Você está louco

O livro começa meio morno, atualizando o leitor sobre o que fez depois do sucesso estrondoso daquele livro (que depois foi lançado em 134 países com o título de “Maverick”).

A coisa começa a ficar legal lá pelo meio, quando o Ricardo decide refazer a rota da seda de Marco Polo, levando junto Sofia, a sua mulher. Ocorre, para quem não está ligando o nome à pessoa, que a rota passa por lugares exóticos, como a Mongólia, Tibete, e outros bem perigosos, como o Afeganistão. Até num avião fretado para terroristas xiitas o moço viajou!

Tem também um acampamento na subida do monte Kantchenjunga, a 6.500 metros, onde ele teve um princípio de edema cerebral por causa da altitude. A gente pode ainda acompanhar detalhes do acidente de carro onde nosso herói quebrou todos os ossos do rosto (seis placas de titânio e 26 pinos).

O cara é realmente muito especial. Nasceu em berço de ouro, mas soube aproveitar muito bem as oportunidades, não só para crescer e evoluir, como para usar essa usina da mudança que mora dentro dele para projetos originais e muito ousados. A impressão que se tem é quando ele encasqueta que vai se meter em um projeto, estuda o assunto até a exaustão. Foi assim quando resolveu que poderia contribuir com a prefeitura de São Paulo com seus conceitos administrativos de gestão democrática. Ficou nada menos que 2 anos estudando detalhadamente cada pedacinho da cidade e liderando uma comissão de notáveis para encontrar as melhores soluções junto com os moradores. A idéia era se candidatar a prefeito, mas as suas idéias acabavam com cargos comissionados e currais eleitorais, de modo que ele teve que desistir da candidatura, pois nenhum partido quis bancar a insolência.
Em outra oportunidade, o homem decidiu que queria escrever uma peça de teatro. Ele então resolveu aprender mais sobre o assunto e assistiu nada menos que 186 peças teatrais em 3 anos, com o texto dos autores nas mãos. Escreveu a dele, convenceu o Raul Cortez a estrelá-la e ficou um ano em cartaz, com casa lotada.

Depois foi a vez de criar um novo sistema de ensino (ele não estava satisfeito com os existentes e queria uma coisa nova para o filho dele). Estou todas as teorias e educadores, visitou escolas mundo afora, consultou especialistas e fundou o Instituto Lumiar em parceria com escolas públicas. Parece que a coisa vai de vento em popa (fiquei morrendo de vontade de estudar lá).
Cismou de investigar o que o Brasil quer ser quando crescer e construir uma célula desse país do futuro em Campos do Jordão, com a gestão participativa dos moradores do bairro que serviria como piloto. A fundação que ele criou comprou um terrenão na área e está construindo um hotel modelo (gestão e atendimento para lá de inovadores), um jardim botânico, um instituto de pesquisa e uma escola. Tudo para desenvolver a região com a participação (inclusive nos resultados financeiros) de todos os moradores. E ele não pára: criou o Instituto DNA Brasil, para pensar o país a longo prazo e propor idéias originais, para, por exemplo, acabar com a corrupção. Ele e um grupo de gente igualmente idealista bolou uma entidade que congregaria engenheiros e funcionários públicos aposentados que calculariam o custo correto de cada obra, o que facilitaria em muito a fiscalização dos superfaturamentos.

O interessante é que, em vez de um livro de auto-ajuda cheio de mensagens (que eu detesto), a prosa é fácil e direta, e não cai em tentação mesmo nas divagações mais filosóficas. Olha só que sacada: ele apresenta aqui a teoria do parâmetro vitruviano. Ele diz que, assim como existe uma proporção áurea para as coisas da natureza (no corpo humano está representada pela ilustração do homem vitruviano, de Da Vinci), o ser humano também só consegue ser feliz se adquirir riqueza nas proporções certas. De que adianta ter 24 casas se você não consegue frequentá-las todas se sentindo em um lar? De que adianta ter 12 Ferrari na garagem se você só consegue andar com uma de cada vez? E ser rico o suficiente para poder fazer 57 refeições por dia, serve para alguma coisa? Acumular montanhas de dinheiro e doar para campanhas etéreas contra a fome no mundo só para aplacar a sua culpa de ter tanto, muda alguma coisa?

Há muitas e originais teorias e concepções (tem uma sugestão muito legal para as companhias aéreas, que, segundo ele, antingiram o que era considerado impossível: 100 % dos envolvidos perdem e são infelizes — de acionistas a passageiros, passando por funcionários, fornecedores e até controladores de vôo, basta olharmos o recente acidente aéreo com o avião da Gol).
O cara vai direto ao ponto. Além disso, é pretensioso, dá um monte de bolas fora e não perde a pose. Mas derruba as platitudes com a elegância de quem tem uma alternativa concreta a apresentar. Inspirador mesmo.
Certamente isso nos leva a várias reflexões e passamos a acreditar que afinal, graças a pessoas com a visão de Ricardo Semler, o mundo não está tão perdido quanto dizem.