O que é isso companheiro?

Em 1979, Fernando Gabeira lançou o livro O que é isso, companheiro?, em que buscou compreender o sentido de suas experiências – a luta armada, a militância numa organização clandestina, a prisão, a tortura, o exílio – e no qual elaborou, para a sua e para as gerações seguintes, um retrato autêntico e vertiginoso do Brasil dos anos 60 e 70.

Relato lúcido, irônico, comovente, o livro se transformou num verdadeiro clássico do romance-depoimento brasileiro e foi filmado pelo diretor Bruno Barreto.

A obra é a versão de Fernando Gabeira sobre o seqüestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 4 de setembro de 1969, alguns meses após a declaração do Ato Institucional nº 5, que suspendeu todos os direitos civis dos brasileiros em 1968, em uma época em que o país se encontrava governado por militares.

O texto é narrado em primeira pessoa para explicitar que aquelas vivências pertenciam a um eu real, sendo que a elaboração do eu discursivo permaneceu bastante rasa. A opção pelo uso do “eu” garantiu uma visão mais pessoal dos fatos, mas circunscreveu a narrativa politicamente engajada às aventuras de um indivíduo politicamente engajado.

A obra é centrada na figura do próprio Gabeira, que optou por uma perspectiva mais próxima da experiência do narrador, ainda que pensasse que essa experiência foi comum a um grupo de pessoas. A partir da visão de um personagem, o livro se propôs a informar sobre o golpe e os anos de ditadura. A subjetividade do narrador foi posta em destaque, relativizando os fatos, deixando claro que essa era sua visão e não uma visão absoluta.

O livro conta como o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) conseguiu realizar talvez a maior façanha de uma organização tida como de esquerda, para se contrapor ao período militar vigente. O seqüestro segundo a agrupação, foi a saída encontrada pelos guerrilheiros para pressionar o governo a liberar 15 políticos esquerdistas que estavam presos por motivos políticos.

Não é uma obra que defende irrestritamente as ações tomadas pelo MR-8 e sim uma profunda reflexão não apenas sobre o regime militar, mas também os movimentos sociais que existiam, e a postura da população perante as deúncias de tortura, perseguição política e a censura dos meios de comunicação.

No livro, Fernando Gabeira está sempre questionando sua ação dentro do movimento, ele fez críticas e mostrou clareza ao questionar o que estava errado no movimento de esquerda brasileira. Isso não ocorreu porque ele apresentou superioridade em relação aos outros e sim porque o livro foi escrito dez anos depois dos acontecimentos narrados. Nos anos de chumbo, Gabeira pensava igual aos outros companheiros, que desejavam fazer a sonhada “Revolução”.

A anistia do Governo do General João Baptista de Figueiredo, trouxera muitos ex-guerrilheiros de volta ao país, entre eles, o escritor Fernando Gabeira. Com a anistia, os exilados em outro país: jornalistas, ex-militantes de esquerda, escritores, tiveram a chance de fazer com que suas vozes silenciadas por um longo período, fossem ouvidas novamente. Com a liberdade de expressão, produzindo literatura, o escritor Fernando Gabeira deu evidentes sinais de resistência ao regime militar implantado na época em que foi obrigado a se exilar em outro país; as imposições políticas, os desagrados de como esse regime impunha a cultura brasileira à censura; a violência contra o povo que se manifestava nas ruas contra toda uma sociedade desigual:

No instante em que Aragão saia no seu carro preto, possivelmente Gregório Bezerra, o líder camponês pernambucano estava sendo atado ao jipe do coronel Ibiapina e seria arrastado pelas ruas. O sapateiro Chicão estava tentando escapar, às pressas, de Governador Valadares, onde os fazendeiros fuzilavam sem vacilar. (p.23).

Na afirmativa acima, pode-se perceber que o escritor optou por traduzir os problemas da sociedade, substituiu a voz do sujeito (ele, o escritor e jornalista), pela do oprimido (o líder camponês e o sapateiro), o povo, a massa que sempre esteve em desvantagem, excluído pela sociedade dominante.

Nessa perspectiva, a literatura produzida por Fernando Gabeira alia-se aos sujeitos (ele, o escritor e o povo) que manifestavam suas inquietações e necessidade de ganhar visibilidade numa sociedade que lhes era injusta.

Numa outra passagem do texto, transcrita abaixo, é possível detectar a subjetividade do escritor:

Tudo era mágoa de quem não se conformava com o desfecho. O melhor talvez fosse tentar o que se passava. Goulart compreendeu que estava perdido e resolveu ir para o Uruguai, certo de que o golpe era temporário, que mais tarde, seria chamado para ocupar seu papel na vida política do país. Quem era eu para entender as coisas profundamente? Estava desarmado teoricamente, ressentido, e não outro caminho na nossa frente, exceto prosperar e esquecer o baque que o país estava sofrendo. (p.27)

Nessa passagem, o escritor relativizou os fatos, ele expressou a sua visão, não passou para o leitor que é uma visão absoluta quando diz “Quem era eu…”. A linguagem do escritor costurou todo um tecido que nos levou a refletir sobre os caminhos e descaminhos da história recente do país.

Como já visto, o escritor optou em fazer sua narrativa em primeira pessoa, para ir reconstituindo a memória daquilo que experenciou, que viveu dentro da história política do país até 1968.

(…) As pessoas estão seguras de si, estão tranqüilas, mas quando partem para o exílio estão tristes também. Bastava surpreender qualquer um deles distraídos para captar um olhar vazio, uma cabeça que se abaixa… Mas aquilo era o Brasil, eu não era um personagem e havia muito o que fazer para estar à altura dos amigos que partiam (p.39)

Na afirmativa acima, temos a recordação individual do escritor. Um homem narrando sua história, a história de um grupo em que também ele se inscrevia na grande história dos exilados, por causa do autoritarismo da época.

Com o passar dos anos foi possível detectar a experiência pela qual havia passado o escritor, que foi nos situando em suas lembranças dentro do movimento histórico.Era o indivíduo que constatou naquele momento que na pirâmide social daquele período, estava em posição inferior e que acabou sendo “expulso” de seu próprio país.

Ao fazer a leitura da obra O Que é Isso Companheiro? é possível compreender que ao longo da narrativa alguns aspectos da constituição da memória coletiva de um grupo e individual do escritor. Trata-se de uma narrativa de cunho memorialista, realista de uma história recente do país e também o que chama a atenção é o lugar por excelência onde a vida se protifica.

A escrita de Fernando Gabeira permitiu a ocupação de vários lugares – auto, protagonista, narrador – o escritor dentro da obra objetiva traça relações entre memória, narração e escritura/literatura. Ao mesmo tempo em que narra, o narrador se dobra sobre o ato de recordar, enquanto recorda e escreve, vai passando a limpo os fatos que viveu.

Na obra destaca-se o uso abundante do condicional. Minimizando assim o caráter fatual do texto e jogando com o potencial, com aquilo que poderia acontecer. Esse recurso foi usado, por exemplo, nas cenas de tortura para não descrevê-las diretamente, evitando o excesso de minúcia que nos romances-reportagem promovem uma verdadeira retórica do horror. Outra característica do estilo de Gabeira são as frases curtas e o tom informal, que devem muito ao discurso jornalístico, além do uso freqüente da segunda pessoa para aproximar o leitor. Essa última opção está relacionada à necessidade didática de informar uma geração que não vivenciou a ditadura. No seguinte trecho, Gabeira dirige-se a seu provável leitor:

O amigo (a) talvez fosse muito jovem em 64. Eu mesmo achei a morte de Getúlio um barato só porque nos deram um dia livre na escola. Um golpe de Estado, entretanto, mexe com a vida de milhares de pessoas. Gente sendo presa, gente fugindo, gente perdendo o emprego, gente aparecendo para ajudar, novas amizades, ressentimentos…

O relato de Gabeira dá margem a heroicização do personagem-narrador, uma vez que a história gira em torno de um acontecimento real, como já visto, que foi o seqüestro do embaixador americano por um grupo de jovens militantes. O heroísmo só foi amenizado porque a narrativa contou o fracasso de uma empreitada política e tendeu a relativizar as convicções que guiavam o narrador naquela época. Evidenciou-se com freqüência as fraquezas do projeto, as fraturas dos grupos, a ingenuidade dos militantes. Em O que é isso, companheiro? a perspectiva do narrador é a de um indivíduo com vivências, idéias, sentimentos particulares e, principalmente, com críticas a respeito de seu papel na história:

Como é que um intelectual pode se negar tão profundamente? Passava os dias lendo jornais, fazendo planos para matar Eduardo e limpando ad nauseam meu revólver Taurus 38 que jamais disparei contra ninguém, mas que mantinha em um estado impecável, como se me esperassem, a cada manhã, fantásticas batalhas campais, ali naquele apartamento de Ana, onde o único vestígio de luta eram as camas desarrumadas com a agitação dos nossos sonhos.

A prosa de Gabeira distancia-se do neonaturalismo dos romances-reportagem por não aderir a uma versão unificada da situação política dos anos 70. O livro não segue a tendência principal do romance-reportagem que seria o de produzir ficcionalmente identidades lá onde dominavam as divisões, criando uma utopia de nação e outra de sujeito, capazes de atenuar a experiência cotidiana da contradição e da fratura. Por sua vez, o risco de uma visão mais centrada no personagem-narrador era o de que se anulasse a pluralidade de vozes, reduzindo tudo à perspectiva de um único indivíduo.

O livro de Gabeira não é uma exceção no que diz respeito ao caráter monológico dos textos autobiográficos de ex-exilados ou militantes políticos, em que se destaca, por exemplo, o fato de que os outros personagens não terem nenhuma profundidade subjetiva, nenhuma independência em relação à figura central do narrador. E a própria subjetividade do narrador não é explorada muito além de suas implicações referenciais.

O narrador autobiográfico centrou seu relato nas experiências vividas por ele próprio em um período do passado que a distância temporal lhe permitiu abordar com olhar crítico, mas não colocou em questão a possibilidade de narrar tais experiências. Se, por um lado, a narrativa autobiográfica ao estilo de O que é isso, companheiro? consegue expor o caráter contraditório dos acontecimentos, por outro, evita o problema de como representar, nos limites da linguagem, uma experiência traumática. Diante de determinadas situações traumáticas – como foram as grandes guerras ou as ditaduras nos países latino-americanos – os escritores se confrontaram com o silêncio, desconfiados da linguagem como meio de comunicar a experiência. O narrador autobiográfico, pelo contrário, acredita na possibilidade de comunicar uma experiência que sirva de lição para gerações futuras, mas seu relato acaba transmitindo ao leitor uma redução do trauma à vivência privada do narrador.

O Tempo e o Vento

Livro 1: O Continente
Publicados originalmente em 1949, a saga de “O Tempo e o Vento” começa com os dois volumes de “O Continente”. Esta primeira parte da trilogia narra o nascimento do Estado do Rio Grande do Sul através das famílias Terra, Caré, Cambará e Amaral.

Capítulo “Um certo Capitão Rodrigo”
Alguns capítulos dos três romances merecem destaque, seja pelo apuro estilístico do autor, seja pela temática desenvolvida. “Um Certo Capitão Rodrigo”, presente na primeira parte da trilogia, “O Continente”, merece essa atenção especial. O capítulo tem o mérito de retratar, ou recriar, a imagem do homem gaúcho forte, bravo, destemido, na figura do personagem principal: capitão Rodrigo Cambará.

A cena da chegada do capitão Rodrigo à cidade de Santa Fé já é suficiente para passar essa ideia do homem gaúcho, tanto pelas vestimentas como pela personalidade:

“Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal.

Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido:

– Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!
– Pois dê”

A descrição do valente e imponente capitão entrando no pacato vilarejo, seguida do desaforado cumprimento da chegada, antecipa o incômodo que essa figura produzirá em tal espaço. O dono da resposta curta e grossa que aceita o confronto, porém, não se tornará seu antagonista na história. Será seu futuro cunhado, Juvenal Terra.

A importância desse capítulo está no fato de que – além de apresentar a figura típica do gaúcho encarnada pelo capitão Rodrigo – mostra a união dos dois grandes sobrenomes que marcarão, na obra, a formação do estado do Rio Grande do Sul: os Terras e os Cambarás.

Apaixonando-se perdidamente por Bibiana Terra, o capitão a conquista após minar sua resistência e a de sua família, além de ter vencido em um duelo o pretendente rico de Bibiana: Bento Amaral, filho do coronel Ricardo Amaral. Essa união representa, estruturalmente, o eixo das duas famílias que irão protagonizar toda a trilogia.

O carisma de Rodrigo Cambará acaba por conquistar, de fato, não apenas Bibiana Terra, mas vários moradores de Santa Fé, como o padre Lara e Juvenal Terra, com quem monta um negócio. A figura do capitão, no entanto, distancia-se em todos os momentos do perfil do bom moço. Mesmo depois de casado com Bibiana, Rodrigo Cambará mantém o gosto pelo carteado, pela bebida e, principalmente, por outras mulheres.

O antagonista de Rodrigo Cambará é Bento Amaral, com o qual trava uma luta atrás do muro do cemitério, após um desentendimento em uma festa de casamento. Nesse confronto, o filho do coronel, desonrando a batalha, utiliza uma arma de fogo contra o capitão.

Antes de dar o tiro à traição, Amaral quase recebe a marca do capitão Rodrigo: um “R” na testa. Surpreendido pelo disparo, no entanto, o capitão só tem a possibilidade de talhar um “P”. Falta-lhe tempo para completar a letra “R”. A cena final desse capítulo é a invasão do casarão da família Amaral. Nesse episódio, morre o capitão Rodrigo Cambará, deixando órfão o filho Bolívar:

“O tiroteio começou. A princípio ralo, depois mais cerrado. O padre olhava para seu velho relógio: uma da madrugada. Apagou a vela e ficou escutando. Havia momentos de trégua, depois de novo recomeçavam os tiros.

E assim o combate continuou madrugada adentro. Finalmente se fez um longo silêncio. As pálpebras do padre caíram e ele ficou num estado de madorna, que foi mais uma escura agonia do que repouso e esquecimento. O dia raiava quando lhe vieram bater à porta. Foi abrir. Era um oficial dos farrapos cuja barba negra contrastava com a palidez esverdinhada do rosto. Tinha os olhos no fundo e foi com a voz cansada que ele disse:

– Padre, tomamos o casarão.
Mas mataram o capitão Rodrigo – acrescentou, chorando como uma criança.
– Mataram?

O vigário sentiu como que um soco em pleno peito e uma súbita vertigem. Ficou olhando para aquele homem que nunca vira e que agora ali estava, à luz da madrugada, a fitá-lo como se esperasse dele, sacerdote, um milagre que fizesse ressuscitar Rodrigo.

– Tomamos o casarão de assalto. O capitão foi dos primeiros a pular a janela. – Calou-se, como se lhe faltasse fôlego.
– Uma bala no peito…”

Livro 2: O Retrato
Rodrigo Terra Cambará decide voltar a sua terra-natal, Santa Fé, após ter ido estudar medicina em Porto Alegre. Nesse segundo romance da trilogia acompanha-se a decadência social de Santa Fé na passagem para o século 20 causada por interesses e jogos políticos.

Livro 3: O Arquipélago
O terceiro e último romance da trilogia “O tempo e o vento” narra a volta de Rodrigo Cambará à Santa Fé depois de passar muitos anos no Rio de Janeiro ao lado do então presidente Getúlio Vargas, seu amigo e aliado. Assim, o poder da família Terra Cambará, que era somente local, adquire em “O Arquipélago” um âmbito nacional. Após o fim do Estado Novo, Rodrigo está derrotado politicamente e doente. Rodrigo se vê na luta de não morrer na cama, uma vez que “Cambará macho não morre na cama”.

Sobre Érico Veríssimo
Érico Lopes Veríssimo nasceu em 17 de dezembro de 1905 na cidade de Cruz Alta, Rio Grande do Sul. Aos 13 anos, Érico já lia autores nacionais e internacionais. Em 1920 foi estudar em Porto Alegre e dois anos depois seus pais se separaram. Assim, Érico foi morar com seus irmãos e mãe na casa da avó materna.

Para ajudar nas finanças da família, ele começou a trabalhar como balconista no armazém de seu tio, até que conseguiu uma vaga no Banco Nacional do Comércio. Algum tempo depois, mudou-se com sua mãe e irmãos para Porto Alegre. Lá, Érico adoeceu e perdeu seu emprego no Banco. Por conta dessas dificuldades, a família resolve voltar para Cruz Alta, onde Érico torna-se sócio de uma farmácia. Ao lado dessas obrigações, ele dava aulas de inglês e literatura.

Em 1929, Érico publica “Chico: um conto de Natal” e outros contos na “Revista do Globo”, de Porto Alegre. No ano seguinte a farmácia entra em falência e Érico resolve mudar-se para Porto Alegre. Lá ele conhece diversos escritores renomados e toma mais contato com as vanguardas literárias do país. No final de 1930 é contratado como secretário de redação da “Revista do Globo”.

Em 1931, casa-se com Mafalda Halfen Volpe, com quem teria dois filhos. Durante essa época trabalha em outros jornais e realiza algumas traduções de obras estrangeiras. No ano seguinte, é promovido a diretor e passa a atuar também no Departamento Editorial da Livraria do Globo. Em 1933 publica seu primeiro romance, “Clarissa”. Nessa época, Érico publica também alguns livros infantis. Em 1938, publica “Olhai os lírios do campo”, um de seus maiores sucessos literários.

Em 1941, passa três meses nos Estados Unidos. Dessa sua estadia em terras norte-americanas, Érico tirou inspiração para escrever “Gato preto em campo de neve”. Motivado por discordâncias políticas frente a ditadura do governo Vargas, muda-se para os Estados Unidos em 1942, onde leciona Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia. Ao voltar para o Brasil, publicou A volta do gato preto (1946). Em 1947, Érico Veríssimo começa a escrever a sua obra-prima, a trilogia “O tempo e o vento”. Dois anos depois, publica o primeiro volume dessa obra.

Em 1953, Érico volta para os Estados Unidos ocupando um caro na Organização dos Estados Americanos a convite do governo brasileiro. No ano seguinte, ganha o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Alguns anos depois vai à Europa pela primeira vez.

Em 1962, publica “O Arquipélago”, último volume de sua trilogia “O tempo e o vento”. Três anos depois, ganha o Prêmio Jabuti pelo livro “O senhor embaixador”. Após esse, Érico publica diversos outros livros.

Em 28 de novembro de 1975, Érico Veríssimo sofre um infarto e falece deixando inacabados sua autobiografia e um romance.

Suas principais obras são: “Música ao longe” (1936), “Olhai os lírios do campo” (1938), “O tempo e o vento” (1949-1962) e “Incidente em Antares” (1971). Além dessas obras, Érico Veríssimo publicou contos, livros de literatura infantil, ensaios e críticas de literatura.

Os Ratos

A obra

Os Ratos tem uma linguagem simples, direta, econômica, onde não transparece nenhuma empolgação, apenas a angústia do protagonista Naziazeno em resolver seu problema. Descreve uma sociedade contemporânea preocupada com o dinheiro. Retrata a realidade e mesquinhez dos personagens, através do discurso direto ou indireto. A obra se enquadra no movimento modernista brasileiro, que tem como característica o linguajar simples, coloquial, direto, sem rodeios, nem sentimentalismo. Outra característica é o tempo de ação. A história se baseia em 24 horas de angústia e preocupação em arranjar o dinheiro para quitar a dívida com o leiteiro.

Dyonelio Machado era comunista e critica nessa obra a existência alienada do homem no capitalismo. Revela profunda pesquisa que o autor faz do individual, saindo da parte para chegar ao todo. Faz uma descrição microscópica de gestos, idéias, pensamentos e impulsos dos personagens. Através da influência de Freud em sua formação psiquiátrica, ele sabe que é através dos pequenos traços que iluminam as atitudes, ações, e comportamentos do ser humano, onde os valores dissolvem e perdem o sentido. Trata-se de uma leitura complexa onde o narrador semeia os vestígios e o leitor se converte em investigador.

O autor retrata o problema enfrentado por Naziazeno e o leiteiro que entrega o leite que alimenta seu filho Mainho. Por falta de pagamento por vários dias consecutivos, o leiteiro adverte a esposa de Naziazeno, Adelaide, que ele terá apenas mais um dia para quitar a dívida de 53 mil réis referente ao leite da criança e deixa um recado “Lhe dou apenas mais um dia”. A esposa apavorada recorre a Naziazeno que não tem meios para resolver o problema.

 

Resumo de Os Ratos

Em apenas 24 horas intermináveis o autor retrata toda a angústia, desespero e humilhação do protagonista em conseguir o dinheiro para quitar a dívida com o leiteiro. Naziazeno pensa em solicitar ao Diretor da repartição, Dr Romeiro, que já o socorreu outras vezes quando seu filho estava doente.

Ao chegar ao trabalho ele tentou várias vezes encontrar o Diretor e todas foram sem sucesso. Ficou horas a esperar pelo Diretor, procurou no canteiro de obras, na repartição e tudo em vão.

Ele dividiu sua preocupação com Alcides que propôs ajudá-lo e disse-lhe para procurar o Andrade que lhe devia uma comissão. Após andar sob o sol por vários quarteirões e chegar a casa de Andrade, corretor da rua quinze, este lhe disse que não devia nada ao Alcides e que ele recorresse ao subgerente do New York Bank, pois ele é quem devia lhe pagar a comissão. Naziazeno vai embora frustrado, pois já passa da hora do almoço e ainda não tem uma solução para seu problema. Pensou em procurar o subgerente para receber a comissão, mas achou melhor conversar primeiro com Alcides, mas não o encontrou. Procurou-o por vários cafés e nada de encontrá-lo. Resolveu ir à procura do subgerente que estava de viagem para o Rio.

Como o horário de almoçar já havia passado, Naziazeno tinha fome, muita fome, mas não tinha dinheiro para o almoço. Precisava arranjar dinheiro para o almoço. Ele queria encontrar com Otávio Conti. A caminho do local para encontrá-lo ele se deparou com Costa Miranda a quem pediu dez mil réis para almoçar. Ele lhe deu 5 mil réis e mandou um recado ao Alcides, que quitasse a letra com o agiota e limpasse seu nome.

Após conseguir o dinheiro Naziazeno fica na dúvida se irá almoçar, pois àquela hora já não tinha mais nada de bom para comer. Ao andar pela rua e observar os restaurantes se deparou com uma roleta nos fundos de uma Tabacaria. Ele já estava zonzo de fome, mas apenas tomou uma água e decidiu tentar a sorte no jogo. Após várias tentativas, umas com sorte e outras sem, ele perde os 5 mil réis. Ele não tem mais noção do tempo.

Sai andando pelas ruas sem rumo e se depara com um senhor de meia idade a quem já recorrera antes e teria que resgatar um título. Explicou-lhe as suas dificuldades e solicitou-lhe outro empréstimo que foi negado. Suplicou, explicou que não tinha almoçado, mas o homem apenas disse que entendia sua dificuldade, mas que não poderia ajudar. Naziazeno o segue e através de seu desespero solicita de novo e lhe é novamemte negado. O home quer fugir dele, mas ele continua em sua insistência. O home sobe no bonde e o deixa para trás.

Perdido mais uma vez, ele fica a andar sem rumo. Passa por ruas com pequenas construções, se depara com um rio e areia e continuar a vagar perdido. A tarde chega.

No limite de seu desespero ele consegue penhorar a jóia de um amigo e resolve seu problema temporariamente. Compra presentes para a esposa e Mainho, seu filho e vai para casa no início da noite. Após o jantar ele se deita, mas não consegue dormir e pensa em ratos roendo seu dinheiro. Sua frio, pois ele tem a certeza de novas inquietações e angústias, pois ao amanhecer ele se deparará com as mesmas preocupações e dívidas e  ao iniciar outro dia caminhará em busca de uma solução.

 

Tema

O tema da obra Os Ratos é a massificação do homem contemporâneo, sozinho na multidão. O autor prima pela análise psicológica que relata o drama financeiro de um homem comum, que trabalha em uma repartição, cercado de pessoas preocupadas consigo mesmas.

O Pagador de Promessas

O Pagador de Promessas foi escrito em 1959 por Dias Gomes. O texto é “brasileiríssimo” e retrata a miscigenação religiosa do país. Muitos críticos e especialistas consideram o texto “um instante de graça” sintetizado por uma perfeita estrutura.

Dias Gomes destaca a sincera devoção e ingenuidade do povo em contrapartida à burocratização da organização interior católica. Através da insistência do protagonista e herói da peça, Zé do Burro, em levar adiante a “paga” de sua promessa apesar da argumentação da igreja, da perda amorosa e da lei, o autor, explora a força da fé popular.

A obra é escrita para o teatro e está dividida em três atos.
Resumo

Zé do Burro era um homem simples e trabalhador que vivia com a mulher, Rosa, e com um burro de estimação a que tinha muito apego.

O burro machucara-se na cabeça e Zé, desesperado, prometera à Santa Bárbara que dividiria suas terras com os necessitados e carregaria uma cruz tão pesada quanto a de Jesus Cristo até o altar da igreja cuja santa era padroeira caso salvasse o animal. A promessa fora feito em um terreiro de candomblé por não haver tal igreja em sua cidade.

Zé saiu com a esposa, Rosa, do interior da Bahia em direção a Salvador para pagar a promessa. A viagem durou cerca de 24 horas e quando chegaram à igreja, Rosa insistiu que ele deixasse a cruz na porta, mas Zé recusou-se, alegando que a promessa era de levar até o altar.

Enquanto esperavam na escadaria presenciaram a discussão do cafetão, Bonitão, e a prostituta, Marli. Quando Marli foi embora, Bonitão se aproximou do casal indicando a Zé que tentasse a porta lateral e ficou se insinuando para Rosa.

Bonitão convidou os dois para pousar em sua casa, mas apenas Rosa aceitou o convite, pois Zé recusou-se a abandonar a cruz.

Quando o padre abriu as portas da igreja, ouviu a história do Zé do Burro e descobriu sobre o candomblé, proibiu a entrada dele. Muitos curiosos se juntaram em frente à igreja defendendo o pagador de promessa.

A imprensa apareceu, um guarda tentou convencê-lo a partir e depois mudou de idéia, a Rosa voltou arrependida, o superior do padre propôs que ele fosse embora, a Rosa foi embora novamente com o Bonitão, alguém atirou e feriu mortalmente o Zé, os policiais foram embora, o padre sofreu com a culpa e o corpo do Zé foi colocado sobre a cruz e levado para dentro da igreja.

O Vampiro de Curitiba

O vampiro de Curitiba talvez seja o livro mais conhecido de Dalton Trevisan. Dedicando-se exclusivamente ao conto (só teve um romance publicado: A Polaquinha), Dalton Trevisan acabou se tornando o maior mestre brasileiro no gênero. Em 1996, recebeu o Prêmio Ministério da Cultura de Literatura pelo conjunto de sua obra. Mas Trevisan continua recusando a fama. Cria uma atmosfera de suspense em torno de seu nome que o transforma num enigmático personagem. Não cede o número do telefone, assina apenas “D. Trevis” e não recebe visitas – nem mesmo de artistas consagrados. Enclausura-se em casa de tal forma que mereceu o apelido de  O Vampiro de Curitiba, título de um de seus livros. Mestre na arte do conto curto e cruel, é criador de uma espécie de mitologia de sua cidade natal, Curitiba. O vampiro de Curitiba teve seus contos lidos na Rádio Educativa, nas leituras dramáticas e em oficinas. São pequeníssimos textos: leves, românticos, eróticos, existenciais… Mas tudo sempre inteligente e recheado de humor – às vezes negro.

O vampiro de Curitiba, Dalton Trevisan. Escrito assim, pode ser tanto o nome de um livro, seguido de seu autor, quanto uma explicação. O autor guarda informalmente o codinome de vampiro desde 1965, quando publicou o metafórico O vampiro de Curitiba. Desde então, o escritor paranaense alimenta a lenda em torno da própria figura envolta pelo mistério da reclusão. No conto que batiza essa coletânea, ele auto-ironiza sua estranha maneira de “promoção delirante”, mas não é pela mania de viver escondido que o leitor se sente sugado pelas mini-histórias.

Não deixa de ser um de seus principais personagens; recluso em sua vida pessoal a ponto de ser conhecido pela alcunha de um de seus livros – O Vampiro de Curitiba.

Um livro que se quer como novela, mas que cada unidade tem autonomia em relação às outras, e que inaugura uma .poética do vampirismo. As ações não ultrapassam as fronteiras que as separam, podendo ser lido como um livro de contos. O herói e sua tara, que na primeira parte revela a sua maldição: é obcecado por fêmeas, servem como elemento aglutinador destas narrativas. Não há descrições detalhadas. É o próprio personagem que se revela ao leitor ao revelar sua tara. Atormentado pelo desejo carnal, o herói se dilacera na busca constante do outro.

Foco Narrativo

Apenas os contos  O Vampiro de Curitiba e O herói perdido são escritos em 1ª pessoa.

Espaço

Alguns contos têm como cenário a cidade de Curitiba. No conto Visita à professora, o espaço mencionado é São Paulo. O narrador menciona lojas, ruas, igrejas, botequim.

Tempo

Não há flashbacks; Nelsinho tem idade diferente nos contos; os contos não estão em ordem cronológica.

Linguagem

linguagem coloquial, com termos vulgares (“grande cadela”); presença de diminutivos (safadinha, taradinha, casadinha); frases incompletas, mas de fácil compreensão (“Ai, eu morro só de olhar para ela, imagine então se.”); predomínio do discurso direto nos contos “Contos dos bosques de Curitiba” e, principalmente, “Arara bêbada”.

Intertextualidade Bíblica

Conto “A noite da paixão”: “terei de beber, ó Senhor, deste cálice?”; “Que se faça tua vontade, Senhor, e não a minha”; “Está consumado”.

Personagem

Nelsinho é o protagonista de todos os contos. Ao longo do livro, Nelsinho percorre uma via crucis, com o objetivo de saciar-se sexualmente com as belas mulheres que encontra nas ruas de Curitiba. Tarado insaciável, voyeur incontido, “não quero do mundo mais que duas ou três só para mim”. É a normalista, a garotinha de família, a professora, nenhuma foge ao fervor de Nelsinho, que, ora bem-sucedido ora nem tanto, vai deixando, nas ruas corrompidas de Curitiba, as marcas em suas vítimas singelas, repletas de ingenuidade e – simultaneamente – de morbidez.

Enredo

Seus contos, quase todos ambientados em sua cidade natal – Curitiba – são impregnados de suspenses e enigmas. Em relatos breves, o autor revela o cotidiano da degradação humana em uma linguagem direta. O Vampiro de Curitiba nos leva ao dia-a-dia de Nelsinho, o vampiro literário personagem dos quinze contos do livro. Um curitibano que segue e assedia velhinhas, senhoras respeitáveis, virgens e prostitutas, agoniado e indeciso entre aquela que “molha o lábio com a ponta da língua para ficar mais excitante”, a viúva toda de preto com joelho “redondinho de curva mais doce que o pêssego maduro”, a “casadinha” que vai às compras e a normalista.

Nelsinho é o personagem que transita por todos os contos, dando unidade ao livro. Obcecado por sexo, ele vagueia pela provinciana Curitiba atrás de suas vítimas, enquanto aos olhos do leitor vai se abrindo o quadro de uma cidade decaída. Cidade em que se esconde um vampiro no fundo de cada “filho de família”, conforme ironiza o protagonista do livro.

Curitiba, esquadrinhada por Nelsinho, que primeiro se vê seduzido pelos braços e pernas de uma sensual garota de outdoor – ou de uma virgem? – e, ao cabo, precipita-se para o círculo infernal mais baixo, para o quarto de um bordel ao lado de uma velha prostituta banguela. Ele é o próprio Drácula nivelado à cidade degradada sob as vestes do cafajeste brasileiro. Nelsinho, assim como o vampiro, é presa da repetição infindável dos seus atos e de sua obsessão, que agravam sua solidão: “Tem piedade, Senhor, são tantas, eu tão sozinho”.

Broquéis

É composto por 54 poemas, demarcados com a presença da cor branca em variados jogos e matizes – seja a presença da luminosidade do luar, da neblina; seja a presença da neve, das imagens vaporosas, dos cristais, como no belíssimo ‘Antífona’, poema de abertura da obra.

‘Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!…
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…
Incensos dos turíbulos das aras…’

A partir de um dos sonetos do livro – Carnal e Místico, define-se a dicotomia que será básica nesses poemas. A carne, a sensualidade e a luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas.
O soneto é a forma poética mais cultivada em ‘Broquéis’ – ainda um traço parnasiano – mas a temática é inteiramente simbolista, bem como determinados recursos verbais inequívocos: estilização de diferentes apoios fonéticos, como a assonância, as aliterações, os cognatismos e as sinestesias, criando assim um universo etéreo, delicado, musical.

‘Musselinosas como brumas diurnas
descem do ocaso as sombras harmoniosas,
sombras veladas e musselinosas
para as profundas solidões noturnas.’

A carne, a sensualidade e luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas. A lasciva da carne atrativa manifesta-se em ‘Lésbia’:

‘…Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente.
Das flamejantes atrações do gozo…’

Como revela este soneto, o transcendental de Cruz e Souza não se define claramente. Não se trata do ‘céu’ de nenhuma religião concreta. Sempre vagas são as expressões que a ele se referem: naves do Infinito, regiões tenuíssimas da bruma, mundos ignorados, vagos infinitos, branco Sacrário das Saudades, Estrelas do Infinito, Azuis dos siderais Empíreos, Azuis etéreos.
Essa mesma indefinição vaga caracteriza as referências reiteradas ao tema do sonho, bem como a redução frequente de tudo a ‘quimera’.
Os dilaceramentos paradoxais, a busca ansiosa de uma realidade satisfatória, o confronto dos débitos carnais com as aspirações místicas conduzem o poema a temáticas vigorosas, densas, trágicas e dramáticas, atingindo até o grotesco. São explosões de vida que se torturam na ânsia de realização, impedidas por barreiras, convenções ou preconceitos. A própria seleção vocabular densifica esse vigor dinâmico impresso nos versos: o poeta se refere a Satã como capro e revel, com bizarros e lúbricos contornos e báquicos adornos. A adjetivação carrega de particular intensidade dramática a realidade enfocada, como em ‘a torva Morte horrenda,/ atra, sinistra, gélida, tremenda’. Ou então é a tortura eterna da expressão arística que angustia o poeta:

‘Ah’ que eu não possa eternizar as dores
nos bronzes e nos marmóreos eternos.’

Broquéis é um livro de poesia maior. O Simbolismo nele refulge na sua linguagem colorida, exótica e vigorosa; na abstração vaga e diluída de toda a materialidade; na imprecisa mas dominante tendência mística, envolvendo todo um vocabulário litúrgico; na linguagem figurada, constantemente /*Se em ‘Broquéis’ predominam os sonetos, integram ‘Faróis’ menos sonetos e mais poemas longos. Se no livro anterior já emergia a concepção dramática da vida, em ‘Faróis’ se intensifica esse senso trágico da existência atingindo níveis de morbidez e satanismo. Conscientiza-se o poeta cada vez mais do seu em paredamento. Avoluma-se sua angústia ante o destino inclemente, como estabelece claramente ‘Meu Filho’, um dos raros poemas referentes à família:

‘Ah! Vida! Vida! Vida! Incendiada tragédia.
Transfigurado Horror, Sonho transfigurado,
Macabras contorções de lúgubre comédia
Que um cérebro de louco houvesse imaginado’.

Pemas como ‘Pandemonium’, ‘A Flor do Diabo’, ‘Tédio’, ‘Caveira’, ‘Música da Morte’, ‘Inexorável’, ‘Olhos de Sonho’, ‘Litania dos Pobres’ constituem alguns exemplos que acentuam os aspectos trágicos, macabros e mesmo satânicos da existência, conduzindo a cenas e descrições dramáticas. O poema final – ‘Ébrios e cegos’ – sintetiza, em cores negras, esse quadro trágico da existência:

‘Mas ah! Torpe matéria!
Se as atritassem, como pedras brutas,
Que chispas de miséria
Romperiam de tais almas corruptas!.’

Laços de Família

A obra Laços de Família, lançada em 1960, constitui o ápice da carreira literária de Clarice Lispector, além de constar do cânone literário nacional como um dos melhores livros de contos da história da literatura brasileira. Suas treze narrativas enfocam particularmente o universo da vida em família na classe média do Rio de Janeiro.

Seus personagens parecem estar sempre encarcerados na coexistência familiar e atados ao ambiente domiciliar por laços que não se desfazem, reféns de um cotidiano monótono e indistinto. Clarice recorre à técnica do fluxo de consciência para narrar suas histórias; através deste recurso o leitor pode estar ciente do que se passa no interior das protagonistas dos contos.

Esta prática da autora a inclui no rol das criadoras de uma literatura considerada psicológica ou introspectiva. Suas criaturas, sempre ansiosas para fugir de uma existência padronizada e profundamente atrelada às convenções sociais, embora presas a esta vida que flui inesgotavelmente de uma geração para outra, atingem inesperadamente outra margem do existir, sua esfera enigmática, imprevista, distinta da rotina humana. Ainda que não logrem compreender esta outra dimensão, nada as impede de navegar em suas ondas.

Os contos de Clarice assumem um tom cético e desencantado com relação às interações familiares, impregnadas de segundas intenções e de preocupações com as aparências sociais. Por essa razão suas personagens só alcançam a si mesmas através de referências externas; desta forma a procura da identidade percorre os mesmos caminhos que atingem o outro, não necessariamente um ser humano, mas igualmente um artefato ou um animal.

Seus contos mais célebres são Amor, Uma Galinha e Feliz Aniversário, embora também se destaque Devaneio e Embriaguez duma rapariga. Na primeira história, Devaneio e Embriaguez duma rapariga, a protagonista, uma portuguesa, passa subitamente a criar devaneios interiores diante de um espelho, abrigando-se depois embaixo da cama, o que assusta seu cônjuge. Com o retorno dos filhos para casa, a rotina se instaura novamente, até a jovem senhora participar de um encontro entre o esposo e seu patrão. Ela bebe além dos limites, mas se mantém protegida pelo marido; sente o prazer da vida dentro de si e, ao se comparar a uma bela moça presente no recinto, reassume sua auto-estima e a feminilidade, aceitando seu papel de mulher e mãe.

Em Amor, Ana, esposa e mãe, sempre tão aparentemente serena e amorosa, sente sua vida cotidiana se desmoronar quando, um dia, em sua tarefa rotineira de fazer compras, depara-se com um cego que a incomoda ao mascar automaticamente seu chiclete; quando o bonde freia subitamente, seus ovos se quebram e ela fica conturbada. Decide então andar pelo Jardim Botânico e se deixa contagiar pela beleza do lugar, que a lembra inesperadamente dos terrores infernais. O tempo passa e ela fica presa neste lugar, refletindo sobre a loucura de sua vida rotineira, enquanto o cego e sua atitude assumem outra conotação. Ela retoma sua vida, mas agora detém um novo olhar sobre ela, impregnado de um incômodo persistente.

No conto Uma Galinha, uma ave destinada a servir de comida para a família que a cria foge instintivamente para preservar sua existência, é furiosamente perseguida pelo chefe da casa, inesperadamente põe um ovo, torna-se símbolo da feminilidade e, anos depois, despojada de seu status sagrado, deixa de ser poupada e é consumida por todos.

Na história Feliz Aniversário, D. Anita celebra seus 89 anos. Seus familiares aí se encontram, mas não movidos por laços de amor, e sim por meras convenções sociais. Nenhum afeto se manifesta, apenas emoções compulsórias e desprovidas de naturalidade. Enojada deste comportamento, a protagonista cospe durante o evento, mas seu ato é atribuído a sua faixa etária. Quando um dos filhos anuncia o retorno da família no próximo ano, a personagem se sente vitoriosa, mais forte que seus parentes, que suas atitudes vulgares.

A paixão segundo G. H.

A paixão segundo G. H., romance da escritora Clarice Lispector, foi publicado em 1964 e, assim como em suas outras obras, os fluxos de consciência permeiam todo o livro. É uma criação angustiante e inquietante. Clarice transmite ao leitor as preocupações emocionais da personagem G.H, mulher bem sucedida profissionalmente, porém não conhece sua identidade, portanto, busca o conhecimento interior.

G.H. não tem nome, fato que a faz identificar-se com todos os seres. O enredo aparentemente tolo – a demissão da empregada doméstica faz com que a patroa faça uma faxina no quarto da funcionária, onde encontra uma barata – se torna um momento de profunda reflexão existencial. Ao ver e encarar a barata, ao esmaga-la e ao comê-la, a protagonista encontra a verdadeira razão de estar no mundo.

RESUMO

Seis meses após a demissão da empregada doméstica, G.H. resolve fazer uma arrumação no antigo quarto da funcionária, ao entrar ali ela emerge em seu próprio vazio interior. Tomada pela aflição ela procura algo para fazer, mas não há nada. Até que surge uma barata saindo do guarda-roupa; nesse instante a personagem é tomada por uma consciência de solidão.

A protagonista é tomada pelo nojo da barata, mas precisa enfrentá-la, tocá-la e provar o seu sabor. A náusea que a toma violentamente representa a angústia que antecede a epifania e resulta na dolorosa sensação de fragilidade da condição humana.

Com o intuito de retomar seus instintos primitivos, G.H. deve enfrentar a experiência de provar o gosto do inseto. O provar simboliza uma reviravolta em seu mundo alienado, imune e condicionado. Após o ocorrido é que a personagem se dá conta do seu verdadeiro estar no mundo. É tanto que depois ela tem dificuldades em narrar a sua impotência de descrever os fatos.

    Só à ideia, fechei os olhos com a força de quem tranca os dentes, e tanto apertei os dentes que mais um pouco eles se quebrariam dentro da boa. Minhas entranhas diziam não, minha massa rejeitava a da barata.

    Eu parara de suar, de novo eu toda havia secado. Procurei raciocinar com o meu nojo. Por que teria eu nojo da massa que saía da barata? não bebera eu do branco leite que é líquida massa materna? e ao beber a coisa de que era feita a minha mãe, não havia eu chamado, sem nome, de amor?

    […]

    Sabia que teria que comer a massa da barata, mas eu toda comer, e também o meu próprio medo comê-la. Só assim teria o que de repente me pareceu que seria o antipecado: comer a massa da barata é o antipecado, pecado seria a minha fácil.

    O antipecado. Mas a que preço.

    Ao preço de atravessar uma sensação de morte.

    […]

    LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G. H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998

O livro pode ser entendido como uma alusão ao sofrimento da Paixão de Cristo, relatada por Mateus, Marcos, Lucas e João.

A paixão segundo G.H. é uma obra que ecoa existencialismo, portanto, é considerada como uma luz sobre o entendimento da condição humana.

Mar Absoluto

O clima de segunda guerra mundial afundou Cecília nos versos de Mar Absoluto (1945). Características: virtuosismo verbal, musicalidade, preferência por versos curtos, delicadeza e espiritualidade. Melancolia que se manifesta na preferência por temas como solidão, fugacidade do tempo, resignação diante da falta de sentido da vida. Abstração,atmosfera de sonho e tom intimista.
Um conjunto de lirismo único, expresso em versos como os do poema Guerra, de Mar Absoluto e Outros Poemas (1945), em que Cecília mantém a métrica e o ritmo sem (supostamente) se desligar do seu século, atenta, como seus contemporâneos, ao mundo ao redor: “Tanto é o sangue / que os rios desistem de seu ritmo, / e o oceano delira / e rejeita as espumas vermelhas. // Tanto é o sangue / que até a lua se levanta horrível, / e erra nos lugares serenos, / sonâmbula de auréolas rubras, / com o fogo do inferno em suas madeixas. // Tanta é a morte / que nem os rostos se conhecem, lado a lado, / e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.”.

Em Mar Absoluto e Outros Poemas a poetisa mais uma vez pronuncia seu olhar pictórico e deixa uma das suas marcas poéticas que é a acuidade perceptiva, a agilidade em diluir o arco-íris em poesia como podemos observar no seguinte poema:

Amor-perfeito

Suas cores são as de outrora,
com muito pouca diferença:
o roxo foi-se quase embora,
o amarelo é vaga presença.
E em cada cor que se evapora
Vê-se a luz do jardim suspensa.

Veludo de divinos teares,
hoje seda seca e abolida,
preserva os vestígios solares
de que era feita a vida:
frágil coração, capilares
de circulação colorida.[…].

Nesse livro, além da valorização imagística, há também pluralidade de cenas representativas do cotidiano humano, uma visão subjetiva do mar, relevante destaque às pedrarias e um especial carinho a variados tipos de flores. Em Retrato Natural os recursos visuais também marcam fortemente o exercício poético de Cecília Meireles; os traços, as cores, as sombras, as claridades e as sugestões de desenhos são aspectos importantes na composição do referido livro que retrata tão bem instantâneos de todos nós. Além das artes plásticas, outras artes que sempre estiveram presentes na vida da poeta se revelam entranhadas em toda a sua poética. Percebe-se no livro Romanceiro da Inconfidência, um épico-lírico, uma íntima relação com o teatro, a música e a pintura. Pode-se ver, através da linguagem múltipla presente na obra, o entrelaçamento dos recursos cênicos, sonoros e plásticos que fluem ao longo do texto.
Em torno do texto poético da autora sempre percebemos uma névoa que em vez de criar uma obscuridade, sugere uma leveza, como se os versos flutuassem ao som de uma vaga música oriunda, quem sabe, do som de alguma lira que estabelece a ligação dos tempos poéticos, numa dimensão outra que a real, o tempo do misticismo lírico tão próprio da poetisa:

“Falai! meu mundo é feito de outra vida. / Talvez nós não sejamos nós”. Assim, Cecília Meireles foi prosseguindo a sua escritura, compondo as suas canções poéticas com os reflexos da vida, os raios do sol, o pisca-pisca das estrelas, as alegrias, tristezas e ilusões humanas, não importando se eles provinham de um metal rossicler [pedra negra que depois de bastante martelada pode transformar-se em pedrinhas de todas as cores] ou de eventos dispersos levando-se em conta a complexidade da existência tão bem captada pelas nuanças da solombra que cercam a vida dos mais variados mistérios. Percebe-se uma infinita nostalgia na alma de Cecília, “uma espécie de tonto maravilhamento por se encontrar num mundo formal, anguloso, ensolarado, cruamente realista e um ansiado desejo de regressão ao seu neblinoso mundo interior, feito de esgarçados devaneios. É como a tristeza de um exilado que não se conforma com a paisagem espiritual e física do seu exílio. Daí, como uma constante, a nota de desenanto, a tristeza de uma enervante saudade interior por outro tipo de vida ou por outra essência de criaturas”.
No poema Transição pode-se verificar um pouco dessa aura de mistério que circunda a existência humana:

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo
a cada instante,
outra imagem se despedaça.
Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.
(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas,
e pelas mil que vão chegando.
dia…- não consentidos,
mas recebidas e esperadas!)

…………………………..

Mar Absoluto

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.
E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
“Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! – Disciplina humana para a empresa da vida!”
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

Romanceiro da Inconfidência

Inspirada por uma visita a Ouro Preto, Cecília Meireles compôs esse poema de temática social, que evoca a luta pela liberdade no Brasil do século XVIII e incorpora elementos dramáticos, épicos e líricos

Fruto de longa pesquisa histórica, Romanceiro da Inconfidência é, para muitos, a principal obra de Cecília Meireles. Nesse livro, por meio de uma hábil síntese entre o dramático, o épico e o lírico, há um retrato da sociedade de Minas Gerais do século XVIII, principalmente dos personagens envolvidos na Inconfidência Mineira, abortada pela traição de Joaquim Silvério dos Reis, o que culminou na execução de Tiradentes.

GÊNERO ROMANCEIRO
O gênero romanceiro é uma coleção de poesias ou canções de caráter popular. De tradição ibérica, surgiu na Idade Média e é, em geral, uma narrativa com um tema central. Cada parte tem o nome de romance – que não deve ser confundido com a denominação do atual gênero em prosa.

Nessa obra de Cecília Meireles, há 85 romances, além de outros poemas, como os que retratam os cenários. Em sua composição, é utilizada principalmente a medida velha, ou seja, a redondilha menor, verso de cinco sílabas poéticas (pentassílabo) e, predominantemente, a redondilha maior, verso de sete sílabas (heptassílabo), como ocorre na “Fala Inicial”:

Não posso mover meus passos
por esse atroz labirinto
de esquecimento e cegueira
em que amores e ódios vão:
(…)

No entanto, deve-se observar que, por ser uma autora moderna, Cecília não se prende totalmente a esse modelo. Vale-se, também, de versos mais curtos, de quatro sílabas, como em “Fala aos Inconfidentes Mortos”:

Treva da noite,
lanosa capa
nos ombros curvos
dos altos montes
aglomerados…
(…)

Há também os mais longos, como os decassílabos em “Cenário”, no início:

Passei por essas plácidas colinas
E vi das nuvens, silencioso, o gado,
Pascer nas solidões esmeraldinas.
(…)

Quanto às rimas, a autora utiliza as chamadas imperfeitas (terminações de versos semelhantes), como se pode observar no Romance XIII:

Eis que chega ao Serro Frio,
à terra dos diamantes,
o Conde de Valadares,
fidalgo de nome e sangue,
José Luís de Meneses
de Castelo Branco e Abranches.
Ordens traz do grão Ministro
de perseguir João Fernandes.
(…)

A escritora faz uso, ainda, de rimas perfeitas (terminação em sons vocálicos e consonantais idênticos), tal como no Romance VI:

Já se preparam as festas
para os famosos noivados
que entre Portugal e Espanha
breve serão celebrados.
Ai, quantas cartas e acordos
redigidos e assinados!
(…)

CONTEXTO HISTÓRICO
Romanceiro da Inconfidência caracteriza- se como uma obra lírica, de reflexão, mas com um contexto épico, narrativo, firmemente calcado na história. Em 1789, inspirados pelas idéias iluministas européias e pela independência dos Estados Unidos, alguns homens tentam organizar um movimento para libertar a colônia brasileira de sua metrópole portuguesa.

Uma pesada carga tributária sobre o ouro extraído das Minas Gerais deixava os que viviam dessa renda cada vez mais descontentes. Assim, donos de minas, profissionais liberais – entre os quais alguns poetas árcades – e outros começaram a conspirar contra Portugal. Contudo, o movimento é delatado e os envolvidos, presos. Alguns são condenados ao exílio, e o único a ser executado, na forca, é Tiradentes, em 21 de abril de 1792.

GÊNESE EM OURO PRETO
Nessa obra, Cecília Meireles utiliza-se, pela primeira vez, da temática social, de interesse histórico e nacional, enfatizando a luta pela liberdade. Sem aprofundadas reflexões filosóficas, mas com muita sensibilidade, a autora dá uma visão mais humana dos protagonistas daquele que foi o primeiro grande movimento de emancipação do Brasil: a Inconfidência Mineira.

Como se trata de um fato histórico, e dos mais importantes, a autora tem o cuidado de não se limitar a relatá-lo em versos, mas procura recriá-lo por meio da imaginação.

A gênese da obra ocorreu, de acordo com depoimento da escritora, quando foi pela primeira vez à cidade de Ouro Preto (ex-Vila Rica), local onde se organizou o movimento de Tiradentes e seus companheiros.

Cecília afirmou: “Todo o presente emudeceu, como platéia humilde, e os antigos atores tomaram suas posições no palco. Vim com o modesto propósito jornalístico de descrever as comemorações de uma Semana Santa; porém os homens de outrora misturaram-se às figuras eternas dos andores; (…) na procissão dos vivos caminhava uma procissão de fantasmas (…). Era, na verdade, a última Semana Santa dos inconfidentes: a do ano de 1789”.

ROMANCES
Tematicamente, pode-se localizar a ambientação da narrativa nos primeiros 19 romances. A descoberta do ouro, o início de uma nova configuração social com a chegada dos mineradores e toda a estrutura formada para atendê-los, os costumes, os “causos”, como o da donzela morta por uma punhalada desferida pelo próprio pai (Romance IV), ou os cantos dos negros nas catas (VII), o folclore, a história do contratador João Fernandes e de sua amante Chica da Silva e o alerta sobre a traição do Conde de Valadares (XIII a XIX). A ênfase recai na cobiça do ouro, que torna as pessoas inescrupulosas.

Vila Rica é o “país das Arcádias”, numa alusão direta ao neoclassicismo brasileiro, com seus principais poetas e suas pastoras: Glauceste Satúrnio e Nise, Dirceu e Marília. No belo Romance XXI, as primeiras idéias de liberdade começam a circular.

A partir do Romance XXIV, a insatisfação, a revolta contra a corte portuguesa é explicitada com a confecção de uma bandeira (Libertas quae sera tamen). Do XXVII ao XLVII, há a atuação do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que procurava atrair mais gente para a conspiração, em longas cavalgadas pela estrada que levava ao Rio. Contudo, os planos são abortados antes de ser efetivamente colocados em prática por causa dos delatores, principalmente Joaquim Silvério dos Reis (XXVIII):

(…)
Ai, que o traiçoeiro invejoso
junta às ambições a astúcia.
Vede a pena como enrola
arabescos de volúpia,
entre as palavras sinistras
desta carta de denúncia!
(…)

Segue-se uma devassa completa, prisões, confisco de bens, falsos testemunhos, a morte de Cláudio Manuel da Costa, o Glauceste Satúrnio, sob condições misteriosas (XLIX), a execução de Tiradentes, antecipada na fala do carcereiro (LII) e explicitada nos romances LVI a LXIII:

(…)
Já lhe vão tirando a vida.
Já tem a vida tirada.
Agora é puro silêncio,
repartido aos quatro ventos,
já sem lembrança de nada. (…)

Após um período como magistrado, Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu, é também preso, julgado e condenado ao exílio em Moçambique (LIV e LV). Lá, longe de sua ex-noiva e agora inconsolada Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília (LXXIII), casa-se com Juliana de Mascarenhas (LXXI).

Os romances finais falam do poeta Alvarenga Peixoto, sua esposa, Bárbara Eliodora, e sua filha, Maria Ifigênia (LXXV a LXXX); o retrato de Marília idosa; lamentos pela calamidade mineira; e a loucura e morte de D. Maria I (LXXXII e LXXXIII). A obra é concluída com a “Fala aos
Inconfidentes Mortos”:

E aqui ficamos
todos contritos,
a ouvir na névoa
o desconforme,
submerso curso
dessa torrente
do purgatório…
Quais os que tombam,
em crimes exaustos,
quais os que sobem,
purificados?

Um dos romances mais significativos, o XXIV, relaciona o ato da confecção da bandeira dos inconfidentes com todo o movimento que eles preparavam em Ouro Preto:

(…)
Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam,
uns ouvem, uns aconselham.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
“Escreva-me aquela letra
do versinho de Virgílio…”
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
“Tenha meus dedos cortados
antes que tal verso escrevam…”
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).
Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
“Que estão fazendo, tão tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Lêem notícias nas gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?”
(Antiguidades de Nîmes
em Vila Rica suspensas!

Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da independência!
Liberdade – essa palavra,
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)

E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença.