Minha vida de menina

“Uma vez uma porção de meninas fizeram a primeira comunhão como vocês vão fazer hoje. Receberam a sua hóstia e foram contritas para os seus lugares; nesse momento uma delas caiu para trás e morreu. O padre disse à mãe da menina: ‘Foi Deus que a levou para a sua glória!’. Todas as outras invejavam a companheira na graça de Deus. Nisto, o que foi que elas viram? O capeta arrastando por detrás do altar o corpo da desgraçadinha. Sabem por quê? Porque a menina escondeu um pecado no confessionário.”

O DIÁRIO DE UMA ADOLESCENTE

Cid Ottoni Bylaardt, professor do Pré-Vestibular Pitágoras

O livro Minha vida de menina, de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, tem uma gênese peculiar. Ele teria sido composto de várias passagens do diário de uma adolescente escrito entre os anos de 1893 e 1895, quando ela tinha de 13 a 15 anos de idade. Depois de muitas décadas guardados e esquecidos, os escritos foram reunidos e selecionados pela autora e publicados em 1942, para mostrar “às meninas de hoje a diferença entre a vida atual e a existência simples que levávamos naquela época”.
Há quem possa duvidar da autenticidade dos manuscritos. Não é de todo impossível que o diário tenha sido escrito muitos anos depois da época retratada, ou ainda não é inadmissível que tenha sido dado algum trato literário de proposital despojamento aos escritos da menina, pelas mãos de escritores modernistas mineiros. Unicamente a revelação pública dos manuscritos poderia deslindar o mistério.

AS PALAVRAS E AS COISAS

Seja como for, é inquestionável a qualidade literária dos escritos. Sua prosa coloquial possui o tom da franqueza, a linguagem é desataviada, próxima do concreto do dia-a-dia da autora, e de seu modo de vida, ligado às coisas práticas, aos prazeres sensíveis e percepções imediatas. Escrever é para a garota ser fiel à realidade dos acontecimentos, e a ausência deles é um estorvo para a realização lingüística, conforme ela observa em determinada passagem: “Eu estava com a pena na mão pensando o que havia de escrever, pois há dias não acontece nada”. A hesitação é quebrada por um providencial enterro que passa à porta de sua casa, e lhe proporciona o ingrediente necessário para o exercício da redação: “Fiquei contente porque achei um assunto”.
Helena acha que o pai tinha razão quando aconselhou-a a escrever diariamente o que lhe acontecia, porque há casos que, de tão engraçados, tinham mesmo é que ficar registrados no papel, pois a memória um dia os esqueceria. É o caso do maior bebedor da cidade, “nosso pobre professor Seu Leivas que em todas as festas acaba sempre bicudo”, que no aniversário de Siá Aninha, encheu as bochechas de cerveja e esguichou-a pelas narinas sobre a comidaria que estava em cima da mesa.
É evidente a necessidade de alimentar as narrativas e reflexões com produtos reais. Até o inverossímil cria contornos de realidade, como o caso do ladrão que não se podia prender porque ele se metamorfoseava em cadeira, ou em vassoura, ou, no mato, em cupim. O absurdo da situação poderia até passar por verídico se não contradissesse a lógica da menina: se se prender o cupim na cadeia, o ladrão não estará lá ao reverter à forma humana?
Com as histórias que ouve, a expectativa de Helena não é muito diferente. Há que ter lógica e realidade. Grande contadeira de histórias é a negra Reginalda. Certa noite, ela começou a contar histórias, e os ouvintes pediam sempre mais, até que ela esgotou seu estoque de casos, e teve que inventar alguma coisa. Helena e o primo Leontino perceberam na hora que o caso era inventado e se retiraram decepcionados. Suas histórias preferidas são as do tempo antigo, principalmente as dos casamentos de suas tias. Acha repetitivas e sem graça as histórias do pai.

Até o inverossímil cria contornos de realidade, como o caso do ladrão que não se podia prender porque ele se metamorfoseava em cadeira, ou em vassoura, ou, no mato, em cupim.

A arte narrativa é entendida como reprodução do mundo e seus valores. Ou representação, como no teatro dos fantoches, cujo encanto reside no fato de parecerem com gente.
O diário não serve apenas para se registrarem os acontecimentos quando eles acontecem. Há as digressões, como a lembrança do ano da fome, quando Helena era muito menina. A auto-confiança da diarista é tanta que ela afirma que certamente não teriam passado tantas dificuldades se ela fosse na época “maior ou mais esperta como hoje”.
Para Helena, os mecanismos do mundo têm de ser bem explicados para que eles possam ter valor. É o que ocorre, por exemplo, com a superstição, de que a Diamantina daquela época era plena. Helena sofria desde menina com a superstição do povo, e na adolescência duvida dela. Treze pessoas na mesa e espelho quebrado dão azar, pentear cabelo de noite manda a mãe para o inferno, varrer a casa de noite faz a vida desandar, e muitas outras crenças deixam Helena incrédula. Uma superstição em que ela acredita, porque tem lógica, e funciona por estar ligada à realidade, é a de que jogar sal no fogo faz com que uma visita indesejada vá embora. Como as visitas conhecem as crenças, elas ouvem o sal estalando no fogo e percebem que estão sobrando, e resolvem ir embora.
Quanto ao pensamento, Helena percebe que, quanto menos as pessoas pensam, menos sofrem: “A gente faz tudo sem pensar, graças a Deus”. Ela, entretanto, se considera a pessoa que mais raciocina na família, e declara que desde os dez anos ela pensa, reflete e tira conclusões, o que não ocorre com os parentes de sua mãe, que não refletem sobre as coisas e acabam acreditando em tudo o que lhes é dito: “São todos felizes assim!”.
Apesar de tanto pragmatismo, Helena também tem seus momentos de devaneios. “Fazer castelos” é para ela um exercício de irrealidade que provoca prazer, mas não tem nenhum efeito prático sobre sua rotina; eles se bastam por si mesmos: “Adoro fazer castelos e cada dia faço um mais lindo… Os que tenho feito ultimamente são tão bons, que até gosto de perder o sono só para pensar neles. Não me importo de realizá-los e não penso mesmo nisso. Fazê-los me basta”.
O pensamento lógico de Helena está relacionado a sua visão pragmática do mundo, o que acentua sua postura questionadora. Um exemplo é a vida de sofrimentos, que engrandece e glorifica, a qual a tradição judaico-cristã prescreve para os homens, mas a lógica da menina não quer aceitar essa situação: “Mas eu é que não serei tola de fazer de uma vida tão boa uma vida de sofrimentos”.
A lógica questionadora também funciona para os “conselhos médicos” que a tradição perpetuou. A mãe a proíbe de entrar na água após o almoço, porque faz mal. O mal é meio misterioso, pois ninguém sabe explicar em que ele consiste. Por que então o mal não ocorre com os mineiros, que ficam dentro d’água o dia inteiro procurando diamantes? A resposta é que eles estão acostumados; por outro lado, ninguém deixa os jovens acostumarem também. Conclusão: os adultos não têm lógica, apenas repetem coisas que lhes falam e as aceitam como verdade inquestionável, o que não combina com o espírito investigador de Helena.
O caso do menino que ficou cego por desleixo do pai ilustra como as explicações pouco convincentes para o sofrimento, relacionados à vontade de Deus, são também objeto de questionamento. Helena se sente infeliz com a condição do menino, e é consolada pela mãe: “Não sofra assim, minha filha, Deus sabe o que faz. Quem sabe se Deus não quer fazer desse menino um santo para Sua glória? Deus nunca erra, minha filha! Ele sempre sabe o que faz!”. Apesar de se sentir um pouco confortada com as palavras da mãe, a lógica da menina não permite que essa fala seja definitiva: “Estas palavras aliviaram-me um pouco, apesar de eu não compreender para que Deus queria santo cego. Podia tanto deixá-lo com vista e fazê-lo santo enxergando”.

O UNIVERSO SOCIAL DE HELENA

Diamantina, cidade situada a 280 km. ao norte de Belo Horizonte, a 1.262 m. de altitude, teve seu esplendor como região produtora de diamante no século XVIII. Ao final do século XIX, período em que teriam sido feitas as anotações de Helena Morley, a cidade já via escassear a preciosa pedra que lhe fizera a riqueza passada (e, naturalmente, a da corte portuguesa), e começava a presenciar uma nova relação entre as classes sociais, com a escravidão recém-abolida. A transição do quadro econômico-social completa-se com a mudança política, com o advento da república.
O universo social de Helena Morley não se restringe à família e aos parentes. Ela compõe um quadro reflexivo de toda a sociedade de seu tempo, que inclui a convivência com ricos, pobres, escravos, crianças e bichos.
A avó, dona Teodora, é para a menina a melhor pessoa do mundo, em contraste com os filhos (seus tios e tias), que são invejosos e egoístas. Não por acaso, ela é a netinha preferida de dona Teodora, que a adula sempre. Há um certo incômodo da menina com a preferência da avó por ela, porque a repercussão entre os primos e tias não é muito boa. Dos tios da família da mãe, apenas tia Agostinha, além da avó, gosta de Helena. O pai da menina é uma pessoa correta, calma, ponderada, e é visto às vezes pela esposa como tolo, com o que a avó não concorda: “Não é bobo não. Seu pai é muito bom e bem-educado. Ela é que é muito malcriada”. Ela, no caso, é Carolina, a mãe de Helena.
Tio Conrado e tia Aurélia são os parentes de posses, cheios de regras. Há uma compensação nas festas ou passeios que eles promovem: a abundância de coisas gostosas. No mais, há tanto patrulhamento que as diversões são as mais sem graça. As proibições são gerais: nada de subir em árvores, andar pelo rio, catar gabiroba. Os tios e os primos são tão educados que eles não conseguem nem pescar peixes ou capturar passarinhos. Helena tem uma explicação surpreendente para isso: “Eu penso que Deus castiga gente educada”. É a visão da menina de que Deus não pode concordar com tão mesquinho modo de vida. Assim é a festa de S. João no tio Conrado: não são permitidas, ou ocorrem sob severa fiscalização, brincadeiras típicas do evento, como soltar fogos, pular fogueira, assar cana ou batata-doce.

Os tios e os primos são tão educados que eles não conseguem nem pescar peixes ou capturar passarinhos. Helena tem uma explicação surpreendente para isso: “Eu penso que Deus castiga gente educada”.

Entretanto, ela surpreende mais uma vez dizendo-se invejosa (mas sem muita certeza) do fato de os primos terem que estudar após a festa, para desmentir o sentimento concluindo que se sua mãe fizesse o mesmo com ela, ela seria uma boa aluna. “Mas felizmente ela não se lembra disso”, completa a garota. Felizmente por não ter de estudar após a festa ou por não ser uma boa aluna? Talvez pelas duas coisas. Os primos são estudiosos e provocam admiração das pessoas, mas Helena não quer viver aprisionada como eles. O fato de cada família ser como é tem uma explicação lógica, que afasta a possibilidade indesejável de mudança: o tio é comerciante, pode olhar os filhos; o pai dela vive na lavra, por isso os filhos têm de ser necessariamente mais largados. Felizmente para ela.
O mesmo raciocínio se aplica à bondade das pessoas. Helena declara-se admiradora e invejosa das pessoas boas e santas, mas vai permanecer como é porque não pode deixar de ser o que é. A lógica da existência tem seu lado cômodo. Chininha é um exemplo de menina levada que voltou “santinha” do colégio, e ostentava sua santidade fingida para ser elogiada pelos adultos, o que incomodava Helena tremendamente. A hipocrisia da prima leva Helena a cometer uma infração. As infrações fazem parte da vida, mas podem ser justificadas e até perdoadas, como no caso do jejum forçado, que a menina não conseguiu manter. Ao final ela tem o apoio da avó, e assim triunfa sobre a prima. A própria avó relativiza o efeito das infrações, e as considera até necessárias em alguns casos, para evitar piores malefícios, como quando escondia as coisas do marido para evitar-lhe aborrecimentos.
Em alguns momentos as infrações adquirem um verniz perverso, como aconteceu no aniversário de Helena. Ela convenceu a irmã a gastar as economias para lhe proporcionar um jantar, que traria convidados e, conseqüentemente, presentes, que ao final seriam divididos. A divisão, obviamente, foi injusta para Luisinha, que reclamou frouxamente. A lógica prática de Helena, evidentemente, não permitiu que ela sofresse remorsos, alegando que ela precisava mais do que a irmã de vestidos, lenços, meias etc., porque ela saía muito e a irmã estava sempre em casa.
Tia Madge é representante da tradicional família inglesa, e sempre que pode ensina a sobrinha a se comportar com etiqueta. Helena gosta dela, apesar de sua formalidade, mas não vê muito sentido prático nos ensinamentos dela. Na lição de boas maneiras à mesa, por exemplo, a professora prescreve que, além de não palitar os dentes, não se pode empurrar o prato após a refeição. A pessoa educada deve ficar “agüentando o prato na frente até a criada tirar”. A avó fica exultante com as maravilhas que tia Madge ensina a Helena, e aconselha-a a praticar. Pela lógica da menina, vai ser um pouco difícil praticar isso, já que na casa dela não existe criada e ela é que faz o prato no fogão e o lava depois de comer. Etiqueta não é para qualquer um.
A menina mostra um certo determinismo ao avaliar seu próprio desenvolvimento: pouco pode ser mudado, por mais que tia Madge lhe empreste livros e cobre sua leitura, como A força de vontade e O caráter, de Samuel Smiles. Para ela, seu caráter, bondade, vontade ou o que seja não mudaram em nada com as leituras. Talvez apenas sua capacidade de economizar e guardar tenha aumentado, mas não necessariamente por causa dos livros.
Uma peculiaridade das mulheres da família Morley são os frouxos de riso. A intenção talvez não seja exatamente destilar o sarcasmo sobre as vítimas, mas rir da própria vida, ou do estranhamento que certas situações provocam, como no acontecido na casa de dona Mariquinha, que dizia ter uma sobrinha, ausente no momento, parecidíssima com a Luisinha, irmã de Helena. O fato franqueava a elas o pomar da residência: “Nós íamos aproveitando a parecença e comendo as frutas”. No dia do encontro das “sósias”, o grotesco da situação disparou nelas a máquina do riso, criando um constrangimento que terminou com a amizade entre as famílias. No affair Quitinha/Luisinha, o benefício da manutenção da amizade e do obséquio não justifica não rir, pois, afinal de contas, a fartura da natureza acaba contrabalançando as carências. O riso espanta também o hóspede estranho e calado, estraga a visita de pêsames, acentua a timidez do irmão Renato. Difícil é ficar sem rir, porque “riso comprimido deve fazer mal”. A única maneira de não rir, quando a situação não o permite, é pensar em coisas tristes, como a mãe de perna quebrada ou a irmã num caixão.

O PRAGMATISMO DA MENINA

Embora a família de Helena pareça ser feliz, é marcada, na visão da menina, pela falta de sorte ou incompetência nos negócios e atividades de sobrevivência, a começar pelo início da carreira de minerador do pai, em que ele perdeu uma sociedade com o cunhado por interferência da mulher, que recebeu um “sinal” de Santo Antônio. O santo se enganou e a lavra produziu grande quantidade de diamante, enriquecendo tio Geraldo.
Todos os negócios que a família inicia — com exceção da lavra de diamantes, que dá alguma coisa — fracassam: a venda administrada por seu Zeca, as quitandas de dona Carolina, as verduras da horta
Helena sabe que é vista pelos adultos em geral, principalmente os que não gostam de seu jeito atrevido, como uma menina “impaciente, rebelde, respondona, passeadeira, incapaz de obedecer”. Possui uma inteligência inquieta, mesmo os “inimigos” reconhecem sua vivacidade. Personalidade agitada, não entende a mania de sossego que os outros têm: “Eu acho engraçado na nossa família a mania de sossego que todos têm. Meu pai, vovó e todos só pedem a Deus sossego.”

Helena sabe que é vista pelos adultos em geral, principalmente os que não gostam de seu jeito atrevido, como uma menina “impaciente, rebelde, respondona, passeadeira, incapaz de obedecer”.

Helena demonstra ser uma pessoa de bons sentimentos em geral, mas se decepciona quando o que constata nas pessoas foge de sua expectativa. É o caso das irmãs Correias, de quem ela gostava, e a quem encontrou a enforcar um gato que havia furtado a carne. O mesmo ocorreu com a Isabelinha, que cobrava para ensinar a fazer flores e fazia de tudo para os alunos não aprenderem para não fazerem concorrência a ela. Ou a decepção por não ter recebido, na procissão, o cartucho de “manuscritos”(confeitos de cacau) das mãos de Seu Broa. As decepções a ensinam a ter paciência e a conviver com a falsidade das pessoas.
É interessante observar as inversões freqüentes que a autora faz das categorias normalmente conhecidas como bom e ruim, certo e errado, rico e pobre etc. Num dos episódios do livro, Helena fala dos comentários maldosos sobre sua conduta por ocasião da morte de uma tia paterna desconhecida e que morava longe. Helena vai a um baile e dança no dia da morte da tia. Para a sociedade, ela estava errada. Para ela, dançar é tão bom, e a tia já estava para morrer há tanto tempo, que não havia motivo para deixar de se divertir por causa de sua morte. Ao final, desfaz-se da culpa demonstrando a certeza de que as pessoas não vão se lembrar de seu procedimento durante muito tempo. Afinal, a tia podia ter morrido um dia depois, para que ela pudesse mostrar seu sentimento. Defunta inconveniente.
As inversões se processam em vários momentos. Na casa da avó, Helena diverte-se muito mais na cozinha junto com os negros e negras do que na sala da sociedade branca. Quanto a tia Madge, ela reconhece que a tia a adora, mas esse gostar não produz felicidade, o interesse da tia por ela é sincero, mas só a faz sofrer. Quando ela furta da gaveta da mãe um broche para vender e mandar fazer um vestido, ela chega a hesitar sobre sua culpa, mas conclui que o ato não configura furto, pois a idéia lhe foi sugerida pela própria Nossa Senhora. Onde a culpa então? Outra inversão é a inveja que diz sentir da pobreza de uma colega de escola, cuja mãe é lenheira e não tem pai, mas mora num lugar idílico, e tem uma vida de liberdade. Em contrapartida, não inveja nem um pouco os primos filhos de tia Aurélia, que, embora ricos, vivem numa prisão.
Tudo o que cerca a menina deve apresentar uma finalidade prática ou proporcionar prazer. É o caso da escola, que representa para ela inicialmente a possibilidade de fazer algum dinheiro e tirar o pai da lavra. Sua intenção era, após formada no curso Normal, “dar escola”, para ganhar dinheiro e melhorar a condição da família. Afinal, quando passa pela experiência de reger uma classe, entra em pânico e retira de sua cabeça qualquer possibilidade de voltar a dar aula. Era melhor continuar pobre para não ter que fazer semelhante sacrifício.
Em relação ao dinheiro, ela não é completamente alheia, mas não acalenta sonhos de riqueza, convivendo bem com o bordão de que “dinheiro não traz felicidade”, repetido pelo pai.
Morte e doença são dois elementos com os quais Helena convive e que não se afiguram muito trágicos para ela, apresentando-se às vezes até bem divertidos, como no caso da mãe que perdeu o filho e, mesmo conformada, insistia em gritar e chorar porque achava muito feio uma mãe não chorar a morte do filho. A doença também pode não estar muito longe da alegria de uma festa, como durante a caxumba de Renato, que faz a casa se encher de gente, tornando o ambiente alegre. Mesmo um caso macabro como a morte dos meninos, queimados pelo incêndio, que Renato pôs em cima da mesa, “torrados como torresmo”, para Helena ver, não é apresentado como algo terrível.
Uma lacuna que chama a atenção no diário de Helena é a da sexualidade. O período que o relato compreende coincide com a época de maior inquietação relacionada à sexualidade na vida de uma adolescente. Deve-se considerar também que o espírito investigativo e questionador de Helena não deixaria de registrar, em condições normais, suas inquietações de moça. Nesse período ela deve ter tido a experiência da menarca, deve ter convivido de alguma forma com o desejo, a masturbação, as confidências com as colegas. Entretanto, sua maior confidente e depositária de seus segredos, a folha de papel, nunca recebeu a menor menção de que o ser humano que se manifestava ali era um ser sexuado.
Há uma breve referência a sua condição feminina quando raciocina que em determinados momentos ser mulher apresenta algumas vantagens práticas sobre ser homem, como o fato de os irmãos terem que levar a besta para o pasto num dia particularmente frio enquanto ela permanece no quente de sua cama. A possibilidade de desenvolver algum tipo de relacionamento com um homem é prontamente rejeitada: “Eu vou dizendo a todas que não quero ter namorado, que não gosto de ninguém e que me deixem em paz”. O amor é regulado pela providência divina, e não deve constituir preocupação dos mortais: “Casamento e mortalha no céu se talha”.

“Meu pai entrou para a Companhia Boa Vista e tudo dos estrangeiros é só com ele, porque é o único que fala inglês e conhece bem as lavras. Agora não vamos sofrer mais faltas, graças a Deus.
Não é mesmo proteção de vovó lá do céu?”

O trabalho é um componente importante na vida de Helena e de sua família. A mãe e o pai transmitem aos filhos, e com bons exemplos pessoais, a necessidade do trabalho, evitando, por isso, ter criados, para que os filhos possam trabalhar. Helena e os irmãos não se queixam do trabalho; ao contrário, ela acha que a suprema infelicidade é uma pessoa não poder, ou não conseguir trabalhar. Trabalhar é ainda melhor do que estudar, no entender da menina.
Religião e reza são vistos pela menina como um componente importante da vida. Rezar pode não dar prazer, mas deixar de rezar provoca dor de consciência. Nas relações com as coisas de Deus, a lógica de Helena também prevalece. O pai, por exemplo, não gosta muito de rezar, mas a menina não vislumbra a possibilidade de ele ir para o inferno, porque senão quase toda a Diamantina teria que ir junto com ele, pois ele é melhor do que todos. “Eu sei que Deus é justo”, afirma ela.
A religião é um misto de beleza, mistério e terror. Deus manda um raio para matar um homem que debocha de sua divindade, o demônio em pessoa desce na igreja para carregar uma estudante que não confessou ao padre todos os pecados, o inferno ronda ostensivamente os pecadores. Por outro lado, os rituais religiosos aparentam grandeza e beleza na impressão da menina: a procissão, a festa do divino, a festa da Igreja do Rosário.
O final dos relatos é marcado pela morte da avó e de uma certa mudança na vida do pai. Dona Teodora havia deixado uma pequena herança, que propiciou ao pai de Helena saldar as dívidas. O pai consegue um emprego estável na Companhia Boa Vista e a vida melhora. A bondade da avó certamente é responsável pela mudança:
“Meu pai entrou para a Companhia Boa Vista e tudo dos estrangeiros é só com ele, porque é o único que fala inglês e conhece bem as lavras. Agora não vamos sofrer mais faltas, graças a Deus.
Não é mesmo proteção de vovó lá do céu?”

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