada pelo requebrar das vagas. Tuahir está deitado, olhando a água a chegar. Agora, já o barquinho balouça. Aos poucos se vai tornando leve como mulher ao sabor de carícia e se solta do colo da terra, já livre, navegável. Começa então a viagem de Tuahir para um mar cheio de infinitas fantasias. Nas ondas estão escritas mil estórias, dessas de embalar as crianças do inteiro mundo.» (72) É, desta forma, que os dois heróis se despedem: com o sonho que Kindzu transporta até eles e com estórias de embalar, como a que Tuahir ensinou a Muidinga. O final desta personagem enquadra-se numa vertente simbólica específica, já que o seu fim representa o início. É com a sua morte que se vão implantar novos tempos e se iniciará o processo de paz.

E, mais importante, é no momento da sua morte que Muidinga se conhece. No último caderno de Kindzu, ele descobrirá que é Gaspar, filho de Farida e de Romão Pinto, e uma nova etapa se abre para ele, tal como se antevê uma nova fase para o país africano. Deste conjunto de circunstâncias, podemos concluir que Muidinga representa uma nação moçambicana sofredora e perdida, enquanto que Gaspar simboliza um país novo e mais forte, onde o saber do passado se conjugará aos conhecimentos do presente, para a construção de um futuro melhor.

Na obra, a noção de tempo está sempre presente. No entanto, esse tempo não está estruturado em momentos fisicamente bem delineados. O que se opõe é o tempo do sonho e da realidade, o tempo da identidade e da alteridade, o tempo colonial e o tempo pós-colonial… Isto implica a consciência de uma nova época e de um novo momento nacional. Depois da independência, a literatura moçambicana começa a afirmar-se em termos estéticos e sociológicos. Inocência Mata sintetiza os caracteres fundamentais desta consolidação das literaturas africanas em Língua Portuguesa.

A análise do romance Terra Sonâmbula não é simples. Depois de uma leitura superficial, a estória surge de uma forma belíssima e promove o conflito entre sentimentos antagônicos dentro do leitor. No entanto, a mensagem principal está escrita nas entrelinhas e compreende-se de modo conotativo. E essa mensagem é de esperança e de sonho. As personagens só conseguem sobreviver porque se entregam a um mundo de fantasia e de irrealidade, que lhes permite não enlouquecer ou morrer de dor. Mas, o sonho não basta. É imprescindível que se reúna a força dessa fé e dessa esperança, para se alcançar a totalidade. E o elemento que desencadeia essa acção é a terra. É ela que passeia durante a noite e recolhe aquilo que os homens ainda têm de bom dentro de si. É ela a responsável pela paz que se antevê no final do romance e é ela, nos seus passeios nocturnos, que permitirá o reencontro de Moçambique consigo. A nação moçambicana é ainda uma Terra Sonâmbula.

O fio das missangas

O fio das missangas, de Mia Couto, lançado em 2009, é um dos títulos mais recentes do contista e romancista moçambicano. Nos 29 contos reunidos nesta obra o autor se apropria da escrita para criar singelos pedaços de vida. Os habituais neologismos de obras como Terra Sonâmbula e O Outro Pé da Sereia agora são empregados como instrumento de interpretação. É preciso abstrair o sentido puro da palavra e mergulhar no simbolismo para sorver os muitos significados de, por exemplo, “A Saia Almarrotada”, ou “Mana Celulina, a Esferográvida”. Couto faz música com diálogos e em textos breves condensa a alma de seu país. 

 

 

Nessa obra, boa parte das narrativas focaliza personagens femininas, sendo elas adultas ou não. Chama a atenção a recorrência do modo como as mulheres são tratadas pelos homens com os quais se relacionam, sejam eles companheiros, pais, irmãos ou tios; de um modo geral, o que se percebe é que as personagens femininas passam por um processo de apagamento, nas relações cotidianas com seus parceiros, o que contribui para minar a auto-estima delas. A auto-estima, por sua vez, na concepção da personagem, parece ser recuperada através do ato de narrar, ou mais especificamente, através da narrativa escrita, uma vez que, por esta via, elas manifestariam toda sua revolta e indignação em relação aos lugares que ocupam.

 

A brevidade das pequenas tramas e sua aparente desimportância épica estão focadas na contemplação de situações, de personagens, ou de simples estados de espírito plenos de significados implícitos, procedimento típico da poesia. Os neologismos do autor, a que os leitores já se habituaram, para além de mera experimentação formalista revelam-se chaves fundamentais de interpretação da leitura. Não por acaso, a maioria dos contos de O fio das missangas adentram, como já citado, com fina sensibilidade o universo feminino, dando voz e tessitura a almas condenadas à não-existência, ao esquecimento. Como objetos descartados, uma vez esgotado seu valor de uso, as mulheres são aqui equiparadas ora a uma saia velha, ora a um cesto de comida, ora, justamente, a um fio de missangas. “Agora, estou sentada olhando a saia rodada, a saia amarfanhosa, almarrotada. E parece que me sento sobre a minha própria vida”, diz a narradora de uma dessas belíssimas “missangas” literárias.

 

A prosa poética de Mia Couto sempre é relacionada a Guimarães Rosa. O próprio Mia confirma a influência do brasileiro, mas nem precisava, pois os belos neologismos que ele cria em suas histórias e o molejo da língua portuguesa na sua terra reforçam esse vínculo. Há também semelhanças entre Mia Couto e o poeta Manoel de Barros. Moçambique está para Mia do jeito que o pantanal mato-grossense está Manoel. E ambos brincam e reconstroem o idioma de modo parecido: transformam substantivo em verbo, misturam palavras, ampliam seus significados a partir das experiências dos seus povos. O moçambicano em prosa, o brasileiro em versos.

 

As primeiras histórias de O fio das missangas são um tanto melancólicas. A dor e o sofrimento dos personagens estão em primeiro plano, transbordam das páginas do volume e tocam o coração de quem lê. A tristeza toma conta, assim como a certeza de que o autor é um baita contador de histórias.

 

O livro dá um salto no nono dos 29 contos, “A Despedideira”, a história em primeira pessoa de uma mulher que refaz a despedida do seu homem. 

 

O conto “A saia almarrotada” narra a trajetória de opressão de uma mulher, anônima, e os mecanismos utilizados por ela em sua tentativa de libertação. Narrado em primeira pessoa, o texto atua como um testemunho da condição feminina, marginal e discriminada, assinalando a exclusão da personagem em relação ao seu grupo social.

 

Em “O mendigo Sexta-Feira jogando no Mundial” e “O novo padre”, o autor deixa bem claro de que lado ele está na luta do dia-a-dia para se fazer justiça. É para ninguém ter dúvidas de que, depois de ter participado da guerra pela independência contra Portugal, sua sensibilidade continua empenhada para melhorar as coisas no seu país.

 

Na história “O menino que escrevia versos”, o uso que ele faz de um dos personagens, o médico, é outro do talento narrativo desse sujeito. 

 

No conto “Os machos lacrimosos”, a partir de uma alegre confraria de homens que bebem e se divertem num bar num local chamado Matakuane – mas que poderia ser em qualquer local do mundo -, ele põe o dedo na ferida dos valores do universo masculino. É quando se entende a razão dele tentar nos fazer chorar nos primeiros contos. Esse conto serviu de chave para abrir outra porta de sua literatura. Nesta obra Mia Couto é universal, pois suas histórias estão centradas nas dores, desejos e fantasias de todos os homens. Elas se passam em aldeias ou cidades africanas, mas poderiam acontecer em qualquer bairro de qualquer cidade de qualquer país de qualquer planeta onde exista seres humanos.

 

“A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas as missangas.” É assim que o donjuanesco personagem do conto “O fio e as missangas” define a sua existência. Fazendo jus a essa delicada metáfora, cada uma das histórias aqui agrupadas alia sua carga poética singular à forma abrangente do livro como um todo – vale dizer, ao colar em questão. Com um texto de intensidade ficcional e condensação formal raras na literatura contemporânea, Mia Couto demora-se em lirismos que a sua maestria de ourives da língua consegue extrair de uma escrita simples, calcada em grande parte na fala do homem da sua terra, Moçambique, um pouco à maneira de Guimarães Rosa, ídolo confesso do autor, como já citado.