Fogo Morto

Obra-prima de José Lins do Rego, esse romance regionalista mostra o declínio dos engenhos de cana-de-açúcar nordestinos e traça amplo perfil das figuras decadentes que giravam em torno dessa atividade econômica.

Resumo
Primeira parte: “O mestre José Amaro”
Seleiro renomado da região, Mestre José Amaro vive nas terras pertencentes ao Seu Lula. A dedicação do homem ao ofício consome a saúde, conferindo-lhe um aspecto doentio. Mora inicialmente com a filha Marta, uma solteirona que acaba enlouquecendo, e com a mulher, Sinhá.

José Amaro reside na beira da estrada, localização que favorece o contato com vários personagens que passam pelo caminho. Entre as principais figuras com as quais desenvolve suas conversas estão o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, de quem se apieda pelo modo como é tratado pelo povo da região; o cego Torquato e Alípio, mensageiros do Capitão Antônio Silvino, cangaceiro temido da região. O mestre admira e respeita o cangaceiro, por considerá-lo o vingador dos pobres e explorados.

Em certo momento, Marta tem um forte ataque de convulsão nervosa e José Amaro a espanca no intuito de curá-la. Em virtude de seu semblante doentio e da insônia, que o leva a vagar pelas madrugadas nas ermas estradas da região, José Amaro é amaldiçoado pelo povo, que o acusa de ser um lobisomem. Homem orgulhoso, que sempre se gabava de trabalhar apenas para quem lhe aprouvesse, o mestre se indispõe com o dono da terra em que vivia, de onde acaba sendo expulso.

A tragédia do personagem se completa com a internação da filha, que enlouquece, e com a fuga da mulher, que teme sua figura doentia e vai aos poucos acreditando nas histórias do povo, até enxergar no marido a figura maldita do lobisomem.

Seu fim trágico só será revelado na terceira parte do livro: entregue à própria sorte, José Amaro é preso e humilhado pela tropa do Tenente Maurício, acusado de colaborar com o Capitão Antônio Silvino. Perdido irremediavelmente o orgulho, único bem que possuía, o mestre se suicida.

Segunda parte: “O Engenho do Seu Lula”
Para contar a história do personagem Luís César de Holanda Chacon (Seu Lula), o narrador promove um recuo temporal rumo à época da construção do Engenho de Santa Fé. O fundador do engenho fora o capitão Tomás Cabral de Melo, que chegou à região, um sítio próximo ao engenho Santa Rosa, e criou um dos maiores engenhos do local, conquistando o respeito e a admiração de todos.

Homem sério e trabalhador, o capitão trouxera para a região gado de primeira ordem, escravos e a família. Construído seu imenso patrimônio, faltava a ele uma única realização: casar a filha – que tocava piano e havia estudado no Recife – com um homem digno de sua educação. Rejeitando todos os pretendentes da região, por não terem os requisitos necessários, o capitão começa a se preocupar com a idade da filha e com sua condição de solteira.

É quando chega de Pernambuco o filho de Antônio Chacon, homem de coragem e muito admirado pelo capitão. O nome do rapaz é Luís César de Holanda Chacon. Fino e estudado, é considerado pelo capitão Tomás um ótimo partido para a filha e para suas ambições.

Depois de casado, o capitão percebe que o genro não se interessa pelo trabalho do engenho e passa a considerá-lo um leseira (pessoa tola ou preguiçosa) para os negócios. Após a morte do capitão, essas suspeitas se confirmam. Seu Lula, como passou a ser chamado, mostra-se um senhor de engenho autoritário, que impõe severos castigos aos escravos e lidera sua família e o engenho sem o talento nem o trabalho do capitão Tomás. Dessa forma, o engenho entra em decadência e, após a abolição da escravatura, os escravos debandam e o engenho deixa de produzir açúcar (torna-se “fogo morto”).

Comandando tudo de forma autoritária, Seu Lula proíbe sua filha Neném de namorar um moço de origem humilde e a moça acaba virando motivo de chacota na cidade. Após um ataque epilético, Seu Lula passa a se entregar à religião sob influência do negro Floripes. Por fim, acaba gastando todo o dinheiro que havia recebido de seu sogro como herança. Esta parte do livro se encerra com a famosa frase “Acabara-se o Santa Fé”.

Terceira parte: “O Capitão Vitorino”
Capitão Vitorino é uma personagem que perambula pelas estradas, como um cavaleiro errante, ostentando um poder e uma dignidade que está longe de possuir, sendo uma paródia de Dom Quixote de La Mancha. O capitão vive, assim como Mestre José Amaro e Seu Lula, em uma realidade muito diferente da que tenta aparentar.

Certo dia, o capitão Antônio Silvino invade o engenho Santa Fé após saquear a cidade do Pilar. Ao tentar defender o engenho, Capitão Vitorino é agredido. Porém, ele é salvo com a intervenção de José Paulino. Com a chegada da polícia, todos são presos. Após ser liberado, Vitorino pensa em seguir carreira política na região.

Personagens
Mestre José Amaro: é branco e sente-se orgulhoso por isso. É explorado por seu patrão, mas sabe que não tem outra alternativa. Trabalhador livre, tem coragem e apoio do cangaço.
Seu Lula (Lúis César de Holanda Chacon): preguiçoso e autoritário, acaba perdendo toda a herança que recebeu e arruinando o Engenho Santa Fé. Após perder tudo, refugia-se na religião.
Capitão Vitorino Carneiro da Cunha (Papa-Rabo): é o defensor dos mais pobres e dos oprimidos. Embora plebeu, por ter parentesco com o Coronel José Paulino, diz-se capitão.
Coronel José Paulino: poderoso senhor de engenho.
Sinhá e Marta: respectivamente mulher e filha do Mestre José Amaro.
Amélia: esposa do coronel Lula.
Adriana: esposa do Capitão Vitorino.
Capitão Antônio Silvino: chefe dos jagunços que atemorizam os senhores de engenho e políticos da região, lembra a figura do lendário Lampião.
Tenente Maurício: chefe das tropas do governo, é antagonista do Capitão Antônio Silvino.

Eles não usam black-tie

Primeira peça de Gianfrancesco Guarnieri, Eles não usam black-tie, de 1958, foi encenada pela primeira vez quando o movimento Cinema Novo começava a surgir e a convocar a arte ao neo-realismo. No lugar de cenários pomposos e figurinos luxuosos, ficaram apenas os elementos de cena indispensáveis. Ao invés de personagens ricos e nobres, operários e moradores do morro tomaram o palco. Ali, em plenos anos 50, negros eram cidadãos comuns. Pela primeira vez, os conflitos da realidade brasileira ganhavam espaço na caixa cênica.

Eles não usam black-tie situa-se numa favela, nos anos 50, e tem como tema a greve, e ao lado da greve a peça tem como pano de fundo um debate sobre as grandes verdades eternas, reflexões universais sobre a frágil condição humana, sobre os homens e seus conflitos. É a história de um choque entre pai e filho com posições ideológicas e morais completamente opostas e divergentes, o que, por sinal, dá a tônica dramática ao texto.

O pai, Otávio, é operário de carreira, um sonhador, um idealista, leitor de autores socialistas e, ao mesmo tempo um revolucionário por convicção e consciente de suas lutas. Forte e corajoso entre os seus companheiros, experimentou várias lideranças, algumas prisões, com isso ganha destaque entre os seus transformando-se num dos cabeças do movimento grevista.
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O filho, Tião, em razão das prisões do pai grevista, é criado praticamente, na cidade, longe do morro, com os padrinhos, sem conviver com esse mundo de luta e reivindicação da classe operária. Hoje adulto e morando no morro com os pais, vive um dos maiores conflitos de sua vida. Em primeiro lugar não quer aderir à greve, pois acha que essa é uma luta inglória, sem maiores resultados para a classe. Em segundo lugar pretende se casar com Maria, moça simples, porém determinada e leal ao seu povo, e está esperando um filho seu. Desta forma, Tião está mais preocupado com o seu futuro do que com a luta de seus companheiros, que sonham com melhores salários. Para Tião, greve é algo utópico. Ele não tem tempo para esperar, precisa resolver seus problemas de imediato, ou seja, se casar.

É preciso esclarecer que Tiäo, ao contrário de seu amigo Jesuíno, malandro, fraco e oportunista, é um jovem corajoso, mesmo porque fura a greve sem medo dos companheiros, achando que está agindo corretamente. Por essa atitude, acaba perdendo a amizade de todos de seu grupo, restando apenas um colega da fábrica e João, irmão de Maria, um homem ponderado e maduro capaz de compreender a situação conflitante vivida pelo amigo Tião e ainda apoiar sua irmã neste momento difícil.

Na realidade, Tião não tem medo do confronto com o inimigo. O seu medo é outro, é o grande medo de toda a sociedade, o medo de ser pobre, por isso quer subir na vida e deixar para trás a condição difícil e miserável do morro, que, por sinal, é desafiada cotidianamente pela coragem e bravura de Romana, sua mãe, mulher de pulso e determinação e responsável pelo equilíbrio da casa e da família.

Eles não usam black-tie é um texto político e social, sempre atual no qual Gianfracesco Guarnieri criou de um lado, personagens marcantes e populares como Terezinha, Chiquinho, Dalvinha e Jesuíno que nos revelam um mundo alegre, descontraído e aparentemente feliz. Já por outro lado a peça se apresenta forte e densa revelando de maneira real os conflitos que atormentam personagens como Otávio, Romana, Tião, Maria e Bráulio. São tais encontros e são esses momentos alegres e comoventes , que nos provocam o riso e a dor, alegria e tristeza. Assim, se por um lado mostra um olhar profundo dentro da sociedade brasileira, por outro esse olhar vem embalado por um valor poético materializado na visão romântica do mundo de seus personagens.

Embora, na convencional teoria de dramaturgia teatral não se enquadre essa abordagem, o drama social é de natureza épica e por isso mesmo uma contradição em si mesma. Aqui, novamente Guarnieri quebrou também outra regra essencial, presente nos manuais do “bom drama”: ao invés de trazer personagens “superiores” como protagonistas, ele se utilizou de gente humilde, trabalhadores comuns, para conduzir sua história. Mesmo as mais simples metáforas, foram pinçadas nos mais básicos valores de nossa cultura popular, como por exemplo, na metáfora do amor, o feijão, prato massivo na América do Sul, teria um “coração de mãe”.

A temática não é política, muito menos panfletária. O que discorre são relações de amor, solidariedade e esperança diante dos percalços de uma vida miserável. Assim, a peça alia temas como greve e vida operária com preocupações e reflexões universais do ser humano. Sob o olhar de Karl Marx, em um retrato iluminado por um feixe de luz na parede do cenário, o debate entre a coletividade e o individualismo, simultaneamente cru e sensível, vai crescendo.

Eles não usam black-tie é um marco do teatro de temática social.

Foi com a encenação de Eles não usam black-tie, que se iniciou uma produção sistemática e crítica de textos dispostos a representar as classes subalternas, com ênfase para a representação do proletariado. Nesse sentido, a peça de Guarnieri insere-se num quadro que se ampliou a partir da década de 1950, quando surgiu uma dramaturgia com preocupações ligadas à representação de uma camada específica da sociedade brasileira e, para além disso, em busca da construção de uma identidade nacional pautada em variedades culturais internas.

Clara dos Anjos

Concluído em 1922, ano da morte de Lima Barreto, o romance Clara dos Anjos é uma denúncia áspera do preconceito racial e social, vivenciado por uma jovem mulher do subúrbio carioca.

O grande historiador e crítico literário Sérgio Buarque de Holanda, já apontava, escrevendo sobre Clara dos Anjos, que é muito difícil “escrever sobre os livros de Lima Barreto sem incorrer um pouco no pecado do biografismo”. Poucos escritores brasileiros foram tão obsessivos na investigação da temática do preconceito quanto Lima Barreto.

Mulato, nasceu em 1881, mesmo ano em que o também mulato Machado de Assis introduzia o Realismo na literatura nacional com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Aluísio Azevedo inaugurava a Naturalismo no Brasil com o romance O Mulato.
Não são apenas coincidências. A questão do preconceito contra a mestiçagem, já denunciada no obra de Aluísio Azevedo, será fundamental no pensamento nacional entre a implantação do Naturalismo e a do Modernismo, em 1922, ano da morte de Lima Barreto.
Até por razões pessoais, e por viver exatamente nesse período, sempre retratando-o de forma crítica e até ressentida, o autor de Clara dos Anjos seria o escritor que mais sentiria (na pele) o preconceito e o retrataria com tintas mais ácidas na nossa literatura. É ainda Sérgio Buarque de Holanda que melhor resume como essa temática se apresenta em Clara dos Anjos:

“Em Clara dos Anjos relata-se a estória de uma pobre mulata, filha de um carteiro de subúrbio, que apesar das cautelas excessivas da família, é iludida, seduzida e, como tantas outras, desprezada, enfim, por um rapaz de condição social menos humilde do que a sua. É uma estória onde se tenta pintar em cores ásperas o drama de tantas outras raparigas da mesma cor e do mesmo ambiente. O romancista procurou fazer de sua personagem uma figura apagada, de natureza “amorfa e pastosa”, como se nela quisesse resumir a fatalidade que persegue tantas criaturas de sua casta: “A priori”, diz, “estão condenadas, e tudo e todos parecem condenar os seus esforços e os dos seus para elevar a sua condição moral e social.” É claro que os traços singulares, capazes de formar um verdadeiro “caráter” romanesco, dando-lhe relevo próprio e nitidez hão de esbater-se aqui para melhor se ajustarem à regra genérica. E Clara dos Anjos torna-se, assim, menos uma personagem do que um argumento vivo e um elemento para a denúncia.”
 
O ENREDO
Clara é uma mulata pobre, que vive no subúrbio carioca com seus pais, Joaquim e Engrácia, mulher “sedentária e caseira.” Joaquim era carteiro, “gostava de violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instrumento que já foi muito estimado em outras épocas, não o sendo atualmente como outrora”. Também “compunha valsas, tangos e acompanhamentos de modinhas.” Além da música, a outra diversão do pai de Clara era passar as tardes de domingo jogando solo com seus dois amigos: o compadre Marramaque e o português Eduardo Lafões, um guarda de obras públicas.
 
Marrameque e as rodas literárias
Poeta modesto, semiparalisado, Marramaque freqüentara uma pequena roda de boêmios e literatos e dizia ter conhecido Paula Nei e ser amigo pessoal de Luís Murat.
A descrição dessa figura revela a crítica de Lima Barreto a vários aspectos da vida literária brasileira:
“Embora atualmente fosse um simples contínuo de ministério, em que não fazia o serviço respectivo, nem outro qualquer, devido a seu estado de invalidez, de semi-aleijado e semiparalítico do lado esquerdo, tinha, entretanto, pertencido a uma modesta roda de boêmios literatos e poetas, na qual, a par da poesia e de coisas de literatura, se discutia muita política, hábito que lhe ficou. (…)
A sua roda não tinha ninguém de destaque, mas alguns eram estimáveis. Mesmo alguns de rodas mais cotadas procuravam a dele.
Quando narrava episódios dessa parte de sua vida, tinha grande garbo e orgulho em dizer que havia conhecido Paula Nei e se dava com Luís Murat. Não mentia, enquanto não confessasse a todos em que qualidade fizera parte do grupo literário. Os que o conheciam, daquela época, não ocultavam o título com que partilhava a honra de ser membro de um cenáculo poético. Tendo tentado versejar, o seu bom senso e a integridade de seu caráter fizeram-lhe ver logo que não dava para a coisa. Abandonou e cultivou as charadas, os logogrifos, etc. Ficou sendo um hábil charadista e, como tal, figurava quase sempre como redator ou colaborador dos jornais, que os seus companheiros e amigos de boêmia literária, poetas e literatos, improvisavam do pé para a mão, quase sempre sem dinheiro para um terno novo. Envelhecendo e ficando semi-inutilizado, depois de dois ataques de apoplexia, foi obrigado a aceitar aquele humilde lugar de contínuo, para ter com que viver. Os seus méritos e saber, porém, não estavam muito acima do cargo. Aprendera muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas. (…)
Tendo vivido em rodas de gente fina — como já vimos — -, e não pela fortuna, mas pela educação e instrução; tendo sonhado outro destino que não o que tivera; acrescendo a tudo isto o seu aleijamento — Marramaque era naturalmente azedo e oposicionista.”
Lima Barreto denuncia, na figura de Marramaque, a influência das rodas literárias, grupos fechados que abundam no Brasil; a cultura da oralidade, dos que aprendem “muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas”, tendo um cultura superficial, de verniz; e o azedume dos que não conseguem brilhar nas “rodas de gente fina”.
 
Clara: a “natureza elementar”
Clara era a segunda filha do casal, “o único filho sobrevivente…os demais…haviam morrido.” Tinha dezessete anos, era ingênua e fora criada “com muito desvelo, recato e carinho; e, a não ser com a mãe ou pai, só saía com Dona Margarida, uma viúva muito séria, que morava nas vizinhanças e ensinava a Clara bordados e costuras.”
O autor reitera sempre a personalidade frágil da moça – sua “alma amolecida, capaz de render-se às lábias de um qualquer perverso, mais ou menos ousado, farsante e ignorante, que tivesse a animá-lo o conceito que os bordelengos fazem das raparigas de sua cor” – como resultado de sua educação reclusa e “temperada” pelas modinhas:
“Clara era uma natureza amorfa, pastosa, que precisava mãos fortes que a modelassem e fixassem. Seus pais não seriam capazes disso. A mãe não tinha caráter, no bom sentido, para o fazer; limitava-se a vigiá-la caninamente; e o pai, devido aos seus afazeres, passava a maioria do tempo longe dela. E ela vivia toda entregue a um sonho lânguido de modinhas e descantes, entoadas por sestrosos cantores, como o tal Cassi e outros exploradores da morbidez do violão. O mundo se lhe representava como povoado de suas dúvidas, de queixumes de viola, a suspirar amor.”
Essa “natureza elementar” de Clara se traduzia na ausência de ambição em melhorar seu modo de vida ou condição social por meio do trabalho ou do estudo:

“Nem a relativa independência que o ensino da música e piano lhe poderia fornecer, animava-a a aperfeiçoar os seus estudos. O seu ideal na vida não era adquirir uma personalidade, não era ser ela, mesmo ao lado do pai ou do futuro marido. Era constituir função do pai, enquanto solteira, e do marido, quando casada. (…) Não que ela fosse vadia, ao contrário; mas tinha um tolo escrúpulo de ganhar dinheiro por suas próprias mãos. Parecia feio a uma moça ou a uma mulher.”
A descrição de Clara reforça os malefícios da formação machista, superprotetora, repressiva e limitadora reservada às mulheres na nossa sociedade. Ecoa, portanto, a descrição de Luísa, do romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós, ou a Ana Rosa de O Mulato, de Aluísio de Azevedo. Todas são, na verdade, herdeiras diretas da figura de formação débil, educada nas leituras dos romances românticos, que é Emma Bovary, criada por Gustave Flaubert no romance inaugural do Realismo, Madame Bovary (1857).
 
Cassi: o corruptor
Por intermédio de Lafões, o carteiro Joaquim passa a receber em casa o pretendente de Clara, Cassi Jones de Azevedo, que pertencia a uma posição social melhor. Assim o descreve Lima Barreto:

“Era Cassi um rapaz de pouco menos de trinta anos, branco, sardento, insignificante, de rosto e de corpo; e, conquanto fosse conhecido como consumado “modinhoso”, além de o ser também por outras façanhas verdadeiramente ignóbeis, não tinha as melenas do virtuose do violão, nem outro qualquer traço de capadócio. Vestia-se seriamente, segundo as modas da rua do Ouvidor; mas, pelo apuro forçado e o degagé suburbanos, as suas roupas chamavam a atenção dos outros, que teimavam em descobrir aquele aperfeiçoadíssimo “Brandão”, das margens da Central, que lhe talhava as roupas. A única pelintragem, adequada ao seu mister, que apresentava, consistia em trazer o cabelo ensopado de óleo e repartido no alto da cabeça, dividido muito exatamente ao meio — a famosa “pastinha”. Não usava topete, nem bigode. O calçado era conforme a moda, mas com os aperfeiçoamentos exigidos por um elegante dos subúrbios, que encanta e seduz as damas com o seu irresistível violão.”
O padrinho Marramaque, que já lhe conhecia a fama, tenta afastá-lo de Clara quando percebe seu interesse. Na festa de aniversário da afilhada, provoca Cassi e deixa claro que ele não é bem-vindo ali e que seria melhor que se retirasse. Cassi vinga-se de modo violento: junta-se a um capanga e ambos assassinam Marramaque. Clara, que já suspeitava das ameaças do rapaz ao padrinho, passa a temê-lo, mas ele consegue seduzi-la, principalmente ao confessar seu crime, dizendo que matou por amor a ela.
Malandro e perigoso, Cassi já havia se envolvido em problemas com a justiça antes, mas sempre fora acobertado pela sua família, especialmente sua mãe, que não queria que fosse preso. Assim, conseguia subornar a polícia e continuar impune, mesmo depois de ter levado a mãe de uma de suas vítimas ao suicídio e da perseguição da imprensa.
O exagero narrativo de Lima Barreto torna-se patente ao descrever a figura do sedutor. Branco, sardento e de cabelos claros, é a antítese de Clara. Como o apontou Lúcia Miguel Pereira: “Até os animais da predileção de Cassi, os galos de briga, são apresentados com visível má vontade: ‘horripilantes galináceos’ de ‘ferocidade repugnante’.”
 
O desfecho
Clara engravida e Cassi Jones desaparece. Convencida pela vizinha, dona Margarida, que procurara na tentativa de conseguir um empréstimo e fazer um aborto, ela confessa o que está acontecendo à sua mãe. É levada a procurar a família de Cassi e pedir “reparação do dano”. A mãe do rapaz humilha Clara, mostrando-se profundamente ofendida porque uma negra quer se casar com seu filho. Clara “agora é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos no conceito de todos.”
O autor representa, na figura de Clara e no seu drama, a condição social da mulher, pobre e negra, geração após geração. No final do romance, consciente e lúcida, Clara reflete sobre a sua situação:
“O que era preciso, tanto a ela como às suas iguais, era educar o caráter, revestir-se de vontade, como possuía essa varonil Dona Margarida, para se defender de Cassi e semelhantes, e bater-se contra todos os que se opusessem, por este ou aquele modo, contra a elevação dela, social e moralmente. Nada a fazia inferior às outras, senão o conceito geral e a covardia com que elas o admitiam…”
E, na cena final, ao relatar o que se passara na casa da família de Cassi Jones para a sua mãe, conclui, em desespero, como se falasse em nome dela, da mãe e de todas as mulheres em iguais condições: “— Nós não somos nada nesta vida.”
 

O UNIVERSO SUBURBANO

O romance passa-se no subúrbio carioca e Lima Barreto descreve o ambiente suburbano com riqueza de detalhes, como os vários tipos de “casas, casinhas, casebres, barracões, choças” e a vida das pessoas que ali vivem.
Nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda:
 “Ao oposto de Machado de Assis, que saído do Morro do Livramento procuraria os bairros da classe média e abastada, este homem, nascido nas Laranjeiras, que se distinguiu nos estudos de Humanidades e nos concursos, que um dia sonhou tornar-se engenheiro, que no fim da vida ainda se gabava de saber geometria contra os que o acusavam de não saber escrever bem, procurou deliberadamente a feiúra e a tristeza dos bairros pobres, o avesso das aparências brancas e burguesas, o avesso de Botafogo e de Petrópolis.”
 
Os “bíblias”
Ao descrever o subúrbio, Lima Barreto aborda o advento dos “bíblias”, os protestantes que alugam uma antiga chácara e passam a conquistar novos fiéis para seu culto:
“Joaquim dos Anjos ainda conhecera a “chácara” habitada pelos proprietários respectivos; mas, ultimamente, eles se tinham retirado para fora e alugado aos “bíblias”… O povo não os via com hostilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres raparigas dos arredores freqüentavam-nos, já por encontrar nisso um sinal de superioridade intelectual sobre os seus iguais, já por procurarem, em outra casa religiosa que não a tradicional, lenitivo para suas pobres almas alanceadas, além das dores que seguem toda e qualquer existência humana.”
E reflete sobre a nova seita:

“Era Shays Quick ou Quick Shays daquela raça curiosa de yankees fundadores de novas seitas cristãs. De quando em quando, um cidadão protestante dessa raça que deseja a felicidade de nós outros, na terra e no céu, à luz de uma sua interpretação de um ou mais versículos da Bíblia, funda uma novíssima seita, põe-se a propagá-la e logo encontra dedicados adeptos, os quais não sabem muito bem por que foram para tal novíssima religiãozinha e qual a diferença que há entre esta e a de que vieram.”
A crítica às “novas seitas cristãs” revela também a ojeriza de Lima Barreto à influência americana no Brasil. Como o colocou Antônio Arnoni Prado, o autor de Clara dos Anjos “interessou-se pelos Estados Unidos, em virtude do tratamento desumano que este país dispensava aos seus cidadãos de cor. (…) Censurou duramente a discriminação racial americana, assim como o expansionismo imperialista dos ‘yankees’, que, através da diplomacia do dólar, ia, a seu ver, convertendo o Brasil num autêntico protetorado.” Nada mais profético.

O PRÉ-MODERNISMO BRASILEIRO
Durante as primeiras duas décadas do século XX, enquanto a Europa se via invadida pelos movimentos da vanguarda modernista, a literatura brasileira ainda se encontrava dominada pelos estilos surgidos no século anterior. Parnasianismo e simbolismo predominavam na poesia, realismo e naturalismo na prosa.
Alguns escritores, no entanto, rompiam com estas quatro tendências, e, ainda que muito diferentes, não comungando de um estilo comum, antecipavam, cada um a seu modo, as inovações que seriam propagadas pelos modernistas de 1922, problematizando a realidade social e cultural brasileira. Entre estes escritores, destacam-se Graça Aranha (1868-1931), Simões Lopes Neto (1865-1916), e, principalmente, Euclides da Cunha (1866 – 1909), Augusto dos Anjos (1884 – 1914), Lima Barreto (1881 – 1922) e Monteiro Lobato (1882 – 1948).
 
A herança naturalista
O Realismo-naturalismo aparece por volta de 1870 como uma derivação do realismo. Recebeu profunda influência de algumas das teorias e doutrinas que estavam no auge naquele momento, sobretudo do materialismo e do determinismo. O Naturalismo considerava a vida do homem resultado de fatores externos (raça, ambiente familiar, classe social, etc.). Influenciado pelas ciências experimentais, o escritor naturalista tentava demonstrar, com rigor científico, que o comportamento humano está sujeito a leis semelhantes às que regem os fenômenos físicos. Se o realismo pretendia ser objetivo e imitar a realidade, o Naturalismo desejava fazer uma análise histórica, social e psicológica da realidade, um estudo profundo a partir de uma ampla documentação prévia.
O Realismo-naturalismo, que tanto influenciou Lima Barreto na composição de Clara dos Anjos, é cientificista e determinista, considerando que as ações humanas são produtos de leis naturais: do meio, das características hereditárias e do momento histórico. Portanto, os romances naturalistas procuravam, através da representação literária, demonstrar teses extraídas de teorias científicas. Para isso, o Naturalismo buscou compor um registro implacável da realidade, incluindo seus aspectos repugnantes e grotescos. São exatamente esses os aspectos que mais chamam à atenção na narrativa exagerada de Clara dos Anjos.

A última Quimera

Este livro conta um pouco sobre quem foi Augusto dos Anjos. Através da narração de um, então, amigo de infância de Augusto, o leitor é jogado na vida de um homem que sofre com a perda do amigo e mergulha nas memórias de sua vida com ele. Esse poeta notável que viveu sem nenhum reconhecimento e, depois de sua morte (1884-1914), tornou-se uma lenda, tem uma história encantadora. Além do mistério do narrador, Ana Miranda consegue, através de muita pesquisa e carinho, trazer para nós um livro envolvente que, sem querer, aumenta o nosso conhecimento sobre esse poeta que viveu sem ver seu trabalho reconhecido.

Augusto dos Anjos foi um poeta livre e verdadeiro, segundo o narrador. Durante sua vida, onde o romantismo, o parnasianismo, o realismo e o simbolismo travavam longas lutas para saber qual escola se consagraria, Augusto não escrevia nada relacionado a elas e, por isso, foi ignorado pela sua época e, só se tornou famoso por todo o país depois de sua morte.

No livro, essa parte importante sobre quem foi Augusto dos Anjos e a sua forma artística, representada pela publicação do Eu (único livro publicado de Augusto dos Anjos), se passa através de um diálogo entre um professor, aspirante a novo marido de Esther e o nosso narrador, que, garanto, não gostou nada desse visitante misterioso.

Apesar de ser um livro envolvente é, também, muito irritante, porque nos deixa com várias perguntas não respondidas: quem era o narrador? Camila morreu ou não? Ana Miranda, ao optar por ficcionar a figura histórica de Augusto dos Anjos, mistura com elegância biografias, romances e documentos históricos, que juntos, formaram essa quimera ambulante, consequentemente, fica difícil conseguir respostas…

E como uma boa quimera, nessa, temos o contraste berrante entre duas pessoas que viviam e trabalhavam na mesma época. Essa obra mostra a diferença entre a realidade de vida entre Olavo Bilac e Augusto dos Anjos, que escreviam com objetivos diferentes, por isso, aquele alcançou um título muito honroso: Príncipe dos Poetas e este teve que sair de sua terra natal, a Paraíba, por não ter meios de viver dignamente e acabou morrendo a quilômetros de distância, em Leopoldina, MG.

Em meio a isso, temos a contextualização histórica feita pela autora, nos mostrando a urbanização do Rio de Janeiro, os conflitos ideológicos políticos e a guerra entre os poetas e movimentos na Paraíba de agitação política, movimentos armados nos sertões, cangaceiros e etc.

E a parte romântica do livro se dá com a descrição do amor do narrador pela mulher de Augusto, Esther. Um amor platônico que nunca foi concretizado, pois o narrador não poderia, jamais, trair o amigo dessa forma. Por isso, teve que se contentar com outras mulheres, como meretrizes e jovens que tiveram seus corações arrasados, como Marion.

Terra Sonâmbula

 

O título Terra Sonâmbula envia o narratário para dois dos componentes principais deste romance: a terra e o sonho. Na epígrafe da obra é  explicada uma crença dos habitantes de Matimati, que consiste em a terra se mover aquando do sono dos homens. No momento em que  acordavam viam o novo ambiente em seu redor e sabiam que, naquela noite, o sonho os iluminara. A esta ideia é acrescentada ainda uma fala de Tuahir com o mesmo objetivo: «O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva.» (2) De facto, as menções à terra são diversas, nesta composição, e prendem-se com a noção de que ela é um elemento vivo, que também sofre, porque está em divórcio com os antepassados e, principalmente, caminha à procura de um tempo melhor, tal como as personagens. Muidinga apercebe-se dessa estranha ocorrência e constata igualmente que: «(…) nem sempre a estrada se movimenta. Apenas de cada vez que ele lê os cadernos de Kindzu.» (3) Assim, há uma relação directa entre os cadernos e a terra, já que os seus movimentos estão condicionados pela esperança do Homem. Se ele a perder, o chão deixará de se mover em busca de novos dias. A terra tenta, através do sonho, alcançar o renascimento.

Terra Sonâmbula é, essencialmente, um romance de esperança e de procura. Muidinga quer conhecer as suas origens e a sua identidade, enquanto que Kindzu quer encontrar os guerreiros naparamas (4) e Gaspar. Ao longo do texto inter-seccionam-se estas duas histórias que, no final, acabam por se ligar e provar que ainda se pode acreditar no futuro. Moçambique descobrirá a sua identidade, tal como Muidinga descobrirá as suas raízes.

No primeiro capítulo são apresentadas as duas personagens principais, Tuahir e Muidinga, o primeiro um homem idoso que contrasta com o seu companheiro, ainda jovem, e que representam o encontro entre duas gerações, dois tempos, e os conflitos daí decorrentes. É igualmente neste momento que o leitor conhece o espaço onde se localiza grande parte da ação. As duas personagens caminham num local desolador, onde impera a morte, cores sujas, um céu pardo, uma estrada sem fim e restos de pilhagem. E é precisamente dentro de um machimbombo  queimado que o velho decide que devem montar casa. Argumenta que se o menino quer encontrar os pais deve estar perto de uma estrada; decidem enterrar os cadáveres carbonizados para acabarem com os resquícios de morte no local; aspiram a se instalar em paz.
 
É durante esta operação que descobrem um corpo mais afastado, virado para baixo, vítima de um tiro recente pelas costas e acompanhado de uma mala fechada. Constatam, consequentemente, que o autocarro teria sido atacado há pouco e resolvem terminar a tarefa: «Enterram o último cadáver. O rosto dele nunca chega a ser visto: arrastam-no assim mesmo, os dentes charruando a terra.» (5) A face de Kindzu não chega, deste modo, a ser conhecida por aqueles que penetrarão na sua vida, a partir daquele instante. No interior da mala, os protagonistas encontram comida, roupa e cadernos escolares manuscritos, que o jovem guarda ciosamente e que passarão a constituir a história dentro da história.
 
Durante a noite, Muidinga é dominado pelo medo e o choro surge como forma de desabafo das tristezas e da dor. O desalento ocupa-o e a falta de esperança é um facto: «Nós nunca mais vamos sair daqui.» (6) Para combater o temor do escuro, acende uma fogueira e inicia a leitura dos papéis encontrados, sentindo orgulho por ser capaz de ler, dote que Tuahir não possui. O velho pede-lhe para partilhar com ele as estórias das folhas e até o caminho escuta a sua voz, iluminado pela lua: «Pratinhada, a estrada escuta a estória que desponta dos cadernos (…)» (7). É neste momento que a esperança começa a renascer no coração das duas personagens e no íntimo da própria terra.
 
A história de Muidinga e Tuahir começa a desenvolver-se em paralelo com a história de Kindzu. Assim, dentro de uma ação principal encontramos outras secundárias, histórias dentro da história, que acabam por se inter-seccionar e no final do romance se complementar. Terra Sonâmbula organiza-se, assim, segundo os paradigmas de coordenação e de encaixe, sendo a segunda narrativa, a de Kindzu, uma segunda estória, contada por episódios, a partir da primeira.
 
Muidinga lê a Tuahir o diário (9) de Kindzu, onde este se dá a conhecer. Apresenta-se como filho de Taímo, pescador e contador de histórias, e irmão de Junhito, assim chamado por ter nascido numa data marcante: 25 de Junho de 1975, dia da Independência moçambicana. No entanto, os tempos de felicidade não demoram a desaparecer com o início da guerra civil e com a previsão da morte de um membro da família, feita pelo pai: Junhito estava condenado. Esta morte anunciada representa não só o começar da dissolução familiar, como ainda o início da fragmentação nacional. Porém, o pai de Kindzu encontra uma alternativa para não lhe levarem o filho: alojá-lo no galinheiro e dar-lhe aspecto de galinha; assim «os bandos quando chegassem não lhe iriam levar.» (10) Apesar desta ideia parecer inicialmente absurda, não o é, dado que corporiza uma metáfora riquíssima que acompanhará todo o desenvolvimento da acção. O único estatuto que permitirá ao Homem sobreviver ao período de guerra será o de animal. Apenas regido por instintos e livre de sentimentos, o ser humano poderá ultrapassar as carências físicas e afectivas, características de uma época de luta armada.
 
A degradação da estrutura familiar, já abordada neste estudo, ganha ênfase através de Kindzu e do desaparecimento, inexplicável, do irmão, da capoeira, que provoca o enfraquecimento e a morte do pai, assim como a tristeza infinita da mãe. O funeral do velho Tuahir ocorre nas ondas do mar, o que o leva a pertencer a um modelo descoincidente de ser, Este aspecto origina diversos acontecimentos insólitos e rituais sequentes dedicados ao morto, com o intuito de aquietar o seu espírito. Kindzu suspeita destes cultos devotados ao pai, não crê no feiticeiro e demonstra, deste modo, pertencer a um mundo diferente do antigo, regido por livros, pela ciência e pelo saber: «Antes ainda eu me acostumava em casa do pastor Afonso, lendo seus livros, escutando suas lições.» (12), «Com ele aprendia outros saberes, feitiçarias dos brancos, como chamava meu pai. Com ele ganhava essa paixão das letras.» (13) No entanto, tanto este mundo como o antigo são considerados inimigos em tempos de guerra, pelo que o professor foi assassinado depois de lhe terem cortado as mãos, símbolo da escrita, e de lhe terem queimado a escola.
 
Mas não é esta a única atrocidade a que Kindzu assiste. Representante de uma mente aberta e liberal, fomenta uma grande amizade com um indiano: Surendra Valá, comerciante casado com Assma e vítima de racismo (14). É na sua loja que surge um dos maiores elementos impulsionadores da narrativa: um naparama. Este guerreiro salva o estrangeiro de um incêndio no seu estabelecimento e extasia Kindzu. Surendra explica: «Eram guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que lutavam contra os fazedores da guerra. Nas terras do Norte eles tinham trazido a paz. Combatiam com lanças, zagaias, arcos. Nenhum tiro lhes incomodava, eles estavam blindados, protegidos contra balas.» (15) No entanto, a proteção é insuficiente e a loja do indiano acaba por ser assaltada e queimada, obrigando-o a abandonar o local e o amigo, que se entrega à angústia e desespero totais, só colmatados pelo desejo de evasão e de união ao movimento naparama.
 
A partida de Kindzu não será fácil. Em primeiro lugar sonha com o pai, que o ameaça de se tornar seu inimigo no caso do filho deixar a sua origem e depois consulta a sabedoria dos velhos, que o aconselham a sossegar a morte do progenitor, em vez de procurar a guerra: «A morte só ensina a matar.» (16) Todavia, o descendente de Tahimo não fica convencido, até porque repara que há uma perda de identidade no país e que os anciãos estão desorientados com a visão do sofrimento da terra. Por esse motivo, dirige-se ao adivinho que o aconselha a fugir junto ao mar, sem deixar marcas, para não ser perseguido por recordações e lembranças.
 
Teria de se transformar num novo homem, desligado dos antepassados e conectado com o mar. No final, avisa-o que «(…) só mora no mar quem é mar.» (17) A proposição do adivinho pareceu indecifrável ao autor do diário, mas surge com um carácter divinatório, dado que revela que Kindzu nunca conseguirá abandonar as suas raízes, por mais que se tente afastar delas. Estas palavras são de realçar, porque indiciam que só através do reencontro com o passado é que surgirá a identidade de um país.
 
Kindzu prepara a canoa e parte, deixando a mãe grávida, há anos, de um futuro melhor, e as recordações dos amigos e da infância. A partir deste momento, as peripécias enfrentadas pelo protagonista de Terra Sonâmbula serão muitas. No início da viagem, o espírito do pai não o deixa, desafiando-o através de magias várias, que põem à prova os seus limites. O filho resiste até que acaba por encontrar terra: a baía de Matimati, onde a intriga secundária se passará a localizar maioritariamente. A recepção que o aguarda nessa baía está longe de ser amigável.
 
Pelo contrário, mandam-no partir, visto que o local tem sido palco de acontecimentos trágicos: tinha-se despenhado ali um navio com mantimentos que foi, imediatamente, assaltado pelo povo esfomeado. Porém, no regresso, todos os conchos tinham ido parar ao fundo do mar com os seus ocupantes. Logo tinham sido preparados novos movimentos de ataque aos víveres do barco, impedidos pelo Governo, que defendia uma recolha bem organizada. Esta obstrução levantou inúmeros boatos e murmúrios, em redor da ideia de que os responsáveis queriam enriquecer com os produtos e de que eram eles que impediam o naufrágio de mais navios naquela zona. Assim, o clima que se vivia na localidade era de desconfiança e dor, até porque os castigos chegavam a ser implantados contra inocentes. Neste momento do texto, emerge uma crítica do autor, que será mais desenvolvida ao longo do romance e que encontrará uma consistente repercussão noutras obras: a corrupção e a ganância dos poderosos que sublevam o povo impotente.
 
Kindzu decide sair de Matimati, receoso de sofrer qualquer tipo de represália pelo seu estatuto de pessoa de fora, e volta a navegar, acontecendo-lhe o inesperado. Apanhado por uma tempestade, é arrastado, precisamente, para o barco que em terra causa conflitos vários, onde encontra uma mulher belíssima, Farida, que lhe conta a sua vida. A tradição oral retorna a ser o fundamento para a escrita e permite que as histórias se entrelacem.
 
Farida é filha do céu, porque partilhara o ventre da mãe com uma irmã gêmea. Como esse aspecto prenunciava desgraça, as duas foram separadas à nascença, assim como uma figura de madeira, cujas metades cada uma usava pendurada, num colar, ao pescoço. A mãe acabou por morrer e Farida decidiu partir, por não aguentar as acusações que lhe faziam, quando o tempo era mau, ou quando a fome e a morte se tornavam insustentáveis (19). A viagem deixou-a fraca e foi acolhida por um casal de portugueses, Romão Pinto e D. Virgínia. Os tempos vividos na casa colonial foram um misto de satisfação e terror: «O desejo dele crescia por toda a casa, como uma viscosa humidade. Ela o sentia com uma mistura de nojo e receio. Teria odiado aquela casa não fosse a velha a ter tratado como uma mãe, fazendo nascer a outra raça que agora nela existia.» (20) No entanto, o desejo de Romão Pinto culminou numa violação e numa gravidez indesejada, que a fizeram voltar à origem, ao local onde vivera com a mãe e com a tia Euzinha.
 
A busca da paz obriga as personagens de Mia Couto a uma redefinição do passado e da memória, sendo este processo natural em nações que foram descolonizadas. O retorno de Farida ao local onde viveu com a mãe representa uma tentativa de resgate do passado e da memória que não é bem sucedida, visto que continua sem encontrar a completude. Odeia o filho e entrega-o a uma missão. Mais tarde, arrepende-se e decide reavê-lo, mas Gaspar, seu nome, foge quando sabe que a mãe o procura e nunca mais se encontram. A filha do céu, então, acalenta um sonho, consequência do conflito interno que vive: viajar para longe de todos os lugares. É esse desejo que a leva ao barco, donde se avista um farol que acende a sua esperança: «É uma pequenita ilha. Nessa ilhota está um farol. Já não trabalha, se cansou. Quando esse farol voltar a iluminar a noite, os donos deste barco vão poder encontrar o caminho de volta. A luz desse farol é a minha esperança, apagando e acendendo tal igual a minha vontade de viver.» (23) Farida termina as suas confidências, revelando a Kindzu que estava à espera dele e que já sabia que ele viria.
 
As duas personagens, com tanto em comum, decidem partilhar a existência e iniciam uma relação. Ambos são vítimas das atrocidades do mundo e ambos se sentem perdidos entre o passado e o futuro, entre a realidade moçambicana e a influência portuguesa. Kindzu está consciente deste conflito: «Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de Virgínia, de Surendra. E sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África.» (24) Através desta reflexão, apercebemo-nos da dificuldade que ele e Farida sentem em identificar-se com o universo africano. As duas personagens são aculturadas e representam a fusão do mundo ocidental com o Terceiro Mundo.

Por estas razões é que, Kindzu, perdido no meio de referências diversas e de um mundo interior em conflito, decide continuar a sua busca, a demanda pelas tradições, e realizar a missão de ser um guerreiro naparama. Farida acrescenta um outro elemento à sua epopeia: encontrar o filho dela com Romão Pinto: Gaspar (29).
 
É com estes objetivos e apaixonado, que Kindzu regressa a Matimati e à realidade da guerra, que nunca terminará dentro das pessoas. Na terra das águas, reencontra Antoninho, ajudante do indiano Surendra, que o leva para casa de Assane, antigo secretário do administrador, com quem o amigo de infância vive e tem negócios. Lá conversa longamente com o dono da habitação, que lhe revela os planos que têm em relação a investimentos e comenta que vai fazer uma grande festa de inauguração de uma loja, que construiu com o indiano, de modo a colmatar os sentimentos racistas e a desigualdade vigente. Explica, igualmente, que também cultiva ideias xenófobas (30) mas que o dinheiro muda tudo: «O gajo é que domina os tacos. É só isso. Depois de um tempo, eu nacionalizo tudo. Para o ano que vem, eu privo tudo. Chuto o baniane no rabo.» (31)

Assane, ao contrário do que pretende transmitir, não é um homem cruel, já que mostra a Kindzu que cuida dos parentes, defendendo uma estrutura familiar alargada, tribo, sustentada através de um enorme galinheiro, disfarçado dentro de um tanque. Assane, ao proteger a família e ao recuperar valores do passado, como a tribo, revela-se um defensor da nação e das tradições. As estórias sucedem-se até à entrada de Surendra que está muito diferente, desmazelado e aparentando traços de loucura: «Seus olhos buscavam uma outra margem do mundo.» (33) Tanto o indiano como a mulher não suportam a dor da distância, o anseio por regressar à Índia e o sofrimento resultante da não-aceitação.
Mia Couto realça, mais uma vez, o apelo da terra (34), não só através da personagem Surendra Valá, que representa todos os estrangeiros residentes no país vitimizados por um regime de diferença, como também do próprio Kindzu que, durante a noite, naquela casa, acorda com a canção de embalar da mãe, proveniente do tanque-capoeira, e vê lá dentro os olhos tristes de um galo, que o fazem recordar o irmão Junhito. Aquele momento fá-lo sentir remorsos por ter abandonado as memórias do irmão, mas logo decide continuar a perseguição do seu objetivo.

Neste sexto caderno de Kindzu, lido por Muidinga a Tuahir, ainda encontramos outro episódio digno de realce, que se relaciona com uma estátua erigida numa pequena praça da terra: «Era um monumento aos heróis da Independência. A estátua tinha sido levantada a substituir uma outra, antiga, de política avessa, gloriando os coloniais guerreiros. Derrubaram-na no início da Independência, (…). E edificaram uma outra, disseram que provisória, mas que ainda durava. Estava suja, coberta de pó, com lixos ao redor. Ninguém parecia lhe dedicar grande respeito. Exceto uma mulher que ali se postava, horas a fio.» (35) Estes acontecimentos verificados em redor da estátua têm um valor simbólico elevado, assim como uma vertente alegórica facilmente compreensível. A estátua é uma metáfora do próprio sistema político que, primeiro procurou destruir uma forma de representação (o colonialismo) para governar e que, depois, implantou um novo regime que não se coaduna às necessidades do país e que motivou o desinteresse popular. O exercício desenvolvido pelo governo resulta, assim, num sentido negativo e afasta-o do imaginário do povo. Mas nem todos os habitantes da nação desrespeitam a época presente. A esposa do administrador presta culto diário ao monumento e fascina Kindzu, com os cânticos da luta armada de libertação, que entoa. A sua tristeza revela um profundo abandono de si própria e os seus olhos parecem familiares ao filho de Tahimo, como se os destinos de ambos já se tivessem cruzado ou se fossem ainda cruzar.

De fato, os dois, Kindzu e Carolinda, voltam a encontrar-se na inauguração da loja de Assane e Surendra, construída na antiga cantina de Romão Pinto, falecido entretanto. O indiano parece um subordinado dentro do seu próprio espaço. Mas nem isso evita que se desencadeie uma enorme desordem, provocada por homens fardados a disparar sobre a multidão, com o intuito de matarem os estrangeiros. O medo domina tudo e todos e a explosão final da loja mata Assma. O marido nunca mais regressa da apatia em que se instala e Kindzu perde a esperança no mundo e no futuro, readquirida com Farida: «(…) nós, que nascêramos naquele tempo, éramos os últimos viventes. Depois de nós já não havia mundo para receber mais ninguém.» (36)

Cansado de assistir à miséria humana que o rodeia, Kindzu toma a iniciativa de procurar a tia de Farida, Euzinha, com o objetivo de saber informações sobre Gaspar e encontrá-lo. Para isso tem de se deslocar a um campo de refugiados com um guia experiente, capaz de sobreviver aos matos mortais. Quintino Massua é esse homem. Kindzu encontra-o num bar, embriagado, e tem de aguardar que ele recupere. É nessa espera que se encontra pela terceira vez com a esposa do administrador e inicia com ela uma relação amorosa. Este momento é marcante porque o protagonista trai o seu amor por Farida mas não a consegue esquecer. Revela que «De passagem, Carolinda me fez lembrar Farida.» (37) Esta enunciação é uma prolepse de revelações futuras e, conjugada com o espaço onde o desejo é saciado, o curral da Missão, sublima a entrega. A palha do curral possui uma dimensão mística e um teor sagrado que une os dois amantes sacralmente e apaga as réstias de infidelidades possíveis.

No dia seguinte, Kindzu guarda um colar de Carolinda como recordação e vai ao encontro do seu guia; encontra-o a ser arrastado para a esquadra. Tenta ajudá-lo e acabam os dois prisioneiros do administrador. Quintino aceita fugir em direcção ao campo de refugiados até
porque não aguenta permanecer em Matimati. É perseguido pelo fantasma do seu patrão Romão Pinto que, mesmo depois de morto, não lhe dá descanso.

Neste momento da narrativa, o leitor assiste ao desenvolvimento de outra estória, uma estória contada oralmente dentro da estória da estória e verifica que este processo acontece devido ao tempo da ficção ser assumido pelo estatuto enunciativo da personagem que conta a estória, neste caso Kindzu. As estórias dentro da estória de Mia Couto acabam por ser, desta forma, quer uma aproximação à realidade cultural moçambicana, quer um afastamento dos modelos ocidentais.

Os fatos relatados pelo guia são importantes para o desenrolar da ação. Romão Pinto morreu vítima das suas canalhices. Tinha tido relações com uma mulher menstruada e estranhos poderes traçaram o seu destino. Dez anos depois, Quintino viu-o voltar do mundo dos mortos e levantar-se do caixão que permanecia na cave da casa (41). Não lhe tinham devotado as cerimónias devidas e por isso andava a vaguear entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

É através do diálogo entre o guia e ex-empregado do português e o patrão renascido, contado por Quintino, que Kindzu se apercebe que D. Virgínia ainda está viva e de que ela poderá dar-lhe indicações sobre o paradeiro de Gaspar. Torna-se, então, urgente sair da prisão.

Carolinda parece ouvir as preces dos dois condenados e solta-os com muita dor, porque sabe que assim perderá o amado. No final deste capítulo, surge uma reflexão sobre o amor, que é única: «Eu sei que em cada mulher a gente lembra outra, a que nem há. Mas Carolinda me entregava essa doce mentira, o impossível cálculo do amor: dois seres, um e um, somando o infinito. Se aproximou e me acariciou os braços, ali onde as cordas me doeram. A cintura de suas mãos me afagavam, em suave arrependimento. Aquele momento confirmava: o melhor da vida é o que não há-de vir.» (42) Podemos transportar a anterior ponderação para o plano global da existência: aquilo que o homem espera não se realizará. O sofrimento vai imperar sempre e a incompletude seguirá o ser humano. A vida só se consegue manter na esperança do porvir, só a
crença num futuro melhor é que pode aliviar o ser. São estas as noções que estão subjacentes a todo o romance e constituem o elo de ligação entre todas as estórias e todas as personagens. O nono caderno de Kindzu incide sobre D. Virgínia. Kindzu procura-a e apresenta-a como se estivesse a traçar um retrato impressionista: «…retiro meu caderno e escrevo ali mesmo como se receasse que seu desenho me fugisse.» (43) A mulher fascinou-o porque, para além de ser branca de cor e negra de raça, juntava fantasias na sua cabeça e voltava à infância. Esta saudável loucura fazia com que associasse o seu marido e a sua vida ao futuro e não ao passado e criava uma empatia substancial da parte das crianças, que não largavam a sua casa e não passavam sem as suas estórias. A narração mais apreciada pelos miúdos era a de um farol construído longe do mar como pagamento de uma promessa. O farol surge, assim, associado à esperança e à procura. Também Farida espera dentro do barco por um farol que a ilumine e a salve. Será que ela ouviu esta estória de D. Virgínia? Kindzu decide abordar directamente a velha criança e pergunta-lhe por Gaspar. Assustada, a senhora manda-o entrar em casa e revela-lhe que, um dia, encontrara um menino meio morto no seu quintal e decidiu acabar de o matar, com as outras crianças, para evitar o sofrimento futuro daquele ser. Para ela, no mundo, não havia lugar para ninguém indefeso. Porém, antes do fim, decidiram ouvir a sua estória (44) e foi assim que ela descobriu que o menino era quase seu filho, visto que tinha os genes do seu marido. Convidou-o a ficar com ela mas, passados alguns dias, fugiu. D. Virgínia não soubera mais nada dele. O cenário de guerra volta, mais uma vez, a tomar forma. As pessoas, as famílias separam-se múltiplas vezes e não se conseguem enquadrar nos ambientes em existência pacífica. Também Gaspar preferiu fugir a ter de lidar com o drama da sua origem e com a sua condição dual de mulato, filho da mistura de sangue branco com negro.

O encontro com Virgininha não é só esclarecedor em relação ao filho de Farida; permite ainda que Kindzu assista a um encontro entre o administrador de Matimati e o falecido Romão Pinto. Combinam negócios escusos e corruptos, em que o português investirá o dinheiro que tem, na posse da mulher, e Estêvão dará a cara e a assinatura. Para tudo dar certo, é imprescindível que o administrador reforce a sua raiva contra os brancos e que instigue os sentimentos racistas. Carolinda surge no final do encontro e ameaça denunciar o marido. Não concorda com as traições dele e compara-o a uma hiena, que só sabe comer e aproveitar-se dos mortos. No entanto, este relembra a condição feminina em África: «…ela era esposa de um africano, devia beneficiar de estar calada, subordinadinha.» (45) e retira-se com pressa. Também Virgínia abandona Kindzu para voltar ao seu refúgio na loucura. Daquela forma, ninguém a poderia obrigar a assinar nada, nem a mexer em dinheiro algum. A portuguesa revela uma esperteza maior do que a do marido.

Kindzu e Carolinda ficam sós. Ela aproveita para desabafar e contar como amou o marido na altura das guerras pela Independência e como começou a odiá-lo quando se apercebeu das transformações nele operadas e dos jogos de poder em que andava envolvido. Até que apareceu Farida e o marido se dedicou a ela, provocando-lhe ciúmes. Carolinda revela que não gostou daquela mulher nessa altura e odiou-a ainda mais por ela ter tido coragem para fazer algo que nunca conseguiu: fugir. Quando soube o local onde ela se encontrava, encetou vinganças e inventou perigos na sua estada no barco. Todavia, nada resultou e continuou a sentir muito rancor por aquela que todos consideravam parecida consigo. E, depois deste discurso, Carolinda entrega-se a Kindzu, novamente, sem imaginar que, para além de serem parecidas, ela e Farida, partilhavam o mesmo homem.

O décimo caderno de Kindzu decorre no campo de refugiados. O filho de Taímo e Quintino percorrem quilómetros de mato para lá chegarem. O cansaço é tal que o protagonista precisa de descansar e fica só, encostado a uma árvore. O desânimo e a descrença tomam conta dele, até que surge o mampfana, a ave matadora de viagens, e o pai começa a falar através da árvore. Kindzu revela que quer voltar, que está cansado e que não aguenta mais. O fundamento da narrativa assenta neste pilar: a contingencialidade. As personagens foram lançadas para um tempo e arrastadas, pela guerra, para situações que não podem controlar. E, de facto, Kindzu vai ensinar alguém a sonhar: Muidinga. A descrição do campo de refugiados é dolorosa e marca o próprio estado da nação. As pessoas sofrem à espera de comida e assistência que não vem e a única certeza é a da morte.

No meio daqueles seres encontram a tia de Farida que relembra a sobrinha, com doçura. Kindzu mostra-lhe o colar de Carolinda e Euzinha confirma as suas suspeitas: Farida e Carolinda são gémeas e a mulher do administrador, de forma inconsciente, vinga-se da irmã por ter sido ela a escolhida para ficar com a mãe. Segundo a tia, aquela estória tem de continuar em segredo para não serem atraídas mais desgraças. Em relação a Gaspar, não pode ajudar muito, porque a criança foi transferida para outro campo que ninguém conhece nem pode conhecer, por segurança. As crianças estavam sempre a serem levadas dali pelos bandos e foi imprescindível protegê-las.

Depois disto, Kindzu resolve seguir o conselho da velha e esperar, permanecer uns dias no campo a acalmar os espíritos e a observar aquela realidade, o modo como a fome se fazia sentir, como as mulheres procriavam incessantemente e como as mães roubavam comida e agasalho aos próprios filhos, para os prepararem para o futuro e para a sobrevivência. A escuridão rodeava tudo e todos, naquele local.

Durante a noite, Quintino conhece uma jovem, Jotinha, mulher de poderes e considerada feiticeira por muitos; Carolinda aparece para concretizar a sua fuga: partirá no avião que traz os medicamentos. O sonho de evasão de uns contrasta com o desejo de permanência de outros. Foram os quatro dormir para uma barraca. Jotinha insinuou-se a Kindzu e tiveram relações, sem ninguém notar. De manhã viram que estavam rodeados de sacos de comida. Lá fora morria-se à fome e ali dentro nada faltava. Carolinda explicou: «Seu marido tinha dado as expressas ordens: aqueles sacos só poderiam ser distribuídos quando ele estivesse presente. Era uma questão política para os refugiados sentirem o peso de sua importância. No entanto, o administrador há semanas que não ousava arriscar caminho para visitar o centro de deslocados. E assim a comida se adiava.» (49) A crítica é evidente. Os jogos de poder sobrepõem-se à vida, ao ser humano. O povo é deixado morrer sem culpas e sem remorsos, por aqueles que o deviam proteger. O amor ao dinheiro e ao poder impera. Neste capítulo, há ainda outra crítica relacionada com a inversão de valores. Euzinha trabalha arduamente a rachar e a transportar lenha, não admitindo qualquer tipo de ajuda: «(…) as velhas ali não eram queridas. Sua carga era um indesejado fardo. As de sua idade já haviam todas sido abandonadas. Apenas as que ainda trabalhavam eram suportadas. Por isso Euzinha simulava as mais pesadas labutas. Pediu-nos que nunca a ajudássemos em nada.

Prometemos.» (50) Em períodos de guerra tudo se altera. Aqueles que não ajudam só atrapalham e os velhos serão abandonados como um fardo pesado, à primeira oportunidade. Esta situação contrasta com os ideais antigos. Na sociedade moçambicana primordial, os idosos eram respeitados e olhados com deferência. Constituíam as maiores fontes de sabedoria e todos os consultavam. Para Mia Couto, é importante que eles voltem a ser ouvidos, porque o retomar de tradições ancestrais é a chave para iniciar o renascimento do país. A recuperação está na conjugação do passado com o futuro. Kindzu abandona o campo de deslocados depois de assistir a uma celebração e se aperceber da esperança que ainda reinava naquele mundo. Euzinha aconselha-o a ir embora, visto que tinha tido relações com Jotinha, tinha contrariado a tradição de não fazer amor num local novo e isso era sinal de partida. Ele devia escolher outros confins. O filho de Taímo é uma personagem ligada ao ocidente, ele lê, escreve, cultiva as crenças dos brancos e, como tal, deve seguir o seu caminho. Mas, antes de se afastar, Kindzu participa na distribuição de comida do celeiro, assimila a felicidade inerente, comemora o futuro sonhado e apercebe-se da morte de Euzinha, um final feliz envolto na crença de que a guerra estava para acabar. Nada disto o anima.

Kindzu regressa a Matimati sem esperança, já que perdera a amizade de Quintino e não trazia Gaspar de volta para os braços da mãe. Mas os desgostos não terminaram aqui. Na casa de Assane soube que Farida morrera. Prestes a perder a esperança tentou acender o farol para ver a luz que sempre ansiara. No entanto, a ilha explodiu e Farida desapareceu com ela. Face a esta situação, Kindzu decide regressar à raiz, ao passado, à família. Não aguenta mais sofrer. A origem surge como um abrigo e um espaço seguro. Só lá poderá encontrar a paz. Assane sugere-lhe partir, no dia seguinte, no novo autocarro da empresa e o herói da estória aceita a proposta. Faltavam algumas horas, apenas, para rever a mãe e a aldeia.

Durante a noite sonha com acontecimentos que lhe parecem verdadeiros. E este é o momento alto da narrativa, é através do sonho que se deslindará a realidade. A terra transmite ao homem a verdade do mundo baseada na fantasia e permite-lhe encontrar o que procura. É ela o motor que impulsiona a acção e contribui para a esperança. Kindzu sonha que desce um vale cheio de luz na primeira madrugada do mundo, quando vê um grupo de gente pobre e esfarrapada a avançar atrás do feiticeiro da sua aldeia. Cabia-lhe a ele a grande decisão de criar um novo dia. Parou no centro de uma paisagem invisível, decretou o final das estradas, caminhos e pontes e iniciou um longo e rico discurso, preenchido
por duras profecias. Se os dias vividos já traziam dor, o futuro seria muito pior, porque a guerra tinha contribuído para arruinar o tempo e terminar com a esperança. Para ele, já não existiam homens, mas sim bichos. Não havia sentimento de família nem amor à nação: «Porque esta guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro de vós. Agora, a arma é a vossa única alma. Roubaram-vos tanto que nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos. Será mil vezes pior que o passado pois não vereis o rosto dos novos donos e esses patrões se servirão de vossos irmãos para vos dar castigo.» (51) Os seres humanos deixaram de existir e, principalmente, de sentir. Não havia amor, carinho e afecto e o que reinava era a lei da sobrevivência animal.
Ninguém tinha coração nem alma e os poderosos sem rosto servir-se-iam do povo para alimentar os seus caprichos. Todos passariam a viver à custa de interesses e de injustiças e até os mortos não alcançariam a paz. Os tempos que viriam ainda seriam piores porque dominava a brutalidade e só viveria quem passasse por cima dos outros e não respeitasse ninguém.

O discurso do feiticeiro prosseguiu com a reação da natureza àquelas calamidades. O vento, as areias, os pássaros e a terra também castigariam o homem, por não suportarem tanta desgraça: «E há-de vir um vento que arrastará os astros pelos céus e a noite se tornará pequena para tantas luzes explodindo sobre as vossas cabeças. As areias se voltarão em redemoinhos furiosos pelos ares e os pássaros tombarão extenuados e ocorrerão desastres que não têm nome, as machambas serão convertidas em cemitérios e das plantas, secas e mirradas, brotarão apenas pedras de sal. As mulheres mastigarão areia e serão tantas e tão esfaimadas que um buraco imenso tornará a terra oca e desventrada.» (52) Mas, apesar do anterior cenário de desolação e sofrimento, ainda havia razões para ter esperança porque, segundo o adivinho, no final, surgiria uma manhã cheia de uma nova luz e ouvir-se-ia uma voz antiga, anterior a tudo, e se escutaria uma canção de embalar: «E surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da primeira mãe. Esse canto, sim, será nosso, a lembrança de uma raiz profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz nos dará a força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingênuo entusiasmo dos namorados.» (53) A profecia do feiticeiro aponta, precisamente, para o
tema desta dissertação. Moçambique só recuperará se souber ouvir a voz da ancestralidade e se se refugiar nos seus valores culturais, não precisando, para isso, sequer, de rasurar a história do colonialismo. Pelo contrário, a nação deve retirar desse período tudo o que for preciso para, hoje, distinguir o que é seu de original e de direito. O povo deverá valorizar-se como é, com as suas tradições, crenças e história, para alcançar a harmonia e recuperar a memória coletiva africana. Esta memória, a cultura tradicional, não assenta somente no período pré-colonial, mas em todo o percurso africano, ao longo dos tempos.

A partir destas constatações podemos inferir que a organização das nações não deve ser igual, porque cada país possui uma cultura e uma memória diferentes. Por isso, todos os povos, em geral, devem procurar a sua identidade e assumir-se em função dessa descoberta. Moçambique, em particular, deve ouvir o conselho e as estórias dos ancestrais e dedicar-se à construção de um novo mundo com base naquilo que é antigo e com a destruição de todas as recordações da guerra. E é, desta forma, que o feiticeiro termina o seu discurso. Exorta os seus seguidores a deixarem a sua condição de animais e a morrerem como gente que não são.

Consequentemente, Kindzu assiste, no seu sonho, a um espectáculo inédito. O adivinho proferiu palavras ininteligíveis e espargiu os presentes com um líquido que os fez entrar em convulsões, perder as dimensões humanas e transformarem-se em animais. A fala, a palavra, foi o último aspecto a ser convertido, dado que é o verbo que marca a nossa existência, permite que os outros nos recordem e nos faz alcançar a imortalidade. Como é que se poderá explicar esta situação? Sem dúvida que as mortes dos intervenientes no período de guerra civil é a melhor solução para se alcançar a paz. Por isso faleceram Taímo, Farida, Tuahir e mesmo Kindzu. Mas não basta a morte para se alcançar a regeneração, a renovação e a purificação. É também imprescindível que surja a verdade e a realidade puras. Por isso os homens que não merecem tal tratamento, que se regem somente por instintos e se comportam como animais, se devem transformar no que verdadeiramente são: bichos. Esta mutação não sucedeu a Kindzu por ele ser verdadeiro, puro e lutador. Soube perseguir os seus ideais, tentou vencer o ambiente que o rodeava e descobriu, no final da epopeia, que a chave para a felicidade estava na sua aldeia natal, ao lado da mãe. Além disso,
no mesmo sonho, consegue transformar-se no que mais aspirava: um guerreiro naparama, para salvar o seu irmão que, entretanto, surge a humanizar-se. Junhito, como sempre foi simples e não maltratou ninguém, merece pertencer ao novo mundo e com ele verifica-se o processo
inverso: de galinha transforma-se em homem. No entanto, ainda há réstias de mal a deflagrar e todos os que corporizam a corrupção e a crueldade na estória, Romão Pinto, Estêvão, Shetani, Assane, Antoninho e milicianos, tentam atacá-lo, fugindo com a aproximação de Kindzu: «-Teu pai tinha razão: sempre te viemos buscar. Então, Junhito me chamou. Eu me olhei, sem confiança. Mas o que em mim vi foi de dar surpresa, mesmo em sonho: porque em meus braços se exibiam lenços e enfeites. Minhas mãos seguravam uma zagaia. Me certifiquei: eu era um naparama! Ao me verem, em minha nova figura, aqueles que maltratavam o meu irmão se extinguiram num fechar de olhos.» (57)

O sonho termina com o filho mais velho do pescador Taímo a cantar canções de embalar, o som que marcará o início de uma nova era, para ajudar o irmão a voltar à condição humana, e com a consequente chegada da mãe com uma nova criança ao colo, símbolo de um
futuro melhor. A família volta a reunir-se e tudo indicia um feliz retorno à harmonia. Kindzu despede-se.

Este sonho é marcante dentro da economia da narrativa, visto comprovar que, através dele, tudo se alcança. Kindzu, durante a estória, desesperou muitas vezes, mas nunca largou a esperança e nunca deixou de sonhar. Por isso conseguiu tudo o que procurava: tornar-se um guerreiro naparama, aperceber-se de que os tempos iam mudar e a guerra terminaria. Só lhe faltava encontrar Gaspar… Mas, também isso conseguirá a partir de uma visão alucinada do seu destino próximo. Seguia numa estrada estranha que se deslocava de paisagem em paisagem: a estrada do sonho. Era a terra que o levava, sonâmbulo, a conhecer o seu fado; a mesma terra que recolhia os sonhos dos homens, todas as noites, a fim de criar um novo mundo. E Kindzu viu um autocarro queimado de encontro a uma árvore, sentiu dentro de si uma grande força que o obrigava a não desistir e encontrou Gaspar, antes de morrer: «Uma voz interior me pede para que não pare. É a voz de meu pai que me dá força. Venço o torpor e prossigo ao longo da estrada. Mais adiante segue um miúdo com passo lento. Nas suas mãos estão papéis que me parecem familiares. Me aproximo e, com sobressalto, confirmo: são os meus cadernos. Então, com o peito sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse pela segunda vez.» (58)

Neste momento do romance, em que a realidade da estória se funde com a fantasia e se dá a revelação suprema, há também uma espécie de início de um tempo inaugural. Kindzu morre durante a viagem no machimbombo, mas os cadernos que deixa representarão o início de Muidinga. É através deles que o menino descobrirá que é Gaspar, encontrará a identidade, as raízes e o seu verdadeiro eu, que tanto procurava. É com ele que virá o futuro e foi por ele que valeu a pena sonhar e ter esperança. Então, a morte de Kindzu trouxe-lhe a vida.

Não podemos esquecer que o elo de ligação entre as personagens desta narrativa são os cadernos. É através da sua escrita que Kindzu ganha força, é a partir da sua leitura que Gaspar ganha esperança e é com as suas folhas que a terra renascerá. Esta passagem da oralidade para a escrita não é considerada uma negação da tradição oral; pelo contrário, a escrita representa a difusão do conhecimento e é uma conquista da luta com o povo colonizador.

O romance Terra Sonâmbula é uma narrativa de dor e de sofrimento mas é, acima de tudo, um romance de sonho e de esperança. E é a esperança o sentimento que predomina em Tuahir e Muidinga, assim como em outras personagens que contactam com eles: Siqueleto, Nhamataca, as idosas profanadoras ou o Pastor. Siqueleto é uma figura curiosa que, abandonada à solidão, pretende semear Muidinga e Tuahir para fazer nascer mais gente. Ficou só, quando os habitantes da aldeia fugiram, com medo dos bandos e salvou-se porque fingia que estava morto. Para não se cansar, abria só um olho de cada vez, tinha arrancado os dentes, com o objectivo de não sentir fome e era protegido por uma hiena, que não admitia a aproximação de ninguém. Depois de interpelado pelo velho e pela criança, o ancião desdentado explicou que tratava mal os visitantes porque eles vinham com intenções cruéis, os tempos eram outros: «Antigamente, quem chegava era em bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos dedos.» (63) E nem a mensagem de esperança num futuro melhor, sem medos e sem inquietações, veiculada por Tuahir, o demoveu do objectivo de os matar. No entanto, o episódio tem um final surpreendente. Quando Siqueleto
se apercebe que Muidinga sabe escrever, solta-os e ordena ao miúdo que escreva o nome dele com um punhal numa árvore, matando-se em seguida. A sua existência física já pode terminar, porque alcançou algo muito mais importante: a perenidade: «A aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore.» (64) Este momento da narrativa representa a chegada da escrita à África profunda, o princípio de um novo tempo. Com ela, os objectos lembrados tornam-se presentes mesmo na ausência e os tempos fundem-se: «Lembrar (…) reforça maximamente o efeito de temporalidade, de temporalidades, de convivência de muitos espaços e de muitas vozes. Esse acentuar da temporalidade tem consequências definitivas na presentificação dos objectos ausentes, e na distanciação dos objectos presentes.» (65) Percebemos, deste modo, que a escrita assume um papel crucial para a memória colectiva da nação moçambicana. través dela, as estórias e a tradição oral não serão esquecidas. A oralidade sofre um processo de construção inverso, intralinguístico, que a fortifica e Siqueleto tem consciência desse aspecto, pelo que, ao contrário de rejeitar a inovação, a emprega em proveito próprio. A inscrição do seu nome dá a vida, permite o renascimento e a iniciação.

Outra personagem que se revela marcante nesta estória é Nhamataca, o Fazedor de Rios. O velho e a criança encontram-no durante umas deambulações nos terrenos em redor do machimbombo e, mais uma vez, constatam que a esperança permanece no coração do povo.

Nhamataca trabalhou com Tuahir no tempo colonial e, naquele momento, cava para fazer um rio. Sonha com esse elemento para matar a sede, a fome e para oferecer aos homens e a Moçambique uma nova vida. O mais velho habitante do autocarro adere imediatamente à causa, ao contrário do jovem, que não se quer entregar a loucuras e a irrealidades. Mas, acaba por aceder e abrem um buraco durante dois dias, até ao início de uma tempestade. A água da chuva começa, então, a encher o sulco aberto, ferozmente, e acaba por levar consigo o Fazedor de Rios, feliz, porque pensa ter alcançado o seu objectivo. No dia seguinte, a seca volta a imperar e Muidinga e Tuahir entristecem novamente: «Muidinga olha a paisagem e pensa. Morreu um homem que sonhava, a terra está triste como uma viúva.» (66) De facto, a terra perdeu mais um aliado para a metamorfose do país; mas esse aliado desapareceu preenchido pela ilusão de que alcançara o seu maior sonho e isso é o que é significante. A estória de Nhamataca – tal como a de Siqueleto, das Idosas Profanadoras e do Pastor – funciona, dentro da economia narrativa, como uma parábola, visto ter um sentido iniciático. Ana Mafalda Leite acentua o papel de instância crítica inovadora dessa unidade narrativa e destaca o papel do autor que, através dela, educa o receptor: «A leitura ou audição da parábola requer do auditor uma competência lúdica – narrativa e semântica – e a actividade de leitura / escuta só se realiza se ela é entendida. A parábola tem carácter cultural e público, crítico e subversivo, não é uma prática inocente. Instaura a ficção no texto base em que é inserida e obriga o ouvinte ou a personagem a reflectir sobre uma aprendizagem de sentidos.» (67) A vocação educativa do Fazedor de Rios incide na concretização dos sonhos e na capacidade deles se tornarem reais, a partir das crenças individuais e colectivas. Nhamataca acredita e morre na ilusão de ter alcançado o que aspirava. Mia Couto enfatiza, deste modo, a força das convicções e da esperança, como meio de realização dos desejos. A esperança volta a sentir-se em personagens singulares, como as idosas profanadoras.

Muidinga é atacado, abusado e violentado por este conjunto de mulheres, porque quebrou a tradição e interrompeu uma cerimônia para afastar os gafanhotos das plantações (68). As crenças e as magias ancestrais são sagradas e revelam a memória coletiva do povo, que não cede à inadequação dos dias experimentados. Este ritual anuncia, ainda, que as idosas acreditam que devem manter os seus ritos, ignorar os estranhos poderes estrangeiros e esperar, pacientemente, pelo respeito das culturas autóctones. A esperança, assim, permanece. O Pastor é uma figura que se adapta ao contexto moçambicano de um modo diverso.

Não tem grandes ambições como alcançar a imortalidade ou encontrar água, mas refugia-se na simplicidade de contar uma história. Encontra Muidinga no pântano, onde este viaja com o tio, e atrai-o com o som da xigovia, para depois lhe contar um maravilhoso e triste caso de amor, ocorrido entre o maior dos seus bois e uma garça. Apercebendo-se que o animal do rebanho andava distraído, só e melancólico, começou a espiá-lo e notou que contemplava assiduamente uma garça a voar no céu. Para seu espanto, começou a assistir à metamorfose do animal na dita ave, em noites de lua cheia, e ao namoro entre os dois pássaros, enquanto o sol não nascia. Todavia a lua deixou de aparecer durante muito tempo e o boi acabou por morrer, com lágrimas de dor nos olhos e uma saudade intensa no coração.

Muidinga fica muito agradecido por o pastor ter partilhado com ele aquela estória, capaz de realçar os mais belos sentimentos. De novo, o mundo do maravilhoso contribui para suavizar a existência e, mais uma vez, a tradição oral demonstra o caminho para cosmos mágicos.

As duas personagens que mais sonham são Tuahir e Muidinga. Todas as noites, o velho pede ao jovem para lhe ler mais um pouco dos cadernos de Kindzu e assim ambos são transportados para um universo irreal, abandonando a existência física marcada pela dor. Mas esta busca de mundos possíveis não se limita aos textos de Kindzu ou à acção de outras personagens, porque os dois habitantes do machimbombo conseguem, igualmente, criar sozinhos um todo de fantasia e evasão. É o que se verifica quando Tuahir afaga Muidinga e manda-o pensar em mulheres, para se ir iniciando na sexualidade, ou quando os dois simulam estar numa estação de comboios, o velho com a bandeira e a lâmpada, a controlar as passagens, e o jovem a aguardar a chegada das carruagens.

O desejo de evasão, inerente a todas as personagens do romance, avulta-se quando os protagonistas resolvem brincar ao “faz de conta”. Estas duas figuras não foram escolhidas em vão, pelo autor, visto que simbolizam as classes etárias que mais sofrem em períodos de conflito armado: as crianças e os velhos. Também são estes grupos que conseguem, com maior facilidade, criar outras realidades e transportar-se para um mundo maravilhoso. Por isso é que Muidinga e Tuahir resolvem, em determinado momento, fingir que são filho e pai, unidos por laços familiares verdadeiros. Um vestirá a pele de Kindzu e outro de Taímo. Procuram, desta forma, colmatar carências afectivas. Mas o jogo não corre sempre bem, porque o velho pede apoio ao jovem e o menino sente uma grande revolta por ver os valores invertidos. Sente que não devia ser ele a cuidar do pai, mas sim o contrário, e sofre por não poder gozar o estatuto de criança, tendo sido transportado para a idade adulta precocemente: «O miúdo lhe cobre com seu corpo. E sente pena de si. Como é que ele, tão menino, tão recém-recente, andava cuidando de seu pai? Como é que a sua mão, do tamanho de um beijo, protegia um homem tão volumoso?

(…) Ou seria que apenas depois da infância ele poderia ser criança?» (69) Muidinga acaba por ceder à dor, deixando as lágrimas escorrerem livremente. E é então que algo de novo lhe surge diante dos olhos. O pai de fingimento protege-o e apoia-o, fazendo desaparecer as mágoas. Transforma-se num menino: dá cambalhotas e brinca. Muidinga ri, depois de muito tempo, e percebe quais os maiores ensinamentos que Tuahir lhe poderá dar: ser criança e sonhar. A temática da infância é comum na literatura e pode, neste caso, ser relacionada com a busca da identidade cultural moçambicana. 

O resgate do passado e a busca do autóctone é metaforizado, desta forma, na simplicidade das crianças. Elas são as maiores vítimas da guerra, mas é nelas que a esperança se concentra. Com a conjugação da inovação e do genuíno, que a infância simboliza, encarna-se a possibilidade de uma sociedade justa e o advento de um novo tempo. A escolha de Muidinga, para símbolo da identidade moçambicana, reitera, precisamente, as enunciações anteriores.

É graças ao sonho que os dois habitantes do machimbombo se aproximam do destino final. A paisagem em frente ao autocarro continua a mudar, a terra continua a viagem em busca da libertação e aproxima um pântano dos dois protagonistas. Quando o vislumbram, Tuahir e Muidinga resolvem abandonar a habitação dos últimos tempos e procurar o mar. Esperam encontrar naquela imensidão uma maior razão para a existência. Em terra já não havia nada.

Porém, a caminhada no pântano é dolorosa e os mosquitos atacam-nos ferozmente. Tuahir adoece, provavelmente com malária, e começa a ouvir aves a agourarem a sua morte. Apesar desse aspecto, ainda encontra forças para fazer uma jangada e prosseguir em busca do mar. É lá que quer ser enterrado, nas águas tumultuosas, tal como Tahimo.

A situação do velho deixa Muidinga a viver um conflito interior. Por um lado sofre porque ao perder o amigo, perderá tudo: «À medida que a jangada avança no mangal o miúdo vai medindo o quanto afecto guarda por aquele homem. No fundo, o velho foi toda a sua família, toda a sua humanidade.» (71) e, por outro lado, receia aproximar-se dele porque tem medo da morte e do seu poder. Receia ser contaminado pelo fim. Muidinga ainda é novo, é uma criança com a vida toda pela frente e, apesar de amar intensamente o tio e de estar inserido numa realidade castrante, sente que se encontra no início e que deve agarrar a existência; para ele, há possibilidade de encontrar um futuro. Por isso é que o som da xigovia se faz sentir enquanto está confuso: para incutir esperança.

Tuahir morre no décimo primeiro capítulo de Terra Sonâmbula, depois de terem chegado à praia e de verem o mar. Mas, antes, pede a Muidinga para o deitar numa canoa e o empurrar pela água, de forma a falecer sem ver terra. Este elemento natural desiludiu-o em vida e quer deixá-lo na morte. O miúdo faz-lhe a vontade e nota, com espanto, que o concho onde vai deitar o idoso se chama Taímo, o nome do pai de Kindzu e o nome da canoa onde o aventureiro viajou.

As estórias fundem-se mais uma vez e indiciam o final. Com Tuahir deitado na embarcação, os dois aguardam a subida da maré, acompanhados pelo piar das gaivotas, pela serenidade do mar e pelas lágrimas de Muidinga. E, quando a água se aproxima, inicia-se a última leitura dos cadernos de Kindzu: «As ondas vão subindo a duna e rodeiam a canoa. A voz do miúdo quase não se escuta, abafada pelo requebrar das vagas. Tuahir está deitado, olhando a água a chegar. Agora, já o barquinho balouça. Aos poucos se vai tornando leve como mulher ao sabor de carícia e se solta do colo da terra, já livre, navegável. Começa então a viagem de Tuahir para um mar cheio de infinitas fantasias. Nas ondas estão escritas mil estórias, dessas de embalar as crianças do inteiro mundo.» (72) É, desta forma, que os dois heróis se despedem: com o sonho que Kindzu transporta até eles e com estórias de embalar, como a que Tuahir ensinou a Muidinga. O final desta personagem enquadra-se numa vertente simbólica específica, já que o seu fim representa o início. É com a sua morte que se vão implantar novos tempos e se iniciará o processo de paz.

E, mais importante, é no momento da sua morte que Muidinga se conhece. No último caderno de Kindzu, ele descobrirá que é Gaspar, filho de Farida e de Romão Pinto, e uma nova etapa se abre para ele, tal como se antevê uma nova fase para o país africano. Deste conjunto de circunstâncias, podemos concluir que Muidinga representa uma nação moçambicana sofredora e perdida, enquanto que Gaspar simboliza um país novo e mais forte, onde o saber do passado se conjugará aos conhecimentos do presente, para a construção de um futuro melhor.

Na obra, a noção de tempo está sempre presente. No entanto, esse tempo não está estruturado em momentos fisicamente bem delineados. O que se opõe é o tempo do sonho e da realidade, o tempo da identidade e da alteridade, o tempo colonial e o tempo pós-colonial… Isto implica a consciência de uma nova época e de um novo momento nacional. Depois da independência, a literatura moçambicana começa a afirmar-se em termos estéticos e sociológicos. Inocência Mata sintetiza os caracteres fundamentais desta consolidação das literaturas africanas em Língua Portuguesa.

A análise do romance Terra Sonâmbula não é simples. Depois de uma leitura superficial, a estória surge de uma forma belíssima e promove o conflito entre sentimentos antagônicos dentro do leitor. No entanto, a mensagem principal está escrita nas entrelinhas e compreende-se de modo conotativo. E essa mensagem é de esperança e de sonho. As personagens só conseguem sobreviver porque se entregam a um mundo de fantasia e de irrealidade, que lhes permite não enlouquecer ou morrer de dor. Mas, o sonho não basta. É imprescindível que se reúna a força dessa fé e dessa esperança, para se alcançar a totalidade. E o elemento que desencadeia essa acção é a terra. É ela que passeia durante a noite e recolhe aquilo que os homens ainda têm de bom dentro de si. É ela a responsável pela paz que se antevê no final do romance e é ela, nos seus passeios nocturnos, que permitirá o reencontro de Moçambique consigo. A nação moçambicana é ainda uma Terra Sonâmbula.

Caminhos Cruzados

Romance urbano do autor Érico Veríssimo, publicado no ano de 1935, Caminhos Cruzados conta uma história coletiva, mostrando a sociedade brasileira de forma crítica, contrastando a riqueza e a pobreza, ressaltando os problemas enfrentado por cada camada social.

Ao ser publicado, o romance chocou os críticos literários da época, os quais trataram a obra como imoral e subversiva. Foi considerada uma obra comunista, ganhando a admiração dos seguidores desta ideologia e por outro lado, denegrindo a imagem do autor perante o governo Vargas, coincidindo temporalmente com a Intentona Comunista.

Vários núcleos de personagens vão compondo a história, e embora se cruzem, se relacionem, não se conhecem. Acaba se assemelhando a uma novela, pois cada núcleo possui suas características, seus personagens, seu enredo. Embora muito diferentes, os personagens possuem algo em comum: a esperança que os move em busca de algo que nem eles mesmos sabem definir.

Os fatos e os acontecimentos vão se entrelaçando e formando uma teia, de modo que os personagens possuem vidas interligadas, porém completamente destacadas umas das outras. Em meio a esta atmosfera, o autor faz diversas críticas à sociedade burguesa como era na época (1935, em pleno governo Vargas). Se utiliza de uma linguagem realista/naturalista para expor de forma explícita os desníveis existentes entre os grupos sociais. Tendo sido escrito em época de tensão política e social no país, o livro escandalizou a muitos.

No prefácio que escreveu em 1964, o autor se refere ao romance como “um livro de protesto que marca a inconformidade ante as desigualdades, injustiças e absurdos da sociedade burguesa”.

Descrevendo diversos tipos diferentes de personagens, o autor retrata uma cidade inteira compondo murais através de suas descrições. Destaca a miséria, a opressão social e a hipocrisia.

Tem como características fortes a aproximação com as artes plásticas e a temática comum a outros autores da época, que se inclinavam igualmente à crítica social. Utiliza também a técnica do contraponto, que consiste em apresentar diferentes pontos de vista das situações vividas pelas personagens, que independem uma da outra, ou seja, não estão ligadas a um núcleo maior. Aborda a história de vários grupos de personagens, cujas histórias acontecem ao mesmo tempo, ou seja, em um período de cinco dias. A história começa na manhã de sábado e termina na noite de quarta-feira. As cenas são objetivas, pouco elaboradas e reproduzem ação contínua.

Romance um tanto quanto denso, Caminhos Cruzados divide opiniões, principalmente para os apreciadores de Clarissa.

Coração, Cabeça e Estômago

Primeiramente trata-se de uma obra metalingüística, pois o livro conta a história da origem do próprio livro melhor explicando a obra é uma herança deixada para um amigo, seu conteúdo é a biografia do autor que após morrer endividado explica o porquê de tê-lo escrito: dar explicação para o saber viver vive dito pelos franceses, aproveitar a vida de modo a conquistar dela o máximo.

Acreditava o autor que tal obra seria de grande valia para a humanidade e isto alçaria a obra à lista dos best–sellers e sanaria as suas dívidas póstumas. É um típico romance balzaquiano, pois a procura do conforto material, o ascender social e o gozo são caricaturas dos personagens, muitas vezes satirizados nas situações que enfrentam.

CORAÇÃO Guiado pelo coração Silvestre, nosso personagem – biográfico ama sete mulheres (sete é o símbolo dos pecados capitais que levam o homem ao degredo da alma). Sete mulheres. “O meu noviciado de amor passei-o em Lisboa. Amei as primeiras sete mulheres que vi e que me viram.” 1° mulher – Leontina, vizinha de Silvestre, órfã, criada por um ourives, meigo do par dela, analfabeta, de olhos bonitos. Por ela também era apaixonado um outro vizinho, um algibebe (vendedor de roupas), que, tomado pela paixão descuidava de seus negócios. Ele odiava Silvestre e lhe escreveu uma carta ‘anônima’ – Leontina reconheceu a letra ameaçando-o de morte. A moça teve raiva do algibebe por isso.

Cientificado por outra carta anônima do algibebe de que Leontína namorava Silvestre, o ourives levou-a para sua propriedade rural e casou-se cora ela, apesar da objeção das filhas dele. Silvestre ignorou o rumo tomado pela amada. Contudo o leitor fica sabendo que esta após algumas desventuras acaba por enriquecer-se após o óbito do marido, vem posteriormente casar-se com o algibebe que vem a ganhar um prêmio lotérico tornaram-se gordos e ricos. 2° mulher – Silvestre nunca soube o nome dessa outra vizinha. Ela só aparecia na janela, assim mesmo ficavam visíveis apenas os olhos, entre as tábuas das persianas.

Silvestre lhe remeteu uma carta enorme declarando-se. Como resposta, recebeu um bilhete, incentivando-o a escrevei mais. Julgando que ela o ironizara, Silvestre chegou a adoecer de urna febre que o reteve onze dias na cama. (Caro leitor observe o exagero romântico desta cena! Aos nossos olhos contemporâneos chega a parecer hilária tal postura). Nunca mais Silvestre viu a vizinha. Soube depois que a moça era amante de um conde, que, por ser casado, não vivia com ela. Tornara-se alcoólatra. Na época em que Silvestre a conheceu tinha um filho de cinco anos. Nota do autor – O nome dessa mulher era Margarida. Ela e o filho vieram a morrer de febre amarela, abandonados por todos, inclusive o conde. 3° mulher — Catarina era uma quarentona, conheceu Silvestre quando do seu freqüentar da casa onde este vivia hospedado.

Declarou-se a ele, dizendo-se possuidora de boa renda financeira e proprietária de dez burrinhos. Na noite em que o apaixonado rapaz teve um encontro com Catarina na casa dela, apareceu repentinamente o irmão dela de espada em punho. Silvestre fugiu amedrontado. Catarina exigiu que Silvestre se casasse com ela, pois estava desonrada perante a opinião publica. O ex-namorado se negou a casar. Cinco anos depois, Silvestre soube que Catarina e o irmão se tornaram herdeiros de um tio rico. ( Observe que o nosso personagem ao obedecer o coração não alcança nunca o sucesso financeiro. 4° mulher – Silvestre conheceu Clotilde numa festa. O cavalheiro que os apresentou informou ao rapaz que ela e as companheiras eram muito fúteis e vaidosas.

Isso ocorrera em um balneário. Retornando a Lisboa, Silvestre, apaixonado por Clotilde procurou-a no endereço, que lhe dera, mas não a localizou. Num encontro casual com o mesmo cavalheiro da festa, Silvestre lhe contou sua paixão por Clotilde. Surpreso, soube que o tal cavalheiro era o marido dela! Ele ofereceu ao apaixonado uma das amigas da mulher. Constrangido, Silvestre rasgou os poemas que havia escrito para Clotilde e nunca mais a procurou. 5° mulher – Esta agora é a D. Martinha, proprietária do hotel onde vivia Silvestre.

Sempre o paquerava, mas este demorou a aperceber-se disso. D. Martinha era uma viúva de 35 anos. Então, passaram a se relacionar. Veremos que este caso não vai dar certo. 6° mulher – D. Martinha contratou corno criada uma mulata brasileira, chamada Tupinoyoyo (observe o estereótipo da brasileira aos olhos do europeu, mulata de nome indígena).

Silvestre ardeu de paixão pela criada. Os dois se encontravam às escondidas da ciumenta. Até que foi flagrado e expulso do hotel. Alguns anos depois, avistou a mulata brasileira, num teatro, com um português importante. (Dizia-se que ela era rica e educada em Londres) 7° mulher – Mademoiselle Elise de la Sallete viera da França, envergonhada porque tinha sido abandonada por um duque, seu marido. Em Portugal, mudou de nome e se tornou modista. Cibrão Taveira, amigo de Silvestre, marcou um encontro com ela; mas, como não sabia falar francês, pediu que Silvestre fosse com ele. Enquanto este se afastou com a francesa, aquele ficou com a amiga dela e soube a história da outra.

Comovido, chegou a escrever alguns capítulos sobre a vida nobre francesa. Certo dia, estando Silvestre no Passeio Público, cumprimentou de longe as duas francesas que passavam. Ouviu de um grupo de homens, que conversavam perto, a verdadeira história da “santa” francesa: era um na mulher vulgar que tinha tido caso com vários homens e agora, com falso nome, inventou a versão de nobre envergonhada.

Silvestre voltou a encontrá-la na casa de um amigo, acompanhada de um tenor italiano. Aproximou-se dela, chamou o companheiro de duque e acrescentou que, afinal, tomara vergonha e viera buscar a esposa. O tenor, sem entender nada, mas considerando-se insultado, ameaçou bater em Silvestre, que se retirou sem reagir.

A mulher que o mundo respeita – Depois de tantas desilusões amorosas, Silvestre resolveu ser cético Escreveu poemas que tematizavam a desilusão e mudou sua aparência: cabelos desgrenhados, calva artificial (raspava os cabelos no alto da testa), pintura para empalidecer o rosto e criar olheiras, roupas pretas e cavalo preto… Corria a história de que ele queria morrer por ter amado uma neta de reis, cujo pai, contrariado, a fez ingressar no convento.

Certo dia, aconteceu que Silvestre, indo para Benfica, viu numa varanda urra moça bonita, por quem logo se apaixonou. No dia seguinte, conseguiu um breve diálogo com o criado da moça, o qual lhe contou que o nome dela era Paula, uma fidalga morgada (= herdeira única de bens de família). Mandou-lhe carta pelo criado, sem obter resposta. Num baile, Silvestre viu Paula entrar de braço com um rapaz. Quando conseguiu oportunidade de falar com ela a sós, Paula pediu que não a procurasse mais, pois já estava comprometida.

Sem desanimar, inspirado no poeta Castilho, segundo o qual é preciso ofertar presentes às ninfas (“Festões, grinaldas, passarinhos, frutos”), Silvestre mandou para Paula uma cesta com pêssegos, flores e um periquito, acompanhada de uma carta. Paula respondeu, também por carta, agradecendo.

Movido de paixão, Silvestre resolveu passar de madrugada diante da casa de Paula e viu um homem encapotado parado lá. Escondido, o romântico apaixonado viu uma mulher – supostamente Paula – abrir a janela e ficar conversando, aos sussurros, com o desconhecido. Armado, Silvestre tornou a postar-se, alta noite, diante do palacete da moça, disposto a matar os dois amantes. Saindo de casa, aproximou-se dele uma mulher chamando-o de Caetano, sem se reconhecerem na escuridão.

Convidou-o a entrar. Silvestre sussurrou não se chamar Caetano e se retirou. Assim que a mulher, assustada, voltou para o interior da casa, deixando o portão aberto, ele entrou no jardim e ficou escondido. Cal a pouco, chegou Caetano e ela o atendeu da janela, sem permitir que entrasse, com medo do outro.

Foi então que Silvestre reconheceu Eugênia, a empregada. Julgando-se digno de ser amaldiçoado por ter pensado mal de Paula. Retornando a Lisboa, Silvestre soube que Paula tinha sido abandonada pelo noivo, um duque, que a surpreendera traindo-o com um amigo dele.

Tornou a vê-la num teatro, acompanhada de Piedade, conhecida por seu sarcasmo, No dia seguinte, Paula enviou-lhe uns versos, compostos por Piedade, nos quais era chamado de periquito. Ele ficou muito magoado. Para esquecer sua mágoa, Silvestre resolveu passar uma temporada em Santarém Acabou hospedando-se na casa de um antigo colega, administrador do Conselho.

Quando, por ordem do governador, seu anfitrião foi localizar um casal de fugitivos, Silvestre o acompanhou. Para surpresa dele, a moça procurada era Paula; saiu da sala sem olhar para a desgraçada’. O amante acabou na cadeia e ela foi levada para a propriedade rural do pai. Paula veio a casar-se com um primo que lhe fora destinado desde a infância.

O filho do casal nasceu forte, apesar de prematuro (aliás, no dizer do avó de Paula, era comum na sua família, as mulheres terem filhos que nasciam antes de 6 meses de casadas, ou seja a safadeza era traço genético, que ironia!). Paula tornou-se senhora respeitada na alta sociedade, alvo da atenção e companheira de honrados anciãos de Lisboa.

Observe que Paula é a mulher que o mundo respeita uma verdadeira cortesã ou dita vagabunda nos dias atuais, por ser rica todos os pecados são lhe perdoados, fosse pobre seria escorraçada socialmente. Agora vejamos quem é a mulher que o mundo despreza. A mulher que o mundo despreza – Silvestre fazia parte daquele grupo de românticos que gostavam de se embebedar para abafar as mágoas. Bêbado, ele fazia discursos sobre a filosofia da história ou sobre a história da filosofia.

Certa noite, ao sair alcoolizado de um bar, encontrou no cais urna mulher. Levou-a para casa o pediu-lhe que contasse sua história. Marcolina relatou que, órfã de pai desde o dia em que nasceu, viveu a infância com as cinco irmãs mais novas, filhas de sua mãe com o padrasto, que acabou preso e degredado para o Brasil. (Para o Brasil só vem coisa boa, né!??) Quando Marcolina completou 14 anos, a mãe que esmolava e se prostituía – entregou-a para um barão cinqüentenário.

Este tornou-a sua amante e a educou como pessoa da sociedade, não lhe permitindo contato com a família dela. tantas desilusões amorosas, Silvestre resolveu ser céptico Escreveu poemas que tematizavam a desilusão e mudou sua aparência: cabelos desgrenhados, calva artificial (raspava os cabelos no alto da testa), pintura para empalidecer o rosto e criar olheiras, roupas pretas e cavalo preto…

Corria a história de que ele queria morrer por ter amado uma neta de reis, cujo pai, contrariado, a fez ingressar no convento. Certo dia, aconteceu que Silvestre, indo para Benfica, viu numa varanda urra moça bonita, por quem logo se apaixonou. No dia seguinte, conseguiu um breve diálogo com o criado da moça, o qual lhe contou que o nome dela era Paula, uma fidalga morgada (= herdeira única de bens de família).

Mandou-lhe carta pelo criado, sem obter resposta. Num baile, Silvestre viu Paula entrar de braço com um rapaz. Quando conseguiu oportunidade de falar com ela a sós, Paula pediu que não a procurasse mais, pois já estava comprometida. Sem desanimar, inspirado no poeta Castilho, segundo o qual é preciso ofertar presentes às ninfas (“Festões, grinaldas, passarinhos, frutos”), Silvestre mandou para Paula uma cesta com pêssegos, flores e um periquito, acompanhada de uma carta. Paula respondeu, também por carta, agradecendo. Movido de paixão, Silvestre resolveu passar de madrugada diante da casa de Paula e viu um homem encapotado parado lá.

Escondido, o romântico apaixonado viu uma mulher – supostamente Paula – abrir a janela e ficar conversando, aos sussurros, com o desconhecido. Armado, Silvestre tornou a postar-se, alta noite, diante do palacete da moça, disposto a matar os dois amantes. Saindo de casa, aproximou-se dele uma mulher chamando-o de Caetano, sem se reconhecerem na escuridão. Convidou-o a entrar. Silvestre sussurrou não se chamar Caetano e se retirou. Assim que a mulher, assustada, voltou para o interior da casa, deixando o portão aberto, ele entrou no jardim e ficou escondido.

Cal a pouco, chegou Caetano e ela o atendeu da janela, sem permitir que entrasse, com medo do outro. Foi então que Silvestre reconheceu Eugênia, a empregada. Julgando-se digno de ser amaldiçoado por ter pensado mal de Paula. Retornando a Lisboa, Silvestre soube que Paula tinha sido abandonada pelo noivo, um duque, que a surpreendera traindo- o com um amigo dele. Tornou a vê-la num teatro, acompanhada de Piedade, conhecida por seu sarcasmo.

No dia seguinte, Paula enviou-lhe uns versos, compostos por Piedade, nos quais era chamado de periquito. Ele ficou muito magoado. Para esquecer sua mágoa, Silvestre resolveu passar uma temporada em Santarém Acabou hospedando-se na casa de um antigo colega, administrador do Conselho. Quando, por ordem do governador, seu anfitrião foi localizar um casal de fugitivos, Silvestre o acompanhou.

Para surpresa dele, a moça procurada era Paula; saiu da sala sem olhar para a desgraçada’. O amante acabou na cadeia e ela foi levada para a propriedade rural do pai. Paula veio a casar-se com um primo que lhe fora destinado desde a infância. O filho do casal nasceu forte, apesar de prematuro (aliás, no dizer do avó de Paula, era comum na sua família, as mulheres terem filhos que nasciam antes de 6 meses de casadas ou seja a safadeza era traço genético, que ironia!). Paula tornou-se senhora respeitada na alta sociedade, alvo da atenção e companheira de honrados anciãos de Lisboa.

Observe que Paula é a mulher que o mundo respeita uma verdadeira cortesã ou dita vagabunda nos dias atuais, por ser rica todos os pecados são lhe perdoados, fosse pobre seria escorraçada socialmente. Agora vejamos quem é a mulher que o mundo despreza. A mulher que o mundo despreza – Silvestre fazia parte daquele grupo de românticos que gostavam de se embebedar para abafar as mágoas. Bêbado, ele fazia discursos sobre a filosofia da história ou sobre a história da filosofia.

Certa noite, ao sair alcoolizado de um bar, encontrou no cais urna mulher. Levou-a para casa o pediu-lhe que contasse sua história. Marcolina relatou que, órfã de pai desde o dia em que nasceu, viveu a infância com as cinco irmãs mais novas, filhas de sua mãe com o padrasto, que acabou preso e degredado para o Brasil. (Para o Brasil só vem coisa boa, né!??) Quando Marcolina completou 14 anos, a mãe que esmolava e se prostituía – entregou-a para um barão cinqüentenário.

Este tornou-a sua amante e a educou como pessoa da sociedade, não lhe permitindo contato com a família dela. Odiando a vida de cativeiro que levava, Marcolina apaixonou-se por Augusto, guarda-livros do barão. Ciente disso, despediu o rapaz do emprego. Mesmo assim, através da professora de bordados, a moça entrou em contato com Augusto. Informado do encontro, o barão chegou a bater em Marcolina, mas, arrependido, prometeu casar-se com ela, assim que morresse a esposa dele, que vivia no Brasil. Marcolina aprendeu a escrever – mesmo sem permissão do barão – com a professora de bordados- Resolveu fugir; mas deixou urna carta para o amante.

Antes que fosse embora, o barão entrou no quarto dela com duas pistolas engatilhadas, uma para matá-la e outra para matá-lo, Amedrontada, Marcolina manifestou arrependimento e jurou fidelidade a ele. Às ocultas, porém, escreveu uma carta para Augusto, pedindo-lhe que a recebesse pobre. A intermediária seria a professora de bordado, que, comprada pelo barão, entregou-lhe a carta. Enfurecido, o desatinado amante entrou subitamente no quarto de Marcolina e mandou que ela devolvesse tudo o que dele havia ganho: vestidos, jóias… e a liberou para o guarda-livros, Na saída, porém, o barão ajoelhou-se aos pés dela e implorou que ficasse com ele, lembrando-lhe a pobreza em que passaria a viver.

Marcolina aceitou a nova proposta do barão. O casal saiu em viagem pela Europa. Na Alemanha, o barão sofreu um ataque apopléctico e morreu de repente. A viúva então ficou com todos os bens e Marcolina vendeu as jóias, apurou uma importância significativa. Procurou a irmã prostituta para ajudá-la; no entanto, no último grau de decadência, dominada pelo álcool, pela miséria e pela tuberculose, a irmã faleceu. Marcolina encontrou casualmente Augusto, agora estudante de Medicina. Os dois continuaram se vendo e ele propôs casarem-se. Mesmo sem o antigo amor, mas por precisar de vida sossegada, Marcolina aceitou a proposta.

Dentro de dois anos, Augusto pôs a perder todos os bens da mulher, com maus negócios, jogatina e prostitutas; depois, sumiu. Em extrema miséria, Marcolina ingressou na prostituição e foi acometida de tuberculose. Na noite em que Silvestre a encontrou, ela planejava matar-se. Ele, então, passou a protegê-la. Recolheu as irmãs numa casa de recuperação e levou Marcolina para sua propriedade rural.

Lá ela melhorou um pouco, contudo não resistiu à doença e morreu. Um pouco antes de sua morte, soube que o padrasto havia retornado e levou as filhas para sua companhia, sem interessar-se pela ex-mulher.

Nota-se aqui que a prostituta tem uma alma caridosa, dadivosa e fraterna, a antítese de Paula que triunfa socialmente e não possui quaisquer destes sentimentos. O autor faz tal comparação exatamente para demonstrar ( isto é até uma postura realista ) a indústria de estereótipos a que somos submetidos os ricos são bons e os pobres são maus o mais puro maniqueísmo ideológico.

CABEÇA Silvestre resumiu suas idéias sobre o amor em sete máximas ( princípios); porém preteriu tornar-se jornalista político.

Ofendidos por seus artigos, os opositores impossibilitaram a permanência dele em sua aldeia, Foi morar no Porto, onde, para surpresa dele, ninguém o conhecia, exceto um literato que, ao dizer-lhe que o considerava um péssimo escritor provinciano (= da roça) levou um soco no rosto. Silvestre passou a freqüentar a sociedade, encantava-se com a vivacidade e naturalidade das mulheres, que gostavam de se alimentar bem e divertir-se.

Foi pena que, alguns anos depois, os romances românticos as fizeram pálidas, lacrimosas e sem vida. Deixando o coração de lado, Silvestre só vivia da cabeça, isto é, calculava como poderia chegar a ministro. Em seus artigos polêmicos, pediu que se matassem os velhos e se exaltasse a juventude. Depois, combateu também as novas gerações. O jornal em que escrevia recebeu multas por causa de seus escritos.

Tão decepcionado no Porto quanto ficara com as mulheres de Lisboa, Silvestre mudou de planos: abandonou as pretensões políticas e criou o objetivo de enriquecer com o casamento. Páginas sérias de minha vida – Num baile, Silvestre conheceu as três herdeiras mais ricas da sociedade portuense.

Sua cabeça pediu que namorasse a mais velha, viúva e feia. Aproximou-se dela e fez algumas perguntas. Além de ouvir respostas tolas, ela o desprezou por tê-la ironizado. Silvestre tentou aproximar-se da segunda, morena e bonita, mas soube que ela namorava Josino – velho conquistador, com quem veio a se casar, Aliás, Josino foi objeto de versos satíricos de Silvestre num jornal literário da época. A terceira mulher, Mariana, mais nova e que lembrava um anjo de igreja, sem vida, órfã de um brasileiro rico, era criada por Francisco José de Sousa, casado com uma brasileira, D. Rita.

Este casal acabou desaparecendo repentinamente do Porto, deixando Mariana num convento. Mais tarde se ficou sabendo que a razão do sumiço do casal foi o escândalo que envolveu a “família dos brasileiros”, como eram chamados, O Sr. Francisco José admirava o advogado Dr. Anselmo Sanches, homem honesto. Embora os homens honestos do Porto fossem hipócritas, Dr. Anselmo perecia exceção. Muitos o contratavam para advogar a favor de mães e filhas, A ele Silvestre escreveu uma série de artigos agressivos contra o Dr. Anselmo, sem mencionar o nome dele e das vitimas.

Contudo os homens honestos e a própria imprensa defenderam a reputação do advogado, que processou o articulista. Sem apoio algum, Silvestre foi condenado a pagar multa e cumprir três meses de prisão. Esse episódio fez Silvestre encerrar sua vida de intelectual, Fracassaram o coração e a cabeça. Agora era a vez do estômago. (Nesta altura do livro, o autor inseriu alguns artigos de Silvestre sob o titulo O Mundo Patarata’, isto é, o mundo elegante, criticando a sociedade do Porto).

ESTÔMAGO De como me casei – Silvestre resolveu recolher-se a sua casa. A esse período ele chamou de estômago. Para regular o estômago, ou seja, para ter paz, ele precisava destruir a influência de duas pessoas da aldeia: o regedor e o vigário. Quanto ao regedor, Silvestre recorreu à retórica, Fez uma verdadeira campanha junto à população pobre contra ele Resultado: o governo perdeu as eleições na aldeia, o regedor adoeceu e foi destituído do cargo.

Daí a meses, Silvestre foi nomeado regedor. Nas eleições para renovação da câmara, o vigário começou a fazer campanha política contra Silvestre. Este mandou que seu empregado desaparecesse com o garrano ( cavalo) do vigário, impedindo-o assim, de falar nas regiões mais afastadas. O regedor venceu as eleições por larga margem. Silvestre recebeu o hábito de Cristo, solicitado pelo governador civil. Ao ver Tomásia, filha do poderoso sargento-mor de Soutelo, interessou-se por ela. Convidado pela família, passou um dia na casa da moça. O pai a ofereceu a ele em casamento Tomásia era muito trabalhadeira e pouco intelectualizada. Seus quatro tios padres também passaram aquele dia na casa do sargento e aprovaram a idéia do casamento com Silvestre.

Tomásia já gostava do regedor há muito tempo, sem que ele percebesse ou mesmo se lembrasse dela. As horas transcorreram com muita comida, bebida e conversa. Oficializou-se o casamento de Tomásia com Silvestre para dentro de 20 dias. A única condição que o pai da moça impôs foi que os dois morassem na casa dele enquanto vivesse.

Silvestre não se perguntou se amava Tomásia ou não. Segundo ele, a julgar pelos casais bíblicos, o casamento não se faz por amor – este é coisa do coração, que não tem importância nenhuma. O casamento se realizou como tinha sido previsto: os dois se confessaram, comungaram e receberam a bênção nupcial num clima de animada festa. 

EDITOR AO RESPEITÁVEL PÚBLICO – Silvestre foi um marido fiel. Exerceu cargos políticos na região e conseguiu espertamente espantar credores de várias dívidas contraídas em solteiro. Abandonou totalmente a vide intelectual, engordou muito por comer demais e se dedicou à jogatina, endividando-se. Acreditava que, na publicação de seus manuscritos após a morte, lá pela 10’ edição, haveria dinheiro suficiente para pagar as dívidas que não conseguiria quitar em vida.

Por isso, autorizou a publicação, se pudesse ser proveitosa para a iniciação da mocidade. Morto Silvestre, o editor recebeu os manuscritos encaminhados pelo sogro do ex-regedor, com a transcrição de seu último soneto atinentes à sua vida pregressa e o quanto as fases do coração, cabeça e estômago são válidos para alcançar a sabedoria.

Poemas negros

 

 

Poemas negros, de 1947, reúne dezesseis poemas do autor Jorge de Lima, já editados em livros anteriores e 23 novos poemas, estes apresentando, através de deuses africanos, uma espécie de história do negro no Brasil.

Nesses poemas encontramos a segunda fase ortodoxamente modernista de Jorge de Lima.

O tema da obra é a realidade africana do Brasil. De fato, bem cedo Jorge de Lima manifestou a consciência da discriminação racial. Ele ultrapassa o registro pitoresco e folclórico, assimila o cerne da cultura afro-nordestina e demonstra que a barreira racial é nada perante a universalidade da poesia.

Jorge de Lima propõe também a reflexão sobre a importância do sangue africano na composição de um novo “ser”. Em Poemas Negros, o questionamento é refrisado nos versos de “Foi mudando, mudando”, em que a voz poética deixa sem resposta a pergunta “Foi negro, foi índio ou foi cristão?”, enquanto nomeia os pilares étnicos do povo brasileiro. Esse livro encerra com o poema “Olá, Negro” que fala sobre a influência do escravo na cultura brasileira, desenhando, em traços nítidos, a crueldade do tratamento que é imposto ao subalterno.

O poema inicia, referindo-se à sucessividade das gerações, cujos indivíduos empenham-se em rejeitar o sangue e a cor que lhes matiza a pele. E profeticamente sentencia: [eles] não apagarão de sua alma, a tua alma, negro! A repetição do substantivo abstrato, com a variação do possessivo de terceira e segunda pessoa, ressalta uma das marcas da sensibilidade brasileira. No escravo, a componente afetiva inclui a apetência artística que se realiza na música dos blues, jazzes, songs, lundus, e se extravasa na alegria. Para sublinhar a diversidade dos universos, o poeta avisa: a raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro. Os dados objetivos, contudo, enumeram o lucro material (algodão e açúcar) e a trajetória de sofrimento do negro (“tronco, colar de ferro, canga de todos os senhores do mundo”) para calcular, na hipérbole, o tempo necessário para humanizar o homem:

Quantas vezes as carapinhas hão de embranquecer
Para que os canaviais possam dar mais doçura à alma Humana?

No jogo da interrogação retórica, as figuras de estilo unem o fluir (longo!) do tempo, a exploração econômica e o amadurecimento do indivíduo. De temporalidade imponderável, o cabelo do negro reage à mudança da cor, assim como o homem tarda, pela cobiça, a adquirir uma alma. O condimento culinário é baliza de (des)humanidade. A metáfora, em ironia, alude a um capítulo da história da maldade no Brasil.

Tangida pela emoção, a consciência poética vê:

Apanhavas com vontade de cantar
choravas com vontade de sorrir
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e o negro dormir!

A resistência ao sofrimento transmite-se na alternância antitética de sofrer-cantar-chorar-sorrir, sugerindo uma disposição que se quer refazer. A prática mágico-ritual (mandinga) é evocada como recurso de atenuação da dor, que, afinal, o homem atinge com a noite e com o sono. No entanto, o tempo recompõe-se, e a esperança desponta com o novo amanhecer:

Olá, Negro! O dia está nascendo!
O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?
Olá, Negro!
Olá, Negro!

Concluindo o poema, expressa-se a vocação do negro para a alegria. A imagem poética mescla cosmos e sentimento, ao confundir luz e som, no brilho da manhã e no contentamento do escravo. Então, fecha-se o livro Poemas Negros, no ressoar da voz de confiança na humanidade.

Poema escolhido

MARIA DIAMBA

Para não apanhar mais
Falou que sabia fazer bolos
Virou cozinha.
Foi outras coisas para que tinha jeito.
não falou mais.
Viram que sabia fazer tudo,
Até mulecas para a Casa-Grande.

Depois falou só,
Só diante da ventania
Que ainda vem do Sudão;
Falou que queria fugir
Dos senhores e das judiarias deste mundo
Para o sumidouro.   

De primeira viagem

O conto “Juventude”, de Joseph Conrad, que encerra a antologia De primeira viagem, organizada por Heloisa Prieto, mostra bem o que as histórias reunidas no livro têm em comum: são todas narrativas de experiências inaugurais. No conto, um marinheiro que aos vinte anos sobreviveu a um naufrágio relembra a aventura vivida em alto mar como uma passagem de sofrimento, mas também de felicidade intensa – sentimentos que podem ser tomados como metáfora desse período especial da vida.

A juventude é o tema que desafia sete autores brasileiros a contar histórias marcadas por momentos de iniciação: a descoberta do amor sensual, o medo da noite urbana, o universo febril do rock, o relacionamento conflituoso entre pai e filho – tristezas e alegrias próprias da juventude alternam-se nos textos do livro.

Contos de Milton Hatoum, Ana Miranda, Moacyr Scliar, Fernando Bonassi, Heloisa Prieto, Paulo Bloise e Tony Bellotto apresentam vivências próprias àqueles que estão às voltas com mistérios, medos, sonhos e amores dos vinte anos, tempo da existência em que o desejo mais urgente é lançar-se à vida como um navegante que empreende a primeira travessia.

Textos de dois autores consagrados completam o livro: duas iluminuras de Arthur Rimbaud e o conto “Juventude”, de Joseph Conrad. Na narrativa de Conrad, o marinheiro Marlow recorda sua primeira grande aventura na marinha mercante. Nessa travessia, a alma do rapaz funde-se ao mar e toda a sua existência futura adquire uma direção – metáfora que traduz a presença oceânica das experiências da juventude na vida humana.

Os Signos Da Marca

O livro aborda questões que tem como foco central a marca, um dos pilares do mundo do consumo.

Porque centenas de marcas nascem e morrem diariamente? Porque algumas marcas são tão fortes que viram metonímia? Porque um produto se destaca mais que outro no ponto-de-venda? O livro procura responder essas questões e mostra, sem mistérios, a relevância do uso da semiótica para o estudo das marcas.

O livro Signos da Marca apresenta também um histórico da evolução do uso da marca e como elas se expressam com objetivo de se conectar com o consumidor. Apresenta a publicidade como caminho possível não apenas para a criação, mas principalmente, para a sustentação das marcas. Mas, a inovação do livro é o último capítulo “Semiótica da Marca?, onde a autora apresenta os novos caminhos do uso da semiótica para interpretação das marcas e suas expressividades e o uso em pesquisa de mercado, que é o trabalho que vem desenvolvendo na Ipsos.

Clotilde Perez, explica a importância do estudo semiótico das marcas em um ambiente competitivo como o de hoje: “Nossa sociedade está cada vez mais complexa e neste sentido só a semiótica é capaz de entrar nos mecanismos recônditos das mensagens e explicitá-las, gerando assim um caminho possível para o seu entendimento, além da proposição, em muitos casos, de caminhos corretivos. Em diversas situações a marca pode estar gerando efeitos de sentido que não são desejáveis e com a análise semiótica é possível revelar os potenciais problemas destes fenômenos signicos e propor novos caminhos de significação?

Clotilde Perez vem realizando para a Ipsos diversas análises semióticas para os clientes. Rodrigo Toni, diretor geral da Ipsos, no prefácio do livro avalia que a análise semiótica tem ajudado a desvendar as marcas e seus símbolos, embalagens, slogans, conceitos e peças publicitárias “Com ela, avançamos no conhecimento das manifestações sensoriais e das implicações culturais, afetivas e emocionais dos diversos elementos do mix de uma marca?.

“A Ipsos aqui no Brasil seguiu o mesmo caminho de sua matriz na França: foi na universidade procurar as bases teóricas e de produção consistente de conhecimento para implantação da pesquisa em semiótica. Este percurso deve ser reverenciado, por que quiçá não seja o mais fácil, mas certamente é o mais consistente e exitoso” afirma Clotilde Perez.Em marketing, as definições de marca têm sido tributárias do conceito jurídico: a marca jurídica é um sinal distintivo de produtos ou serviços. A progressiva consciência da missão estratégica das marcas alargou o conceito: hoje é a marca, e não mais o produto, a unidade estruturante da oferta das organizações. Numa abordagem semiótica da marca, esta é assumida na sua tripla condição de sinal, de objeto a que o sinal se refere, e de interpretação(ões) a que o sinal dá origem. A marca surge assim como um sinal ou conjunto de sinais de identidade, distintivos de uma missão e das respectivas ações de marketing oferecidas por uma organização, com o objetivo de obter uma imagem junto dos públicos a que se dirige.